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PAZ ENTRE NÓS, GUERRA AOS SENHORES 12 de junho de 2000, naquela tarde, viveu-se um drama tipicamente brasileiro. Sandro, negro, ex-menor de rua, sobrevivente da chacina da Candelária, assaltou um ônibus no bairro do Jardim Botânico, zona nobre do Rio. Seus únicos documentos eram um revólver 38 e uma tatuagem no braço. Mídia, Rede Globo, cobertura ao vivo para todo o país e, seis horas depois, a tragédia teve o desfecho corriqueiro. Assassinos vestidos de preto, tendo uma caveira como símbolo (o Bope), matou Sandro estrangulado e, a professora Geísa, com uma "presepada". A moça, também pobre e humilde, era cearense, moradora da favela da Rocinha onde dava aulas de artesanato. 7 de julho de 2000, o país está em polvorosa. Não é uma greve geral, como as de 1917, nem ao menos uma das tantas marchas do MST sobre Brasília. Não, é um engodo e uma palhaçada, um "Basta de Violência!" promovido por ONG's fajutas, pelegos, reformistas, policiais, empresários assaltados, governo e mídia (Globo na vanguarda), todos batendo junto, pondo no mesmo saco a violência de classe com a estúpida guerra entre os pobres (promovida por eles mesmos). 14 capitais brasileiras se "comovem" com pessoas que mostram sua dor e se confraternizam, num mutirão entre as classes para acabar com a violência no país! Que porra é essa? Que violência é esta que eles falam tanto? Será a violência do salário mínimo, dos aluguéis absurdos, das chacinas policiais (como Carandiru, Candelária e Vigário Geral), dos massacres no campo (como Corumbiara e Eldorado de Carajás), da guerra da miséria nas periferias das grandes cidades ("periferia é sempre periferia..."), dos menores chacinados e abandonados, dos ônibus assaltados, da corrupção governamental? Onde estão os responsáveis, onde estão os culpados, as mais de 1200 pessoas físicas e jurídicas que ganharam milhões com a desvalorização do real (CPI do Sistema Financeiro), os bilhões gastos no PROER (CPI dos Bancos), a baixaria da justiça (CPI do Judiciário) e as centenas de acusados na CPI do Narcotráfico? É esta a violência que a Globo combate? Não, lógico que não. Eles querem unir as classes para colaborar com a polícia, prá cagüetar todo mundo (mesmo os irmãos que se perdem não podem ficar nas mãos da burguesia), respeitar a propriedade, a ordem pública, a legalidade burguesa e aí ficamos quietos. Precisamos de uma esquerda valente e com brios, e não a temos. Vamos questionar com franqueza: - É um ato revolucionário o roubo e expropriação individual? Não, claro que não. Mas é a mesma coisa roubar um fusquinha 1978 numa rua esburacada e roubar um Audi quatro portas que custa 50 mil reais? Também não. Com o estardalhaço da Globo, FHC e seu ministério tucano conseguiram o fato político necessário para lançar o seu Plano Nacional de Segurança Pública, acabar com o Ministério da Justiça (transformando-o em ministério do interior, embora com o mesmo nome), implantar o Subsistema de Inteligência (espalhando arapongas e ratazanas em todo o país) e coagir todo mundo com ameaças de intervenção federal. O triste e absurdo é não ver quase nenhum "companheiro" dos partidos sequer contestando?! Nenhuma novidade companheirada, estamos mais sós do que nunca, e como sempre, cabe ao povo se desvencilhar dos engodos e encontrar seu próprio caminho. Violência, é esse sistema maldito, que leva a guerra entre os pobres, fazendo do filho do trabalhador inimigo