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SOBRE O VOTO
O
sufrágio universal é a exibição mais ampla
e refinada do charlatanismo político do Estado. Um instrumento
perigoso, sem dúvida, e que exige uma grande habilidade da parte
de quem o utiliza, mas que, bem manejado, é o meio mais seguro
para fazer com que as massas cooperem na edificação de
sua própria prisão.
Bakunin
As
eleições são, para os anarqusitas, quando muito,
um vasto sóciodrama dirigido, no qual a sociedade é convidada
a participar, para melhor voltar, em seguida, ao trabalho.
P. J. Vidal
Há
países onde o sufrágio universal existe e funciona, faz
tempo. Há outros que estabeleceram, depois aboliram e restabeleceram,
alternadamente, o sufrágio universal. As condições
morais e materiais das massas permaneceram sempre as mesmas.
Malatesta
Por
que eu votaria? Por estar convicto de que o único ato político
de minha vida consistiria em colocar meu voto na urna, de tempos em
tempos...? Mas isto é o contrário de um ato. Com isto,
apenas revelo minha impotência ao obedecer ao poder de um partido.
Sartre
Vocês
estão sendo enganados, bons eleitores. Vocês estão
sendo ludibriados, eles o bajulam quando dizem que vocês são
belos, que vocês são a justiça, o direito, a soberania
nacional, o povo-rei, homens livres. Colhem seus votos e é tudo.
Vocês nada mais são do que frutas... Bananas.
Zo d'Axa
A
diferença entre democracia e ditadura é que, numa, primeiro
a gente vota e depois cumpre ordens, ao passo que, na outra, não
é preciso perder tempo com eleições.
Bukowiski
Só
tem sentido falar de representação quando os representados
controlam, efetivamente, a ação de seus representantes.
Apenas nas organizações resultantes da ação
direta e fundadas na revogabilidade permanente dos eleitos é
possível garantir a participação e o exercício
da decisão por todos, e não por uma minoria que tende
a se perpetuar enquanto tal.
Lucia Bruno
Toda
carga ativa das massas, prestes a explodir, é canalizada para
a campanha eleitoral. Mas se esse esforço fosse empregado numa
ação direta das massas, para a educação
socialista - só entendemos socialismo como liberdade - em meios
práticos de luta e de organização para uma vida
socialista libertária, o resultado seria bem outro.
Jaime Cubero
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CARTA DO PERU II
Cuzco,
26 de abril de 1994.
... Neste momento, se divulga que o último bastião do
Sendero Luminosos (SL) teria sido esmagado nos confins do rio Huallanga,
afluente do rio Amazonas, zona inóspita onde está localizada
a maior base do narcotráfico na América do Sul. O SL está
dividido entre os fiéis ao chefe máximo, condenado à
prisão perpétua, e aqueles que o rejeitam, chamando-o
até de traidor, ligados aos narcotraficantes. Estes últimos,
definidos por nós como "narcoterroristas bolcheviques",
adquiriram armamentos modernos (inclusive mísseis), com o dinheiro
das drogas mas foram surpreendidos pelo exército peruano, que
os dizimou. Nessa derrota, teriam sido liberados muitos povoados que
estavam sob o domínio do SL, cujas populações teriam
sido obrigadas a prestar serviços, sob ameaça de morte.
A estrutura hierárquica do Sendero é igual ou pior que
a do estado ditatorial peruano. O grupo maoísta representava,
para as populações por ele dominadas, um estado militar
dentro de outro estado. Os índios Ashaninkas, um dos últimos
grupos indígenas peruanos que ainda conservam seu modo de vida,
foram vítimas do SL. Muitos deles se revoltaram e tentaram combater
os opressores, outros teriam fugido para o Brasil e só agora
começam a voltar para as terras de seus ancestrais.
A verdade é que o exército de Fujimori aparece como vencedor
e, logicamente, o ditador aproveita a ocasião para colher vantagens
políticas. Nós, anarquistas, afirmamos que essa nunca
foi uma "guerra popular", como tentou fazer crer o SL. Foi
uma luta de "gângsters", ambos os lados foram covardes
e assassinos. Nesse tipo de luta, vence quem tem superioridade estratégica,
e o SL foi derrotado porque sua ditadura seria possível somente
num mundo dominado por estados bolcheviques. o SL acaba vergonhosamente:
delações mútuas, arrependimentos e tentativas de
negociação com vistas a incorporar-se ao exército
peruano. Os guerrilheiros do SL, bem treinados na arte de matar, desde
já interessam ao estado, que se preocupa com o desemprego...
