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Libera
Nº 107
Ventos
Libertários em São Paulo
Ventos
libertários sopraram forte em São Paulo no mês de
agosto, graças a generosidade de abnegados companheiros de militância
que materializaram um sonho há muito gestado no movimento anarquista
brasileiro. Após a exuberante demonstração de energia
dos ativistas paulistanos, representantes de várias partes do
país e exterior, no evento de rua de 20 de abril, organizado
por libertários e demais organismos afinados com a Ação
Global dos Povos, o antigo desejo de criar um grande espaço de
reflexão e ação libertárias nasceu sob título
de Instituto de Cultura e Ação Libertária. Instalado
em uma casa de consideráveis dimensões no bairro de Vila
Madalena o ICAL, como passa a ser conhecido o Instituto, tem como objetivo
abrigar um amplo acervo de livros (uma Biblioteca), produções
acadêmicas e lançamentos das editoras libertárias
Achiamé e Imaginário, além de promover debates
sobre os temas mais atuais, obviamente sob uma perspectiva anarquista.
O ICAL vem preencher uma importante lacuna do anarquismo brasileiro
que carecia de um organismo de divulgação das produções
do exterior tais como boletins, jornais, revistas e livros editados
pelos grupos e coletivos de todo o globo. Assim o novo espaço
pretende somar esforços a outras entidades libertárias
que já há muito tempo, a custa de um esforço incomensurável,
como é o caso do Centro de Cultura Social que funciona na mesma
capital, levam adiante a fundamental tarefa de divulgação
das idéias anarquistas.
Durante a palestra de inauguração, organizada segundo
os preceitos de gestão horizontal e livre exposição
de idéias, os diversos grupos e individualidades presentes expuseram
seus princípios de conduta e bases de acordo interna. Logo nos
primeiros pronunciamentos ficaram claras as singularidades dos "anarquismos"
presentes e, na mesma medida da exposição dos participantes,
ficou ainda mais fácil constatar a maturidade, inspirada no verdadeiro
federalismo de concepções, demonstrada por todos ao exercitarem
o saudável hábito de escutar e respeitar a opção
alheia.
O CELIP posicionou-se, na figura de seu representante, como um organismo
que vem se dedicando à discussão política do anarquismo.
Frisamos a necessidade de determinadas correntes libertárias
buscarem o entrosamento mais estreito com alguns movimentos sociais
de periferia e grupos de explorados menos mobilizados politicamente.
Lembramos a importância de instâncias especificas organizadas,
mesmo antes de greves e atividades de rua no passado, para o sucesso
das reivindicações mais imediatas da população.
Tentamos fazer entender que apesar das nuances do anarquismo a opção
por uma via política não exclui a convivência e
colaboração com as demais leituras do ideário da
proposta libertária. Assim a posição dos militantes
do CELIP pode ser compreendida pelos presentes, em conformidade com
a proposta da palestra inaugural que tinha justamente esse objetivo.
Assim o ICAL inicia suas atividades não apenas com a função
de servir de forum de discussões das questões mais contemporâneas
do anarquismo, mas também como ponto de convergência dos
esforços coligados das várias perspectivas do mesmo. Em
suas instalações poderemos através de palestras,
debates, cursos e reuniões estreitar a nossa tão almejada
"teia de sociabilidades".
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Manifesto
Inaugural do Instituto de Cultura e Ação Libertária
São Paulo, 17 de agosto de 2001
Existe
uma fase na vida das pessoas em que é essencial a repulsa ao
instituído e àquilo que os conservadores imaginam ser
definitivo. Ela se estende por toda a vida. Acreditando na possibilidade
da permanência de um espírito rebelde e indomado, um grupo
de libertários resolveu se juntar para organizar o Instituto
de Cultura e Ação Libertária.
O Instituto nasce como um lugar de encontro dos anarquismos e dos anarquistas
de todos os tipos.
Queremos lutar para ampliar os espaços de subversão. Subversão
entendida no seu sentido mais amplo. Aquela que expressa um não-contentamento
com um cotidiano medíocre e estrangulador dos desejos e vontades
individuais e coletivas.