do trabalhador. Absurdo é esta palhaçada de campanha contra a violência (contra quem? Violência entre nós ou atos contra a propriedade?). Outro detalhe, não há fábrica de armas nem plantações de folha de coca em nenhuma favela ou periferia! Nenhum traficante de esquina ou em boca de fumo sabe pilotar avião e mover contas bancárias no exterior! Onde estão os verdadeiros criminosos, quem gerência a indústria mais lucrativa do mundo (a do narcotráfico) senão as mesmas elites de sempre?! A quem esta canalha quer enganar?! Sabemos que os tempos são duros, a crise é profunda (em nosso cotidiano) e muitas vezes o crime e as drogas apontam como solução. Não somos hipócritas a ponto de dizer que os bairros e comunidades são tranqüilos e o povo vive unido, apenas preocupado em lutar contra seus opressores. Mas, isso é uma técnica tão antiga como a opressão. Levando a violência entre a classe oprimida, o sistema militariza a cidade e intervém em nossas vidas diretamente. Passamos a viver com medo do vizinho, a revolta contra a elite é abafada, a mídia martela e "todos" pedem a polícia cidadã. Palhaçada! Desta vez mais do que nunca, é urgente compreendermos a realidade que vivemos e os valores libertários mais profundos. Diz a Internacional, "crime do rico a lei o cobre, o estado esmaga o oprimido; não há direitos para o pobre, ao rico tudo é permitido". Nada mais atual. Como corajosamente dizem nossos companheiros gaúchos: "Chega acabou, a hipocrisia! Não quero paz com a burguesia!" Falando em paz, é necessário compreendermos que viver em paz é viver com socialismo e liberdade e, não esta "pax romana", onde tudo estará bem desde que fique no mesmo lugar. Mais uma vez lembrando a Internacional, o povo em luta, o movimento popular e sua esquerda legítima querem o que sempre lutaram para conquistar. Lutamos por: "Paz entre nós, Guerra aos Senhores!" |topo| UMA PEQUENA HISTÓRIA DO MONSTRO "Eu criei um monstro!" gritou um gaúcho do porto do Rio Grande/RS, no final do governo Figueiredo, no ano de 1983. Sim, pariu e criou, o filho legítimo do General Golbery do Couto e Silva, chamava-se Serviço Nacional de Informações (SNI), chefe de família e responsável por seu sistema de mesma sigla. Então com quase vinte anos de idade, o monstro influenciava a tudo e a todos no Brasil, protagonista e autor dos maiores horrores políticos que o inimigo de classe já cometeu contra nós, classe e povo em luta. O parto do monstro começa no pós-guerra, mais precisamente em 1o de julho de 1946, quando nos EUA é criado o National War College (NWC). Já no ano seguinte, obedecendo aos senhores de Washington, o governo Dutra designa ao Gal. Cordeiro de Farias a criação de uma irmã gêmea brasileira, a famigerada Escola Superior de Guerra (ESG). Na 1a turma de formandos brasileiros no NWC, e também na Academia Militar de West Point, estava Golbery, sem sombra de dúvida o maior ideólogo e prático que a direita brasileira já teve. Trouxe na bagagem, além da doutrina de segurança nacional, de defesa interna e das fronteiras ideológicas, o convencimento do papel do Brasil como potência sub-imperialista, necessitando para isso de um projeto nacional alinhado com os EUA/OTAN, coeso internamente, duro no exterior. "Mais
canhões, menos manteiga", era a palavra de ordem de Golbery
naqueles dias. Enquanto sua cúpula formulava a "Geopolítica
do Brasil" e o "Pensamento Estratégico", ao mesmo
tempo ia montando o aparato de repressão e inteligência.
