|
Libera
Nº 108
Quem
são os terroristas? O que é o terrorismo? A quem devemos
causar terror?

No
dia 11 de setembro de 2001 o mundo, chocado, viu pela CNN dois aviões
serem atirados contra um dos símbolos do capitalismo globalizado,
as Torres Gêmeas do World Trade Center (WTC), na capital mundial
oficiosa do Império Estadunidense, Nova Iorque. Mais dois aviões,
um atirado contra o Pentágono (sede do Departamento da Defesa
dos EUA) e outro que foi derrubado (ou caiu, depende da fonte) e que
tinha como destino provável a Casa Branca, puseram na ordem do
dia a chamada "Guerra contra o Terror". Diversos argumentos
foram apresentados, desde síndromes patológicas (como
as teorias lombrosianas de controle social, até hoje base do
funcionamento dos corpos policiais), projetos e processos de civilização,
defesa da "democracia de mercado" e outras bases do pensamento
de direita.
Entendemos que a polêmica, ao menos no campo da esquerda com intensões
revolucionárias, não passa pela legalidade burguesa, o
respeito à ordem do capitalismo globalizado ou qualquer outra
babaquice reformista. A discussão e o debate são o estabelecimento
de conceitos, de quais formas de luta são válidas e quais
não são. Também passam pela análise, fria
e concreta, de como funciona uma sociedade, quais seus mecanismos de
controle, e o que é preciso para destruir o controle e o domínio
da classe dominante sobre a maioria oprimida. A partir do debate sobre
a alegada "guerra contra o terror", tentaremos desenvolver
tais conceitos.
Este talvez seja o tema mais delicado e que necessita ser avaliado com
cuidado. Existe diferença entre terror seletivo (o conceito e
o método tem origem nas carbonárias e nas células
clandestinas que Bakunin coordenava) como forma de desestabilizar uma
elite, governo, infra-estrutura ou economia; ou seja, que opere como
fator auxiliar para uma luta conjunta, em distintas frentes, seja com
um objetivo de libertação nacional e/ou socialismo, do
que este terrorismo (integrista e muito parecido com o da extrema-direita)
praticado à revelia ou indiscriminadamente.
Bakunin falava de terror seletivo, e o praticava, já no século
XIX; assim como o Partido da Vontade do Povo Russo, onde militava Kropotkin.
São incontáveis as autoridades e inimigos de classe que
os anarquistas, em vários momentos da história, mandaram
para o inferno com atentados e justiçamentos. Nem sempre tudo
é perfeito e, convenhamos, nem toda operação poupa
inocentes. Mas, admitir que não é o objetivo atingir civis
ou trabalhadores que passem pelo local no momento da ação,
é diferente de ter como objetivo estratégico o pânico
generalizado contra toda uma população.
O terror indiscriminado mais se parece com bombardeios aéreos
contra alvos de um país (cidades, transportes, infra-estrutura,
indústria) ou mesmo a chamada terra arrasada, ou tapete de bombas,
como os EUA fizeram contra o território do Vietnam e do Laos
nos anos 60 e 70. Também se aplica numa intervenção
imperialista clássica, como a do mesmo EUA contra os territórios
liberados pela guerrilha de El Salvador, a Frente Farabundo Martí
de Libertação Nacional (FMLN), de 1980 a 1992. Um modo
parecido de operar era o do extinto Cartel de Medellín (máfia
popularesca do narcotráfico colombiano nos anos 80 e início
dos 90), que costumava explodir carros-bomba em jogos de futebol, durante
sua disputa contra o Cartel de Cáli (máfia aristocrática
que saiu vencedora aliando-se ao DEA, a agência anti-drogas norte-americana).
