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INCOMODOU... MORREU!!!
Há
um ano, na madrugada do dia 23 de julho, oito menores de rua foram assassinados
por um esquadrão da morte composto por policiais civis e militares.
A chacina da Candelária expôs, de modo brutal, o sistemático
extermínio de menores "socialmente indesejáveis".
Vale recordar que nos dois anos e meio anteriores ao massacre, mais
de 1200 menores foram assassinados só na região do Grande
Rio.
Pouco mais de um mês depois, na madrugada do dia 30 de agosto,
cerca de 50 homens mascarados e fortemente armados invadiram a favela
de Vigário Geral e chacinaram 21 moradores. A cena dantesca dos
cadáveres lado a lado, os rostos desfigurados e os gestos congelados
no instante de sofrimento e horror, chocou "quase" todo mundo.
Também vale recordar que na primeira quinzena deste mesmo mês
de agosto, 18 índios Ianomami foram massacrados por garimpeiros
nas selvas da fronteira Brasil-Venezuela.
O Brasil (principalmente o Rio de Janeiro) ganhava as manchetes de todos
os jornais do mundo: O País dos Massacres! A pressão internacional,
dos movimentos sociais e da imprensa encurralou os governantes e fez,
surpreendentemente, as investigações avançarem.
Pouco tempo depois, 20 policiais civis e militares estavam presos por
envolvimento na chacina da Candelária. A apuração
do massacre de Vigário Geral levou à descoberta do famigerado
grupo de extermínio dos "Cavalos Corredores". Esse
esquadrão da morte, formado basicamente por policiais e informantes,
surgiu dentro do 9º Batalhão da PM, então comandando
pelo deputado estadual, coronel Emir Larangeira. Laudos de exames de
balística, recentemente divulgados, comprovaram que uma mesma
arma foi utilizada nos dois massacres. Era a primeira prova que permitia
relacionar os dois crimes.
Dizíamos no Libera...nº28 (set/93): "Os policiais que
assassinaram as crianças talvez sejam "exemplarmente"
punidos (...) Mas, do que adiantará essa punição,
se a estrutura permanecerá imutável?". E, sem dúvida
nenhuma, assim permanece. Algumas dezenas de policias envolvidos em
massacres são presos, se bem que num regime que mais se assemelha
ao de uma colônia de férias.
Os grupos de extermínio continuam agindo, sem se importar com
a retirada provisória de parte de seus efetivos.
Os números são estarrecedores:
Em São Paulo, só este ano, mais de 1700 pessoas foram
assassinadas na Região Metropolitana, numa média diária
de 18 mortes. Em junho, famílias inteiras foram chacinadas pelos
conhecidos "justiceiros". Dia 12, foram assassinados em sua
casa, os sindicalistas José e Rosa Sunberman. Ambos pertenciam
ao Partido Socialista dos Trabalhadores Unificado (PSTU), à Central
Única dos Trabalhadores (CUT) e atuavam no sindicato dos funcionários
da Universidade Federal de São Carlos, bem como na organização
dos bóias-frias das grandes plantações de cana
e laranja da região.
Nesse mesmo dia a violência atingiu quatro ativistas de movimentos
sociais. Não que isto seja novidade, pois no campo, centenas
de lideranças do movimento dos sem-terra e camponês foram
eliminadas nos últimos anos, bem como dezenas de ativistas de
associações de favelas foram mortos no Rio nos últimos
quatro anos.
No Rio, na madrugada do dia 13, foram assassinados no bairro da Piedade,
os militantes do Movimento Negro Unificado e do PT, Hermógenes
de Almeida Filho e Reinaldo Guedes Miranda. Ambos investigavam as chacinas
da Candelária e de Vigário Geral, na condição
de assessores da vereadora Jurema Batista, presidente do PT no Estado
e da Comissão de Direitos Humanos da Câmara.
Parece óbvio, mas não é demais insistir na constatação
de que a violência social é intrínseca ao sistema
capitalista, e só terá fim com a supressão radical
de suas causas. Neste momento de perplexidade e refluxo dos movimentos
sociais, queremos fazer um chamamento à unidade de ação
para barrar o processo de fascistização em marcha neste
país.
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SEM FRONTEIRAS
CONTESTANDO
EQUÍVOCOS SOBRE A FORMAÇÃO DA FAI
E OUTROS EVENTOS ANARQUSITAS
Com
um cacoete patriótico, muitos anarquistas conhecidos na imprensa
libertária insistem nessa atitude contraditória: "não
sabem" da existência dos movimentos e dos militantes ácratas
que se expressam em língua portuguesa, no Brasil e em Portugal.
Quase todos ignoram o que os militantes desses países fizeram
e fazem, de seu esforço para divulgar o anarquismo; não
traduzem suas obras e raramente noticiam seus eventos. Até a
Enciclopédia Anarquista os ignorou. O fato é que os historiadores
da Federação Anarquista Ibérica (FAI) esqueceram
suas origens: onde nasceu, quem teve a idéia de sua formação,
traçou suas linhas mestras e seu programa e objetivo de associar
o movimento libertário de Portugal e Espanha numa federação(1).
