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Libera
Nº 40
TANQUES
MORRO ACIMA, LIBERDADES
MORRO ABAIXO!!
Nos
últimos meses, com a crescente violência no Rio, vem se
falando e escrevendo cada vez mais sobre uma "solução
final "para isso: a intervenção do Exército
nas áreas controladas pelo tráfico de drogas. Com as eleições
chegando, então, os candidatos de todos os partidos vêm
apoiando ardorosamente essa proposta ou, simplesmente, não indo
de encontro a ela, de modod a não desagradar a opinião
pública.
No dia 13 de agosto, pela manhã, amparados por um mandato de
busca e apreensão expedido pela "Justiça Militar",
cerca de 400 soldados do Exército ocuparam as favelas do Fubá,
de São José Operário e de Campinho, no bairro de
Cascadura. A operação, que supostamente visava à
recuperação de armas roubadas de um quartel por traficantes
dessas favelas, durou 30 horas e envolveu até um tanque de guerra.
Alguns moradores declararam-se satisfeitos pois: "depois de muito
tempo, pudemos dormir tranqüilamente, sem tiroteios e nem correrias".
As populações faveladas da cidade vivem acuadas e aterrorizadas
por, de um lado, o poder e o controle exercido pelos traficantes e,
do outro, a violência e o extermínio vindo da polícia/esquadrões
da morte. O crescimento das facções criminosas ligadas
ao narcotráfico, a partir do início da década de
80, e o controle das comunidades pobres por elas, subdividiu o Rio em
centenas de "pequenos estados ditatoriais", onde reina a violência,
a intimidação, a lei do silêncio, o controle e,
até mesmo, o assistencialismo. Locais onde o estado, representado
pelo governo federal, estadual ou municipal, só "dá
as caras" nas eleições ou através da polícia,
atirando a esmo, foram dominados por outra forma de "estado",
tão ou mais violento e, certamente, muito mais atuante.
Os trabalhadores e trabalhadoras que vivem nessas comunidades: operários,
domésticas, camelôs, donas-de-casa vêem, impotentes,
seus filhos serem recrutados pelo tráfico de drogas, que lhes
oferece rendimentos diários que vão de R$20,00 para um
"olheiro", até cerca de R$100,00 para um "soldado".
Criou-se, principalmente através da chamada grande imprensa,
um estado de terror permanente em relação ao crime organizado,
como se os responsáveis por tudo fossem os traficantes entocados
nas favelas. Ora! Vamos à raiz do problema! Os "comandos
vermelhos da vida" são apenas a feição mais
direta e cotidiana de um grande esquema capitalista. Os traficantes
nas favelas são somente os "varejistas", utilizados
como "bucha de canhão "pelos grandes tubarões
do tráfico nacional e internacional de armas e entorpecentes.
Querem fazer-nos crer que toda a violência urbana é engendrada
do interior dos presídios, onde as "cabeças iluminadas"
dos chefes do tráfico encarcerados organizam esquemas criminosos
mirabolantes. Nas colunas sociais, nos governos, no Congresso, no meio
empresarial, "circulam" tranqüilamente impunes, como
"cidadãos acima de qualquer suspeita", aqueles que
realmente ganham dinheiro com o tráfico de drogas e armas.
E o Exército nisso tudo? O Exército é apenas mais
uma "solução" inócua para o problema
da violência, incentivada às vésperas de eleições
gerais. Os tanques ocuparão os morros e da mesma forma desocuparão,
voltando tudo a ser como antes. Alguns traficantes serão presos
ou mortos, mas milhares de outros serão facilmente "pescados"
da multidão de jovens miseráveis e sem perspectivas. A
produção, o transporte e a venda de drogas, da América
Latina até a Europa, é um esquema capitalista poderoso,
onde muitos são explorados e se arriscam, para poucos enriquecerem.
Devemos rechaçar, tanto nas favelas, como em qualquer outro local,
a intervenção do estado através da polícia
ou do Exército; o controle ditatorial das "facções
varejistas da droga" e, principalmente, o sistema capitalista que
movimenta todas as peças deste jogo.
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REESTRTURAÇÃO INDUSTRIAL:
DESEMPREGO, INFLAÇÃO E MISERIA PARA OS TRABALHADORES E
SUPERLUCROS PARA OS CAPITALISTAS
No
mundo inteiro, os últimos dez anos se distinguiram, sob o pseudônimo
de reestruturação industrial, pela recomposição
das taxas de lucro do capital, baseada no desemprego em massa dos trabalhadores
combinado com a aceleração infernal do ritmo de produção,
que reduz ainda mais os chamados acréscimos de produtividade.