Este tipo de ação indiscriminada, de pânico generalizado,
nada tem a ver com a ação anarquista na Argentina, como
quando o grupo de ação de Severino Di Giovanni mandou
pelos ares a embaixada dos Estados Unidos (por causa do julgamento dos
companheiros Nicola Sacco e Bartolomeo Vanzetti), e pouco depois, a
embaixada da Itália fascista, nos anos 20. Estes alvos eram subordinados
à uma opção política e causa popular, e
todos estes fascínoras sabiam que eram alvos fixos e permanentes
dos grupos e organizações anarquistas. Explosão
de delegacias (como a de Santos) e de restaurantes chiques (ação
de Émile Henry em Paris), atentados contra hotéis e centros
turísticos sem vítimas (ação anti-franquista
do MIL e de outros grupos na Espanha dos anos 60 e 70) e eliminação
física do inimigo de classe. A ação mais notória
foi o justiçamento do presidente dos EUA, Mackinley, no ano de
1900, por um anarquista. Foi por causa deste companheiro que o Serviço
Secreto (subordinado ao Departamento do Tesouro) foi deslocado da caça
ao dinheiro falso para à proteção física
aos dirigentes do Império. Presidentes, parlamentares, juízes,
milicos de alta patente, banqueiros e empresários sempre foram
alvos da classe em luta. A eliminação do inimigo era um
fator a mais, apoiando a luta popular com o povo à frente do
processo. Ou seja, a luta armada defendida pelos anarquistas, tida como
um dos níveis do enfrentamento total contra a ditadura de classe
dominante e ao imperialismo, não tem correlação
com o terror indiscriminado.
Este terror (o integrista) decreta como alvos permanentes todos os naturais
dos EUA e de Israel, civis ou milicos, trabalhadores ou empresários,
autoridades ou faxineiros, pouco importa para eles. A idéia é
gerar o pânico em toda uma sociedade, sem necessariamente vincular
o medo da elite sair na rua e circular em local público como
o choque entre um povo e seu opressor. Estas ações não
tem objetivo econômico ou militar, a luta é de signos,
o símbolo de algo vai abaixo, um modelo de civilização
é combatido. A guarida e o abrigo do povo não é
(segundo este projeto) a emancipação social, mas o conforto
espiritual, a aceitação total da fé que regula
a vida social (a lei, a sharia), transcendendo à realidade, apontando
objetivos de eternidade através da luta terrena.
O terror integrista de louco não tem nada e age com bases táticas.
De uma forma inteligente, executa ações legítimas
e compreensíveis, como o ataque contra a fragata yankee no Yêmen
e o combate contra a invasão imperialista soviética no
Afeganistão (1979-1989). Por outro lado, promove a sabotagem
econômica de uma forma desumana (massacres de turistas no Egito
e no Sudão, alegando que estes são infiéis), chacina
contra civis que apoiam ou são coagidos pelo governo argelino
(o mesmo tipo de ação da contra-insurgência peruana
nos governos Alan García e Fujimori) até ações
traumatizantes como esta do WTC e do Pentágono. É importante
notar que o WTC vêm junto de um alvo legítimo, como o Pentágono;
a crítica é o uso de civis como munição.
A disputa no momento, mundialmente falando, é em duas frentes.
Uma é contra a direita, que através da mídia capitalista
tenta deslegitimar qualquer tipo de ação direta violenta
por parte do povo em luta. A outra, é na forma de combate ao
imperialismo, e não se haverá ou não combate. É
óbvio que na América Latina, a disputa na forma de combate
ao imperialismo é contra os reformistas e suas "utopias
da legalidade burguesa", mas alegações de "fantasmas
integristas" é mais um fator que impulsiona a intervenção
dos EUA em nosso continente.
Existe uma discussão mais profunda em todo este tema de terrorismo.
Pode parecer complexo ou mesmo muito ousado, mas se partirmos de um
ângulo anarquista e militante, este se torna muito simples. As
relações sociais também são relações
de força, incluindo na idéia de força todas as
suas variações. Para a maior parte dos anarquistas, não
existe contradição entre as modalidades violentas e não-violentas
de luta que elegemos como válidas, porque a compreensão
do enfrentamento contra o inimigo de classe é em todos os níveis
e planos (econômico, social, político, militar, ideológico,
cultural, social entre outros).
