Libera Nº 106

OPINIÃO "PÚBLICA" X OPINIÃO POPULAR

Todos os dias, dezenas de notícias de escândalos bombardeiam a cabeça do povo. Apagão e crise energética, ACM e painel do senado, o escroque Jáder Barbalho, greve das PM's, a corrida pré-eleitoral, os acordos do Malan com o FMI e, agora, a crise da Argentina. Entorpecidos de tantos problemas, o povo discute o que pode, reflete o que dá e canaliza parte dos anseios oprimidos através dos mecanismos oferecidos pela própria mídia. A "sociedade se corrige" com participação cidadã, exigindo do pouco que funciona no capitalismo brasileiro: os cavaleiros legalistas do Ministério Público, Defesa do Consumidor, Instituto da Terra, Defensoria Pública e "trocentas"" mil ONG's que fazem de tudo para aumentar o "nível de cidadania" em um país dominado por elites que nada mais são do o reflexo de seu próprio passado escravrocrata.

Opinião pública, a grosso modo, é um conjunto de opiniões emitidas a partir de temas apresentados pelas elites, baseadas em informações e conceitos transmitidos pelo próprio opressor. Se o povo discute os temas expostos pela classe dominante, controladora da mídia, quais são os assuntos que discutimos a partir dos interesses de nossa classe?! Se o consenso é fabricado nas transmissões televisivas, dá para concluir que os assuntos de interesse popular são "dissenso"?! Sim, infelizmente, para ambas perguntas, a resposta é afirmativa.

Ao contrário do que possa parecer, um enunciado político - qualquer um - é fruto de negociatas, espionagem e correlação de forças. Desde a declaração do Banco Central sobre a alta do dólar até um projeto-lei fisiológico do vereador mais pilantra, sempre a pauta do noticiário político passa por um processo seletivo acirrado. Isto significa selecionar uma em cada dez notícias e, uma vez selecionada, construir esta notícia gerando um sentido pré-escolhido.

O controle da opinião pública está na seleção do que noticiar, a forma de transmitir, a ordem de exposição do telejornal, o tom emocional da transmissão, além dos comentários editoriais dos apresentadores. Por mais que sejam noticiados escândalos das elites e mecanismos de governo, a própria denúncia em forma de notícia é um produto informativo. O bombardeio destes produtos na nossa cabeça não nos permite aprofundar nenhum deles.

Cada assunto é martelado até o ponto que a cobertura necessita ser ainda mais profunda. Quando esta passa de notícia a sintoma de uma característica sistêmica, simplesmente o assunto desaparece. Apenas como exercício de memória, alguém se lembra do escândalo dos poços artesianos construídos pelo DNOCS (Departamento Nacional de Obras Contra à Seca) nas fazendas do deputado federal do PFL Inocêncio de Oliveira? O senador Romeu Tuma era chamado de xerife do governo Sarney (1985-1990) quando comandava a Polícia Federal; mas quantos se lembram que ele comandava o DOPS em São Paulo na época da ditadura militar?! É coincidência que Paulo Renato (Ministro da Educação), Pedro Malan (Ministro da Fazenda) e Armínio Fraga (presidente do Banco Central) tenham todos sido funcionários do FMI e do Banco Mundial?! Até que ponto chega o cinismo e a desfaçatez da canalha dominante?!

Outro falso mito é o de que a mídia tem sua dinâmica própria, independente dos capitais que a manipulam. Certa vez, num debate, um estudante perguntou ao companheiro Noam Chomsky sobre "como a e elite controla a mídia?!" Chomsky retornou a pergunta ao estudante questionando "como a elite controla a GM, Ford, Volkswagen e outras montadoras de automóveis?". "Simplesmente não controla porque não precisa controlar" disse o linguista, "isto porque os capitais da mídia são a elite!"

O mesmo acontece no Brasil. Em 1964, durante os preparativos para o golpe militar, a Rede Globo associou-se ao grupo yankee Time-Warner e tornou-se peça fundamental de apoio ao regime. No ano 2001 a Globo não apenas apoia, mas ela própria é o regime! Pautando os assuntos comuns a toda nossa vida, o "grande irmão" tenta nos dizer o que discutir, contra quem se revoltar, além de nos impor os motivos de nossa indignação. Como diz outro papagaio da direita, Boris Casoy, "isto é uma vergonha!". E é mesmo!