O que nos interessa é criar um espaço no qual seja possível
conspirar a favor da vida. Estão convidados a construí-lo
todos aqueles que quiserem respirar juntos e acreditarem na realização
das utopias. Afinal, estas são extremamente fascinantes para
serem deixadas de lado. Nós decididamente não desistimos
delas.
Claro que não é qualquer um que será aceito. Não
são bem-vindos seres de péssimo humor, ranzinzas inveterados,
burocratas de qualquer tipo, pretendentes a líderes de massas,
autoritários sequiosos de poder, tolos que obedecem facilmente
e aqueles incapazes de sonhar.
O Instituto funcionará todos os dias da semana (de 14:00 as 20:00h),
desenvolvendo as mais variadas atividades culturais, educacionais e
de pesquisa. Por isso, propomos a criação de vários
núcleos de trabalho, tantos quantos a imaginação
e o esforço de pessoas livres forem capazes de organizar. Porém,
há um princípio do qual não abrimos mão:
o da autogestão. Todos os grupos devem ser formados por indivíduos
que acreditam na livre-associação e numa organização
em que não vigorem estruturas burocráticas e hierárquicas.
Ser livre não se aprende nos livros. É uma prática
que precisa ser constantemente exercitada.
No momento em que abrimos o Instituto, e fazendo parte dele, será
inaugurada a Livraria "Espaço A", criada em parceria
com a Editora Imaginário, tendo por objetivo divulgar as publicações
libertárias do mundo todo - além de obras de boa literatura,
filosofia e arte.
Um dos objetivos mais ambiciosos do coletivo responsável pela
abertura do Instituto é fazer com que ele se torne, num curto
prazo, um centro de referência para estudos sobre o anarquismo.
Deste modo, existe um núcleo que estará se dedicando à
montagem de uma biblioteca - reunido documentos, livros, panfletos,
cartazes, fanzines, depoimentos, dissertações e teses
acadêmicas, vídeos, músicas etc. O acervo estará
aberto a todos os pesquisadores autodidatas ou acadêmicos.
O Instituto será mantido pela contribuição dos
seus fundadores e associados e pela renda advinda da livraria e das
atividades realizadas. Aos associados será permitida a retirada
de livros, vídeos, cd's etc. Além disso, estes terão
descontos nas compras feitas na livraria. Contudo, muito mais do que
quaisquer vantagens financeiras, é fundamental reiterar que espaços
livres devem ser mantidos por pessoas livres.
Viver em liberdade significa assumir riscos. Quem quer passar pela vida
sem sobressaltos optou pela tutela. Nós, resolutamente, rejeitamos
qualquer tipo de controle e acreditamos na possibilidade da construção
de sociedades mais justas.
Que muitos outros espaços libertários surjam em breve.
Saúde
e Anarquia!
Instituto
de Cultura e Ação Libertária
Praça Américo Jacomino, 89 (ao lado da estação
de metrô Vila Madalena)
Tel: 11-3865-7028
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ANARQUISMO:
Caminhos para o projeto político

Muitas
vezes nos encontramos perguntando a nós mesmos as seguintes questões:
- Qual o nosso projeto político?
- Qual o melhor caminho para implementá-lo?
- Quais são os passos necessários para o atual momento?
Para sermos rigorosos na análise, boa parte destas perguntas
são impossíveis de definirmos hoje com precisão.
Um bom começo, é utilizarmos as ferramentas de análise
que temos nas mãos para atuar sobre o real e o concreto. São
estas: os princípios (idéias-guia), as experiências-históricas
e os conceitos (instrumentos) elaborados na forja entre as duas primeiras
ferramentas e a militância diária. Partindo das três
perguntas, tentando respondê-las através das ferramentas
acima citadas, tiramos dois objetivos básicos para o projeto
político anarquista.
