Libera Nº 108

Quem são os terroristas? O que é o terrorismo? A quem devemos causar terror?

No dia 11 de setembro de 2001 o mundo, chocado, viu pela CNN dois aviões serem atirados contra um dos símbolos do capitalismo globalizado, as Torres Gêmeas do World Trade Center (WTC), na capital mundial oficiosa do Império Estadunidense, Nova Iorque. Mais dois aviões, um atirado contra o Pentágono (sede do Departamento da Defesa dos EUA) e outro que foi derrubado (ou caiu, depende da fonte) e que tinha como destino provável a Casa Branca, puseram na ordem do dia a chamada "Guerra contra o Terror". Diversos argumentos foram apresentados, desde síndromes patológicas (como as teorias lombrosianas de controle social, até hoje base do funcionamento dos corpos policiais), projetos e processos de civilização, defesa da "democracia de mercado" e outras bases do pensamento de direita.

Entendemos que a polêmica, ao menos no campo da esquerda com intensões revolucionárias, não passa pela legalidade burguesa, o respeito à ordem do capitalismo globalizado ou qualquer outra babaquice reformista. A discussão e o debate são o estabelecimento de conceitos, de quais formas de luta são válidas e quais não são. Também passam pela análise, fria e concreta, de como funciona uma sociedade, quais seus mecanismos de controle, e o que é preciso para destruir o controle e o domínio da classe dominante sobre a maioria oprimida. A partir do debate sobre a alegada "guerra contra o terror", tentaremos desenvolver tais conceitos.

Este talvez seja o tema mais delicado e que necessita ser avaliado com cuidado. Existe diferença entre terror seletivo (o conceito e o método tem origem nas carbonárias e nas células clandestinas que Bakunin coordenava) como forma de desestabilizar uma elite, governo, infra-estrutura ou economia; ou seja, que opere como fator auxiliar para uma luta conjunta, em distintas frentes, seja com um objetivo de libertação nacional e/ou socialismo, do que este terrorismo (integrista e muito parecido com o da extrema-direita) praticado à revelia ou indiscriminadamente.

Bakunin falava de terror seletivo, e o praticava, já no século XIX; assim como o Partido da Vontade do Povo Russo, onde militava Kropotkin. São incontáveis as autoridades e inimigos de classe que os anarquistas, em vários momentos da história, mandaram para o inferno com atentados e justiçamentos. Nem sempre tudo é perfeito e, convenhamos, nem toda operação poupa inocentes. Mas, admitir que não é o objetivo atingir civis ou trabalhadores que passem pelo local no momento da ação, é diferente de ter como objetivo estratégico o pânico generalizado contra toda uma população.

O terror indiscriminado mais se parece com bombardeios aéreos contra alvos de um país (cidades, transportes, infra-estrutura, indústria) ou mesmo a chamada terra arrasada, ou tapete de bombas, como os EUA fizeram contra o território do Vietnam e do Laos nos anos 60 e 70. Também se aplica numa intervenção imperialista clássica, como a do mesmo EUA contra os territórios liberados pela guerrilha de El Salvador, a Frente Farabundo Martí de Libertação Nacional (FMLN), de 1980 a 1992. Um modo parecido de operar era o do extinto Cartel de Medellín (máfia popularesca do narcotráfico colombiano nos anos 80 e início dos 90), que costumava explodir carros-bomba em jogos de futebol, durante sua disputa contra o Cartel de Cáli (máfia aristocrática que saiu vencedora aliando-se ao DEA, a agência anti-drogas norte-americana).

Este tipo de ação indiscriminada, de pânico generalizado, nada tem a ver com a ação anarquista na Argentina, como quando o grupo de ação de Severino Di Giovanni mandou pelos ares a embaixada dos Estados Unidos (por causa do julgamento dos companheiros Nicola Sacco e Bartolomeo Vanzetti), e pouco depois, a embaixada da Itália fascista, nos anos 20. Estes alvos eram subordinados à uma opção política e causa popular, e todos estes fascínoras sabiam que eram alvos fixos e permanentes dos grupos e organizações anarquistas. Explosão de delegacias (como a de Santos) e de restaurantes chiques (ação de Émile Henry em Paris), atentados contra hotéis e centros turísticos sem vítimas (ação anti-franquista do MIL e de outros grupos na Espanha dos anos 60 e 70) e eliminação física do inimigo de classe. A ação mais notória foi o justiçamento do presidente dos EUA, Mackinley, no ano de 1900, por um anarquista. Foi por causa deste companheiro que o Serviço Secreto (subordinado ao Departamento do Tesouro) foi deslocado da caça ao dinheiro falso para à proteção física aos dirigentes do Império. Presidentes, parlamentares, juízes, milicos de alta patente, banqueiros e empresários sempre foram alvos da classe em luta. A eliminação do inimigo era um fator a mais, apoiando a luta popular com o povo à frente do processo. Ou seja, a luta armada defendida pelos anarquistas, tida como um dos níveis do enfrentamento total contra a ditadura de classe dominante e ao imperialismo, não tem correlação com o terror indiscriminado.