A colaboração ideológica e cultural anarquista
na península Ibérica começou, em 1872, com a ida
de arquivos da seção espanhola da AIT para Lisboa e reuniões
de ativistas dos dois países. Vários congressos foram
realizados, entre eles o de Ferrol, contra a guerra em 1916, com a presença
de delegados portugueses e brasileiros.
A FAI foi idealizada e proposta pelo sindicalista português Manuel
Joaquim de Sousa(2) durante a Conferência das Organizações
Operárias de Portugal e Espanha, realizada em Évora, em
1923. Na ocasião, representaram a CNT: Manuel Perez (espanhol
que se tornou anarquista no Brasil, onde chegara criança, e expulso
em 1919 com mais 30 companheiros pelo governo de Epitácio Pessoa),
J. Ferrer Alvarado e Sebastian Clará; e pela CGT portuguesa:
Manuel J. de Sousa e José da Silva Santos Aranha. Foi então
que Manuel J. de Sousa propôs a unificação do movimento
confederal, a fim de que os anarquistas ibéricos criassem um
poderoso bloco de resistência às ditaduras que dificultavam
o avanço do anarquismo, nessa época em ascensão.
Em maio de 1926, Manuel J. de Sousa, representando a CGT no Congresso
de Marselha, e Manuel Perez como delegado da União Anarquista
Portuguesa (UAP), voltaram a apresentar o projeto para a criação
da FAI. Neste evento, compareceram 30 delegados de grupos franceses,
espanhóis, da AIT e, pela União Sindical Italiana, Armando
Borghi. Foram debatidos, também, a reorganização
dos anarquistas em Portugal e Espanha; o não-reconhecimento da
chamada Aliança Revolucionária, que preconizava ligações
com políticos; o fortalecimento do Comitê Pró-Presos,
etc. O projeto que "sacramentou e deu vida" à FAI tinha
a seguinte redação: "1º) O congresso concorda
em constituir a FAI, comunicando esta resolução a UAP;
2º) Que dada a situação anormal da Espanha, o comitê
relacionador resida em Lisboa; 3º) Que fica a sua constituição
a cargo da UAP, podendo esta solicitar apoio e colaboração
dos anarquistas espanhóis residentes naquela localidade; 4º)
Que o dito comitê convoque, quando ache oportuno, um congresso
ibérico, que dê caráter definitivo a dita federação;
5º) Que seja provisório o dito comitê, enquanto não
se realiza o congresso; 6º) Que se consultem os anarquistas espanhóis
para dar efetividade a estas resoluções". Ainda se
deliberou que, ao congresso da UAP, iria um delegado representando o
movimento dos anarquistas espanhóis(3).
Em 28/05/1926, poucos dias depois de aprovada a formação
da FAI, um golpe militar em Portugal obrigou os anarquistas portugueses
a transferir o congresso, programado para 20/06/1926, de Lisboa para
Valência, onde foi realizado clandestinamente a 25/07/1927. Compareceram
ao evento os delegados portugueses Francisco Nobrega do Quintal, então
secretário da UAP, e Germinal de Sousa, filho de Manuel J. de
Sousa, que acabou sendo indicado como secretário da FAI. Nos
dias 30 1 31/10/1931, delegados anarquistas portugueses participaram
do Pleno Nacional de Regionais, em Madri. No pleno da FAI, de Madri,
em 1936, estiveram presentes vários membros da Federação
Anarquista Portuguesa, então exilados. Os libertários
portugueses realizaram um pleno clandestino, em 1937, para traçar
uma estratégia de ajuda à CNT/FAI (na qual lutavam Germinal
de Sousa, José Rodrigues Reboredo, I. Câmara, Vivaldo Fagundes
e tantos outros lusitanos), provocando uma série de atentados
à bomba para dificultar o envio de ajuda de Salazar às
tropas de Franco, organizando, inclusive, uma ação direta
contra a vida do ditador português, que resultou em inúmeras
prisões. Muitos anarquistas portugueses morreram lutando na Revolução
Espanhola, outros passaram longos anos no exílio ou foram parar
na hedionda prisão do Tarrafal. Poucos anarquistas espanhóis
sabem que a FAI é uma entidade que, pelo seu nome e sua origem,
engloba Portugal e Espanha. Não é sem razão que
pessoas com idéias libertárias já me perguntaram:
Confederação Nacional do Trabalho? Por que Nacional?
Edgar Rodrigues
Notas:
(1) Está na hora de aclarar omissões que chegam a se mostrar
discriminatórias. O anarquismo como filosofia de vida que eu
conheço não aceita o patriotismo, xenofobia e/ou outros
tipos de comportamento que dividam seus militantes por idiomas, etnias
e por países.
(2) Manuel Joaquim de Sousa, autor e primeiro defensor do projeto da
FAI, foi um dos mais ativos e cultos militantes portugueses, e autor
de livros valiosos, como O Sindicalismo em Portugal.
(3) Em 1926, os anarquistas espanhóis para escapar às
perseguições em seu país, andavam espalhados pela
Europa e pela América. Para entender melhor essa fase do anarquismo
na Espanha e a verdadeira origem da FAI, é preciso ler as memórias
inéditas de Manuel Perez e o jornal O Anarquista (Lisboa, 20/06/1926).
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