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Libera
Nº 43
CINQUENTA
ANOS BASTAM!
Foi
com esta palavra de ordem que inúmeros movimentos sociais, por
todo o mundo, protestaram contra as instituições criadas
em Breton Woods: o Fundo Monetário Internacional (FMI), o Banco
Mundial (BM) e o Acordo Geral de Tarifas e Comércio (GATT), que
em outubro deste ano completaram 50 anos.
As instituições de Breton Woods, fundadas no final da
2ª Guerra Mundial pelas potências vitoriosas com o intuito
de criar uma nova ordem internacional, não são repudiadas
apenas por suas políticas, mas porque existem. Essas instituições
são poderosas engrenagens imperialistas, que aprofundam o domínio
do centro sobre a periferia do sistema capitalista mundial. Vejam a
composição de forças no Banco Mundial. Dos 176
países membros, os EUA têm 17,9% dos votos, o Japão
7,43%, a Alemanha 5,74%, França e Inglaterra têm 5,5% cada.
Ou seja, as cinco potências detêm 42% dos votos.
De posse desta farsa, as instituições de Breton Woods
criaram os Programas de Ajuste Estrutural (SAP - Structural Adjustment
Programs). O SAP é imposto a todos os países que queiram
receber "ajuda" do BM ou do FMI. Essas medidas objetivam abrir
os mercados internos dos países periféricos às
multinacionais. Além disso, são exigidas reformas para
garantir o pagamento do endividamento externo, mesmo com as exorbitantes
taxas de juros internacionais. Eis o receituário do SAP:
1) Os países devem se especializar em culturas destinadas à
exportação, em detrimento do cultivo de alimentos para
o mercado interno.
2) Os governos são aconselhados a "sanear" suas contas
cortando subsídios à agricultura e gastos com programas
sociais (saúde, alimentação e habitação),
além de aumentar os impostos.
3) Desvalorização da moeda para facilitar as exportações.
4) Políticas "anti-inflacionárias" de restrição
do crédito interno (diminuição da emissão
de papel moeda) e redução do poder de compra dos trabalhadores
ou arrocho salarial.
5) Privatização de empresas do setor estatal.
Como se não bastasse, os projetos financiados pelo BM causam
graves impactos ambientais e humanos, pois visam nitidamente acelerar
a acumulação do capital.
O projeto da barragem Sardar Sarovar, na Índia, criará
uma represa que inundará cerca de 350 mil hectares de florestas
e 200 mil de terras cultivadas. Além do mais, esta barragem causará
a remoção de um quarto de milhão de pessoas. Perante
as ações dos que se opõem a esta macro-barragem,
impuseram-se políticas de prisões arbitrárias,
detenções ilegais, espancamentos e outras formas de coação
física.
O projeto da barragem de Pangue, no Chile, afetará um de seus
rios mais bonitos, o Bio Bio, com graves efeitos para a sobrevivência
dos índios Pehuenche.
O lago da barragem de Balbina, no Brasil, inundou 240 mil hectares de
florestas intactas. A enorme quantidade de resíduos vegetais
e matéria orgânica nas águas represadas constitui
meio ideal para a proliferação de mosquitos, causa prejuízo
a população de peixes (principal fonte de proteína
das populações ribeirinhas) e polui o rio ao longo de
grande extensão, causando uma série de doenças
nas pessoas que usam suas águas.
Está pendente a execução da maior barragem do mundo,
sobre o rio Changjiang, no sul da China, cujo objetivo é gerar
energia para grandes empreendimentos industriais. Este projeto suporia
o deslocamento forçado de mais de 1 milhão de pessoas,
com a inundação conseqüente de vastas extensões
de terras cultivadas e de numerosas cidades (como Fuking e Wanxiu),
pondo em perigo a atividade agrícola a jusante e acabando com
a pesca no seu delta.
Com todos estes argumentos, apenas um ideólogo do capital pode
defender a existência do FMI, do BM e do GATT.
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CONSCIÊNCIA OU CONSCIÊNCIAS?
As
esquerdas estão constantemente alardeando o quanto são
progressistas e que há uma necessidade de constante estudo e
propaganda visando um ganho de consciência, que irá libertar
o ser humano de seus grilhões, impostos hoje pelo capitalismo.
Esta concepção paga, ainda, um grande tributo ao pensamento
positivista do século XIX, quando cria a falsa idéia de
que só existe uma única via de transformação
da sociedade. Atuando alguns como alquimistas fechados em si mesmos,
procuram a clarividência que deve ser revelada (pelos iniciados)
a totalidade do meio social. Esta linearidade de pensamento torna a
percepção das singularidades algo limitada, pois promove
o esmagamento da pluralidade e banaliza o discurso do outro, só
porque este não é o seu.