Este terror (o integrista) decreta como alvos permanentes todos os naturais dos EUA e de Israel, civis ou milicos, trabalhadores ou empresários, autoridades ou faxineiros, pouco importa para eles. A idéia é gerar o pânico em toda uma sociedade, sem necessariamente vincular o medo da elite sair na rua e circular em local público como o choque entre um povo e seu opressor. Estas ações não tem objetivo econômico ou militar, a luta é de signos, o símbolo de algo vai abaixo, um modelo de civilização é combatido. A guarida e o abrigo do povo não é (segundo este projeto) a emancipação social, mas o conforto espiritual, a aceitação total da fé que regula a vida social (a lei, a sharia), transcendendo à realidade, apontando objetivos de eternidade através da luta terrena.

O terror integrista de louco não tem nada e age com bases táticas. De uma forma inteligente, executa ações legítimas e compreensíveis, como o ataque contra a fragata yankee no Yêmen e o combate contra a invasão imperialista soviética no Afeganistão (1979-1989). Por outro lado, promove a sabotagem econômica de uma forma desumana (massacres de turistas no Egito e no Sudão, alegando que estes são infiéis), chacina contra civis que apoiam ou são coagidos pelo governo argelino (o mesmo tipo de ação da contra-insurgência peruana nos governos Alan García e Fujimori) até ações traumatizantes como esta do WTC e do Pentágono. É importante notar que o WTC vêm junto de um alvo legítimo, como o Pentágono; a crítica é o uso de civis como munição.

A disputa no momento, mundialmente falando, é em duas frentes. Uma é contra a direita, que através da mídia capitalista tenta deslegitimar qualquer tipo de ação direta violenta por parte do povo em luta. A outra, é na forma de combate ao imperialismo, e não se haverá ou não combate. É óbvio que na América Latina, a disputa na forma de combate ao imperialismo é contra os reformistas e suas "utopias da legalidade burguesa", mas alegações de "fantasmas integristas" é mais um fator que impulsiona a intervenção dos EUA em nosso continente.

Existe uma discussão mais profunda em todo este tema de terrorismo. Pode parecer complexo ou mesmo muito ousado, mas se partirmos de um ângulo anarquista e militante, este se torna muito simples. As relações sociais também são relações de força, incluindo na idéia de força todas as suas variações. Para a maior parte dos anarquistas, não existe contradição entre as modalidades violentas e não-violentas de luta que elegemos como válidas, porque a compreensão do enfrentamento contra o inimigo de classe é em todos os níveis e planos (econômico, social, político, militar, ideológico, cultural, social entre outros).

O que diferencia o anarquismo das demais propostas de socialismo, é justo a idéia de processo integral de luta contra o sistema, e não a determinação deste ou daquele nível de poder secundário. Isto nos permite entender a estupidez da participação eleitoral, e o absurdo de utilizarmos argumentos de legitimação do capitalismo (como os mitos das liberdades democráticas, a isenção da Justiça, a separação entres os poderes de Estado, a imprensa livre e outras inverdades que só acontecem em livros). Assim, podemos observar que se há um feitor descendo a chibata em 40 trabalhadores escravizados, nosso papel não é o de convencer o feitor a para de bater, ou ainda mais ridículo, "sensibilizá-lo" para que bata menos. Nossa função é participar da libertação dos escravizados, por todos os meios necessários, desde que os próprios oprimidos sejam protagonistas de sua liberdade. Se para isto tiver de eliminar o feitor (e isto é sempre necessário, basta compreender o que é a dominação), que assim seja. As coisas são o que são e somente a incidência sobre a realidade transforma a vida real.