Como modo de produção do trabalho, riqueza, conhecimento,
informação, cultura, e numa esfera mais ampla, de toda
a vida coletiva, temos como objetivo pleno a Autogestão Social
e Econômica. Como expressão política deste modo
de produção é necessário um instrumento
coletivo da classe oprimida. Este tem de ser o espaço de todos
os grupos de interesse da classe e do povo em luta. Ao dizer povo em
luta, afirmamos a necessidade da auto-organização da maioria
das categorias e segmentos populares existentes.
Todo este esforço, através da auto-organização
(a classe em si), gera um instrumento político que chamamos de
Poder Popular. A soma deste com a Autogestão Sócio-Econômica,
durante um processo de luta avançada, acreditamos que possa consolidar
um Poder Popular Revolucionário. Este seria a expressão
mais ampliada da classe em luta, dos movimentos populares e organizações
socialistas e revolucionárias. Nesta categoria, como uma organização
de projeto socialista e de intenção revolucionária
cujo objetivo é um processo de ruptura, se incluem os grupos,
coletivos, organizações e federações especifistas-anarquistas.
Até aí tudo bem, um projeto político revolucionário,
de longo prazo, amplo o bastante para entrarem todos os movimentos e
organizações que com ele concordarem. Socialista ao ponto
de o próprio povo ser protagonista de seu destino e não
uma vanguarda ou partido auto-elegido pela dialética da
arrogância e pretensão histórica. Mas, cabe
uma pergunta elementar. E agora José, o que que a gente faz?
Sim, o que fazer para trabalhar todos os dias para este projeto? Como
se dá a acumulação de forças em um momento
tão adverso como o atual? Buscar responder à esta pergunta
sem tirar os dois pés do chão, acreditamos ser dever e
direito de todo militante anarquista.
No atual momento brasileiro, começamos a nos consolidar estadualmente
e os movimentos populares, quando em luta, se encontram numa etapa de
resistência de base. Convivemos cinicamente com um Estado de
Direito que há muito já declarou guerra de extermínio
contra o povo (exemplos sobram: Carandiru, Eldorado de Carajás,
Corumbiara, Candelária, Vigário Geral, entre outros).
Sendo esta a realidade, como manter objetivamente o projeto político
de longo prazo sem perder o vínculo com a luta e a necessidade
de conquistas imediatas?
Com certeza aí que se traça o rumo do projeto político.
Através do fruto da participação em movimentos
populares, temos de demonstrar a viabilidade da Autogestão das
Lutas. Óbvio que não tendo o controle coletivo dos meios
de produção, circulação e funcionamento
básico da sociedade, é impossível praticar a Autogestão
Sócio-Econômica. Mas, a Autogestão em experiências
vitoriosas ainda que pequenas, trazendo avanços materiais e garantido
conquistas para a classe oprimida, é uma vitória do projeto
político!
O Poder Popular pode ser construído através da famosa
e tão pouco praticada Unificação das Lutas. Isto,
a partir de um princípio tantas vezes esquecido pelo reformismo,
a solidariedade de classe. Assim, um passo imediato para começar
a caminhada rumo ao Poder Popular é buscar aglutinar em cada
luta pontual, o maior número possível de entidades de
base.
Por exemplo, tentando fazer que as reivindicações dos
trabalhadores em educação pública e/ou dos estudantes
desta rede se transformem, a médio prazo, numa luta pela educação
popular. A classe se veria representada por estas duas categorias, mais
as comunidades locais e os pais e mães de alunos. Esta disputa
pode ser dada não somente sobre salários e verbas para
a escola (que são fundamentais e necessárias, é
sempre bom ressaltar), mas também pela constituição
e autonomia do conselho comunidade-escola, pelo conteúdo curricular
e o método pedagógico. Não dizemos que isto é
fácil nem que o momento proporciona muitos avanços, mas
é simplesmente o único caminho viável para a luta
popular não capitular com opções eleitoreiras ou
de conciliação com o inimigo opressor de classe.
