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Libera
Nº 110
Jornadas
Anarquistas de Porto Alegre 2002
DECLARAÇÃO FINAL
Há
anos o modelo chamado neoliberal acaba com os interesses e conquistas
do nosso povo sem piedade. Um modelo inserido em um sistema de dominação
que gera cada vez mais miséria para sustentar uma minoria privilegiada.
Este é um momento em que o grande policial do mundo, o imperialismo
global norteamericano e seus sócios, aumentam as medidas repressivas
em níveis mundiais, tratando de fazer compatível com sua
monstruosa estratégia com práticas políticas e
circulação de símbolos que a justificam, como o
bombardeio que se seguiu no Afeganistão logo após o ataque
às torres gêmeas.
Carente de inimigos, o Estado americano se reestruturou a partir da
nova batalha que trava contra o "terrorismo", ideologia que
justifica uma maior intervenção nos lugares onde lhe interesse,
seja por razões políticas, ou estratégicas, ou
econômicas. Entram no mesmo bolo da "luta antiterrorismo"
intervenções militares no Iraque e acordos dos tipo "Plano
Colômbia" . Neste contexto o estado de Israel aumenta sua
política agressiva contra o combativo povo palestino. Invasão
de territórios e sangue são as consequências.
Há em diversos pontos do mundo povos que travam diversas lutas.
Nos EUA e Europa multidões ganham as ruas repudiando o neoliberalismo
e a globalização, como no caso das manifestações
com fortes episódios de combatividade em Seattle, Quebec, Davos,
Gotemburgo, Gênova.
Ao mesmo tempo, na América Latina, no marco das diferentes condições
sociais e econômicas, quase simultaneamente povos de Ecuador,
Perú, Bolivia e Argentina têm protagonizado duros enfrentamentos,
muitas vezes desesperados para romper este circuito de miséria
e brutal injustiça que os aprisiona.
Esta etapa do capitalismo deixou para trás a fórmula,
nada generosa, do Estado de Bem-Estar social. Este produziu modificações
em vários terrenos. Certas regulações foram caindo
pelo caminho e muitas conquistas vindas de diversas lutas dos povos
foram sendo atropeladas rapidamente.
O desemprego, a fome, a marginalidade, a exclusão, a super exploração,
a falta de moradia, de atenção à educação
e saúde dos pobres se constitui em realidade permanete e sem
perspectivas de mudança. Em oposição a isto, há
o aumento nunca visto da riqueza dos que têm mais, a corrupção
generalizada dos "estatutos" políticos e de certas
instituições socias como a burocracia das grandes centrais
operárias. As transnacionais, o capital financeiro foram espremendo
o país. A grande maioria dos políticos ajoelharam-se,
foram cúmplices e entregaram às transnacionais tudo o
que era rentável.
A inutilidade dos mecanismos da democracia burguesa foram sendo descobertos
pela população. Os espaços de ilusão, aqueles
que o sistema estabelece para que em seu seio se realize a participação
do povo foram percebidos como o que realmente são: dispositivos
de reprodução, manipulação e controle das
populações. A divisão de poderes para assegurar
a democracia mostrou sua verdadeira face. A justiça participou
do esquema de corrupção. Tudo o que vinha do poder, não
importa se fossem roubos descarados, estava legitimado e levavam leves
punições. O povo foi ganhando as ruas e uma certeza: só
a ação direta pode conseguir algo. Vieram os piquetes,
trancamentos de ruas, panelaços, expropriação de
supermercados, queima de instuições governamentais, Bancos
e outras sedes transnacionais. O povo na rua enfrentou o Estado de sítio
e a repressão assassina. Se generalizou o descrédito em
uma forma de fazer política, dizem as ruas: "Que vão
embora todos os políticos", "Os políticos são
mentirosos e ladrões"; "Nós temos que nos unir,
só podemos confiar em nós mesmos", "a democracia
de verdade somos nós".
A luta do povo argentino deixa uma notável lição
para nossa época: por um lado, nos ensina como é o neoliberalismo
em estado avançado, por outro, a continuidade e a possibilidade
de existir, no novo século, multidões dispostas à
luta.
