Libera Nº 44

"UM PASSINHO ATRÁS, POR FAVOR..."

Os ônibus urbanos constituem, atualmente, o mais utilizado meio de transporte da cidade do Rio de Janeiro, superando em muito o número de usuários dos trens, metrô e barcas. Mas a situação nem sempre foi esta. Nas décadas de 40 e 50, o Rio contava com eficientes bondes elétricos, um serviço ferroviário suburbano muito ativo e uma frota de , ônibus de boa qualidade. A partir da década de 60, com a mudança da capital para Brasília e principalmente, pela pressão das multinacionais automobilísticas recém-instaladas no país, começou a deterioração do sistema de transporte público em favor dos veículos particulares.

Depois de três décadas, vemos os trens suburbanos, que chegaram a transportar diariamente 1,5 milhões de pessoas, totalmente sucateados, não atingindo hoje 600mi1 usuários. Foi construída, neste período, uma rede de metrô de cara manutenção e de traçado incompleto e pouco adequado, que se encontra em avançado estágio de abandono. A recuperação e ampliação desses dois importantes meios de transporte de massa é relegada a último plano, sendo priorizada a construção de autopistas (Linha Vermelha, Linha Amarela, etc.) que beneficiam apenas os automóveis particulares e ônibus.

O transporte urbano é completamente dominado pela máfia das empresas particulares de ônibus, que fornecem à população um serviço de má qualidade, em que foram acrescentados "acessórios" tais como: catracas simples e duplas; "currais"; janelas pequenas em duas fileiras sobrepostas, com painéis de correr apenas na porção superior; saídas de emergência só no lado esquerdo, de modo que: as pessoas ficam presas, saltam (quebrando a perna ou a coluna) ou morrem, como aconteceu no último grande incêndio em ônibus. Resta falar ainda de aspectos por nós já conhecidos, como os degraus altos demais, que prejudicam os idosos, os deficientes e as crianças (exatamente aqueles que por lei são dispensados de pagar a passagem); a diminuição do número de assentos, de modo a tornar os ônibus lucrativas "latas de sardinha"; os altos níveis de ruído; a falta de manutenção, que gera contratem os aos usuários e uma contribuição significativa na poluição atmosférica; a falta de preparo dos motoristas e cobradores, etc. Segundo o arquiteto Jacques Hazan, do CREA/RJ, "A síndrome de assaltos e violência e da evasão de receitas, ao lado da ânsia por lucros, poder e domínio do mercado de transportes, parecem prevalecer sobre o bom senso e a racionalidade na estrutura deste serviço público, que não atende às reais necessidades de segurança do transporte e do tráfego, dos pedestres, dos usuários e, dentre estes, de parcela cada vez mais importante de crianças, de idosos e portadores de deficiência".

Para completar o quadro, a Prefeitura do Rio de Janeiro, em conluio com as empresas fabricantes e transportadoras, decretou um regulamento de padronização a ser implantado nos ônibus urbanos, com quase todos os defeitos já citados obviamente sem a participação dos maiores interessados: os usuários, motoristas e cobradores.

As empresas de ônibus detêm um poder imenso e determinante sobre a vida de grande parcela da população da cidade. Dispõem de um numeroso contingente paramilitar de "seguranças", que já mataram e feriram centenas de trabalhadores/as, defendendo os lucros de seus patrões. Seu poder econômico é extraordinário, constituindo poderosos grupos de pressão (lobbies) que alcançam a instância federal e que compram, à vista, a colaboração de políticos das esferas municipal, estadual e federal.

A população do Rio de Janeiro muitas vezes demonstrou sua insatisfação com esse quadro, através de inúmeros "quebra-quebra". Neste momento, em que os capitalistas e governantes, outra vez se unem em torno de interesses antipopulares, cabe aos/às trabalhadores/as e usuários/as em geral a tarefa de unir-se em torno de suas reivindicações e, de forma autônoma, organizar-se para a luta contra a máfia político-empresarial.

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CONHECENDO FLORA TRISTAN

A história oficial pouco ou nada se ocupa de rebeldias indomáveis, de pensamentos audazes e de mulheres livres, muito menos de alguém que reuna essas três condições. esse o caso dessa extraordinária mulher, cujas idéias lúcidas, propostas de ação e exemplo de vida seguem tendo pleno valor para aqueles/as que aspiram à liberdade e à igualdade.