É um momento de bastante pressão ideológica, e algum recuo dos movimentos da virada da década, em especial as propostas anti-globalização que hoje estão um pouco na defensiva. Temos de ter os conceitos bem fundados, a análise precisa e a denúncia na ponta da língua. Terrorista é o capitalismo! A libertação popular será obra do próprio povo, por todos os meios que considerarmos válidos e necessários!

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PROUDHON: "O HOMEM TERROR"

Ao deitar olhares mesmo que sucintos sobre alguns escritos de Proudhon, e seu ideário que aponta principalmente para a dicotomia Estado/sociedade, centralização/federalismo, heterogestão/autogestão, podemos observar que o Estado se constitui no campo da política o que é o capital na economia. Ou seja, assim como o capital se apropria das forças produtivas, apoderando-se do excedente econômico que advém da força coletiva - produzida pelo concurso dos indivíduos em uma fábrica por exemplo - o Estado mascarado no discurso da ordem, na pretensa soberania popular, apropria-se das forças políticas da sociedade, extraindo-lhe os poderes de decisão, a autonomia, podando aos indivíduos a sua disposição a influir nos diversos problemas sociais. Esses apontamentos tornam-se claros quando observamos a disposição - majoritária - na sociedade de ceder aos chamamentos à "ordem", de abrir mão da participação autônoma, que visa a equação dos problemas sociais, para dar vazão a uma disposição de cunho teológico/heterogestionário que vê nos personagens ilustres, deificados pêlos massivos meios de comunicação e diversas entidades e siglas partidárias, como os redentores aos quais é confiado a solução dos problemas sociais. É pertinente lembrar que a crença no parlamento como meio de transformação da sociedade permitiu que Hitler chegasse ao poder, ante os olhos passivos de 6 milhões de comunistas existentes na Alemanha. A atualização do pacto de submissão é idéia presente no discurso de uma tal "esquerda", que no início do século se prestava a assassinar anarquistas, enquanto cedia ao sindicalismo estatal, fortalecendo a tática fascista, submetendo-se ao Ministério do Trabalho e saudando a "carteira de trabalho". O caso "Allende" no Chile, "João Goulart" no Brasil são, entre outros, símbolos da ineficácia e incongruência da luta parlamentar como meio de libertação da classe explorada. Aqui situa-se um dos pontos em que Proudhon é mais atual. Nascido em Besançon (França) em 1809, filho de tanoeiro, autodidata, cuja profissão de tipógrafo em muito contribuiu para a sua formação, seria odiado por muitos, sendo considerado "homem terror". Combatido pelo Estado, pelos proprietários, pela Igreja, assim como pelos socialistas estatistas, encarcerado e exilado, receberia apoio do poeta Charles Baudelaire e dos operários - aos quais influenciaria durante décadas. Quando da revolução de 1848 lutou junto com os operários, erguendo barricadas, discursando nas praças e insuflando o povo.

Elogiado por Marx, que consideraria sua obra O que é a Propriedade um verdadeiro manifesto científico do proletariado e o próprio Proudhon "o mais célebre socialista francês" romperia com o autor de O Capital em 1845. Longe dos epítetos néscios de uma meia dúzia de indivíduos que se limitam a tomar O Manifesto Comunista como livro sagrado, Proudhon é referência a todos que se debrucem sobre os problemas sociais, tendo como paradigma a liberdade. Num país onde se proclama que podemos escolher "nossos" deputados e senadores, quando não podemos escolher se iremos ou não comer no dia seguinte, a idéia proudhoniana de que uma relação econômica de subordinação e exploração é incompatível com o igualitarismo político, é muito pertinente. Ao rechaçar a política institucional, a luta parlamentar, Proudhon propugnava a luta econômica.

O seu mutualismo visava a associação por meio de livres contratos entre diversos produtores, para a troca a preço de custo, cabendo a organização ao Banco do Povo. Um banco de crédito livre garantido pelos associados, que se prestaria a ceder crédito gratuito aos pequenos produtores. Para Proudhon as greves parciais são ineficazes, pelo fato das melhorias salariais obtidas, serem anuladas com o contínuo aumento dos preços. Por isso entendia que os trabalhadores tinham que se associar para garantir a produção e distribuição das riquezas, longe da ganância capitalista.