Com todas as limitações que estas mobilizações
podem ter, ainda assim fica a pergunta: não estarão incubando
algo novo?"
FÓRUM SOCIAL MUNDIAL 2002
O
Fórum Social Mundial é o produto de uma ampla articulação
de forças políticas, sociais e institucionais de todo
mundo sustentada por uma aliança de classes que inclui até
aqueles empresários capitalistas chamados "progressistas".
Esse arranjo específico de forças, que se reúne
não por acaso na cidade e no Estado do Brasil que tem tradição
de governos do Partido dos Trabalhadores (PT), segundo seus organizadores,
tem o objetivo de fazer a luta política propositiva contra o
neoliberalismo. Para tanto, o projeto social-democrata precisa mostrar
que é capaz de produzir bem-estar para os setores sociais vítimas
diretas da opressão capitalista. Quer melhor propaganda desta
"capacidade" do que o capitalismo sendo gerido em nível
local por um programa social- democrata em um país periférico,
pobre e latino-americano? A referência que está se tentando
construir deste "capitalismo possível" são as
experiências dos governos de Frente Popular (de hegemonia do Partido
dos Trabalhadores - PT) no município de Porto Alegre e no Estado
do Rio grande do Sul, em consonância com outras expressões
mundiais de "gestão capitalista humanitária".
Dessa forma, criam-se novas relações internacionais em
uma Frente que quer impor um novo projeto: o neo-reformismo, que se
promove às custas da miséria do terceiro mundo das expressões
de descontentamento popular legítimas de resistência. Pela
"racionalidade propositiva" que reivindica o FSM desde seu
nascimento, se reserva o critério de não promover a ação
direta popular contra as instituições econômico-financeiras
que simbolizam o exercício centralizado do poder global. O fato
é que a dinâmica conflitiva que desatam manifestações
com esses métodos poderia pôr o governo estadual da Frente
Popular em situação crítica ao ter que dirigir
o aparato policial contra seus próprios convidados. O ano de
2002 marca a conjuntura das eleições presidenciais do
país e o Estado do Rio Grande do Sul, bem como Porto Alegre,
são espelhos do projeto de governo que pretende apresentar a
esquerda reformista.
Estas Jornadas Anarquistas serviram para marcar um divisor de águas
entre a social-democracia e seu projeto de gerenciamento do capitalismo
e o socialismo libertário, que acredita e luta no dia a dia para
fortalecer as condições para uma revolução
social e o estabelecimento de uma sociedade sem exploradores nem explorados.
Nas diferentes intervenções que houveram nestas Jornadas
vemos a necessidade de uma corrente ideológica que tenha inserção
social e proponha uma transformação e para que esta seja
coerente precisamos estar organizados. Diante da falência das
metodologias da esquerda tradicional e de seus paradigmas, é
urgente o anarquismo desenvolver novas metodologias de ação
adequadas à realidade e profundamente mergulhadas nela, fazendo
funcionar de fato a participação, a autogestão,
a ação direta e a solidariedade.
Com todas as limitações que possa ter havido, consideramos
que as Jornadas Anarquistas contra a Globalização Capitalista
de 2002 foram um êxito em participação e em conteúdo,
e o grande número de interessados no anarquismo e o grande número
de organizações e grupos anarquistas do Brasil, América
Latina e mundo que ajudaram a construir este evento e a torná-lo
mais rico nos indica que está na hora de nossa ideologia se fazer
cada vez mais concreta, propositiva e comprometida com as realidades
sociais onde vivemos.
PELO SOCIALISMO E PELA LIBERDADE!
Assinam a Declaração Final: Federação Anarquista
Gaúcha - Federação Anarquista Cabocla - Federação
Anarquista Uruguaia - Coletivo Luta Libertária - Laboratório
de Estudos Libertários - SIL (Solidariedade Internacional Libertária)
ORGANIZAÇÕES/GRUPOS QUE não puderam estar presentes
mas ENVIARAM ADESÕES às Jornadas Anarquistas:
Juventudes Libertárias (Bolívia), No Passaran (França),
Organização Comunista Libertária (França),
CELIP (Rio de Janeiro, Brasil), Coletivo Gritos de Tarija (Bolívia),
Col. Autónomo Magonista e Periódico Autonomia (México),
PO4 (Uruguai).