O relato da vida de Flora Tristán ( 1803 - 1844) está cheio de circunstâncias que parecem ter sido arrancadas das novelas românticas tão ao gosto daquela época. Nasceu em Paris, filha de um aristocrata peruano e de uma plebéia francesa que havia imigrado para a Espanha. Com as guerras napoleônicas e a morte do pai, em 1808, a família de Flora inicia uma etapa de pobreza, mitigada pela ilusão do futuro acesso a fortuna paterna, quando pudessem viajar para a América.

Em 1820, as necessidades se impõem e Flora vai trabalhar como operária de uma oficina de litografia, cujo jovem proprietário - André Chazal - se apaixona por ela. Para fugir da miséria e submetida à pressão materna, Flora casa-se em 1821, gerando dois filhos e uma filha - Aline - que veio a ser mãe do famoso pintor Paul Gauguin. Em 1826, Flora já não suporta aquela união sem amor e convencional, abandonando o lar e iniciando uma dura disputa legal e pessoal, que se prolongará por 12 anos, até que Chazal quase a mata, sendo condenado a 20 anos de trabalhos forçados. Essa vivência será um estímulo para que aflore um pensamento e uma ação que serão referências importantes para o movimento feminista. Flora foi uma figura única, que denunciou com a mais sentida sensibilidade os padecimentos da mulher de seu tempo, planteando reivindicações que continuam sendo atuais.

Em 1833-34, Flora viaja ao Peru para buscar a herança de seu pai, sendo recebida friamente pelos parentes, que lhe concedem somente uma modesta pensão anual. Retorna a Europa reafirmando suas convicções igualitárias radicais, que vem amadurecendo desde 1825, com a leitura de autores como Saint-Simon, Aurora Dupin, Fourier, Considerant e Owen, além de seus contatos diretos com o movimento operário na França e na Inglaterra.

Em 1835, publica seu primeiro folheto, dedicado à situação das mulheres estrangeiras pobres na França; em 1837, sai o segundo, em prol do divórcio; em 1838, são publicados os dois volumes de seu diário de viagem a América, sob o título de Peregrinações de uma Pária. Esta obra dá a Flora grande renome nos meios literários parisienses, reafirmado meses depois com a novela Mephis ou O Proletariado, que a eleva a categoria de rival da célebre George Sand. Ao mesmo tempo, Flora aprofunda seu compromisso ativo com as lutas sociais mais radicais de então. Primeiramente, pela emancipação da mulher e da classe operária, mas também contra a pena de morte, o obscurantismo religioso e a escravidão.

Como que pressentindo a morte próxima, os anos posteriores a 1840 encontram Flora Tristán na plenitude de seu trabalho e pensamento. É então que escreve A União Operária (1843) e A Emancipação da Mulher(inédito até 1846), obras que marcam sua maturidade intelectual e política. Realiza por toda a França a tarefa de organizar essa União Operária, que recorria à experiência inglesa das Trade Unions, ainda que com ênfase internacionalista e socialista radical. Tais ações justificam a apreciação de quem vê em Flora a esquecida e grande precursora da I Internacional, como seu biógrafo peruano L. A. Sánchez, que afirma: "Aquela Associação Internacional dos Trabalhadores era a velha União Operária, ampliada, ecumênica e viril (...) Ninguém lembrou da precurssora na célebre assembléia de Albert Hall. Mas ela, com seu pensamento e exemplo, a esteve presidindo desde longe, desde a eternidade. Talvez, se com alguém se identificava mais seu espírito, era com o de um certo homem de barbas revoltas e verbo ardente, que costumava discordar vigorosamente de Marx: Miguel Bakunin".

Sofia Comuniello, extraído da revista Correo A, n° 26, set/94, Caracas, Venezuela. Traduzido e adaptado pelo Coletivo de Tradutores do CEL.

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INTERVENÇÃO MILITAR: UMA GUINADA À DIREITA

Os estrategistas das Forças Armadas, responsáveis pela intervenção nas favelas do Rio de Janeiro, já começaram envolvidos em um grande equívoco. As contradições são as mais absurdas e tudo é apresentado como se o Exército fosse o salvador da pátria. Uma reportagem do jornal O Dia, de 04/11/94, apresentou 24 nomes como sendo os principais alvos da operaçãO: Emir Larangeira, Sivuca, Elson Campelo, Mário Teixeira Filho são alguns dos acusados de ligação com grupos de extermínio, contrabando de armas, chacinas e outros crimes.