O exemplo dado na luta pela educação pode ser aplicado
em todas as lutas concretas tais como moradia, trabalho, emprego, saúde,
saneamento, terra, e todas demais lutas dos oprimidos brasileiros. Por
mais distante que esteja o projeto político, nossa obrigação
perante a classe oprimida é resistir na base e buscar ao máximo
unificar as lutas autênticas do povo. Quanto mais coordenadas
e com programas de curto, médio e longo prazo comuns, mais chances
de vitória teremos. Este processo, se constrói todos os
dias.
Nota:
Este texto foi originalmente escrito e publicado
pelo Grupo Mutirão, em seu órgão informativo A
Peleja,
no Rio de Janeiro, maio de 1997
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SOCIEDADE
CIVIL ABANDONADA

As
mobilizações dos militantes ANTIGLOBALIZAÇÃO
mostram uma sociedade civil que está voltando a se articular
depois de considerarem que a história já havia chegado
ao fim. Juntem-se a estes movimentos, algumas mobilizações
estudantis no Oriente, protestos contra o FMI, os movimentos dos sem-terra
e sem teto, além da organização dos exércitos
populares, como o ELNZ no México.
Talvez este seja o fato social mais importantes no início deste
século, pois a sociedade civil percebendo o desinteresse das
autoridades e instituições por
seus verdadeiros problemas, volta a acreditar na sua força para
mudar a situação. Mas afinal, se os estadistas do G-8
não se reuniram para tratar os problemas que afligem as sociedades
no globo, o que faziam enquanto a polícia italiana matava anarquista
na rua? Estavam lá para defender seus interesses como Estado,
lógico. E quais são estes interesses? Podem ter certeza
que não é como tratar das epidemias de doenças
na África (os R$ 3 bilhões doados não dão
para começar) ou resolver o problema da Argentina com sua crise
econômica e desemprego. Na verdade, estes estadistas não
estão interessados em promover uma melhora na condição
humana no globo. Não estamos dizendo que eles querem que os pobres
morram, mas também não pretendem fazer nada para ajudar
a resolver os grandes problemas das sociedades, como o desemprego, a
fome, falta de saneamento, epidemias etc... Ajudar custa caro e não
é a prioridade nos assuntos dos Estados imperialistas. O interesse
dos Estados imperialistas é promover e proteger os investimentos
das empresas destes paises num mundo que já não cresce
tanto. Além disto, estes chefes de Estado querem garantir o fornecimento
de matérias primas dos paises periféricos para os centrais,
assim como a livre entrada e saída dos capitais dos seus investidores.
Por fim, todo Estado imperialista deseja que a sua indústria
e tecnologia não tenham concorrência, não desejam
os paises subdesenvolvidos permaneçam pobres, mas não
admitem que este desenvolvimento interrompa o fornecimento de materiais
primas ou que ao se desenvolver o país pobre crie tecnologia
ou produza artigos que rivalize com os da industria dos paises centrais.
Ou seja, o ideal para um Estado imperialista é que os paises
pobres saiam desta condição, pois assim surgem novas oportunidades
de investimentos, mas que este desenvolvimento fique circunscrito às
áreas que não interessam aos paises desenvolvidos.
Mas a sociedade civil não esta descrente apenas com relação
aos Estados imperialistas. A população já percebeu
que instituições como FMI não vêm ajudar
a resolver os seus problemas, mas só está interessado
em defender os interesses daqueles que colocam o dinheiro lá
dentro, e estes credores querem que a estabilidade econômica mundial
seja mantida para que não sejam comprometidos os investimentos
e o fluxo de capitais. O FMI não deseja causar fome e nem quer
que os paises entrem em recessão, muito pelo contrário,
qual interesse que pode ter um mega-investidor na falência da
Argentina, por exemplo? Nenhum. Afinal o que ele poderá tirar
de uma economia que está na bancarrota? E aqueles que já
investiram lá? Com certeza torcem para que a Argentina dê
a volta por cima para que possam ter mais lucros com seus investimentos.
Então deixemos de ser maniqueístas, os técnicos
do FMI não desejam a miséria dos povos para os quais dão
ajuda econômica, mas também não estão
nem um pouco interessados em resolver os problemas sociais que afligem
estas populações. Mas as políticas implementadas
pelo FMI acabam por impedir que estes paises cresçam economicamente
o que poderia ajudar a resolver alguns dos problemas destes povos.