GRUPOS/ORGANIZAÇÕES PRESENTES:
BRASIL:
Coletivo Luta Libertária (SP), Laboratório de Estudos
Libertários (RJ), LibeLuta (SC), Coletivo Domingos Passos (RJ),
Federação Anarquista Cabocla (PA), Construção
Libertária Goiana (GO), Espaço Socialista do ABC (SP),
Mov. Autogestionário (GO), Reunião de Indiv. do Mov. Anarq.
(RS), Assoc.Cultural Quilombo Cecília (BA), Centro de Estudos
Arte e Educação Libertária (RS), Proj. Imprensa
Anarq. Verbavolant (PE), União Libertária do Maranhão
(MA), Mov. Humanista pela Cid. Pop. (RS), Guerreiros por Princípios
(RS), CCL (MG), MAP (BA).
AMÉRICA LATINA E MUNDO:
Federação Anarq. Uruguaia (UY), OSL Buenos Aires (AR),
Coletivo Libertário Sta Cruz de La Sierra (Bolívia), CUAC
(Chile), Utopia Socialista (AR), Grupo Anarq. de Córdoba (AR),
Bisagra (UY); Org.Apoyo Mutuo (Espanha), OSL (Suíça),
NEFAC (USA e Canadá), SAC (Suécia), Alternative Libertaire
(França) e CGT (Espanha), IWW (USA), CLAC (Canadá).
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Eles,
o Povo: e aí, norte-americanos?
A
impressão que se tem, desde os atentados de 11 de setembro nos
Estados Unidos, é a de existir uma enorme turvação
no cenário mundial. Não se sabe ao certo onde toda essa
confusão vai dar, por mais que políticos e militares aparentem
saber o que estão fazendo e para onde estão indo. Como
uma espécie de nebulosidade, o impacto dos fatos tende a atrapalhar
nossa compreensão dos mesmos. Contudo, se buscarmos desenvolver
uma leitura libertária deles, exercitando nossa crítica,
acreditamos que é possível retirar daí diretrizes
para a ação. Já se disse que os erros dos homens,
quando se acumulam, geram monstros, que então recebem o nome
de "destino". Mas nós todos sabemos que não
foi o destino que, por jogos caprichosos, levou o mundo a essa crise,
com todos os raciocínios sendo suplantados pela lógica
da retaliação, equipada com sofisticados recursos tecnológicos.
Tão justificada tem sido a deflagração da guerra,
como única resposta válida para esses atentados, que é
sempre necessário frisar, no caso dos mortos, feridos e traumatizados
dos Estados Unidos, que seria bestial apoiar os atos de crueldade praticados
contra essas pessoas, quaisquer que sejam as justificativas a favor
dos povos agredidos e explorados pelo Estado norte-americano, através
do mundo. Mas é óbvio também que não estamos
de acordo com as agressões do Estado ianque contra qualquer população,
hoje, no passado e no futuro. Não somos a favor da barbárie,
quanto menos com civis, pessoas alheias aos conflitos que resultaram
nestas explosões de violência.
Não caímos no maniqueísmo acomodado em que tantas
opiniões se limitam, e cujo fundo, em geral, reside no equívoco
de achar que a chacina da "luta contra o terror" seria menos
lamentável. Nós, anarquistas, não fazemos distinção
entre as vítimas, se norte-americanas, afegãs e outras,
pois, de um jeito ou de outro, os seus carrascos são servidores
do poder. Todos estes se igualam pelas práticas autoritárias,
em todas as formas que podem assumir, elas que são as grandes
patrocinadoras da violência e da desunião entre os homens.
Não caímos também na conversa do governo norte-americano,
ao se colocar como "procurador" das vítimas do World
Trade Center, do Pentágono e dos aviões seqüestrados,
para buscar vingança. No fundo, todo o povo dos Estados Unidos
vem sendo vítima do sistema de poder representado hoje por George
W. Bush; a forma de vitimá-lo é que tem sido diferente
da que se costuma fazer com povos "estrangeiros". Uma conseqüência,
e uma prova, desse fato estão na perplexidade e na falta de iniciativa
que os habitantes daquele país experimentam, com a quebra da
invulnerabilidade deste aos ataques inimigos.