Este ranço, herdado do academicismo, ao qual a maioria da esquerda
foi submetida para posterior aceitação da comunidade "científica",
compromete a análise e a prática de muitos militantes,
que desenvolvem um "etnocentrismo revolucionário",
beirando por vezes o fascismo. Quando alguém ou algum grupo fala
em "conscientizar as massas", pressupõe-se que estes
atingiram um grau superior, e que este estágio (sendo o ideal)
deve ser o único. Desenvolve-se com isso uma espécie de
"darwinismo ideológico", perigoso para as propostas
e os desejos da revolução constante.
O que faz alguém mais consciente que outro? Será que existe
uma hierarquia natural das práticas revolucionárias? Esta
visão obsessiva da realidade, acaba por transformá-la
em destino manifesto de toda a espécie humana, submetendo os
prazeres a um etapismo ditado pelo catecismo da razão e dos padrões
construídos por uma minoria visionária.
Em que medida o roubo do material de construção de uma
catedral por um servo da Idade Média, para impedir o excesso
de trabalho no dia seguinte, é menos consciente que uma greve
organizada por um sindicato? Será que a pichação
das escolas pelos estudantes que reagem a opressão do sistema
estatal de ensino não é também uma consciência?
Eles, na verdade, não estariam destruindo o governo e não
o patrimônio público? E os grêmios estudantis, será
que representam mesmo algo mais "evoluído" em termo
de consciência?
Acreditamos que as formas de organização são importantes,
entretanto, pensamos que devem surgir para uma produção
coletiva e não para ditarem normas e se tornarem autoreferentes.
Lembramos que existem níveis de consciência que não
devem ser desprezados, ou interpretados prematuramente com o preconceito
eurocêntrico.
O próprio anarquismo não pode estagnar e, não compreender
que se alguns teóricos no passado tiveram posturas evolucionistas
e etapistas, estas foram explicadas pela historicidade dos seus sujeitos.
O pensamento libertário não pode ficar preso em lapsos
de tempo, o que limitaria a criação de alternativas compatíveis
com o contexto atual.
O enquadramento em esquemas rígidos empobrece a militância
e impede o resgate do prazer na atuação política
libertária. O desejo de atuação é como a
arte: não comporta padronização, nem utilitarismos
sectários.
João
Madeira
Nota:
Os conceitos utilizados foram desenvolvidos a partir de observações
e reflexões, e através de algumas leituras. Não
tive compromisso com a disciplina litúrgica acadêmica pretensamente
revolucionária ou não. entendo que a leitura de autores
libertários é importante, desde que estas não sirvam
para construir paradigmas conceituais rígidos, limitando as concepções
próprias da individualidade, tão cara aos anarquistas.
A estética da escrita deve seguir os desejos e o prazer, e não
trazê-los a reboque ("verdade do prazer" - R. Barthes),
o que seria fatal para a criatividade das pessoas (saber tem sua origem
na palavra sabor, segundo Barthes).
O meu compromisso é com a desconstrução de uma
ordem opressora capitalista e não com a idealização
de uma "nova" ordem à minha imagem e semelhança.
Tento não ser obsessivo o não confundir um padrão
de análise com o "verdadeiro" sentido da história.
Com este texto, pretende-se apenas formular um questionamento, e não
finalizar uma idéia de "rigidez cadavérica",
que mataria e interromperia qualquer desdobramento reflexivo.
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WOODSTOCK II: A (SUB) MISSÃO
O
revival de Woodstock além de horroroso, foi uma prova da capacidade
de assimilação que dispõe o sistema. Tudo é
absorvido e transformado em uma ferramenta a mais para os seus fins.
Se há 25 anos atrás os jornais esculhambaram o concerto
e estigmatizaram o público e os músicos, hoje estes são
abençoados e santificados. O rock já faz tempo deixou
de ser um agitador das massas, para se converter em fator de alienação.
E foram os roqueiros radicais daquela época, hoje executivos
de influentes companhias transnacionais, que fizeram de Woodstock II
uma manifestação nostálgica a serviço do
sistema. Foda foi ver nome míticos como Bob Dylan, Joe Cocker
e Crosby, Stills & Nash voltarem para fazer papel ridículo
em um concerto exclusivamente mercantilista. Que Janis e Jimi os perdoem,
assim como o restante daqueles que um dia sonharam em mudar o mundo.
O ambiente da última (?) edição de Woodstock foi
mais próprio de um concerto de cantos gregorianos do que de uma
reunião de roqueiros. O espírito de espontaneidade - inconformista,
rebelde e reivindicativo - da primeira edição, foi substituído
por um sistema de controle que incluía pulseiras do tipo hospitalar,
que todos os assistentes deviam usar no pulso durante os três
dias do evento. Na mini-cidade, às margens do rio Hudson, foi
criada uma legislação própria com leis mais rígidas
que as de um "estado de sítio": foram proibidos o álcool
e as drogas. Para entrar na área com qualquer tipo de comida,
era necessário apresentar uma prescrição médica!