Por que? Para um país crescer economicamente, ele precisa de
poupança, coisa que estes paises não têm devido
a pequena classe média, se não tem poupança interna,
o país precisaria de investimentos externos, mas estes não
querem correr grandes riscos e quando muito compram uma empresa privatizada.
A última alternativa é Estado se endividar para financiar
o crescimento. Com as metas de superávit orçamentário
que vemos no Brasil, como o país vai financiar seu crescimento
econômico?
Os interesses dos empresários que investem no Brasil também
não contemplam a agenda das necessidades mais urgentes de nossa
sociedade. Estes, obviamente, não querem ver outro brasileiro
desfilando sua miséria na TV, mas se for necessário demitir,
estes o farão sem a menor cerimônia e não assumirão
qualquer responsabilidade com o problema social que estarão agravando.
O que deseja o empresário que investe por aqui é um breve
retorno, para ter um risco menor e a manutenção dos níveis
de consumo da classe média. Claro, que seria interessante que
toda a população fosse elevada ao status de
classe média, pois assim aumentariam as oportunidades, mas este
empresário não vai dar um níquel para financiar
este desenvolvimento social quanto mais ele puder fraudar balanços
para lesar o fisco melhor para seus acionistas.
Bom, a última esperança seria a ação dos
Estados nacionais para resolver as mazelas de suas populações.
Dependendo de quem esteja no comando deste Estado a situação
pode ser menos pior, mas um chefe de Estado tem de cumprir seus contratos,
manter a legalidade e a ordem. Pronto, isto é o suficiente para
nada ser mudado profundamente. Para um governante é mais cômodo
deixar que uma criança morra de fome porque isto é um
processo histórico, o qual ele não tem responsabilidade
queremos dizer que a fome não foi criada em seu mandato
que dar um calote no pagamento de sua dívida para usar
este dinheiro num restaurante popular, pois ele seria responsável
pela quebra de um contrato firmado com um membro da elite do país.
Diante deste quadro poderíamos afirmar que a sociedade civil
está abandonada à própria sorte, pois só
ela realmente se interessa em resolver seus problemas. Esta afirmação
poderia ser feita por qualquer militante de esquerda, mas para um anarquista
isto não seria grave, uma vez que não almejamos a tutela
de ninguém sobre a sociedade civil organizada. O grave desta
história é que além da sociedade civil não
ter acesso aos meios de produção, os quais facilitariam
a sobrevida desta população, a sociedade civil nos últimos
anos não tem conseguido se organizar e impor-se como movimento
social, por dois motivos: primeiro, a repressão organizada pelo
Estado e empresas contra tudo que questiona o stutus quo;
segundo, a própria necessidade desta sociedade de ser tutelada.
Esta afirmação é lamentável, mas temos que
encarar a realidade. Dois séculos e meio de dominação
e alienação gerada pelo modo capitalista de produção
forjou uma população que não sabe se auto-organizar,
que não confia na força do coletivo, que sequer tem convicção
do que quer. Todos desconfiam que darão com os burros n`água,
não acreditam na solidariedade e na sinceridade dos companheiros
e assim preferem se acomodar. Este sim é um quadro que preocupa
ao anarquista, pois estamos saindo (acreditamos) de uma situação
que a sociedade civil estava abandonada de si mesma, ou seja, seus integrantes
preferiam não se envolver mesmo que seus interesses diretos estivessem
em jogo. Assim, ressaltamos a importância de incentivarmos estas
mobilizações e chamarmos para participar até aquele
vizinho meio reacionário, não pela mobilização
em si, mas pelo processo pedagógica que ela engendra.
Fábio
López (Rio de Janeiro/RJ)
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A
propriedade é um direiro?
Se
eu tivesse que responder a seguinte pergunta: O que é a escravidão?