O que diferencia o anarquismo das demais propostas de socialismo, é
justo a idéia de processo integral de luta contra o sistema,
e não a determinação deste ou daquele nível
de poder secundário. Isto nos permite entender a estupidez da
participação eleitoral, e o absurdo de utilizarmos argumentos
de legitimação do capitalismo (como os mitos das liberdades
democráticas, a isenção da Justiça, a separação
entres os poderes de Estado, a imprensa livre e outras inverdades que
só acontecem em livros). Assim, podemos observar que se há
um feitor descendo a chibata em 40 trabalhadores escravizados, nosso
papel não é o de convencer o feitor a para de bater, ou
ainda mais ridículo, "sensibilizá-lo" para que
bata menos. Nossa função é participar da libertação
dos escravizados, por todos os meios necessários, desde que os
próprios oprimidos sejam protagonistas de sua liberdade. Se para
isto tiver de eliminar o feitor (e isto é sempre necessário,
basta compreender o que é a dominação), que assim
seja. As coisas são o que são e somente a incidência
sobre a realidade transforma a vida real.
É um momento de bastante pressão ideológica, e
algum recuo dos movimentos da virada da década, em especial as
propostas anti-globalização que hoje estão um pouco
na defensiva. Temos de ter os conceitos bem fundados, a análise
precisa e a denúncia na ponta da língua. Terrorista é
o capitalismo! A libertação popular será obra do
próprio povo, por todos os meios que considerarmos válidos
e necessários!
|topo|
PROUDHON:
"O HOMEM TERROR"

Ao
deitar olhares mesmo que sucintos sobre alguns escritos de Proudhon,
e seu ideário que aponta principalmente para a dicotomia Estado/sociedade,
centralização/federalismo, heterogestão/autogestão,
podemos observar que o Estado se constitui no campo da política
o que é o capital na economia. Ou seja, assim como o capital
se apropria das forças produtivas, apoderando-se do excedente
econômico que advém da força coletiva - produzida
pelo concurso dos indivíduos em uma fábrica por exemplo
- o Estado mascarado no discurso da ordem, na pretensa soberania popular,
apropria-se das forças políticas da sociedade, extraindo-lhe
os poderes de decisão, a autonomia, podando aos indivíduos
a sua disposição a influir nos diversos problemas sociais.
Esses apontamentos tornam-se claros quando observamos a disposição
- majoritária - na sociedade de ceder aos chamamentos à
"ordem", de abrir mão da participação
autônoma, que visa a equação dos problemas sociais,
para dar vazão a uma disposição de cunho teológico/heterogestionário
que vê nos personagens ilustres, deificados pêlos massivos
meios de comunicação e diversas entidades e siglas partidárias,
como os redentores aos quais é confiado a solução
dos problemas sociais. É pertinente lembrar que a crença
no parlamento como meio de transformação da sociedade
permitiu que Hitler chegasse ao poder, ante os olhos passivos de 6 milhões
de comunistas existentes na Alemanha. A atualização do
pacto de submissão é idéia presente no discurso
de uma tal "esquerda", que no início do século
se prestava a assassinar anarquistas, enquanto cedia ao sindicalismo
estatal, fortalecendo a tática fascista, submetendo-se ao Ministério
do Trabalho e saudando a "carteira de trabalho". O caso "Allende"
no Chile, "João Goulart" no Brasil são, entre
outros, símbolos da ineficácia e incongruência da
luta parlamentar como meio de libertação da classe explorada.
Aqui situa-se um dos pontos em que Proudhon é mais atual. Nascido
em Besançon (França) em 1809, filho de tanoeiro, autodidata,
cuja profissão de tipógrafo em muito contribuiu para a
sua formação, seria odiado por muitos, sendo considerado
"homem terror". Combatido pelo Estado, pelos proprietários,
pela Igreja, assim como pelos socialistas estatistas, encarcerado e
exilado, receberia apoio do poeta Charles Baudelaire e dos operários
- aos quais influenciaria durante décadas. Quando da revolução
de 1848 lutou junto com os operários, erguendo barricadas, discursando
nas praças e insuflando o povo.