Talvez a reflexão mais útil para nós, em torno
dessa crise entre imperialismo e fundamentalismo, é sobre as
perspectivas que se apresentam desse lado do mundo, e que ela hoje potencializa.
Os atos terroristas podem influir bastante para que a população
norte-americana "caia das nuvens" do indiferentismo, em relação
ao papel do "seu" Estado. É uma esperança de
se alterar esse jogo. Mas, por outro lado, no meio da fumaça
dos atentados e das retaliações, percebemos certas flatulências,
vindas dos intestinos do "mais frio dos monstros", como dizia
o velho Bakunin. È o Estado, tudo usando para aumentar o seu
poder. Portanto, para o militante que luta por um mundo melhor, é
importante observar essas nuvens que sobem, e combatê-las também,
afirmando suas convicções.
Muito antes dos fundamentalistas islâmicos e outros, o sistema
político e econômico ianque já vem vitimando a população
do "seu" país, enganando-a, dividindo-a, cooptando-a
e marginalizando-a de maiores responsabilidades de decidir seu destino.
Não esquecemos as nobres bandeiras defendidas no passado e ainda
hoje pelo povo norte-americano: os movimentos negros, gays e feministas,
o flower power, as jornadas contra a guerra do Vietnã e até,
para honra do anarquismo, a luta operária simbolizada pelos mártires
libertários de Chicago, e outras e outras. Nem desprezamos as
contribuições culturais que os Estados Unidos dão
à humanidade. Porém, não podemos perder de vista
a dominação material e espiritual de um capitalismo competitivo
e desagregador da solidariedade humana, e da disseminação
permanente de uma ideologia de superioridade nacional e étnica,
coroada pela crença num "destino manifesto" dos Estados
Unidos em face do mundo. Não é possível negar nem
deixar de lamentar a evidente alienação dessa população,
em relação aos povos que vivem fora de suas fronteiras
nacionais. O efeito moral dos atentados a Nova York e Washington em
11 de setembro prova isto: o ataque dentro de seu próprio território
foi uma ducha de água fria, sobre uma população
que parecia desconhecer a periculosidade da política que seu
governo sempre desenvolveu mundo afora. Ser atacado em tal escala e
com tal crueldade era coisa para árabes, vietnamitas e outros.
E pior: com pouca possibilidade de castigo imediato aos responsáveis.
Diante disso tudo, pode-se questionar a pouca importância que
o norte-americano "médio" demonstrava dar, até
o presente, ao fato de pertencer ao Estado que mais promove o militarismo
e a guerra.
Além desse trauma, o cidadão estadunidense provavelmente
estará sujeito a novas aflições em sua vida política.
O governo de Baby Bush empenha-se em fazer passar uma série de
leis que permitiriam, entre outras coisas, extensão dos poderes
do aparelho policial, maior controle sobre os estrangeiros em visita
ou domiciliados no país, o rastreamento de telecomunicações,
e o acesso a informações privadas dos cidadãos,
a fim de caçar terroristas e detectar preparativos de atentados.
Tudo em nome da segurança, como de hábito. O problema
maior é: depois de postas em uso essas novas prerrogativas do
Estado, elas não poderiam ser manobradas para outros fins? Por
exemplo: pressionar e constranger imigrantes indesejáveis, perseguir
ativistas políticos e outros contestadores, estender a censura,
como já se faz informalmente com as transmissões de TV,
vide a CNN.