Mesmo que a situação narrada acima seja "braba", ainda temos alguma capacidade de resposta. Nenhuma audiência ou público receptor é inteiramente passivo, ninguém acata e reproduz tudo o que nos metem goela abaixo. Mas, mais importante do que resistir ou furar ao bombardeio da mídia capitalista, é gerarmos nossos próprios meios de comunicação. Só teremos nossos enunciados políticos discutidos em comunidades populares e categorias de trabalhadores, quando formos capazes de gerar entre nós mesmos todo o processo de construção da notícia.

A pauta de discussão será popular quando os meios de comunicação forem do povo. Vamos compreender e debater a notícia pautada a partir de nossas comunidades, geradas na própria realidade, seja esta como for.

É urgente que os anarquistas que estão atuando nas lutas populares, ralando todo dia nas favelas, periferias e vilas, participem ou apoiem a criação de rádios, TV's comunitárias e periódicos impressos. Através da comunicação social livre e horizontalizada, recriamos o consenso da base, pautamos a luta através da realidade cotidiana, encontramos a estética em nossa própria cultura e escrevemos a história onde protagonista é o povo em luta e movimento!

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Encontro Internacional de Madri
Apontando caminhos para uma efetiva prática internacionalista do movimento libertário

Programar tarefas concretas que possam fortalecer a luta libertária num marco funcional de internacionalismo nessa conjuntura histórica, para além de retóricas sem implicâncias reais. Com esse propósito, nos dias 31 de março e 1° de abril na cidade de Madri, a Confederação Geral dos Trabalhadores, organização anarcosindicalista espanhola, convocou uma reunião de caráter intercontinental em que concorreram delegações de doze países incluído o Brasil.

Esta convocatória se distinguiu de outros eventos do movimento libertário internacional, por sua sensibilidade as diferentes concepções que reclamam uma forma específica de instrumentalização do anarquismo e pela atenção dirigida as problemáticas da América Latina, em especial as realidades com inserção anarquista. Lá estiveram anarcosindicalistas, sindicalistas revolucionários, especifistas e grupos temáticos. O critério, no entanto, foi de firmar acordos com aquelas organizações que realizam um trabalho regular de intervenção social, longe de vivencialismos ou atividades intelectuais abstratas sem preocupação militante.

Participaram Al Badil (Líbano), Alternativa Libertaria (Catalunha), Alternative Libertaire (França), CGT (Espanha), CNT (França), Conselho Indígena Popular "Ricardo Flores Magón" (Oaxaca - México), FAG (Brasil), FAU (Uruguai), Marmitag (Grécia), No Pasaran (França), ORA-Solidarita (República Tcheca), OSL (Argentina), OSL (Suíça), SAC (Suécia) e Unicobas (Itália).

Por mais bloqueios que podiam opor o idioma, a discussão foi muito interessante e seguramente caracterizou a vontade geral de construir uma identidade libertária coletiva e plural, a partir de uma prática solidária concreta que supere as fronteiras. Acima de tudo, foram priorizados temas que não pusessem em relevância questões de fundo teórico-organizativo que podiam ser motivo de divisão. O debate das categorias analíticas mais adequadas para atualizar o discurso libertário em torno das novas condições do sistema capitalista, por exemplo, é tarefa que foi adiada e deverá ser desenvolvida com tempo.

Entre as principais resoluções figuram:


· A Declaração de Madri 2001, documento que firma uma crítica a etapa de globalização capitalista que resulta da aplicação do neoliberalismo pelas estruturas de poder e seus efeitos sobre a dominação de classe, de gênero e de etnia, bem como fala do papel que deve jogar os anarquistas com uma estratégia ajustada ao atual momento histórico;

· A constituição de uma rede designada Solidariedade Internacional Libertária (SIL) que funcionará de forma ampla e horizontal para gerar um circuito de informação entre organizações libertárias militantes. A SIL estará aberta a adesão daqueles coletivos que têm acordo com a Declaração de Madri 2001;

· Um manifesto que convoca à ação direta contra as reuniões em junho do Banco Mundial em Barcelona e da cúpula de chefes de estado da União Européia em Goteborg, assim como chamada de apoio as comunidades indígenas de Oaxaca no México;
· Por fim, o encontro aprovou um mecanismo permanente de solidariedade internacional gerido pelo conjunto de organizações da rede em que, numa primeira rodada, será dedicado apoio à FAG, no Brasil e à FAU, no Uruguai.