Elogiado por Marx, que consideraria sua obra O que é a Propriedade
um verdadeiro manifesto científico do proletariado e o próprio
Proudhon "o mais célebre socialista francês"
romperia com o autor de O Capital em 1845. Longe dos epítetos
néscios de uma meia dúzia de indivíduos que se
limitam a tomar O Manifesto Comunista como livro sagrado, Proudhon é
referência a todos que se debrucem sobre os problemas sociais,
tendo como paradigma a liberdade. Num país onde se proclama que
podemos escolher "nossos" deputados e senadores, quando não
podemos escolher se iremos ou não comer no dia seguinte, a idéia
proudhoniana de que uma relação econômica de subordinação
e exploração é incompatível com o igualitarismo
político, é muito pertinente. Ao rechaçar a política
institucional, a luta parlamentar, Proudhon propugnava a luta econômica.
O seu mutualismo visava a associação por meio de livres
contratos entre diversos produtores, para a troca a preço de
custo, cabendo a organização ao Banco do Povo. Um banco
de crédito livre garantido pelos associados, que se prestaria
a ceder crédito gratuito aos pequenos produtores. Para Proudhon
as greves parciais são ineficazes, pelo fato das melhorias salariais
obtidas, serem anuladas com o contínuo aumento dos preços.
Por isso entendia que os trabalhadores tinham que se associar para garantir
a produção e distribuição das riquezas,
longe da ganância capitalista.
Ao federalismo caberia a organização da sociedade. Onde
os trabalhadores tomariam as decisões políticas e planejariam
a produção, assim como, todas as demais decisões
necessárias à vida social. No federalismo as unidades
barriais assumem a gestão política e econômica da
sociedade, formando conselhos de bairro, conselhos municipais, federando-se
uns aos outros para a solucionarem os diversos problemas. Dessa forma
extinto o Estado, a organização econômica caberia
às associações dos produtores, conselhos fabris,
sindicatos, etc. enquanto a organização política
se daria pelos conselhos municipal, sendo a todo momento destituíveis,
e exercendo funções outorgadas pelos conselhos barriais.
A prática da autogestão, da ação direta
dos operários, do federalismo, defendido por Proudhon demonstrou
suas possibilidades objetivas, entre outros momentos, na Revolução
Espanhola de 1926-39.
Ronan
(Marília/SP)
Nota: Quem quiser mais informações sobre Proudhon, visite
o site elaborado e mantido pelo companheiro Francisco Trindade, que
no dia 5 de novembro completará 1 ano. O endereço é:
http://www.franciscotrindade.com.
Recentemente, a Editora Imaginário editou o livro O Essencial
Proudhon, deste companheiro lusitano.
|topo|
SUPREMACIA
BRANCA, ESTADO E CAPITAL:
Tripé de sustentação da opressão
social latino-americana
Vivemos
em nosso país e em nosso continente, um momento extremamente
brutal e violentamente injusto. A miséria se alarga inundando
enormes contingentes de nossas populações, enquanto o
desenvolvimento e o progresso "globalizado" e neoliberal seguem
beneficiando apenas as mesmas elites que conhecemos e aprendemos há
500 anos - e diariamente - a odiar. A cada instante que passa, fica
mais clara para todos, a impossibilidade do atual ordenamento social
em garantir condições dignas de existência para
a imensa maioria da população brasileira e latino-americana.
Diante desta realidade, cabe a nós anarquistas, fazer frente
aos desafios que nosso tempo nos impõe.
