Libera Nº 37

SOBRE O VOTO

O sufrágio universal é a exibição mais ampla e refinada do charlatanismo político do Estado. Um instrumento perigoso, sem dúvida, e que exige uma grande habilidade da parte de quem o utiliza, mas que, bem manejado, é o meio mais seguro para fazer com que as massas cooperem na edificação de sua própria prisão.
Bakunin

As eleições são, para os anarqusitas, quando muito, um vasto sóciodrama dirigido, no qual a sociedade é convidada a participar, para melhor voltar, em seguida, ao trabalho.
P. J. Vidal

Há países onde o sufrágio universal existe e funciona, faz tempo. Há outros que estabeleceram, depois aboliram e restabeleceram, alternadamente, o sufrágio universal. As condições morais e materiais das massas permaneceram sempre as mesmas.
Malatesta

Por que eu votaria? Por estar convicto de que o único ato político de minha vida consistiria em colocar meu voto na urna, de tempos em tempos...? Mas isto é o contrário de um ato. Com isto, apenas revelo minha impotência ao obedecer ao poder de um partido.
Sartre

Vocês estão sendo enganados, bons eleitores. Vocês estão sendo ludibriados, eles o bajulam quando dizem que vocês são belos, que vocês são a justiça, o direito, a soberania nacional, o povo-rei, homens livres. Colhem seus votos e é tudo. Vocês nada mais são do que frutas... Bananas.
Zo d'Axa

A diferença entre democracia e ditadura é que, numa, primeiro a gente vota e depois cumpre ordens, ao passo que, na outra, não é preciso perder tempo com eleições.
Bukowiski

Só tem sentido falar de representação quando os representados controlam, efetivamente, a ação de seus representantes. Apenas nas organizações resultantes da ação direta e fundadas na revogabilidade permanente dos eleitos é possível garantir a participação e o exercício da decisão por todos, e não por uma minoria que tende a se perpetuar enquanto tal.
Lucia Bruno

Toda carga ativa das massas, prestes a explodir, é canalizada para a campanha eleitoral. Mas se esse esforço fosse empregado numa ação direta das massas, para a educação socialista - só entendemos socialismo como liberdade - em meios práticos de luta e de organização para uma vida socialista libertária, o resultado seria bem outro.
Jaime Cubero

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CARTA DO PERU II

Cuzco, 26 de abril de 1994.

... Neste momento, se divulga que o último bastião do Sendero Luminosos (SL) teria sido esmagado nos confins do rio Huallanga, afluente do rio Amazonas, zona inóspita onde está localizada a maior base do narcotráfico na América do Sul. O SL está dividido entre os fiéis ao chefe máximo, condenado à prisão perpétua, e aqueles que o rejeitam, chamando-o até de traidor, ligados aos narcotraficantes. Estes últimos, definidos por nós como "narcoterroristas bolcheviques", adquiriram armamentos modernos (inclusive mísseis), com o dinheiro das drogas mas foram surpreendidos pelo exército peruano, que os dizimou. Nessa derrota, teriam sido liberados muitos povoados que estavam sob o domínio do SL, cujas populações teriam sido obrigadas a prestar serviços, sob ameaça de morte.

A estrutura hierárquica do Sendero é igual ou pior que a do estado ditatorial peruano. O grupo maoísta representava, para as populações por ele dominadas, um estado militar dentro de outro estado. Os índios Ashaninkas, um dos últimos grupos indígenas peruanos que ainda conservam seu modo de vida, foram vítimas do SL. Muitos deles se revoltaram e tentaram combater os opressores, outros teriam fugido para o Brasil e só agora começam a voltar para as terras de seus ancestrais.

A verdade é que o exército de Fujimori aparece como vencedor e, logicamente, o ditador aproveita a ocasião para colher vantagens políticas. Nós, anarquistas, afirmamos que essa nunca foi uma "guerra popular", como tentou fazer crer o SL. Foi uma luta de "gângsters", ambos os lados foram covardes e assassinos. Nesse tipo de luta, vence quem tem superioridade estratégica, e o SL foi derrotado porque sua ditadura seria possível somente num mundo dominado por estados bolcheviques. o SL acaba vergonhosamente: delações mútuas, arrependimentos e tentativas de negociação com vistas a incorporar-se ao exército peruano. Os guerrilheiros do SL, bem treinados na arte de matar, desde já interessam ao estado, que se preocupa com o desemprego...

