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Libera
Nº 04
GOLPE
PROVIDENCIAL
Dia
19 de agosto, o mundo é surpreendido por um golpe na URSS, desencadeado
por setores saudosistas do PCUS, pelo KGB e parte do Exército
Vermelho. Esta casta acostumada a décadas aos privilégios
do estatismo unipartidário e agarrada ao imenso complexo industrial
bélico, ao sentir tudo gradualmente ruir, desesperou-se. o golpe
foi o paroxismo desse desespero, mas, até que ponto foi surpreendente
para as alianças reformistas?
Fica difícil acreditar que Gorbachev e Yeltsin, com seus eficientes
serviços de informação, não estivessem a
par o que estava para ocorrer. Segundo informações veiculadas
pela grande imprensa, o presidente da URSS sabia do movimento golpista
24 horas antes de acontecer. Sabia, porém, que as Forças
Armadas não adeririam em peso. Com esta certeza e criando um
clima para o golpe, com seu afastamento de Moscou, Gorbachev esperou
o desfecho.
O novo governo durou apenas 72 horas e o golpe, além de tudo,
teria sido melhor encetado em qualquer republiqueta da América
Central ou Caribe. Qualquer sargento do exército boliviano sabe
que o sucesso de um golpe depende da velocidade com que os obstáculos
a ele são eliminados. Na URSS essa premissa básica não
foi observada.
Com o retumbante fracasso da tragicomédia golpista, eliminou-se
grandemente a oposição ortodoxa e, consolida-se mais a
PERESTROIKA. A ajuda econômica que Gorbachev, sem muito sucesso,
foi de joelhos pedir aos "7 grandes", agora certamente será
concedida. Para completar os efeitos providenciais do putsh estalinista,
o apoio popular que Gorbachev vinha perdendo há muito, foi conseguido
através de Yeltsin. Este último, político personalista
e populista, foi sem dúvida o grande vitorioso de toda essa história,
obtendo grande parcela de poder decisório sobre o país.
Suas "profundas" divergências com Gorbachev foram substituídas
por acordos de cooperação mútua e pela idéia
de juntos fundarem um partido social-democrata.
A União das Repúblicas Socialistas Soviéticas,
que jamais foi socialista tampouco soviética, atualmente nem
é mais união, restando apenas a Grande Rússia e
vários novos países em processo de independência.
Tudo leva a crer que num futuro bem próximo haverá uma
Confederação de repúblicas social-democráticas,
no que outrora fora a poderosa e indivisível Mãe Pátria
de Lenin. Do jeito que vão as coisas, somada à fragmentação
da Iugoslávia, a Copa Européia de Seleções
demorará mais de um ano para terminar.
E o Partido Comunista? Proibido, perseguido, achincalhado, com os bens
desapropriados e seus filiados caçados como se fosse numa ditadura
militar de direita. Parece irônico que exatamente 70 anos depois
dos bolcheviques terem esmagado Kronstadt, a Macknovishina e a Oposição
Operária, matando a Revolução, estas sete décadas
fossem "comemoradas" com seu humilhante desaparecimento.
Séculos de czarismo, décadas de "comunismo",
o massacre de revolucionários que lutaram por uma nação
realmente socialista e soviética, os atrativos do Capitalismo
e uma série de outros fatores não passaram em vão.
Hoje o grosso do povo daquele(s) país(es) volta a entregar seus
destinos nas mãos de "líderes iluminados", acreditando
que o consumismo desenfreado os alçará às nuvens
do Primeiro Mundo. Sugerimos que para auxiliar o soerguimento da economia,
se quebrem todas as estátuas de Lenin, Estalin, Marx, Dzerjinski
e outros menos votados, e seus pedaços sejam vendidos na Praça
Vermelha, aos turistas ocidentais, como souvenires.
Esperamos de nossos companheiros anarquistas russos, que apresentam
um crescimento acelerado nos últimos anos, atitudes objetivas
que possam auxiliar o povo na conquista da tão almejada Autonomia
e Liberdade, sem mais líderes carismáticos, científicos,
deíficos ou pragmáticos. Sem mais líderes de espécie
alguma!
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CUBA: OS ANARQUISTAS ESQUECIDOS
No
fundo de uma cela, numa das mais famosas prisões cubanas, se
encontra um militante anarco-sindicalista que acredita ter sido esquecido
para sempre. Angel Donato Martinez é um dos poucos membros que
restam do GRUPO ZAPATA, um coletivo anarco-sindicalista que pareceu
no início dos anos 80, para desafiar as práticas estalinistas
do regime.
O grupo era seguidor da tradição dos grandes revolucionários
mexicanos Emiliano Zapata e Ricardo Flores Magón, participando
ativamente das agitações industriais e sindicalistas.
Como os sindicatos livres não são tolerados na Ilha, seus
militantes viram-se obrigados a atuar clandestinamente. Em 1982 houveram
várias greves de grande escala, quando as autoridades decidiram
livrar-se dos ativistas. A polícia atuando sem estardalhaço,
capturou 20 membros do GRUPO ZAPATA, acusando-os de organizar sindicatos
independentes e de sabotagem industrial.
Um dos 20 detidos, Caridad Parón, morreu na prisão vítima
de torturas aplicadas no temido Centro de interrogatórios de
Villa Marista. Outros cinco ativistas foram condenados à morte.
Imediatamente, através de exilados cubanos, iniciou-se campanha
internacional de protesto e solidariedade. Devido às pressões
vindas de todo mundo, as penas foram comutadas, para longas penas de
prisão.
Hoje é conhecido o destino de apenas um dos anarquistas, Donato,
sendo que os outros podem estar presos ou mortos. Acredita-se que Donato
pode estar no cárcere de Combinado Del Este, próximo de
Havana. Sobre sua saúde, nada se sabe.
Em Cuba, os anarquistas e sindicalistas agrários que reivindicam
Liberdade, Terra e Coletivização, vem sendo perseguidos,
presos e, freqüentemente mortos. Vários anarquistas foram
assassinados por esquadrões da morte e outros, como os irmãos
Carlos, Jorge e David Cardo, Jesus Varda, Israel López Toledo
e Timoteo Lugo, foram condenados a 30 anos de prisão. Tudo isso
representa apenas uma pequena fração da luta anarquista
e sindicalista em Cuba. As ações tem sido isoladas mas
contínuas, havendo um esforço muito grande, principalmente
através de exilados, em divulgar internacionalmente essa luta.
Redigido
por BLACK FLAG (Inglaterra)
Extraído da revista EKINTZA ZUZENA (País Basco)
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