Já se erguem vozes contrárias a esses intentos, oriundas
de movimentos de direitos civis. Observadores prevêm uma espécie
de militarização geral da sociedade norte-americana para
os próximos anos, enquanto dura a "batalha contra o terrorismo",
que talvez não seja breve. É de se temer que esse povo,
ultimamente tão habituado a ceder ao seu governo responsabilidades
cruciais, acabe por se adequar a esse novo esquema policialesco que
se anuncia, por um tempo indeterminado. É verdade, no entanto,
que há alguns anos atrás houve reações,
embora frágeis, em relação a uma política
desse tipo, do prefeito Giuliani, de "tolerância zero"
com as infrações à lei. Tal política, que
inclui uma forte vigilância e espionagem, foi sentida por muitos
como verdadeiro cerceamento das liberdades dos nova-iorquinos. Tomara
que uma resistência muito maior se levante contra o fortalecimento
desse abuso chamado Estado, num país onde já é
tão poderoso.
Está sobrando até para nós, aqui do Brasil. Atendendo
a pressões (nem precisam ser muito fortes) do governo dos EUA,
o governo brasileiro autorizou a instalação de escritórios
da CIA no país. Enquanto isso, o próprio FHC fala em ampliar
os mecanismos de inteligência do Brasil, coisa que aliás
já anda há um bom tempo, sob esse regime "democrático".
Os argumentos dessa gente parecem semelhantes, no que tange a caçar
terroristas: se eles parecem piolhos no cabelo da sociedade, deve-se
passar o pente fino. Acontece que o pente é tão duro,
tão apertado, que muitos fios acabarão arrancados também...
em nome da segurança.
Sérgio
(Rio de Janeiro/RJ)
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Meu
tipo inesquecível
O
título acima era o de uma retranca que aparecia em todas as edições
da versão brasileira de Seleções do Reader`s Digest,
uma revista que resumia matérias aparecidas na imprensa de nossos
grandes irmãos do norte, sempre com o critério de defesa
da "sifilização cristã e ocidental",
como diria o falecido Roberto das Neves. Nela alguém prestava
um depoimento, muitas vezes emocionado, sobre alguém que o havia,
pelos mais variados motivos, marcado e impressionado em sua formação.
Aproprio-me do título, uma vez que o julgo bom para descrever
exatamente isto: uma pessoa que, pelo seu modo de ser, me impressionou
profundamente, mas creio que em um sentido e em uma forma radicalmente
diferentes daqueles que seriam bem considerados pelos articulistas do
Reader`s Digest.
Aconteceu no jurássico ano de 1974. Freqüentávamos,
eu e mais alguns amigos, todos então na faixa dos seus vinte
e poucos anos, a casa de Ideal Peres no Leme onde ele e sua companheira
Ester Redes (os dois, pelo que lhes devo em termos de esclarecimento
para a construção de uma visão de mundo e de existência
mereceriam todo um outro relato), recém - saídos de sérios
problemas causados pela repressão quando do fechamento do Centro
José Oiticica, tinham a paciência de receber aqueles jovens,
talvez um tanto irreverentes para, através da leitura-pretexto
em voz alta e comentários sobre livros como a "História
das Riquezas do Homem" de Léo Huberman ou "O Medo à
Liberdade" de Erich Fromm, iniciá-los na doutrina anarquista,
sobre a qual manifestavam grande curiosidade.
Um belo dia, durante uma de nossas visitas semanais, Ideal nos falou
com entusiasmo de um companheiro de idade já avançada
e que permanecia firme dentro de nossos princípios. Contou como,
mesmo já idoso, na época do Centro de Estudos Prof. José
Oiticica, carregava sozinho equipamentos pesados para a projeção
de filmes, achando graça nos mais novos que logo se cansavam
ao executar a mesma incumbência. Disse ser este companheiro natural
de Portugal, onde nascera no interior e de onde fugira para não
servir ao exército de seu país na Primeira Guerra Mundial
(e de sua mágoa porque desde então não rever sua
mãe).
Relatou Ideal como este jovem camponês, recém-chegado ao
Brasil, foi trabalhar nas obras de uma estrada de ferro perto de Santos.
Como ali contraiu malária ou alguma outra doença e foi
parar à Santa Casa daquela cidade onde alguém o alfabetizou
e o pôs em contato com as teorias e o movimento libertário.