No ano de 1955, pensando em conseguir seu porta-aviões, brigar
contra a FAB, roubar segredos militares yankees e fortalecer a Cruzada
Anti-Comunista do Almirante Penna Boto, criou o Centro de Informações
da Marinha (CENIMAR), que foi o primeiro serviço de inteligência
militar no Brasil. Em 1958, numa pequena sala de um sobrado no centro
do Rio, Golbery e seu braço direito, o então tenente-coronel
João Batista Figueiredo, trabalharam para criar e operacionalizar
o Núcleo de Inteligência, embrião do SNI. No ano de 1965, o antigo Departamento Federal de Segurança foi substituído pela Polícia Federal (DPF), criada a imagem, semelhança e doutrina do FBI yankee. Com isto, todos os Departamentos de Ordem Política e Social (DOPS), das polícias civis estaduais, passaram a se subordinar ao DOPS da Federal e, este, era subordinado a Agência Central do SNI. Em 1967, as segundas seções do Exército e da FAB, começaram um processo de capacitação para criarem seus órgãos de inteligência. Os cursos incluídos são a Escola das Américas, centro de contra-insurreição yankee então baseado no Panamá; estágio na CIA; estágio e vivência nos serviços ingleses (MI5 e MI6), franceses (DST e SeDeCe) e, na época, alemão ocidental (BND). Como fruto de toda esta experiência, o ano de 1968 entrou já com a existência e operação do Centro de Inteligência do Exército (CIE) e do Centro de Informações e Segurança da Aeronáutica (CISA). Em 13 de dezembro de 1968, o regime endureceu com o decreto do Ato Institucional de No 5 (AI-5). Ficaram suspensas todas as liberdades individuais, estabelecida a pena de morte, validados os tribunais militares e, na realidade, foi decretada a guerra contra toda a oposição não consentida, em especial os companheiros em armas na guerrilha urbana. Surpresos com sua própria falta de coordenação, os militares criaram um setor específico para combater a guerrilha. O chamam de Destacamento de Operações de Informações (DOI), subordinado ao Centro de Operações de Defesa Interna (CODI). O DOI-CODI se dividia por regiões de acordo com o Exército, sendo na época o I Exército no Rio, o II em São Paulo, o III no Rio Grande do Sul e assim vai. No DOI-CODI, sob o comando de um general de exército, estavam todos os elementos designados pelas três forças, pelo DPF, pelas PMs, Polícias Civis e Corpos de Bombeiros nos estados, para atuar na repressão. Com isto, o regime tinha uma estrutura unificada de inteligência (o SNI serviço e sistema, mais os centros das três forças), e um aparato único de caça, os DOI-CODI. Para culminar, faltava uma escola de excelência, um lugar onde a ditadura reproduzisse interna e externamente (na América Latina, como na Operação Condor), sua doutrina operacional de combate a esquerda revolucionária. Em abril de 1971, o então presidente Gal. Emílio Garrastazú Médici criou a Escola Nacional de Informações (EsNI). Para provar que isto aqui não era bagunça, todos os arapongas e ratazanas do Brasil eram ciclicamente enviados para a EsNI, além de dezenas de agentes dos países "vizinhos e amigos" (Uruguai, Argentina, Paraguai, Chile e Bolívia em especial). O intercâmbio era tão intenso que o Gal. Pinochet, comandante do exército chileno no governo Allende declarou várias vezes que seu ídolo era Golbery. O poder do SNI, serviço e sistema, era tão grande que dois ex-ministros chefes do SNI, Médici e Figueiredo foram presidentes da república. O terceiro seria sucessor de Figueiredo, Gal. Otávio de Medeiros, mas este foi "frito" antes, em virtude do escândalo da Capemi mineradora e do assassinato do colaborador do SNI, Alexandre Von Baumgarten. Com a volta da democracia burguesa (1985), a estrutura do SNI (mas já sem os DOI-CODI, extintos por Golbery em 1982, após a bomba no Rio Centro) seria reformulada, aperfeiçoando-se para os tempos de mais "jogo-de-cintura". Mas com o novo Consenso de Washington, expressos nos documentos de Santa Sé I e II, não caberia mais a sub-potências como o Brasil ter tamanha capacidade interna e externa. Na eleição de Fernando Collor, eleito com a grana das multis e dos gringos, este obedeceu ao novo desejo do senhor e extinguiu o SNI. Somente agora, 10 anos depois, que o governo FHC começa a reconstruir seriamente o sistema, desta vez baseando-se numa "Doutrina de Defesa do Estado de Direito". O novo Golbery chama-se Gal Alberto Cardoso, o novo órgão ABIN, o novo sistema SISBIN, mas a luta é a mesma: "NÓS