Um horror! O próprio New York Times qualificou as instalações
do megaconcerto como "um cruzamento de estado policial com shopping
center". Com Woodstock, aconteceu o mesmo que com todas as manifestações
alternativas que a história registrou. Depois de provocar o repúdio
e o ódio da sociedade majoritária no momento em que aconteciam,
anos mais tarde reapareceram perfeitamente maquiadas pelas grandes indústrias
do lazer, só que desta vez vazias de conteúdo e dirigidas
a um consumidor que não questiona, porque se comporta segundo
as modas que lhe são lançadas.
O festival de Woodstock de 94 foi celebrado para erradicar definitivamente
o germe da rebeldia que ainda pudesse existir nos/as jovens. O capital
lhes fornece tudo! Não faz sentido criar algo novo! A segunda
versão de Woodstock quis apagar a memória do maior festival
jamais organizado a margem do poder.
Juan
Pérez (CNT nº165, set/94)
Traduzido e adaptado pelo Coletivo de Tradutores do CEL
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CONGRESSO EXTRAORDINÁRIO
DA
FEDERAÇÃO ANARQUISTA ITALIANA
REGGIO EMILIA, DE 24 A 28/08/1994
A Federação
Anarquista Italiana (FAI) propôs e organizou, nos últimos
anos, uma relevante discussão que culminou com o XXI Congresso,
de 23 a 25 de abril deste ano, em Milão. Tomando por base a
crítica do período iniciado em 1989, constatou a necessidade
de questionar prioritária e internamente todo o anarquismo
organizador e federalista, bem como as demais organizações
e movimentos de emancipação social. O objetivo era (e
continua sendo) definir os ritmos e as modalidades das práticas
antagonistas específicas e da criação de espaços
de liberdade autogeridos, no interior da sociedade capitalista.
Foi a partir dessa análise que os companheiros e companheiras,
reunidos em Congresso Extraordinário de Reggio Emilia, resolveram
discutir os processos organizativos em curso e fazer um balanço
completo das diversas experiências. Consequentemente, a FAI
prossegue o debate interno e inicia discussões com o conjunto
do movimento libertário e autogestionário de base. Nesta
perspectiva, o que sequer é tornar factíveis propostas
de ação conjunta que encaminhem a realização
de um projeto anarquista, desdobrado a curto, médio e longo
prazos.
MOÇÕES
Primeira moção: Este não é o único
Mundo Possível.
É a partir desta expressão de vontade crítica e
de superação do atual estado de coisas que toma forma
um projeto de transformação social. A opção
anarquista se caracteriza a partir de uma formulação radical
que, repudiando uma ordem mundial fundamentada na exploração
e na opressão, prefigura uma organização de convivência
social baseada na liberdade, igualdade e solidariedade, cuja realização
é o comunismo, que tem sido a bandeira da revolta proletária
e dos indivíduos que lutam para se libertar das condições
de alienação, de domínio e de despojamento.
Este comunismo, libertário e anarquista, assume um destaque maior
nos dias de hoje, por ter se tornado, indiscutivelmente, a única
via de emancipação humana e alternativa real a nova ordem
mundial, cujos fundamentos são a opressão estatal e de
classe, o controle militar das populações e dos recursos
disponíveis para manter a opulência de alguns e as privações
da maioria.
Segunda moção: Nós queremos transformas este Mundo.
A necessidade de unir a vontade e a capacidade dos indivíduos
que escolhem o terreno da ação revolucionária é
um incentivo para agitar a temática da organização/projeto,
apta a formular, aqui e agora, alternativas ao sistema capitalista.
Uma organização tal que não adie a realização
da anarquia para uma época (quando?) em que todos serão
anarquistas. Uma organização que, juntamente com os explorados
e oprimidos, aplicando métodos libertários, construa modelos
sociais que, no decorrer da luta e acumulando experiências, afirmem
já a autonomia em relação ao poder e a autogestão
em sua plenitude (individual e social) como prática de liberdade,
sem escamotear os conflitos, a luta de classes e a luta revolucionária.
Eis alguns modelos sociais:
sindicalismo de base e autogestionário, municipalismo e/ou comunitarismo
que agreguem experimentações diversas, movimentos de crítica
e atuação contracultural, pedagogias libertárias,
iniciativas de reapropriação (esferas: indivíduo,
grupo e sociedade) e autodefesa, salvaguarda dos recursos naturais...
Terceira moção: Por uma Prática de Elaboração
Coletiva.
Afirmando revolucionariamente a possibilidade de um novo mundo, bem
como a nossa vontade de mudança, nós, companheiras e companheiros
reunidos no Congresso Extraordinário da FAI, reiteramos a necessidade
de acelerar o processo que conduz à realização
de uma série de encontros regionais e, posteriormente, um convênio
nacional que institua e coletivize as práticas de elaboração
de novos modelos sociais de convivência livre, igualitária
e solidária.
Umanitá
Nova de 11/09/94
Coletivo de Tradutores do CEL
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