Libera Nº 39

O PLANO REAL E A REALIDADE
(AQUÉM E ALÉM) DO PLANO

No Brasil, a história desmente Marx. Ou melhor, ultrapassa de longe sua demolidora ironia. Não contente em repetir como farsa a tragédia, a história se reprisa despudoradamente e representa a mesma farsa, de tempos em tempos. Um bom exemplo atual é o plano - que os marqueteiros do governo batizaram de Real - que difere essencialmente dos anteriores, porque tem o mesmo objetivo: reduzir os salários e aumentar os lucros do capital, sob o pretexto de combater a inflação. Neste sentido, apesar da tagarelice pseudocrítica e reformista dos partidos de esquerda, todos os planos deram certo e o atual já está dando...
A pajelança tecnocrática neoliberal, que os governantes de turno apresentam como panacéia, fundamenta-se em alguns pressupostos "teóricos", quais sejam:

1) da inércia inflacionária, que considera a perpetuação dos altos índices conseqüência da reação dos agentes econômicos, que reajustam seus preços com base na inflação passada;

2) da hiperinflação, em que a aceleração e intensificação dos reajustes, combinados com a utilização de uma âncora cambial (o dólar travestido de URV e agora fantasiado de Real), possibilitam o alinhamento dos preços relativos e a estabilidade monetária;
3) do déficit fiscal do governo, cujo financiamento alimenta a inflação por exigir constantes emissões de moeda e/ou títulos com taxas de juros cada vez mais altas...

O ridículo de tais afirmações dispensa comentários. A realidade, aquém e além do plano, é a seguinte: são 10 milhões de desempregados e 32 milhões de indigentes; a economia cresceu 5%, em 1993 (o aumento da produção industrial foi de 11%!), mas o salário mínimo equivale a 64,79 dólares. O deliberado sucateamento da rede de serviços públicos (escolas, hospitais, obras de infra-estrutura por fazer ou abandonadas, saneamento básico etc.) tem contribuído para agravar a miserabilidade do enorme contingente de excluídos, os párias do capitalismo, cuja situação é de calamidade permanente.

Do ponto de vista da recomposição da hegemonia do capital, o plano econômico está cumprindo seus objetivos. A questão é saber se terá fôlego para manter-se até pouco depois das eleições e/ou se conseguirá fazer do candidato preferencial da burguesia o novo presidente desta sereníssima e imperial república. Se isto acontecer, o transformismo continuará prevalecendo, pois a história mais uma vez se repetirá e, zombando de nossa paciência, a comédia de 1994 terá suplantado a farsa de 1989. Então, teremos que suportar por quatro anos o ex-marxista e neoliberal reciclado Fernando Henrique Cardoso ou Fernando II, o camaleão.

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RECORDANDO SALVADOR PUIG ANTICH

No dia 2 de março passado, cumpriram-se 20 anos da execução no garrote vil, do militante revolucionário e fundador do Movimento Ibérico de Libertação (MIL), Salvador Puig Antich.

Atualmente, quando a burguesia tenta se apropriar de todas as lutas ocorridas durante o regime franquista (1939-1974), apresentando-as como algo exótico e próprio de "outros tempos", ou procura conferir-lhes um caráter de "luta pela democracia e pelas liberdades", é válido recordar Puig Antich e sua experiência revolucionária. No início dos anos 70, uma época marcada pelo auge das lutas operárias de caráter autônomo e autogestionário, foi criado o MIL.

Puig Antich tinha 25 anos quando foi preso. Havia participado das comissões operárias de bairros e empresas, as quais foram o núcleo de onde vieram praticamente todos os membros do MIL.

O MIL foi o primeiro grupo armado a, durante a ditadura franquista, desenvolver uma prática e um programa anticapitalistas. Contrariamente à análise que faziam outros grupos que se engajavam em uma mera resistência anti-facista (FRAP, PCI etc.), o MIL considerava a ditadura militar franquista como uma forma a mais que o capitalismo adotava para defender seus interesses. Portanto, o MIL centrava seus ataques nos símbolos mais genuínos do capital: os bancos. As expropriações dos bancos, além de serem ataques aos centros do capitalismo, possibilitavam o apoio econômico a greves, movimentos sociais e publicação de material teórico.

A prática do MIL foi inovadora, anti-dirigista e contrária a qualquer concepção vanguardista. Aqui se vê uma conexão clara do MIL com as experiências de luta dos antigos grupos de combate anarquistas, com sua estrutura interna e sua relação com o resto do movimento. O grupo acabou se autodissolvendo em 1973, por considerar totalmente fracassada sua ação destinada a propagar e ampliar a auto-organização armada dos trabalhadores, e ter constatado que estavam cada vez mais isolados.

Com respeito às referências teóricas do MIL e apesar das tentativas de enquadrar o grupo em esquemas ideológicos fechados, é facilmente demonstrável que o MIL nunca se definiu dentro de nenhuma ideologia estrita. O grupo sempre criticou todas as idéias dos que defendiam uma atuação exterior à ação direta, à prática luta de classes e que degeneravam em um burocratismo estéril e contra-revolucionário. Em suas publicações, são encontrados escritos de representantes do marxismo conselhista, como Pannekoek; de ex-trotskistas e anti-leninistas como Ciliga, Bazals e Cardan; de pensadores anarquistas mais coerentes que participaram da Guerra Civil, como Camilo Berneri; e também de autores ligados à Internacional Situacionista e ao maio de 68. Através dessas referências, pode-se notar o caráter totalmente antidogmático do MIL e como se preocupavam em levar aos operários escritos que tornassem possível o debate e a confrontação dialética. Jamais preconizaram uma teoria que resolvesse todos os problemas organizativos e práticos da luta de classes. Ao contrário, uma constante na curta história do MIL foi a crítica radical à concepção leninista de organização, de partido e de sindicato; à participação institucional, aos desvios militaristas e burocráticos. O grupo lutou por uma democracia direta total e pela auto-organização de classe sem nenhuma ingerência exterior.
O MIL não restringia sua crítica e sua ação ao conflito dentro das fábricas, mas levava-as a todos os aspectos da vida cotidiana, invadida pelas relações capitalistas. Rechaçavam totalmente a alienação consumista sendo, neste ponto, contemporâneos a outros movimentos de países como a Itália, França e Alemanha.

Ainda que, tanto Puig Antich, como a maioria dos ativistas do MIL atuassem no movimento operário, jamais poderão ser acusados de obreirismo que, na época, era característica da maioria das organizações e grupúsculos de esquerda.

Neste vigésimo aniversário da execução de Salvador Puig Antich, sua ação e a do MIL devem ser recordadas para evitar que os "democratas" recuperem essa luta em benefício próprio. Se Antich ainda vivesse, provavelmente não distinguiria entre o que foi o franquismo e o que é a social-democracia. Veria como a ditadura do capital segue exercendo seu poder implacável sobre os trabalhadores e como, ainda que modificadas as formas, os fundamentos seguem sendo os mesmos.

Adolfo (Gijón/Espanha)
Texto publicado no jornal CNT (março de 1994), traduzido pelo Coletivo de Tradução do CEL.


* Nota da CNT:
Poucos se recordam que no mesmo dia em que foi executado Puig Antich, a ditadura espanhola assassinava, através do mesmo método outro libertário: Heinz Chez, simpatizante da CNT. Nascido na Polônia, Chez fugiu deste país, perseguido pela polícia stalinista, e foi trabalhar na Espanha como marinheiro. O governo "socialista" polonês não moveu um dedo para salvar-lhe a vida, alegando que não mantinha relações diplomáticas com a ditadura franquista.

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