Cabe a nós, realizar a urgentíssima tarefa de devolver
o anarquismo - enquanto ferramenta de libertação e não
enquanto dogma filosófico ou comportamental - ao nosso povo em
luta. Sim, a luta já está ocorrendo, está diante
de todo aquele que a vivencia ou é sensível o bastante
para enxergá-la, chega mesmo a ser palpável no cotidiano
de nosso povo, nas filas de atendimento dos hospitais públicos
de todo o país, na astúcia e perseverança dos milhões
de trabalhadores informais, nas ocupações coletivas e
espontâneas de terra, guiadas pela necessidade, e até mesmo,
e infelizmente, na curta vida do crime na qual muitos dos nossos se
atiram por desespero e/ou ilusão; curta vida que quase sempre
termina debaixo de um saco preto ou detrás das grades da masmorra
do inimigo opressor.
O grosso do nosso povo luta, mas luta da forma que sabe, da forma que
conhece, luta desorganizado e individualmente, luta muitas vezes contra
seu irmão e contra si mesmo sem saber, luta pelo inimigo. O anarquismo
historicamente sempre serviu aos povos mais oprimidos como princípio
e método de luta e organização, e sempre foi eficaz
onde se fazia entender pelo povo, onde pertencia ao povo e a mais ninguém,
onde tinha a sua cor e a sua cara, onde sentia a sua dor e seu sofrimento,
aí o anarquismo brotou, floresceu e deu frutos, mesmo tendo sido
brutalmente decepado, incinerado, dizimado, ainda faz sentir o seu aroma,
e faz suas sementes renascerem.
O nosso povo é predominantemente negro e mestiço, tem
profundas raízes fincadas em continente africano. Somos o segundo
país do mundo com maior população negra. Nossa
cultura, nossa língua, nossa alma e nossa gente - principalmente
a mais oprimida - estão repletas de África. A sociedade
e o Estado brasileiro produzem e reproduzem um racismo imundo e poderosíssimo,
sofisticado, dissimulado e covarde. O racismo brasileiro é o
racismo do totalitarismo branco, da ideologia do branqueamento, onde
o negro luta desesperadamente para se livrar de sua cultura, de sua
aparência, de sua identidade, de sua alma enfim, luta para se
tornar menos negro e se aproximar dos direitos, da dignidade e do respeito,
ou seja, luta para se aproximar da brancura dos poderosos. Pelo menos
metade do nosso povo é afro-brasileiro e negro, 70% dos indigentes
do país - indigentes que constituem um terço de nossa
população - são igualmente negros. O presidente
da república, os senadores, os juízes, os altos oficiais
das forças armadas e as estrelas da TV, no entanto, são
brancos, são euro-brasileiros, europeus em ascendência,
cultura e valores, se parecem bastante com o anarquismo que conhecemos
e produzimos no Brasil, também europeu em ascendência,
cultura e valores.
Nosso continente latino-americano é o fruto de seguidos estupros,
linchamentos e extermínios realizados pelo colonizador branco
europeu contra os povos indígenas nativos e negros seqüestrados
e aqui escravizados. A diferente mistura e proporção destes
ingredientes faz a diferença entre os nossos países. A
luta e a resistência habitam estas terras desde a chegada do colonizador.
Luta espontânea e luta organizada e revolucionária. Tivemos
grandes vitórias assim como grandes derrotas. São 500
anos de feroz opressão e brava resistência. O anarquismo,
enquanto ideologia, chegou em nossas terras, porém, há
bem menos tempo, veio da mesma terra do colonizador, mas veio através
do povo oprimido de lá, tínhamos e temos os mesmos inimigos.
O anarquismo nasceu na Europa e lá floresceu, como é princípio
e método e não dogma - diferente do marxismo - pode se
converter e se pintar da cor que quiser, pode reassumir as práticas
libertárias ancestrais da luta afro-indígena, deve se
pintar da cor de nosso povo, sentir a nossa dor, olhar por nossos olhos,
falar por nossa boca, com nossas palavras. Deve fazer isto urgentemente,
temos de fazer isto imediatamente.