contra o Monstro do Golbery, |topo| Se vivo fosse, o nosso genial e desbocado Roberto das Neves teria farto alimento para a sua verve, com o que ocorreu nas comemorações dos 500 anos da chegada de Cabral por estas bandas. Teria certamente engrossado de um bom capítulo as suas "Escorrências Quotidianas da Sifilização Cristã". De fato é cada vez mais impossível tratar de qualquer acontecimento político no Brasil contemporâneo por outro estilo que não a sátira boquirro-ta, tanto foram os limites da civilidade, da urbanidade e da simples decência pisoteados pelas nossa elites dirigentes dos últimos trinta e seis anos. Quanto ao evento em si, pouco há a dizer que não seja rebarbativo: não se descobriu nada, pois a América já era habitada ao tempo em que a Europa ainda estava coberta de glacia-res; os arqueólogos ainda disputam, mas o homem deu com os costados neste continente, há pelo menos 100 mil anos e aqui, como aliás em qualquer outra parte, desenvolveu cultu-ras múltiplas e variegadas , com centenas de línguas, milhares de concepções artísticas e milhões de mitos. As sociedades americanas nativas são, ainda hoje, de uma multiplicida-de e riqueza social surpreendentes para quem está acostumado à platitude e à unidimensio-nalidade das sociedades de mercado que consideram um Malan ou um Camdessus como o tipo mais acabado de ser humano ( ???). Os portugueses e espanhóis nada mais representaram a não ser a vanguarda de uma inva-são desumana, mas perpetrada em nome da Racionalidade, do Amor Cristão e dos sagra-dos direitos da Civilização e que custou - considerando apenas o Brasil entre 1500 e 1600 - mais de seis milhões de mortes entre os indígenas. No quadro da América como um todo, tais números são mais tristes e assustadores, fazendo com que muitos antropólogos, como Pierre Clastres, p.ex., tenham cunhado o termo etnocídio para designar tal carnificina, vis-to que o genocídio puro e simples designa, infelizmente massacres em escala muito menor. A insuspeita Smithsonian Institution, de Washington, calcula que existiam cerca de 70 mi-lhões de habitantes em toda América em 1492, ao passo que hoje, todos os "indígenas" do continente, não ultrapassam 3 milhões de pessoas, constituindo-se nos únicos povos da Terra que viram a sua demografia minguar-se nos últimos 500 anos. Aliadas a tal massa-cre, deveremos igualmente computar as chacinas e os estragos produzidos na África, como conseqüência da instalação dos grandes latifúndios agro exportadores na América: estima-se que o tráfico de escravos tenha custado algo em torno de 8 milhões de vidas entre 1600 e 1850, além da desagregação de inúmeras sociedades negras tradicionais. Mas, tão ou mais grave que a morte dos corpos, foi a lobotomia do espírito, patrocinada pelo Cristianismo, sempre fiel coadjuvante das elites européias na sua conquista do mun-do. Seria muito difícil computar os aleijões de alma, a sífilis da libido, as escrófulas do entendimento semeadas pelos urubus jesuítas ou quackers, pela Inquisição, pelos caçado-res de bruxas, etc. Embora estejamos, na América Latina, mais imersos no contexto cultu-ral da Contra-Reforma, devemos nos guardar da ilusão de que os pastores luteranos ou calvinistas fossem mais liberais que os Torquemadas: o episódio de Salém, o massacre dos Sioux, dos Hurons, dos Cheyenne e de tantas outras nações indígenas no Norte nos ad-vertem contra isso. Enfim, já está lá no fundo da Bíblia o mito da madição de Caim por Noé: ai de quem não tenha a pele branca e os olhos claros, pois faz parte da raça maldita que não merece compaixão. O papel ideológico e pedagógico do cristianismo no estupro da América, e do Brasil em particular, é algo que salta à vista de qualquer estudioso medianamente honesto. O que fazer então com o pedido formal de desculpas que o déspota polaco do Vaticano nos envia "Urbi et Orbi", a não ser solicitar formalmente que êle o "enfie"? É como se alguém entrasse na minha casa, fodesse meus filhos contra sua vontade, matasse toda a minha família, cagasse na minha mesa e, dois meses depois, eu recebesse uma cartinha educada dizendo que tudo não passou de um lamentável engano... Mas voltemos à vaca fria... Nossas elites e nossa festa!. Um ano de encheção de saco da Rede