Disse-nos ainda como, saído do hospital, foi trabalhar nas Docas
de Santos onde se integrou completamente ao movimento dos trabalhadores
e também das agruras do proletariado santista, entregue durante
as décadas de 1910 e 1920, à sanha de chefes de polícia
truculentos como Ibrahim Nobre, jagunços da Companhia Docas de
Santos. Foi onde se inaugurou a prática de caçar trabalhadores
a laço (literalmente) e da entrega de carteiras policiais a pistoleiros
para assassinar militantes anarco-sindicalistas. Contou como esta situação
indignou os companheiros e como nosso personagem foi procurar "um
russo", segundo o Ideal, que o muniu de uma "máquina
infernal".
A cena seguinte, como foi descrita por nosso anfitrião, poderia
ser a primeira de um filme sobre o meu tipo inesquecível, que
bem o merece ele. Durante uma madrugada, pouco antes do nascer do dia,
lá se vai ele, pacote bem ajeitado debaixo do braço, pelas
ruas desertas de Santos até a casa do famigerado doutor chefe
de polícia. Ali chegando, deposita o embrulho e se retira, em
passo normal, como qualquer transeunte. A uma certa distância,
encontrando um botequim aberto, entra e pede uma média com pão
e manteiga. Passado algum tempo, ouve-se o estrondo da explosão.
Chegando á porta do estabelecimento, nosso personagem inquire
as passantes que correm em várias direções: - "o
que aconteceu ?" -"Colocaram uma bomba na casa do chefe de
polícia". - É mesmo ? - perguntou, fingindo espanto.
A década de 70 foram tempos duros para a liberdade de expressão
e pensamento e um pouco difíceis de imaginar hoje em dia pelos
mais jovens, que vivem outras facetas do mesmo velhísimo tipo
de problema (o big brother - quem diria ? - agora é liberal né
?) Uma pequena luz que se acendeu no campo internacional para os que
queriam, de imediato, pelo menos respirar, o fim do fascismo sob aquela
forma, foi a Revolução dos Cravos em Portugal, justamente
em abril daquele ano. Com a deposição da ditadura salazarenta
grande foi a alegria entre os portugueses exilados no Brasil, inclusive
os anarquistas. O professor Matos, da UFF, foi um deles e, no mesmo
ano, embarcou para Portugal, de onde voltou com material para mostrar
e distribuir aos companheiros. Foi marcada reunião para a casa
de Ideal em um domingo à noite. Para os convidados mais jovens
a expectativa tornou-se ainda maior, ao sabermos que o meu tipo inesquecível
também fora convidado e prometera comparecer.
E no domingo lá estávamos: Ideal, como sempre em sua poltrona,
Ester, o professor Mattos, pessoa que superara vários problemas
no decorrer de sua vida, como vim a saber depois, pelas informações
que este grande pioneiro e abnegado que é Edgar Rodrigues nos
transmite sempre através de seus livros, nós, os jovens,
talvez mais alguém de quem não me recorde e...meu tipo
inesquecível.
O companheiro Matos disse querer abrir sua exposição tocando
para os presentes uma fita com o coro do Teatro S. Carlos em Lisboa
cantando a Internacional. Logo ao se iniciar a execução
da música, para surpresa dos mais jovens, meu tipo inesquecível
se levantou em sinal de respeito ao que íamos ouvir. Para nós,
que engatinhávamos no assunto, levantar-se durante a execução
de um hino não parecia ser uma atitude nada "anarquista".
No entanto, pensando melhor depois, cheguei à conclusão
de que ele tinha razão em fazer o que sempre fizera em reuniões
operárias durante décadas, à época dos sindicatos
livres: identificar-se, naquele hino, como mais um guerreiro do exército
libertário, assim como milhares de outros faziam pelo mundo afora.
Logo ao término da execução da música, seu
primeiro comentário foi para nos perguntar se sabíamos
se o verso que dizia que "nossos balas são para nossos generais"
fôra suprimida na versão russa da Internacional.