Um sintoma muito claro do eurocentrismo do nosso anarquismo brasileiro
e latino-americano está na forma em como insistimos em analisar
nossa realidade. Interpretamos a nossa sociedade basicamente com os
mesmos critérios que herdamos dos companheiros do século
XIX europeu. Malatesta foi um branco italiano numa Itália branca,
Bakunin foi um branco russo numa Rússia branca, como podemos
transportar diretamente uma análise realizada por estes homens
em seus respectivos contextos sociais para nosso país multirracial
e racista e para nosso povo negro, indígena e mestiço?
O anarquismo brasileiro historicamente sempre ignorou e permanece ignorando
- juntamente com a esquerda marxista - a Supremacia Branca enquanto
pilar fundamental de sustentação do poder das elites oligárquicas
euro-brasileiras.
A Supremacia Branca latina, estadunidense e sul-africana, são
irmãs, diferem nos métodos e não na essência,
aqui não se segrega legalmente o povo negro, hierarquiza-se a
sociedade e coloca-o no último lugar, que nem tente sair de lá,
aqui o negro não foi rejeitado, permanece escravizado, humilhado,
marginalizado. Permanecemos tragicamente, fazendo coro com o discurso
da "Democracia Racial" ao afirmarmos coisas como: "o
problema do Brasil é social e não racial". Que sentido
possui esta afirmação ao constatarmos que somos um povo
majoritariamente negro, indígena, e mestiço oprimido por
uma elite dominante branca? O economicismo, muito presente na análise
social da maioria dos anarquistas brasileiros revela muito pouca sensibilidade
aos anseios e sofrimentos da porção mais oprimida de nosso
povo.
Enorme contribuição tem prestado o Movimento Zapatista
mexicano ao anarquismo latino-americano em geral. Ressaltando o aspecto
especificamente racial enquanto fundamento de seu projeto político,
os zapatista auxiliam enormemente na derrubada de toda uma estrutura
de pensamento centrada nas relações de produção
material. Apesar da radicalidade da nossa crítica ao marxismo,
construímos nossa análise e nossa política de intervenção
social, durante todo o tempo, sobre as categorias e os conceitos marxistas,
juntamente com o seu descarado eurocentrismo. Devemos estar a altura
da tarefa de pintar o anarquismo no Brasil da cor de nosso povo, no
meio dele. Devemos resgatar a memória e o ensinamento da luta
afro-popular que se desenvolve há 500 anos em nosso país.
O anarquismo precisa se tornar sensível, compreensível
e atraente para a massa popular mais oprimida de nossas terras: o povo
negro.
A Supremacia Branca, que juntamente com o Estado e o Capital perpetuam
as mesmas elites no poder desde a invasão colonial, deve ser
combatida frontalmente. A escravidão, a manutenção
do latifúndio, o impedimento aos negros de ingressarem no mercado
de "trabalho livre" (por questões especificamente racistas)
na transição entre os séculos XIX e XX, e o preconceito
racial que histórica e diariamente prejudica a população
afro-brasileira no mercado, na educação, na construção
da auto-estima e na conquista dos mais básicos direitos, atiraram
e mantém os negros e negras brasileiras nas camadas mais baixas
e mais numerosas da pirâmide social em nosso país. Devemos
construir um anarquismo militante, combativo e profundamente afro-popular.
Todo
Poder ao Povo !
Morte à Supremacia Branca ! !
Laboratório
de Estudos Libertários (Rio de Janeiro/RJ)
|topo|
JORNADAS
ANARQUISTAS CONTRA
A GLOBALIZAÇÃO CAPITALISTA
Caros companheiros e companheiras do Movimento Libertário nacional
e internacional:
A
Federação Anarquista Gaúcha (FAG) quer manifestar
através deste comunicado reflexões sobre o caráter
e os propósitos motivadores do Fórum Social Mundial (FSM),
bem como a vontade de reunir forças para coordenar uma potente
intervenção anarquista durante a semana de sua realização
em Porto Alegre, capital do Rio Grande do Sul. Esta cidade é
uma base de atuação de nossa Organização
e queremos sugerir propostas para a programação de uma
atividade que possa estar projetando aquelas idéias-força
da matriz libertária do socialismo para o público mundial.