O SL foi derrotado tal como Nicolau II, Batista, Somoza e todos aqueles
que foram abandonados pelos poderes mundiais, foi riscado do mapa. A
única vítima de tudo isso foi o povo, roubado pelos ex-governantes
(Allan Garcia e sua camarilha), pelo ditador Fujimori e, também,
pelo SL e outros que tentaram assumir o poder em seu nome. Segundo o
jornal Expresso os remanescentes do SL e os últimos guerrilheiros
do MRTA (Mov. Revolucionário Tupac Amaru) lutam pelo controle
da região de Junin, área de narcotráfico.
O Movimento Anarquista Peruano (MAP) sempre rechaçou as "verdades
máximas" do SL. Muitos dos fujimoristas de hoje foram braços
políticos do SL. Se essa gente tivesse assumido o poder, a nossa
situação certamente não seria das mais invejáveis.
Este pequeno relato é o que temos a oferecer para os nossos companheiros
do Brasil, como testemunho de um dos menores movimentos anarquistas
do mundo, o MAP, que ainda está começando.
Saudações Libertárias, MAP
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O CAMINHO DO PROJETÃO
QUANTO
VALE O MEU TRABALHO? QUANTO VAMOS GANHAR NESSA PRODUÇÃO?
COMO VAMOS DIVIDIR ESSE BOLO?
Estas questões marcam o desenvolvimento de um projeto gerido
através dos princípios da democracia direta, sem delegação
de poder. Foram discutidas, no dia 15 de abril, em reunião com
todos os membros do Projetão, a casa de produção
da Archipélago. Há cinco anos criando agendas, a Archipélago
aprimorou o processo produtivo, a qualidade do produto e a relação
interpessoal.
A pauta da reunião era clara: como distribuir os rendimentos
obtidos com a distribuição das agendas? Daí nasce
sua complexidade: como medir o valor do trabalho de cada um? Quais os
parâmetros que orientam essa avaliação? Como equilibrar,
de uma forma consensual e justa, as diferentes participações
no coletivo? Cada um começou a expor seus pontos de vista e,
após algumas horas, chegamos a conclusões: o trabalho
de todos tem o mesmo valor/hora, independente de sua natureza ou área
de atuação; é fundamental para a saúde do
coletivo estruturar um mecanismo que nos oriente na divisão da
remuneração.
Apareceram, então, as afinidades por ramo de atuação
e as semelhanças entre as necessidades dos que trabalham no mesmo
setor. Além da maior proximidade, estas pessoas fazem um trabalho
de mesma natureza, convivem mais intimamente e, a partir de agora, tem
metas conjuntas. Ficou claro que os diferentes setores devem agir como
coletivos autônomos: ter seus orçamentos, prazos, objetivos,
responsabilidades e instâncias de avaliação próprias.
Esta autonomia visa desenvolver as potencialidades de cada um pois a
estrutura das "ilhas" é uma miniatura da estrutura
da Archipélago. Os pequenos coletivos tomam suas decisões
e os impasses são levados à assembléia geral.
O lucro obtido com a produção deverá ser dividido
proporcionalmente ao número de pessoas em cada área de
atividade. A partir da base comum - o igual valor do trabalho/hora -
está sendo definido um método de pesos que oriente a diferenciação
através de critérios formulados pelo coletivo: 1) o cumprimento
das metas estabelecidas; 2) o tempo de trabalho; 3) a eficiência
w 4) o envolvimento pessoal/político de cada um no projeto. Com
estes critérios e pesos diferenciados de acordo com a natureza
da função, avalia-se o trabalho de cada unidade e de cada...
O processo de auto-avaliação e da avaliação
é fundamental para a saúde das relações.
É o momento em que a atividade de cada um fica exposta e por
isso mesmo aparecem as resistências. Mas, passado o trauma das
primeiras avaliações, esta prática limpa a comunicação
e facilita o encaminhamento das soluções. Mais ainda,
a experiência nos mostra que sem avaliação as relações
tendem a degringolar, surgem as desconfianças e os problemas
se avolumam tornando-se cada vez mais difíceis de resolver.
Talvez o maior entrave no projeto Archipélago tenha sido superar
o preconceito quanto a se integrar no mercado formal, apreender suas
regras e compreender as estruturas de poder que o regem. Agora, o projeto
começa a discutir e experienciar novas formas de organização
interna procurando descentralizar e horizontalizar sua estrutura. Começa
a ser vivenciado o conceito de cidadania no projeto: cada um se apropria
da noção de produtividade do projeto como um todo e se
responsabiliza pelo que faz.
A criação de núcleos econômica e socialmente
organizados com base em princípios libertários - onde
seus participantes têm uma relação sincera e voz
ativa na discussão da produção e seus rendimentos,
onde cada um escolhe o que, como e quanto vai produzir - se ainda não
é a nossa utopia, prepara-lhe o caminho.
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