Ainda no decorrer daquela noite, ao comentarmos a história do
fascismo, falou-se de como o Estado Novo estivera próximo aos
regimes nazifascistas. Meu tipo inesquecível contou então
como, no início da década de 40, ao realizar um serviço
de pedreiro em casa de um oficial de nosso glorioso exército,
este comentara com outros colegas de farda que "em caso de guerra
com a Alemanha, meus soldados não atirarão nos soldados
alemães". Na certa julgava o insígne militar, admirador
das proezas de Hitler e Mussolini, que aquele era apenas mais um "português
ignorante" que não tinha a menor idéia do que estava
sendo comentado entre os integrantes daquela "seleta" elite.
Ainda sobre a era Vargas, meu tipo inesquecível fez um comentário
sobre o movimento ocorrido em 1930 que, não sei se intencionalmente,
foi um verdadeiro comentáriosobre o que aquela pseudo-revolução
significou para o trabalhador, ao contar que ele e outro companheiro
(não me lembro bem, mas creio que o João Gonçalves)
haviam ganho um dinheirinho catando o papel picado jogado das janelas
sobre os vencedores da ocasião.
Antes de todos nos despedirmos naquela noite, Diamantino Augusto - sim,
porque é dele que estou falando e os que me lêem e o conheceram
já devem ter percebido - nos recomendou a leitura do "No
Café" de Malatesta.
Depois disso, fiquei querendo retomar o contato com ele, chegando a
adquirir um volume de Reclus em um "sebo" para lhe oferecer.
Mas este novo encontro não foi possível. Ficou a memória
de um grande lutador pela Idéia, que para mim foi sua própria
encarnação, vinda do passado como um mensageiro e uma
testemunha, ali naquela sala nos anos 70, em toda a sua força
e esperança.
Há muitas pessoas com quem mantemos contato em nossa vida cotidiana
e nos dizem pouco ou nada. Outros, pela vivência e pelo modo de
ser, nos transmitem códigos de vida de grande importância
para nossa própria caminhada. Para mim, e acredito que para todos
que o conheceram pessoalmente, Diamantino Augusto foi uma dessas pessoas.
M.
Lopes (Rio de Janeiro/RJ)
|topo|
Liberto
Sarrau, Anarquista
Havia
chovido muito nos últimos três dias, a "Cidade Luz"
capital da antiga nação gaulesa encontrava-se, no dia
13 de julho de 1999, véspera da "Queda da Bastilha",
entregue a mais completa estiagem, banhada por generosos e revigorantes
raios de sol. Eu estava já há alguns poucos minutos esperando,
na frente da CNT da Rue de La Tour d'Auvergne, o companheiro Liberto
Sarrau, veterano da Revolução Espanhola e mais um dos
exilado de Paris. Na noite anterior, como resultado de uma breve conversa
ao telefone, Liberto e sua companheira Joaquina Dorado Pita, também
ela uma militante histórica da CNT, haviam me convidado a visitar
a sede da referida Confederação. A espera não foi
longa, menos de ¼ de hora, logo estava diante de um simpático
casal de maduros companheiros que, embora não me conhecessem,
haviam tomado minhas referências por meios próprios.
A nossa conversa começou no interior de um típico café
parisiense e prolongou-se por toda à tarde, interrompida apenas
pelo almoço, na casa dos companheiros, e algumas precauções
tomadas por Joaquina com respeito à delicada saúde de
Liberto.
Falamos longamente sobre a difícil condição do
exilado, os problemas da CNT francesa com a AIT e sobre suas impressões
em relação à América Latina. Segundo Liberto,
logo após a Revolução Cubana ele, e mais alguns
companheiros, teriam visitado a ilha caribenha para uma aproximação
com a fração libertária ainda atuante. Naquele
período, início de 1960, os expurgos castristas não
haviam se iniciado e, segundo Liberto, o diálogo com Fidel já
era difícil, mas não impossível. A sua passagem
por Cuba, entretanto, teria deixado uma impressão bastante positiva
do lendário Ernesto "Che" Guevara que, em seus discursos
e em muitas atitudes, mostrava-se bastante libertário. Sarrau
afirmou ter presenciado declarações públicas de
"Che" nas quais o argentino defendia que, na revolução,
o partido trazia muito mais problemas do que soluções.