Ficou apontada a celebração de um congresso intercontinental daqui a dois anos, em que foram designados para formar o comitê organizador Alternative Libertaire e CNT da França. Aqueles companheiros/as, grupos ou organizações libertárias que desejam ter mais informações sobre o Encontro Internacional de Madri procurem na Internet a página da CGT: http://www.cgt.es ou contatem com a Federação Anarquista Gaúcha: fag.poa@terra.com.br

Delegado da FAG ao Encontro Internacional de Madri

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LUTA POPULAR EM CAMPINAS
Frente de Mobilização de Desempregados (FMD)

A Frente de Mobilização de Desempregados nasceu de uma realidade concreta. Somos parte de um povo oprimido, explorado economicamente tanto pelo setor público quanto privado. A FMD é o resultado do desenvolvimento de trabalho de organização de moradores de favelas e bairros populares da periferia de Campinas, ocorrido ao longo dos anos de 1999 e 2001.

Nos organizamos com a intenção de formar, inicialmente, cooperativas e associações de trabalho, entendendo que estes são instrumentos de educação no sentido amplo e organizações de trabalhadores que entendem a luta de classes como algo presente e necessário para a transformação social. Esses instrumentos devem ser fraternos entre si, trocando a competitividade pela cooperação mútua entre regiões.

Isto quer dizer que os instrumentos de produção devem ser dos trabalhadores, controlados por eles e articulados de forma a manter a unidade entre o povo explorado. Estamos falando de um tipo de luta legítima, que a esquerda participativa e representativa não consegue atingir, que é a Autogestão via Democracia Direta.

Portanto, temos como princípio o classismo combativo que se opõe ao comportamento servil das estruturas da democracia de tipo burguesa, proposto pela esquerda oficial.

Comitê Pró-Luta Popular (COMLUT) 

O Comitê Pró-Luta Popular é uma organização político-social federalista que se propõe a impulsionar os grupo oprimidos em nível nacional no sentido da emancipação social através do enfrentamento popular e de classe.

No que se refere aos trabalhos em Campinas/SP, iniciamos nossas atividades de formação e organização de moradores de periferias e favelas da cidade. Por isso estamos em ação coordenada com a FMD.

Entendemos que a luta de classes de forma ampla, muito diferente do marxismo. Para nós, a classe popular é oprimida não somente no sentido da exploração econômica, ou seja, somos oprimidos por um conjunto de fatores sociais, políticos e econômicos.

Neste sentido, nos articulamos através de uma política de ação direta que privilegia a base de inserção social e popular. Não podemos estar distantes do povo por algo muito simples: somos o povo. E é o povo que deve construir sua própria vida. Portanto, não aceitamos qualquer vanguarda iluminada, qualquer estrutura que não seja construída por nós mesmos.

Lutamos pela construção do poder popular através do federalismo combativo e classista; autônomo em relação aos poderes públicos e privados, e estamos distantes de qualquer partido político tradicional.

Em outras palavras, existe um abismo profundo que separa o COMLUT de qualquer outro grupo que não lute pelo socialismo revolucionário.

Só a luta nos fará dignos!

Só a luta nos fará livres!

Luta Popular
COMLUT - Organização Federalista, Combativa e Classista
Caixa Postal 768
CEP 13001-970 Campinas/SP
e-mail: comlut_cps@yahoo.com.br

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O "X" DO BURACO

Infelizmente, fomos absorvidos por um sistema econômico que domina os povos através de procedimentos imorais tais como a sonegação ou adulteração da verdade, a corrupção, a traição, etc. Submisso a ele está, também, a "respeitável" ciência cujas declarações são, muitas vezes, contraditórias à realidade e acreditada pela massa acadêmica influenciada pelos mesmos princípios. A afirmativa de que o buraco na camada de ozônio é causada por gases clorados, parece ter como objetivo o desvio da atenção global do seu próprio erro de não ter detectado, em tempo, as futuras conseqüências do uso contínuo dos combustíveis fósseis, especialmente a hulha de fundição do ferro e geração de energia, e o petróleo nos transportes, fatores que proporcionaram este desenvolvimento tecnológico que aí está, inadequado para o bem-estar e segurança da humanidade. A verdade é que o acúmulo de gases carbonados liberados das combustões nos últimos 250 anos, depois de romper o equilíbrio com a regeneração natural, passou a se diluir na atmosfera elevando sua densidade e, por isso, sujeitando-a a maior ação da força centrífuga terrestre. Em conseqüência, grande parte das coberturas atmosféricas polares, sobre as quais flutuam as camadas mais ricas em oxigênio, vêm migrando para o cinturão equatorial, cujo teto passa a se elevar fazendo com que o clima desta região torne-se mais ameno. Em compensação, nas regiões poleares, as ditas camadas oxigenadas que, primitivamente, eram aquecidas pelo Sol, mesmo durante o inverno, vêm mergulhando, cada vez mais, na sombra gerada pelo ângulo formado entre o eixo da Terra e a linha reta que a separa do Sol. Nesta área, sobre o Polo Sul, a temperatura negativa, na referida época, fica abaixo dos 111,5oC quando o ozônio se reconverte em oxigênio. É por essa razão que o "buraco" só aparece entre o final do inverno e o princípio da primavera.