Globo, uma caravela que custou 3 milhões de dólares e que ainda agora está enca-lhada em Salvador, com o mastro partido; uma "exposição dos 500 anos " em S. Paulo, patrocinada pelo Ministério da Cultura do governo do "príncipe dos sociólogos", que cus-tou algumas outras boas dezenas de milhões de dólares, inclusive com o seguro da carta do Pero Vaz, manipulada como uma relíquia por um bispo por curadores extasiados diante de jornalistas embasbacados, no último dia 22 como se fosse "... o documento fundante da nacionalidade(sic)..",chavão este repetido à saciedade pelos meios de comunicação,e e-norme besteira que faria o nosso Capristano de Abreu - que jamais pisou na Sorbonne- sentar-se no chão e escangalhar-se de tanto rir... Bandas, sinfonias, tenores importados e outros ouropéis do mais legítimo "kitsch" e um Presidente que na hora agá - demostrando toda a sapiência , brandura e coragem política que é capaz a brejeirice morena de nossas elites intelectuais- foge do pau e abandona o cenário das comemorações deixando o con-trole da senzala exaltada para os supinos técnicos da Polícia Militar. Quem diria : FHC recupera Washington Luíz , aquele que pensava que "...a questão social é questão de policia.."; a nata de nossa intelectualidade USPiana voltando ao tempo dos trabucos e dos jagunços, a "elite industrial paulista" descobrindo as virtudes políticas do chanfalho manipulado com tanta delicadeza e maestria pelos oligarcas nordestinos há 500 anos!... Toda a história do episódio possui a nitidez de um sintoma de abcesso para um velho mé-dico: revela melhor que qualquer tratado de sociologia a concepção de povo que possuem as nossas classes dominantes, revela os limites do nosso "pacto democrático", desnuda a ideologia de nossa burguesia, de nossos políticos e de muitos de nossos intelectuais, que nada mais são do que feitores ou guarda-caças do capitalismo, disfarçado prudentemente de Civilização Ocidental, ou de Modernidade. O problema fundamental é que, para eles, a luz vem sempre de fora, seja hoje ou em 1550: outrora Espanha, Portugal, Holanda; depois a França e a Inglaterra hoje os EUA e o Banco Mundial - eles representam o Bem, a Civilização, o Certo; às suas orientações os feitores devem dobrar a massa chucra de bugres, pretos, mestiços, enfim dos de baixo, como bons feitores que são, "... se o sinhozinho vié vê a fazenda , tá tudo uma beleza !..." alguns tos-tões nos bolsos (pois 500 milhões de dólares não são nada para quem movimenta 300 bi-lhões de dólares por ano) e está tudo bem. Será? Quando o prepotente sobá da Bahia man-dou a Polícia Militar derrubar na porrada um monumento erguido pelos Pataxó em suas próprias terras, estava imbuído de algumas certezas que convém explicitar e meditar. Em primeiro lugar achava que estava certo que poderia fazer, senão não contrariaria toda uma legislação que impede os poderes locais de intervir em terra indígena, que é responsabilidade da União; em segundo lugar estava ciente da impunidade porque não se tratava de gente mas sim de índio; em terceiro lugar era preciso manter a ordem, pois desde sempre se sabe que sem ordem não há progresso. Não importa que tal ordem deva ser imposta contra a vontade da maioria, não importa que ela não respeite os valores básicos que o próprio sobá se diz defensor, não importa enfim que para mantê-la se espezinhe e se estupre até o mais comezinho Direito que faz parte do arsenal de qualquer rábula! Não, o show tem que continuar : Fomos descobertos!... Uiiii! Estão ai as autoridades estrangeiras, trouxemos a carta do Caminha e os quadros do Franz Post, utilizamos a última palavra em tecnologia de "show-bussines", porque é que a negrada está enchendo o saco ? Esta é , pensamos, a verdade mais básica atrás dos fatos: no Brasil, ou na América Latina e na África 80% das pessoas simplesmente não contam, devem fazer o que o feitor manda, seja nos tempos da fazenda de açúcar ou café, sejas nestes novos tempos de "cidadãos mi-diáticos"( quá, quá, quá! ), de Internet e de civilização televisiva; e quando, apesar de to-dos os esforços civilizatórios do padre, da televisão e da manipulação da opinião pública, o bicho continua pegando então o milenar artesanato da porrada entra em cena demostran-do mais uma vez sua sofisticada eficácia, a sutileza de seus agentes e a magnanimidade