Assim se passou toda uma tarde com o homem que reunia em seu curriculum
militante a convivência com Buenaventura Durruti - Liberto mostrou-se
cético em relação ao acidente que teria provocado
a morte do lendário comandante da "Coluna de Ferro"
-, a amarga experiência de perder o pai fuzilado pelos fascistas,
as lembranças de boa parte de sua vida nos campos de concentração
na França e em prisões espanholas durante a ditadura de
Franco. Muita vida para uma única tarde de conversa.
Liberto faleceu em Paris no dia 27 de outubro de 2001, seu corpo foi
cremado e suas cinzas atiradas ao rio Cinca, na sua Espanha natal. Após
saber de sua morte, através do jornal "A Batalha" de
Lisboa, me veio a certeza de que, se outras tardes houvesse passado
com este companheiro, ainda sim seriam insuficientes para o justo resgate
de sua trajetória como anarquista.
João
Madeira
|topo|
Mais
uma vez, solidariedade
ao companheiro Tavares
Conheça
o histórico de lutas do companheiro Luiz Ernesto Tavares da Silva
no meio petroleiro
Participou do 1o Congresso da Central Única dos Trabalhadores
(CUT), fundador desta entidade em 1983. Organizou as primeiras comissões
de prevenção a acidentes na bacia petrolífera de
Campos e, reconhecidamente, foi um dos primeiros articuladores das famílias
das vítimas de acidentes, que a direção da Petrobrás
negava.
Foi o principal formulador do sindicato não-oficial dos petroleiros
da bacia de Campos, denominado SINDIPETRO NF, hoje oficial. Seus diretores
formaram-se na trajetória de lutas desse nosso companheiro. Organizou
pelo sindicato não-oficial a primeira greve com parada e controle
da produção na bacia de Campos em 1988.
Foi através da cartilha elaborada e defendida por Tavares que
realizou-se a grande greve de ocupação dos petroleiros
na gestão do saudoso Mário do Carmo do SINDIPETRO NF.
Tavares teve três demissões de cunho político nas
seguintes ocasiões: 03/03/1988, 13/06/1990 e, a última,
após ser anistiado durante o governo Itamar em 11/11/94, foi
demitido após a greve petroleira, em 16/08/95.
Mesmo demitido, Tavares atuava nos congressos petroleiros junto ao Grupo
Resistência, na luta pela reintegração dos demitidos
pelos vários governos. Destacamos a ação realizada
por esse Grupo, com o apoio de grupos anarquistas, na ocupação
por 39 dias do Edifício Sede da Petrobrás (EDISE), entre
dezembro de 1992 e janeiro de 1993, naquela que foi a primeira ocupação
de um prédio público após a ditadura militar. Tavares,
ocupante de 1a hora, foi o último a ser reintegrado no ano de
1994, após vitoriosa greve petroleira.
Reintegrado, Tavares não se acomodou e com o Grupo Resistência
defendeu a tese vitoriosa nos congressos petroleiros do item de organização
e construção da greve de ocupação com controle
da produção , perante o ataque do governo FHC. Na greve
de 1995, os petroleiros ocuparam e controlaram a produção
por vários dias. A política da greve de ocupação
avançava. Após o acordo que pôs fim a greve, dezenas
de trabalhadores foram demitidos e centenas punidos pela direção
da empresa. Tavares defendeu na plenária petroleira, com vitória,
a retomada da greve. Após a última plenária, no
dia 16/08/95, o companheiro foi mais uma vez demitido.
No final de 1996 não lhe restou alternativa senão assinar,
constrangido, um acordo, que sabia ser nefasto, mas estava em jogo sua
sobrevivência e a de sua família.
Em defesa do retorno ao trabalho do nosso companheiro Luiz Ernesto Tavares
da Silva e de todos os demitidos por perseguição política
após movimentos grevistas, solicitamos que a Federação
Única dos Petroleiros (FUP) inclua essa reivindicação
na pauta da próxima negociação com a Petrobrás.
Você também pode apoiar o companheiro Tavares, enviando
um e-mail para a FUP (fup@uol.com.br)
solicitando que a sua reintegração e a de todos/as os/as
demitidos/s por motivos políticos seja incluída na próxima
pauta de reivindicações da categoria.
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