Já está mais do que provado que os cabeças do tráfico e do crime organizado no Rio não são moradores de favelas, mas coronéis, deputados, industriais, delegados, ricos e brancos, em contraste com os trabalhadores pobres e negros que vivem nos morros. Ao subir as favelas com o intuito de acabar com o tráfico, no máximo serão presos alguns pequenos varejistas de drogas, pois os altos escalões não vivem lá, mas nos bairros nobres, com respaldo de políticos e amplos setores da polícia.

Outro importante dado a ser analisado é que na reportagem citada, o Exército revela que a corrupção na Polícia Civil atinge 70%, em todos os níveis, e na PM atinge basicamente os subalternos, sendo considerada mínima entre os oficiais. Resta observar que a corrupção na PM é mínima, segundo o Exército, porque lá está uma minoria perigosa que controla os subalternos. Eis um pequeno exemplo: Deputado Emir Larangeira e Coronel Elísio; o primeiro acusado de chefiar organizações denominadas Cavalos Corredores, Larangetes e Thundercats, que dão proteção a traficantes mediante propinas; e o segundo acusado de patrocinar o crime organizado com outros militares. Sendo assim, os subalternos acusados de corrupção são peixes pequenos diante dos tubarões da polícia.

Os estrategistas responsáveis pelas intervenções nas favelas revelam que seus homens estão preparados para dialogar com os moradores, e que os soldados tiveram instrução de guerrilha, estando preparados para agir em qualquer situação. Tudo isso é um grande absurdo, pois as Forças Armadas são treinadas para a guerra, e não para operações civis. Segundo suas próprias estatísticas, metade da tropa é formada por moradores de favelas e periferia, abrindo um confronto direto que deixa os soldados em precária segurança.

O que irá acontecer com essa intervenção será a prisão de alguns varejistas de droga. Uma estratégia correta deveria abranger todos os fatores da criminalidade: as condições de vida, ou melhor, de subvida da população, o desemprego, a fome, a falta de moradia, o salário arrochado, a discriminação e todos os tipos de violência.

Um programa de prevenção a criminalidade não deveria perder de vista o papel da solidariedade e do respeito aos direitos humanos, na busca de uma solução para o crime organizado.

Finalizando, o Exército não tem moral para invadir favelas visando combater a violência porque, até hoje, deve uma explicação à sociedade pelos assassinatos e torturas cometidos durante a ditadura. Esse mesmo Exército matou os operários Wiliam, Valmir e Barroso durante a invasão da CSN, em Volta Redonda/RJ. A Polícia Federal, que facilitou a fuga dos assassinos de Chico Mendes e do PC Farias e as polícias Civil e Militar, que contam com tantos criminosos em seus quadros, também não merecem a confiança da população.

Os setores oprimidos e explorados da sociedade devem ser mais ousados. As associações de moradores devem deixar de ser reboque do poder público e começar a organizar a autodefesa dos moradores das favelas. O resultado final será muita gente desaparecida e assassinada. Os pobres, negros e homossexuais continuarão a ser os principais alvos da violência urbana. A temporada de caça aos favelados está decretada! Apenas a solidariedade e a organização popular podem desmascarar a farsa da intervenção militar.

Eugênio Ibiapino dos Santos ,
presidente do Grupo 28 de Junho de Emancipação Homossexual {CP 77049; CEP 26001-970; Nova Iguaçu/RJ)

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CARNAVAL, CARURU E MISÉRIA

Conhecida como uma cidade de festas pelo seu Carnaval; precedido de festas de largo, lavagens de rua e tradições, Salvador além de ser um imenso pólo turístico, é uma grande favela. A miséria é geral e a liberdade só existe nos livros. O tirano Antônio Carlos Magalhães dá as ordens e a esquerda institucional, alienada na sua essência, também promove essas festas, fazendo o jogo da burguesia. Essas festas são, para alguns, motivo de depressão e tristeza, bem como um exemplo da degradação humana, onde duas linhas de pensamento são consideráveis: lutar e esperar por uma revolução espontânea da massa esmagada pela realidade ou propor um carnaval final para a humanidade. Esse povo, há gerações sente na pele a dificuldade que é sobreviver, principalmente no interior do Estado, onde a maioria da população sofre bastante. Já em Salvador, as coisas não são muito diferentes. Mas quando chegam as festas populares, o povo esquece de sua vida e vai rebolar atrás dos trios elétricos, geralmente promovidos por políticos. As letras das músicas dizem coisas como "a gente pode ser feliz pelas ruas da Bahia", como canta Daniela Mercury. Ela nunca deve ter aberto os olhos para ver, logo a sua frente, a miséria nas ruas.

