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Libera
Nº 25
LIBERDADE
E POLITICA SEXUAL
Quanto
prazer existe no fazer cotidiano?
Negligenciamos um aspecto fundamental em nossas vidas: o prazer que
experimentamos (ou não...) em cada ação realizada
- em casa, no trabalho, com os amigos, com o filho, com o namorado ou
a companheira. Vivemos correndo atrás da sobrevivência,
cada vez mais difícil. Sacrificamos nosso ritmo, gostos e aptidões
pessoais, em nome de necessidades que agridem nossa individualidade
porque nos são impostas. Como conseqüência, perdemos
a autodisciplina, autogestão, auto-regulação -
disse Wilhelm Reich.
Reich foi um médico austríaco que sintetizou conhecimentos
de diversas áreas isoladas do saber tradicional: Medicina, Psicologia,
Ciências Sociais, Astronomia e Biofísica. Comprovou e demonstrou
experimentalmente a existência de urna energia presente nos seres
vivos (que ele chamou de energia orgônica), que flui harmonizando
as funções orgânicas e interage com o meio que os
cerca, mantendo a auto-regu1acão (capacidade dos organismos vivos
de equilibrar e regular suas funções). A auto-regulação
é o potencial orgânico de, apesar de vivermos sob diversas
influências ambientais, não sermos determinados fatalmente
por nenhuma delas, mas por nosso próprio organismo.
Quando nossas emoções e reações físicas
são bloqueadas, essa energia vital não flui, fica estagnada.
Os músculos se enrijecem perdendo a elasticidade. Formam-se assim
as couraças, que são expressões corporais das defesas
que erguemos contra a hostilidade do mundo. Estas, ao surgirem, "enrijecem"
também nossos conceitos. Reich percebeu que as couraças
limitam todos os níveis da atividade humana, impregnam o ser,
a forma de compreender o mundo e a si mesmo.
Todos nós somos, de alguma forma, encouraçados. A sociedade
em que vivemos reprime e pune a individualidade; considera a originalidade
subversiva. Existe uma necessidade de defesa presente em quase todas
as relações sociais que estabelecemos. Desenvolvemos couraças
musculares, atitudes que se tornam crônicas - muitas vezes inadequadas
e artificiais, difíceis de dissolver quando delas não
precisamos: "a máscara acaba colando no rosto". No
amor, ou entre companheiros, quando nos propomos a ser sinceros e a
agir espontaneamente, quando queremos nos entregar ao prazer, a corpo
se contrai, surge a angústia e o medo. O medo à liberdade
é uma grave conseqüência dessa rigidez ou importância
orgástica. O orgasmo sexual - a capacidade que temos de. fazer
fluir e reequilibrar a energia corporal - fica bloqueado.
Reich descreveu equivalentes orgásticos que causam efeitos semelhantes
com intensidades variáveis: gargalhar, espreguiçar, chorar
convulsivamente são formas naturais e espontâneas de flexibilizar
e soltar nossas amarras corporais. Outras formas de se libertar das
couraças são determinados trabalhos corporais, como Tai
Chi Chuan, dança afro-primitiva, capoeira, Dança Livre,
etc, que também produzem esse reequilíbrio energético.
No conjunto de sua obra, Reich enfatiza a necessidade de revolucionar
o cotidiano e de transformar as relações humanas, a fim
de evitar neuroses e doenças físicas. Baseando-se numa
concepção holista, levantou a bandeira da luta pela liberdade
sexual corno urna luta social e política.
Todos os sistemas autoritários reprimem a sexualidade desde a
infância. A família patriarcal produz cidadãos adaptados
à opressão, prontos a obedecer e servir ao Estado. Fundamenta
a interiorização de valores e normas da ideologia dominante.
Outras instituições: escola, trabalho assalariado, partido
político, igreja e caserna também servem à manutenção
do sistema.
A sexualidade se liga diretamente à agressividade, à capacidade
de ir as coisas, de fazer e acontecer. O direito de gozar e sentir prazer,
cada um do seu jeito, indiferente à moral e os costumes vigentes,
é o direito de afirmar-se, de ser, de realizar-se. De sonhar
e ser capaz de concretizar seu sonho.
Alex
Xavier
|topo|
(NOVA)
ORDEM MUNDIAL?
Os
anos 90 irromperam no horizonte com a derrubada do símbolo maior
da guerra fria, a muro de Berlim. Era o clímax de uma situação
internacional caracterizada pela interação de múltiplas
crises. Por toda parte, alienação, barbárie e miséria
são o resultado de séculos de exploração
e opressão. Mas, para cúmulo da desfaçatez, os
cães de guarda da merda capitalista entoam cânticos em
louvor ao que, triunfalisticamente, denominam Nova Ordem Mundial.