Se fossem os gases clorados os responsáveis por tal degradação, ela ocorreria primeiro no Polo Norte, por estar no hemisfério em que mais se liberam os CFCs. O que se deduz de tudo isso é que os poderes econômicos do mundo, cuja base de sustentação é a queima de combustíveis fósseis, têm total consciência do fenômeno, e o que buscam é um tempo na tentativa de encontrar soluções que lhes permitam continuar a manipular os destinos da humanidade. Na verdade, estes combustíveis jamais poderiam ter sido utilizados pelo Homem, pois o fogo que emana deles é o mesmo que Prometeu roubou dos céus para entregar aos homens que, por infelicidade, escolheu para gerencia-lo os mais estúpidos.

Antídio S.P. Teixeira (Rio de Janeiro/RJ)
Nota: Dúvidas, comentários e críticas em relação a este texto devem ser endereçadas ao autor no seguinte endereço:
Rua Torres Homem, 790; Vila Izabel; CEP 20551-070; Rio de Janeiro/RJ.

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ÂNIMO E DESÂNIMO

Se a consciência do tamanho da tarefa abalasse o inseto
Não faria a formiga cortadeira o seu estrago na lavoura?
Se a percepção do ínfimo de sua contribuição individual
Afligisse os seus diminutos gânglios nervosos
De certo, não deixaria o cupim de juntar à pilha o seu torrão de lama?
Se o patético de sua figura de grilo avantajado
Abalasse o caráter do gafanhoto, ferisse a sua individualidade
Perderia o apetite?
Seria então que veríamos...
A agricultura sem pragas, sem correção
Os pastos sem as torres altaneiras de seus cupinzeiros
As colheitas preservadas das nuvens de gafanhotos
Quanta fartura, quanta prosperidade... o fim dos pesticidas e da escassez!

Mas, para tanto, era preciso que no corpo de cada inseto social
Em cada um, mesmo nos enxames das pragas bíblicas,
Houvesse um irrisória fração da consciência humana de si mesmo...

Essa consciência tão orgulhosa de si própria...
Do corpo que domina, sobranceira...
Capaz de superar o jugo dos hormônios, o prazer da adrenalina,
Buscar mil e um refinamentos na cultura ou no consumismo
E até mesmo guiar o indivíduo no altruísmo que permeia as altas noções de solidariedade
Etc. etc. etc.
Essa consciência só tem de inseto o vício das mariposas
Poucas vezes, entretida pelo jogo de espelhos de sua própria alta classe social
Na maioria dos casos, enganada apenas pela cintilação dos anúncios da TV
No entanto, muitas consciências humanas superam o ofuscar do sistema
E engajam-se na luta pelas transformações... pelas mudanças...
Ou pelas correções, reformas e aperfeiçoamentos...
Há as caritativas sopas distribuídas nas madrugadas, a visita às creches e aos asilos
A luta nas associações de bairro, no sindicato, nas escolas...
A luta política... eleitoral... votando neste ou naquele...

Tudo unido por um fio imperceptível...
Uma seda que vai formar o casulo dessa consciência
Aos poucos ela se enrodilha, adormece e dissolve-se
Metamorfose... ...será?
No conforto do casulo formado de tantas ações sociais
Pode-se perceber o que está atrás da miséria, do desemprego
Atrás do salário que paga menos que o pão,

Atrás do favelado, do mendigo e do marginal
Do traficante e da criança abandonada
Da indústria poluidora
Da agricultura que expulsa o homem do campo,
Dos latifúndios com soja para engordar boi europeu
Do meio ambiente degradado,
Da prefeitura que pinta posto de saúde e escola
Mas não coloca médico, nem professor que ensine...
Do palco mambembe dos vereadores;
Do circo de cavalinhos dos deputados
Do maior espetáculo da Terra:
O Governo! O Parlamento... a Democracia Representativa...
Atrás de um circo com a platéia de palhaços e as feras soltas...
O que há atrás das igrejas que caçam níqueis por falsos milagres
Das igrejas que pregam resignação e obediência?