Estima-se 100 mil pessoas que estarão circulando em função
do fórum. É certo também que essa circunstância
oferecerá possibilidades de nos somarmos a ações
de protesto que estarão em marcha nesses dias.
Vale comentar que na primeira edição do Fórum Social
Mundial (FSM.2001) a FAG, em conjunto com outras organizações
libertárias afins no Brasil, tomou uma posição
crítica ao evento. Estivemos dedicados em grande parte a tarefas
de propaganda e a coordenação de ações diretas
com outras agrupações políticas mais radicais da
esquerda. Quando foi possível, organizamos um debate num local
público em que concorreram companheiros anarquistas da Espanha
(CGT) e Uruguai (FAU), ademais dos brasileiros de outras regiões
do país. A presença de pessoas interessadas pelo tema
foi significativa. Apesar de tudo, sentimos que o contexto que cria
o FSM pode ser ocupado com mais força na perspectiva de propaganda
do anarquismo militante e dos princípios geradores do seu projeto
revolucionário. Talvez uma oportunidade mais de pautar a ideologia
anarquista como alternativa para a luta das classes oprimidas contra
a dominação capitalista e suas versões globalitárias
liberais ou estatistas. Esses são motivos que consideramos suficientes
para que façamos deste comunicado o ponto de partida de uma articulação
que resulte num acionar coletivo internacional da militância libertária.
FÓRUM SOCIAL MUNDIAL 2002: os velhos projetos de reforma
de um sistema imprestável para o povo
O Fórum Social Mundial é o produto de uma ampla articulação
de forças políticas, sociais e institucionais de todo
mundo substanciada por uma aliança de classes que inclui até
aqueles empresários capitalistas chamados "progressistas".
Esse arranjo específico de forças, que se reúne
não por acaso na cidade e no Estado do Brasil que tem tradição
de governos do Partido dos Trabalhadores (PT), segundo seus organizadores,
tem o objetivo de fazer a luta política propositiva contra o
neoliberalismo.
Em função dos evidentes sinais de esgotamento do modelo
neoliberal, os ideólogos do FSM - 2002 esforçam-se por
conseguir esta monstruosa coalisão de classes em níveis
mundiais que tem por objetivo estratégico promover um projeto
de hegemonia social-democrata mundial enquanto alternativa eficaz de
gestão do sistema, através da "nova racionalidade
administrativa".
Pela "racionalidade propositiva" que reivindica o FSM desde
seu nascimento, se reserva o critério de não promover
a ação direta popular contra as instituições
econômico-financeiras que simbolizam o exercício centralizado
do poder global. O fato é que a dinâmica conflitiva que
desatam manifestações com esses métodos poderia
pôr o governo estadual da Frente Popular em situação
crítica ao ter que dirigir o aparato policial contra seus próprios
convidados. O ano de 2002 marca a conjuntura das eleições
presidenciais do país e o Estado do Rio Grande do Sul, bem como
Porto Alegre, são espelhos do projeto de governo que pretende
apresentar a esquerda reformista. Projeto este que anula a independência
das classes oprimidas e suas organizações em função
de planos de governo, que faz uma opção estratégica
pelo alargamento da base de seus eleitores sem considerar o nível
de consciência para luta, condição indispensável
para transformar profundamente a sociedade.
A ALTERNATIVA LIBERTÁRIA: proposições para
uma intervenção anarquista internacional
Queremos fazer um convite às organizações que têm
intenção de vir a Porto Alegre de 31 janeiro a 5 de fevereiro
a se somar à programação das Jornadas Anarquistas
que pretendemos realizar. Trata-se de um evento paralelo que deve organizar
atividades de exposições, debates, teatro, música,
etc. dirigido ao público que estará circulando por aqui.
Federação
Anarquista Gaúcha
Secretariado Geral
|topo|
|