O desmoronamento do regime totalitário na ex-URSS e a emergência
da questão das nacionalidades até então sufocadas
pelo imperialismo pan-russo (czarista e bolchevique); a ruidosa aparição,
principalmente na Alemanha e na França, de urna escória
xenófoba, cuja brutalidade fascista não abala uma opinião
pública domesticada pela mídia; a desagregação
sociopolítica e a bana1ização do genocídio
na antiga Iugoslávia; e as altíssimas taxas de desemprego
entre os jovens menores de 24 anos: 21,9% na Itália, 35,8% na
Espanha, 19% na Dinamarca, 19,3% na Bélgica e 18,1% na Grã
Bretanha. São alguns exemplos do que ocorre na Europa de Maastricht.
O colapso da bipolaridade mundial, protagonizada pelos EUA e a URSS;
a formação de blocos econômicos regionais em torno
de duas potências, Japão e Alemanha; e o acirramento das
disputas comerciais através de medidas protecionistas e de guerra
cambial, configuram uma situação extraordinariamente complexa.
O teor explosivo desta é ainda maior se levarmos em conta a realidade
pós-catastrófica dos países de capitalismo tardio
e neocolonial, agrupados sob o rótulo simplista de Terceiro Mundo.
O chamado terceiro mundo não é um conceito geográfico
nem uma noção geopolítica, tampouco uma abstração
teórica, mas sim, uma realidade social presente em todas as latitudes
do planeta. Ou seja, há terceiro mundo no primeiro e primeiro
mundo no terceiro. Nos Estados Unidos da Amérikkka - modelo de
primeiro mundo - a taxa de mortalidade infantil de Washington é
mais alta do que a da Jamaica, em Los Angeles 40 mil pessoas dormem
nas ruas e, em Nova York, um negro tem menos probabilidade de alcançar
os 65 anos do que um habitante de Bangladesh. Já no Brasil, 10%
da população detém quase a metade da renda nacional,
desfrutando um nível de consumo de primeiro mundo. Aqui faltam
saneamento básico, hospitais, comida e educação,
mas não carros importados.
Alguns eventos afetaram a sistema capitalista mundial em 1992. Os inesperados
efeitos dos reajustes salariais sabre a reunificação alemã
e a contínua instabilidade financeira do Japão, entre
outros, ameaçam a credibilidade das recentes (e otimistas) previsões
do FMI, de um crescimento das importações em 5,6% dos
países industrializados, no ano de 1993.
Além disso, a falta de confiança na retornada do crescimento
dos EUA, baseado no incentivo à construção civil,
no aumento das exportações e na expansão do déficit
público. É importante salientar que este ultrapassou os
300 bilhões de dólares - ou seja, 70% superior ao de 1986,
que foi o mais elevado de toda a década de 80. Por outro lado,
a taxa (oficial) de desemprego mantém-se em torno de 7,5 %, o
que está muito longe de ser aceitável. Acresce-se que
a reestruturação industrial e as racionalizações,
no âmbito organizacional e no administrativo, reduziram ainda
mais a número de postos de trabalho. Nos primeiros cinco meses
de 1992, cerca de 300 mil empregos foram suprimidos, apenas (e sintomaticamente)
no setor bélico. A indecisão quanto aos investimentos
produtivos, somada à obsolescência do equipamento industrial,
e as altas taxas de desemprego, causa e efeito da significativa redução
do consumo doméstico, são alguns dos fatores que dificultam
a retomada da economia dos EUA.
Na Alemanha, a governo orienta sua política econômica com
vistas a concluir a anexação do setor oriental. Porém,
a concessão de reajustes salariais, inicialmente restrita aos
funcionários públicos, mas estendida para importantes
segmentos privados, tem sido interpretada coma uma evidência de
pouca disposição para melhorar a situação
dos alemães orientais. Os burocratas sindicais aliaram-se à
frações da oligarquia financeira e vêm pressionando
a governo, visando à redução da disponibilidade
de recursos para tal fim. A julgar pelos índices oficiais, as
custos da unificação têm sido excessivos, superando
a efetiva capacidade da economia alemã. Caso se mantenha a voracidade
dos agentes (lobbies) políticos, que disputam entre si a mais-valia
social, parece inevitável a deterioração do nível
de vida dos assalariados, em decorrência do aumento da inflação.