e o humanismo de seus mandantes! Não foi só na Bahia que o sarapatel engrossou, em Floria-nópolis por exemplo, até alguns tiros pedagógicos foram disparados contra manifestantes! Em Londrina também houve turumbamba! Coisa singular a democracia brasileira ! Nos confrontos entre polícia e manifestantes, na França ou na Coréia, o número de feridos é sempre equipartido entre os manifestantes e as forças da ordem quando não se observa maiores baixas entre os soldados, aqui é sempre o contrário: ferimentos, mortes e cadeia são apanágio da senzala ; para a polícia os privilégios da lei, pois, como disse o coman-dante da PM baiana "... se chegar ordem de prisão preventiva (do comandante das opera-ções em Porto Seguro, requerida por um juiz de Ilhéus),nós vamos recorrer.." enquanto is-so pessoas ficaram presas por até 12 horas sem culpa formada, homens ajoelhados foram espancados e manifestantes desarmados foram atingidos por tiros. Um traço importante enfim, deve ser ressaltado: apesar de uma rebarbativa campanha pu-blicitária de um ano de duração, com massacres diários pela televisão, vinhetas, chama-das, etc., apesar do sem número de "eventos" programados, de cantores e estrelas de TV, a população ficou distante do evento, o clima ufanista desejado não foi atingido e o brasilei-ro não se identificou com o show, o que de per si já é uma alvíssara. Os comentários, que se pode ouvir ainda em ônibus, botequins e filas, são de crítica ao acontecido e de crítica ao Governo; a própria crise, tão generosamente plantada por FHC, talvez esteja contribu-indo para tais lampejos de lucidez e nunca é demais sonhar que um dia possa ser possível que o chanfalho troque de mãos nesta monstruosa e excremencial democracia brasileira. José Carlos Morel (São Paulo/SP) |topo| A liberdade a qual o anarquismo busca, propõe e luta não é a liberdade irresponsável e fantasiosa onde se tem o direito de se fazer o que se quiser, no momento que desejar e na forma que for conveniente como imaginam os leigos. Também não é a liberdade pregada pela ideologia burguesa que se limita ao direito de ir e vir, de expressão e de escolher seu governante ou explorador; muito menos o anarquismo propõe a supremacia da liberdade do indivíduo sobre a da coletividade como falsamente afirmam os socialistas autoritários (estatistas) com o propósito óbvio de deturpar o anarquismo. Tanto
a ideologia burguesa como os socialistas autoritários insistem
em dizer que a liberdade plena é impossível de ser realizada,
no entanto se utilizam de argumentos diferentes para tentar justificar
seu desejo pelo poder. Os socialistas autoritários se apegam
à falsa idéia de que a liberdade proposta pelo anarquismo
pressupõe uma supervalorização e uma supremacia
da liberdade individual sobre a coletiva, insistindo na idéia
de que o interesse da coletividade deve estar em primeira ordem estando
o indivíduo subordinado a coletividade, ou seja, ao Estado (ditadura
do proletariado), onde somente a partir dele provem o seu direito e
a sua vida. Já os burgueses propõem uma forma de liberdade
limitada, condicional e vigiada, se utilizando sempre de chavões
do tipo "a liberdade de um homem termina onde a liberdade do outro
começa"... Ora companheiros, nada mais falso! Liberdade para o anarquismo significa viver em comunismo libertário ou seja, numa sociedade de iguais (economicamente) onde os meios fundamentais de produção sejam de propriedade comum; onde o homem passa a se libertar da auto-alienação (produtiva) que o capital lhe impõe, podendo assim encontrar sua verdadeira essência, significa a resolução definitiva do antagonismo do homem consigo mesmo, com seus iguais e com a natureza. Mas não é só, liberdade para o anarquismo só pode ser plena em autogestão, o livre acordo entre iguais, a livre organização do corpo social da base para o topo, sem governos ou qualquer outra forma de autoridade irracional e/ou coercitiva, tudo isso sobre plena responsabilidade dos indivíduos e organizações coletivas em um sistema federativo estruturado a partir da mais simples forma de organização social (associações de bairros, comitês de fábricas, grupos de interesses científicos, etc.), até formas mais complexas, tendo sempre como instrumento chave a autonomia e a auto-direção. A REVOLUÇÃO É O QUE NOS RESTA! Antônio
Martchenko |topo| |