Nos EUA e nos países da CEE, nos quais o aumento da produtividade
foi obtido com a elevação do desemprego estrutural, o
setor terciário, apontado como "gerador de oportunidades
de trabalho, ainda que com salários mais baixos", ficou
aquém das expectativas dos que lhe atribuíam uma função
anti-recessiva. O setor terciário, que também foi reestruturado,
ao invés de absorver força de trabalho a expele, agravando
o problema que lhe caberia solucionar...
No que tange às perdas de postos de trabalho na indústria,
em conseqüência da reestruturação, a situação
do Brasil não é muito diferente. O emprego industrial,
após alcançar 4,2 milhões em 1985, diminuiu para
3,5 milhões em 1990, 3 milhões em 1992 e foi reduzido
em 1,7%, no ano passado.
Numa população de 145 milhões, cerca de 32 milhões
sobrevivem famintos, dos quais 4 milhões e 500 mil são
proletários rurais e camponeses expulsos de suas terras. Mais
da metade da área agricultável do país, cerca de
162 milhões de hectares, são propriedade de 46 mil capitalistas.
Já em 1989, dos 7 milhões e 500 mil assalariados rurais,
apenas 30,7% tinham carteira de trabalho assinada. De lá para
cá, a situação tem piorado ainda mais.
No Brasil, o processo de reestruturação, iniciado timidamente
após o choque de 1986, acelerou-se depois da ofensiva neoliberal
de 1990. O capital acumulou, no período, ganhos de produtividade
da ordem de 17,4%. Além disso, a incidência dos encargos
sociais sobre a folha dos salários é de 34%. Um percentual
elevado, mas inferior aos da Itália (37%) e da Alemanha (35%).
Considerando que o salário médio absoluto no Brasil é
muito inferior aos desses países, o custo dos encargos (que o
capitalista recupera quando vende a mercadoria ou serviço) se
reduz a US$0,80 por hora trabalhada, enquanto na Alemanha, por exemplo,
é de US$8,00.
No ano passado, a produtividade da indústria brasileira aumentou
18,3%, em relação a 1992. No segmento da indústria
de transformação, o aumento foi de 10,8%. A média
nos setores de material elétrico e de comunicação,
material de transporte e mecânica foi superior a 30%! A maioria
dos segmentos industriais alcançou taxas de lucro bastante altas,
face à brutal redução dos salários, obtida
entre 1990 e 1992, em conseqüência do desemprego massivo.
Dados da FAO (Organização das Nações Unidas
para a Agricultura e Alimentação) assinalam que apenas
12% dos trabalhadores estariam capacitados para atender as exigências
da moderna tecnologia; 70% da população economicamente
ativa (PEA) estariam sendo expulsos do processo produtivo: 30% dos adultos
nunca trabalharam (são os párias, excluídos do
setor formal da economia), 22% são subempregados e 18% estão
desempregados. Segundo o Banco Mundial, os 20% mais ricos têm
uma renda per capita 26 vezes maior do que a dos 20% mais pobres: os
assalariados que recebiam apenas um salário mínimo por
mês (cerca de US$65,00) eram 23%, em 1981, e passaram a 34%, em
1990.
Atualmente, os trabalhadores em campanha salarial, além das dificuldades
inerentes à luta reivindicativa numa conjuntura de recessão
e desemprego, terão que unir e organizar suas combalidas forças
para tentar conseguir a reposição das perdas acumuladas
em três fases de processo inflacionário. A inflação
é um monstro de três cabeças: uma em cruzeiros reais,
outra em URV e a última em reais. Se o atual nível das
reservas cambiais reduz as probabilidades de desvalorização
brusca da moeda, isto não impede que o Banco Central, para a
alegria do capital financeiro, eleve as já demasiado altas taxas
de juros. As tarifas públicas recuperaram as perdas sofridas
entre o final de 1992 e o início de 1993, elevando a taxa de
inflação, mas as exportações aumentaram,
apesar da sobrevalorização da moeda em relação
ao dólar. Com o desemprego, os baixos salários e a miséria,
aumenta a insatisfação e é cada vez mais provável
que se avolume a onda de greves nas três mais numerosas e organizadas
categorias de trabalhadores: petroleiros, metalúrgicos e bancários.
Mas o governo fala em austeridade e lançou um plano econômico
para baixar (e manter baixa, até outubro, mês de eleições
presidenciais...) a inflação, com vistas a uma estabilização
a ser pactuada em torno da zeragem do déficit público
e da nova moeda, que algum tecnocrata sacana batizou com o nome de Real.
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