A necessidade de reduzir o déficit público que, em 1992,
foi a maior dos dez anos, impôs elevação das taxas
de juros, que atingiram a mais alto ponto desde 1945. A recessão
alemã pode inviabilizar ou retardar a unificação
européia.
A crise financeira japonesa, cujos primeiros sinais apareceram com a
queda da Bolsa de Valores de Tóquio, foi provocada por movimentos
especulativos no mercado acionário e imobiliário. Todavia,
a problema se agravou com as manipu1ações típicas
do sistema financeiro, que, após sobre-investir a economia com
baixas taxa de juro, não conseguiu obter uma "rentabilidade
satisfatória" e se viu forçado A restringir drasticamente
o crédito. O bom desempenho do setor externo (balanço
de pagamentos) não impediu a desaceleração do ritmo
de atividade que resultou do crack da Bolsa, havendo pressões
no sentido da adoção de medidas monetárias e fiscais
que beneficiem a capital financeiro.
Não obstante, a ascensão do Japão e da Alemanha,
países derrotados na segunda guerra mundial, e a desintegração
de um de seus vencedores, a ex-URSS, têm forçado os analistas
políticos, ideólogos e estrategistas do imperialismo norte-americano
a reavaliar seus prognósticos, começando por admitir que
a papel dos EUA no mundo tem que mudar. Aliás, em que pesem as
suas diferenças, as oligarquias dominantes na Alemanha e no Japão
concordam num ponto: não aceitam mais a tutela militar dos EUA
e exigem que o governo desse país reduza o ônus da crise
financeira mundial provocada pela manutenção do atual
padrão-dólar.
Nesta queda de braço geopolítica, o que está em
jogo é a tentativa de ampliar as esferas de influência,
objetivando urna nova .partilha do mundo.
A NOSSA RESPOSTA: Antes que as habituais detratores nos acusem de inércia,
eis alguns despretensiosos exemplos da prática revolucionária
dos anarquistas:
MOLDÁVIA: 2 anarco-sindicalistas (T. Burdenko e I. Hergenrearder)
têm sido detidos, sofreram agressões físicas, ameaças
de morte e foram demitidos de seus empregos par atuarem na oposição
ao governo nacionalista que se formou após a desagregação
do império grão-russo.
NIGÉRIA: 4 militantes da organização socialista
libertária Awareness League (U. Chuks, G. Audu, K. Etioni e J.
Ndubuisi) foram recentemente postos em liberdade condicional, após
quase 1 ano de prisão, em duríssimas condições,
por terem participado de manifestações populares contra
a ditadura militar.
CHILE: Foi realizado, em fins de 1991, a 10 Encontro Nacional de Anarquistas.
Ao longo de 1992, prosseguiram com entusiasmo os esforços propagandísticos
e organizativos, tendo sido publicados 6 números do periódico
Acción Libertaria, órgão do Kolectivo Anarkista
Liberacion.
ALEMANHA: Em resposta à ameaça neonazista, a movimento
libertário cresce firme e vigorosamente, reivindicando-se como
alternativa revolucionária tanto à barbárie fascista
como à hipocrisia democrática de um governo cada vez mais
autoritário, racista e patrioteira.
PARAGUAI: Durante os35 anos de ditadura, as anarco-sindicalistas desenvolveram
uma profícua atuação clandestina. Em 1989, surgiram
cerca de 70 sindicatos autônomos, sem qualquer influência
patronal ou partidária. Recentemente, esses sindicatos se federaram
na COSI e apontam, coma objetivo a curto prazo, a realização
de urna Confederação Nacional dos Trabalhadores, visando
a criar uma organização baseada nos princípios
do anarco-sindicalismo revolucionário e atenta à realidade
do país.
GRÉCIA: O Movimento Anarquista confronta-se com "governa
democrático" deste país. A Associação
dos Anarquistas em Salônica informou que a militante K Mazokotos,
vítima de uma farsa policial, foi condenado a 17 anos de prisão.
RÚSSIA: Com o fim da ditadura do PCUS, o Movimento Anarquista
cresce e a cada dia, tendo participado ativamente na resistência
ao golpe de 1991.
ESPANHA: Após o Certame Anarquista Mundial, realizado no ano
passado, organiza-se, para setembro deste ano, a Exposição
Anarquista Mundial, em Barcelona.
BRASIL: O movimento voltou a crescer nas (últimas anos, com a
reestruturação de diversos grupos e centros de cultura
libertária. Por todo o país, recriamos espaços
como locais de luta, participando dos movimentos sociais e manifestações
de rua, anti-racistas, antimilitaristas, pelo voto nulo e pela autogestão.
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