Ao federalismo caberia a organização da sociedade. Onde os trabalhadores tomariam as decisões políticas e planejariam a produção, assim como, todas as demais decisões necessárias à vida social. No federalismo as unidades barriais assumem a gestão política e econômica da sociedade, formando conselhos de bairro, conselhos municipais, federando-se uns aos outros para a solucionarem os diversos problemas. Dessa forma extinto o Estado, a organização econômica caberia às associações dos produtores, conselhos fabris, sindicatos, etc. enquanto a organização política se daria pelos conselhos municipal, sendo a todo momento destituíveis, e exercendo funções outorgadas pelos conselhos barriais. A prática da autogestão, da ação direta dos operários, do federalismo, defendido por Proudhon demonstrou suas possibilidades objetivas, entre outros momentos, na Revolução Espanhola de 1926-39.

Ronan (Marília/SP)
Nota: Quem quiser mais informações sobre Proudhon, visite o site elaborado e mantido pelo companheiro Francisco Trindade, que no dia 5 de novembro completará 1 ano. O endereço é: http://www.franciscotrindade.com. Recentemente, a Editora Imaginário editou o livro O Essencial Proudhon, deste companheiro lusitano.


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SUPREMACIA BRANCA, ESTADO E CAPITAL:
Tripé de sustentação da opressão social latino-americana

Vivemos em nosso país e em nosso continente, um momento extremamente brutal e violentamente injusto. A miséria se alarga inundando enormes contingentes de nossas populações, enquanto o desenvolvimento e o progresso "globalizado" e neoliberal seguem beneficiando apenas as mesmas elites que conhecemos e aprendemos há 500 anos - e diariamente - a odiar. A cada instante que passa, fica mais clara para todos, a impossibilidade do atual ordenamento social em garantir condições dignas de existência para a imensa maioria da população brasileira e latino-americana. Diante desta realidade, cabe a nós anarquistas, fazer frente aos desafios que nosso tempo nos impõe.

Cabe a nós, realizar a urgentíssima tarefa de devolver o anarquismo - enquanto ferramenta de libertação e não enquanto dogma filosófico ou comportamental - ao nosso povo em luta. Sim, a luta já está ocorrendo, está diante de todo aquele que a vivencia ou é sensível o bastante para enxergá-la, chega mesmo a ser palpável no cotidiano de nosso povo, nas filas de atendimento dos hospitais públicos de todo o país, na astúcia e perseverança dos milhões de trabalhadores informais, nas ocupações coletivas e espontâneas de terra, guiadas pela necessidade, e até mesmo, e infelizmente, na curta vida do crime na qual muitos dos nossos se atiram por desespero e/ou ilusão; curta vida que quase sempre termina debaixo de um saco preto ou detrás das grades da masmorra do inimigo opressor.

O grosso do nosso povo luta, mas luta da forma que sabe, da forma que conhece, luta desorganizado e individualmente, luta muitas vezes contra seu irmão e contra si mesmo sem saber, luta pelo inimigo. O anarquismo historicamente sempre serviu aos povos mais oprimidos como princípio e método de luta e organização, e sempre foi eficaz onde se fazia entender pelo povo, onde pertencia ao povo e a mais ninguém, onde tinha a sua cor e a sua cara, onde sentia a sua dor e seu sofrimento, aí o anarquismo brotou, floresceu e deu frutos, mesmo tendo sido brutalmente decepado, incinerado, dizimado, ainda faz sentir o seu aroma, e faz suas sementes renascerem.

O nosso povo é predominantemente negro e mestiço, tem profundas raízes fincadas em continente africano. Somos o segundo país do mundo com maior população negra. Nossa cultura, nossa língua, nossa alma e nossa gente - principalmente a mais oprimida - estão repletas de África. A sociedade e o Estado brasileiro produzem e reproduzem um racismo imundo e poderosíssimo, sofisticado, dissimulado e covarde. O racismo brasileiro é o racismo do totalitarismo branco, da ideologia do branqueamento, onde o negro luta desesperadamente para se livrar de sua cultura, de sua aparência, de sua identidade, de sua alma enfim, luta para se tornar menos negro e se aproximar dos direitos, da dignidade e do respeito, ou seja, luta para se aproximar da brancura dos poderosos. Pelo menos metade do nosso povo é afro-brasileiro e negro, 70% dos indigentes do país - indigentes que constituem um terço de nossa população - são igualmente negros. O presidente da república, os senadores, os juízes, os altos oficiais das forças armadas e as estrelas da TV, no entanto, são brancos, são euro-brasileiros, europeus em ascendência, cultura e valores, se parecem bastante com o anarquismo que conhecemos e produzimos no Brasil, também europeu em ascendência, cultura e valores.