O SL foi derrotado tal como Nicolau II, Batista, Somoza e todos aqueles que foram abandonados pelos poderes mundiais, foi riscado do mapa. A única vítima de tudo isso foi o povo, roubado pelos ex-governantes (Allan Garcia e sua camarilha), pelo ditador Fujimori e, também, pelo SL e outros que tentaram assumir o poder em seu nome. Segundo o jornal Expresso os remanescentes do SL e os últimos guerrilheiros do MRTA (Mov. Revolucionário Tupac Amaru) lutam pelo controle da região de Junin, área de narcotráfico.

O Movimento Anarquista Peruano (MAP) sempre rechaçou as "verdades máximas" do SL. Muitos dos fujimoristas de hoje foram braços políticos do SL. Se essa gente tivesse assumido o poder, a nossa situação certamente não seria das mais invejáveis. Este pequeno relato é o que temos a oferecer para os nossos companheiros do Brasil, como testemunho de um dos menores movimentos anarquistas do mundo, o MAP, que ainda está começando.

Saudações Libertárias, MAP

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O CAMINHO DO PROJETÃO

QUANTO VALE O MEU TRABALHO? QUANTO VAMOS GANHAR NESSA PRODUÇÃO? COMO VAMOS DIVIDIR ESSE BOLO?


Estas questões marcam o desenvolvimento de um projeto gerido através dos princípios da democracia direta, sem delegação de poder. Foram discutidas, no dia 15 de abril, em reunião com todos os membros do Projetão, a casa de produção da Archipélago. Há cinco anos criando agendas, a Archipélago aprimorou o processo produtivo, a qualidade do produto e a relação interpessoal.
A pauta da reunião era clara: como distribuir os rendimentos obtidos com a distribuição das agendas? Daí nasce sua complexidade: como medir o valor do trabalho de cada um? Quais os parâmetros que orientam essa avaliação? Como equilibrar, de uma forma consensual e justa, as diferentes participações no coletivo? Cada um começou a expor seus pontos de vista e, após algumas horas, chegamos a conclusões: o trabalho de todos tem o mesmo valor/hora, independente de sua natureza ou área de atuação; é fundamental para a saúde do coletivo estruturar um mecanismo que nos oriente na divisão da remuneração.

Apareceram, então, as afinidades por ramo de atuação e as semelhanças entre as necessidades dos que trabalham no mesmo setor. Além da maior proximidade, estas pessoas fazem um trabalho de mesma natureza, convivem mais intimamente e, a partir de agora, tem metas conjuntas. Ficou claro que os diferentes setores devem agir como coletivos autônomos: ter seus orçamentos, prazos, objetivos, responsabilidades e instâncias de avaliação próprias. Esta autonomia visa desenvolver as potencialidades de cada um pois a estrutura das "ilhas" é uma miniatura da estrutura da Archipélago. Os pequenos coletivos tomam suas decisões e os impasses são levados à assembléia geral.

O lucro obtido com a produção deverá ser dividido proporcionalmente ao número de pessoas em cada área de atividade. A partir da base comum - o igual valor do trabalho/hora - está sendo definido um método de pesos que oriente a diferenciação através de critérios formulados pelo coletivo: 1) o cumprimento das metas estabelecidas; 2) o tempo de trabalho; 3) a eficiência w 4) o envolvimento pessoal/político de cada um no projeto. Com estes critérios e pesos diferenciados de acordo com a natureza da função, avalia-se o trabalho de cada unidade e de cada...

O processo de auto-avaliação e da avaliação é fundamental para a saúde das relações. É o momento em que a atividade de cada um fica exposta e por isso mesmo aparecem as resistências. Mas, passado o trauma das primeiras avaliações, esta prática limpa a comunicação e facilita o encaminhamento das soluções. Mais ainda, a experiência nos mostra que sem avaliação as relações tendem a degringolar, surgem as desconfianças e os problemas se avolumam tornando-se cada vez mais difíceis de resolver.
Talvez o maior entrave no projeto Archipélago tenha sido superar o preconceito quanto a se integrar no mercado formal, apreender suas regras e compreender as estruturas de poder que o regem. Agora, o projeto começa a discutir e experienciar novas formas de organização interna procurando descentralizar e horizontalizar sua estrutura. Começa a ser vivenciado o conceito de cidadania no projeto: cada um se apropria da noção de produtividade do projeto como um todo e se responsabiliza pelo que faz.

A criação de núcleos econômica e socialmente organizados com base em princípios libertários - onde seus participantes têm uma relação sincera e voz ativa na discussão da produção e seus rendimentos, onde cada um escolhe o que, como e quanto vai produzir - se ainda não é a nossa utopia, prepara-lhe o caminho.

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