Então, enfim, em seu casulo de trabalho engajado
De sua tênue consciência política... de sua postura de esquerda
Percebe-se, enfim, o que há
Atrás da vida que cobra a renúncia ao direito de sonhar
Ao direito de lutar pelos sonhos

Nesse momento... vislumbra-se o Leviatã de Hobbes
O Estado - seja o ditatorial, fascista ou democrático e, dito, progressista...
O monstro enorme que vestido e armado de braços humanos
Envolve-nos a todos...
Ora! Ninguém diz que é fácil lidar com algo que se traveste em Sociedade
Ninguém propõe que se tente, sozinho, exorcizá-lo
Nem se promete a Revolução como herança para a próxima geração
Mas também não se pede que se siga se movimentando
Apenas como marionete se agitando
Confiando nas orientações de um líder ou patrão
Obedecendo a Sicrano porque leu Gramsci, a Beltrano porque decorou Lenin,
A Fulano porque - economista & dialético - comentou a obra de Marx...
A qualquer outro guru, da Nova Era à Administração de Empresas
Ou outra versão qualquer da moda

Pede-se, sim! que mantenham os olhos abertos
Que separem o joio do trigo nas ações sociais:
Evitando a mera caridade...
Buscando implementar aquelas que organizam... e edificam
Pede-se que se perceba como as ações se coordenam, se auxiliam...
Que se perceba como é necessário um combate ideológico,
Combate velado as vezes, explícito noutras
Para dotar de visão também aos demais...
Reunir, agrupar, federar... solidarizar, atuar, conquistar, construir...

Nesses momentos seria bom que a consciência humana
Tivesse um instante do torpor dos seres desprovidos de nosso sofisticado sistema nervoso...
Para que o "tamanho" do monstro não lhe tornasse cega aos seus pés de barro...
Para que, dotados de ideologia, visão histórica e método de trabalho,
Possuindo uma meta a alcançar
Um roteiro para traçarem a trilha
E "criarem o caminho ao caminhar"...
Podendo examinar os equívocos
De um século repleto de fracassadas revoluções autoritárias
Para que, enfim, os nossos engajados e conscientes
Não perdessem o ânimo
Não se sentissem sem forças diante do Estado!
Quando há tantos nichos onde se pode haurir energia para dar a sua cota
A sua parte individual mas coordenada e federada no esforço comum...
Homens de consciência forte! Que persistem na luta... Imprescindíveis!
Quantos homens têm essa superação da sua consciência?...
Que rompe o seu casulo em formas aladas capazes de transportá-los
Ao Imaginário da Anarquia?
E impelir os seus corpos a luta pela Utopia, aqui e agora?
Ânimo! Elán enfim...

Nesse momento, ainda são poucos...
Há os que tem mais acesso ao conforto da classe média remediada
Há aqueles que embora forçados pelo aguilhão da miséria
Parecem enfraquecidos pelo cansaço,
Assim, a maioria não realiza a transmutação...
Sofrem uma metamorfose degenerativa
Acanhada, a Consciência sai de seu casulo...
Como uma barata amedrontada, que foge para as frestas,
Para contentar-se com as migalhas da Sociedade...

Desânimo...

Mas qual será o menos compreensível ou tolerável?
O proletário esgotado ou o classe média confortável?
Nem formigas, nem cigarras tampouco...
O escuro mais negro da noite não impedirá
De surgir, no alvorecer, o rubor da Aurora
É necessário, contudo, madrugar
Sair do conforto morno das cobertas da boa consciência cidadã
Do leito cuja maciez é fornecida
Mais do que pelo valor do salário
Pelo grau de alienação
Além de despertar, cabe ainda abrir os olhos
Erguer-se e fitar o nascente
Perceber a silhuetas do porvir
As indicações do caminho a percorrer
Eis o antídoto, então, a metamorfose funesta
Persistir!
Mostrar... passo a passo...
Constância e metas!
Sem poupar do debate os desanimados
Nem calar o chamado à organização.
Henrique Zucchi (Rio de Janeiro/RJ)

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