Nosso continente latino-americano é o fruto de seguidos estupros, linchamentos e extermínios realizados pelo colonizador branco europeu contra os povos indígenas nativos e negros seqüestrados e aqui escravizados. A diferente mistura e proporção destes ingredientes faz a diferença entre os nossos países. A luta e a resistência habitam estas terras desde a chegada do colonizador. Luta espontânea e luta organizada e revolucionária. Tivemos grandes vitórias assim como grandes derrotas. São 500 anos de feroz opressão e brava resistência. O anarquismo, enquanto ideologia, chegou em nossas terras, porém, há bem menos tempo, veio da mesma terra do colonizador, mas veio através do povo oprimido de lá, tínhamos e temos os mesmos inimigos. O anarquismo nasceu na Europa e lá floresceu, como é princípio e método e não dogma - diferente do marxismo - pode se converter e se pintar da cor que quiser, pode reassumir as práticas libertárias ancestrais da luta afro-indígena, deve se pintar da cor de nosso povo, sentir a nossa dor, olhar por nossos olhos, falar por nossa boca, com nossas palavras. Deve fazer isto urgentemente, temos de fazer isto imediatamente.

Um sintoma muito claro do eurocentrismo do nosso anarquismo brasileiro e latino-americano está na forma em como insistimos em analisar nossa realidade. Interpretamos a nossa sociedade basicamente com os mesmos critérios que herdamos dos companheiros do século XIX europeu. Malatesta foi um branco italiano numa Itália branca, Bakunin foi um branco russo numa Rússia branca, como podemos transportar diretamente uma análise realizada por estes homens em seus respectivos contextos sociais para nosso país multirracial e racista e para nosso povo negro, indígena e mestiço? O anarquismo brasileiro historicamente sempre ignorou e permanece ignorando - juntamente com a esquerda marxista - a Supremacia Branca enquanto pilar fundamental de sustentação do poder das elites oligárquicas euro-brasileiras.

A Supremacia Branca latina, estadunidense e sul-africana, são irmãs, diferem nos métodos e não na essência, aqui não se segrega legalmente o povo negro, hierarquiza-se a sociedade e coloca-o no último lugar, que nem tente sair de lá, aqui o negro não foi rejeitado, permanece escravizado, humilhado, marginalizado. Permanecemos tragicamente, fazendo coro com o discurso da "Democracia Racial" ao afirmarmos coisas como: "o problema do Brasil é social e não racial". Que sentido possui esta afirmação ao constatarmos que somos um povo majoritariamente negro, indígena, e mestiço oprimido por uma elite dominante branca? O economicismo, muito presente na análise social da maioria dos anarquistas brasileiros revela muito pouca sensibilidade aos anseios e sofrimentos da porção mais oprimida de nosso povo.

Enorme contribuição tem prestado o Movimento Zapatista mexicano ao anarquismo latino-americano em geral. Ressaltando o aspecto especificamente racial enquanto fundamento de seu projeto político, os zapatista auxiliam enormemente na derrubada de toda uma estrutura de pensamento centrada nas relações de produção material. Apesar da radicalidade da nossa crítica ao marxismo, construímos nossa análise e nossa política de intervenção social, durante todo o tempo, sobre as categorias e os conceitos marxistas, juntamente com o seu descarado eurocentrismo. Devemos estar a altura da tarefa de pintar o anarquismo no Brasil da cor de nosso povo, no meio dele. Devemos resgatar a memória e o ensinamento da luta afro-popular que se desenvolve há 500 anos em nosso país. O anarquismo precisa se tornar sensível, compreensível e atraente para a massa popular mais oprimida de nossas terras: o povo negro.

A Supremacia Branca, que juntamente com o Estado e o Capital perpetuam as mesmas elites no poder desde a invasão colonial, deve ser combatida frontalmente. A escravidão, a manutenção do latifúndio, o impedimento aos negros de ingressarem no mercado de "trabalho livre" (por questões especificamente racistas) na transição entre os séculos XIX e XX, e o preconceito racial que histórica e diariamente prejudica a população afro-brasileira no mercado, na educação, na construção da auto-estima e na conquista dos mais básicos direitos, atiraram e mantém os negros e negras brasileiras nas camadas mais baixas e mais numerosas da pirâmide social em nosso país. Devemos construir um anarquismo militante, combativo e profundamente afro-popular.

Todo Poder ao Povo !
Morte à Supremacia Branca ! !