E respondesse numa palavra: É o assassinato, meu pensamento seria
imediatamente compreendido. Não teria a necessidade de um discurso
muito longo para mostrar que o poder de espoliar o homem do pensamento,
da vontade, da personalidade, é um poder de vida e morte, e que
escravizar um homem é assassiná-lo. Por que, então,
a esta outra pergunta: O que é a propriedade? Não posso
responder da mesma forma: É o roubo, sem ter a certeza de que
não serei compreendido, embora essa segunda proposição
não seja mais que a primeira transformada?
Um autor ensina que a propriedade é um direito civil, oriundo
da ocupação e sancionado pela lei; outro sustenta que
é um direito natural, cuja fonte é o trabalho: e essas
doutrinas, por opostas que pareçam, são encorajadas, aplaudidas.
Sustento que nem o trabalho, nem a ocupação, nem a lei
podem criar a propriedade; que ela é um efeito sem causa: devo
ser recriminado por isso?
Sim, deves ser recriminado; respondem muitos juristas a Pierre Joseph
Proudhon (1809-1865) pensador francês autor do texto acima.
Dizem: Ora, a propriedade é justa, é um direito assegurado
constitucionalmente. Esquecem-se de que a lei foi feita para o homem,
e não o homem feito para a lei. As leis podem e muitas
vezes devem ser destruídas, mas os homens não podem
sacrificar a vida por uma lei. Se a Constituição ordenar
que nos matemos uns aos outros, vamos ficar assassinando nossos semelhantes
até que se abra a possibilidade de modificar a lei? A lei erra.
E o fato de a propriedade ser garantida pela Constituição
não quer dizer que seja justa.
Segundo Cícero, ninguém tem direito senão
aquilo que lhe basta: tal é a interpretação fiel
de seu famoso axioma, suum quidque cujusque sit, axioma que tem sido
tão estranhamente aplicado. O que pertence a cada um não
é o que cada um pode possuir, mas o que cada um tem o direito
de possuir. E o que temos o direito de possuir? O que baste a nosso
trabalho e consumo.
Proudhon também diz que a propriedade, segundo sua razão
etimológica e as definições da jurisprudência,
é um direito exterior a sociedade; pois é evidente que,
se os bens de cada um fossem sociais, as condições seriam
iguais pata todos e não se poderia por simples força de
lei privar pessoas de bens criados pelo trabalho humano. Os frutos do
trabalho humano são sempre criações sociais, pois
nunca se produz uma coisa de forma absolutamente isolada. O homem é
um animal social, e o fruto de seu trabalho também deve ser.
Isso não quer dizer que não se possa ter coisa alguma
individualmente; quer dizer que não se podem privar outros da
posse de bens que o proprietário não utilize.
Não é justo se ter direitos sobre o que não se
usa diretamente. Assim, os camponeses têm direito sobre a terra,
mas o dono de áreas (mesmo produtivas) não
o tem pois só as utiliza como meio de exploração
do trabalhador. Só é legítimo ter aquilo que se
usa diretamente, seja móvel ou imóvel. Neste sentido Proudhon
diz: A posse individual é a condição da vida
social; (...) A propriedade é o suicídio da sociedade.
A posse está dentro do direito; a propriedade opõe-se
ao direito. Suprimi a propriedade e conservai a posse; e, só
com essa alteração no princípio, mudareis tudo
nas leis, o governo, a economia, as instituições: expulsareis
o mal da terra. Talvez seja exagerado este otimismo de Proudhon
ao afirmar que possui a fórmula para expulsar o mal da
terra. Pois é claro que, para o advento de uma sociedade
justa, além da modificação econômica, muitas
outras coisas se fazem necessárias, tais como: uma pedagogia
libertária, uma psicologia de massas visando romper com as amarras
das ideologias autoritárias, a luta contra toda forma de dogmatismo
e dominação, seja ela econômica, religiosa, política,
ou mesmo jurídica . Mas uma coisa é fato: a opressão
não pode ser direito de ninguém.
Winter
Bastos (Niterói/RJ)
Bibliografia: Proudhon, P.J. O que é a Propriedade?
São Paulo: Editora Martins Fontes, 1988.
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