Laboratório de Estudos Libertários (Rio de Janeiro/RJ)

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JORNADAS ANARQUISTAS CONTRA
A GLOBALIZAÇÃO CAPITALISTA

Caros companheiros e companheiras do Movimento Libertário nacional e internacional:

A Federação Anarquista Gaúcha (FAG) quer manifestar através deste comunicado reflexões sobre o caráter e os propósitos motivadores do Fórum Social Mundial (FSM), bem como a vontade de reunir forças para coordenar uma potente intervenção anarquista durante a semana de sua realização em Porto Alegre, capital do Rio Grande do Sul. Esta cidade é uma base de atuação de nossa Organização e queremos sugerir propostas para a programação de uma atividade que possa estar projetando aquelas idéias-força da matriz libertária do socialismo para o público mundial. Estima-se 100 mil pessoas que estarão circulando em função do fórum. É certo também que essa circunstância oferecerá possibilidades de nos somarmos a ações de protesto que estarão em marcha nesses dias.

Vale comentar que na primeira edição do Fórum Social Mundial (FSM.2001) a FAG, em conjunto com outras organizações libertárias afins no Brasil, tomou uma posição crítica ao evento. Estivemos dedicados em grande parte a tarefas de propaganda e a coordenação de ações diretas com outras agrupações políticas mais radicais da esquerda. Quando foi possível, organizamos um debate num local público em que concorreram companheiros anarquistas da Espanha (CGT) e Uruguai (FAU), ademais dos brasileiros de outras regiões do país. A presença de pessoas interessadas pelo tema foi significativa. Apesar de tudo, sentimos que o contexto que cria o FSM pode ser ocupado com mais força na perspectiva de propaganda do anarquismo militante e dos princípios geradores do seu projeto revolucionário. Talvez uma oportunidade mais de pautar a ideologia anarquista como alternativa para a luta das classes oprimidas contra a dominação capitalista e suas versões globalitárias liberais ou estatistas. Esses são motivos que consideramos suficientes para que façamos deste comunicado o ponto de partida de uma articulação que resulte num acionar coletivo internacional da militância libertária.

FÓRUM SOCIAL MUNDIAL 2002: os velhos projetos de reforma de um sistema imprestável para o povo

O Fórum Social Mundial é o produto de uma ampla articulação de forças políticas, sociais e institucionais de todo mundo substanciada por uma aliança de classes que inclui até aqueles empresários capitalistas chamados "progressistas". Esse arranjo específico de forças, que se reúne não por acaso na cidade e no Estado do Brasil que tem tradição de governos do Partido dos Trabalhadores (PT), segundo seus organizadores, tem o objetivo de fazer a luta política propositiva contra o neoliberalismo.
Em função dos evidentes sinais de esgotamento do modelo neoliberal, os ideólogos do FSM - 2002 esforçam-se por conseguir esta monstruosa coalisão de classes em níveis mundiais que tem por objetivo estratégico promover um projeto de hegemonia social-democrata mundial enquanto alternativa eficaz de gestão do sistema, através da "nova racionalidade administrativa".

Pela "racionalidade propositiva" que reivindica o FSM desde seu nascimento, se reserva o critério de não promover a ação direta popular contra as instituições econômico-financeiras que simbolizam o exercício centralizado do poder global. O fato é que a dinâmica conflitiva que desatam manifestações com esses métodos poderia pôr o governo estadual da Frente Popular em situação crítica ao ter que dirigir o aparato policial contra seus próprios convidados. O ano de 2002 marca a conjuntura das eleições presidenciais do país e o Estado do Rio Grande do Sul, bem como Porto Alegre, são espelhos do projeto de governo que pretende apresentar a esquerda reformista. Projeto este que anula a independência das classes oprimidas e suas organizações em função de planos de governo, que faz uma opção estratégica pelo alargamento da base de seus eleitores sem considerar o nível de consciência para luta, condição indispensável para transformar profundamente a sociedade.

A ALTERNATIVA LIBERTÁRIA: proposições para uma intervenção anarquista internacional

Queremos fazer um convite às organizações que têm intenção de vir a Porto Alegre de 31 janeiro a 5 de fevereiro a se somar à programação das Jornadas Anarquistas que pretendemos realizar. Trata-se de um evento paralelo que deve organizar atividades de exposições, debates, teatro, música, etc. dirigido ao público que estará circulando por aqui.

Federação Anarquista Gaúcha
Secretariado Geral

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