As pessoas esfomeadas se divertem nas festas populares, onde a violência atinge seu mais alto grau. A polícia espanca crianças e até pessoas idosas, fatos ignorados pelos meios de comunicação de massa, visando preservar o turismo e as autoridades estaduais.

O verão é a estação das festas. Cada semana uma festa para santos e similares. O povo, imbecil, aplaude os políticos que se promovem às custas da ignorância coletiva. Os policiais aproveitam a situação para despejar sobre a massa suas neuroses, com violência homicida. As grandes empresas de bebidas têm um super faturamento; crianças nas ruas pedem e roubam, cheirando cola e sendo constantemente espancadas para que não ataquem os turistas, outra turma de idiotas. Estes, não estão nem aí, só querendo ver uma pequena parte da "feira do acarajé" pois o restante não seria um atrativo. Como vemos, esse processo alienante envolveu uma boa parte dos habitantes daqui, de outros lugares do país e do mundo.

O Pelourinho é o lugar mais policiado do centro da cidade. O lugar que antes era das prostitutas, dos estivadores e da massa, foi transformado em ponto de turismo. Hoje, a fome e a miséria do povo é encoberta pela "benção das terças". À noite, centenas de mendigos recebem sopa e pão para continuarem sendo mendigos. A política do "pão e circo" é propagada tanto pela direita como pela esquerda.

A música africana foi assassinada na Bahia. Suas danças e ritmos ganham letras onde tudo está ótimo e não há do que reclamar. O povo olha as festas e os prédios restaurados do Pelourinho, e esquece das suas desgraças e insatisfações. É isso o que a Bahia tem!! Um povo miserável, explorado e iludido!!

Escrito por Psyko, do P.A.S.; Batman, Micose e Cogumelo, do Mov. Anarquista
em Salvador

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BONAVENTURE: UMA ESCOLA LIBERTÁRIA

Em setembro de 1993, a escola libertária francesa Bonaventure estava diante de um impasse: o espaço pequeno para o número de alunos que aumentava. Iniciou-se a procura de outro local que pudesse suprir a necessidade constatada.

Até janeiro de 1994, a busca resultou negativa. Optou-se, então, pela construção de uma casa pré-moldada de madeira, num terreno posto á disposição. Entretanto, a prefeitura da ilha de Saint Georges d`Oleron vetou o projeto. Foi um desastre. Já chegara maio sem solução no horizonte. Partiu-se para uma construção em alvenaria a fim de superar o obstáculo.

Em fins de junho de 1994 dispunha-se do terreno, de parte do dinheiro para a construção (60.000 Francos) porém, não havia projeto, nem equipe de trabalho. Após um apelo, ela começou a chegar. Vindos/as de Creuse, Nantes, Lyon, Àlbi e Paris; da Bélgica, Noruega, Itália e Portugal... Por alguns dias, semanas ou todo o verão. Jovens, menos jovens, adolescentes...Simpatizantes, militantes anarquistas a maioria. Todos entusiasmados em erguer a escola onde crianças pudessem crescer em ritmo de liberdade, igualdade, autonomia e autogestão. Com os olhos nas estrelas e mãos no cimento e tijolos, cantando e sorrindo, provocaram o milagre. Em dois meses, 55 pessoas converteram a utopia em realidade. E que realidade! Uma casa funcional, composta de espaçosa sala para aulas, cozinha, centro de documentação e informação, local para informática, espaço para repouso e outro para jogos. A construção bem iluminada, harmonizada com o meio ambiente. Em tomo, um jardim e, envolvendo tudo, uma floresta que não impede que se ouça o murmúrio do mar, bem próximo.

Os princípios e propósitos da escola libertária Bonaventure são:

1°) Afirma inicialmente que, aprender a ler, escrever e contar ondiciona o acesso a uma liberdade digna desse nome. As aprendizagens devem se efetuar sob modos libertários (construção dos saberes e dos métodos, relações antiautoritárias entre mestres e alunos, etc.) e que elas só possam tomar sentido, realidade e eficácia dentro de um quadro global de cidadania, autogestão, liberdade, igualdade e apoio mútuo.

2°)A escola libertária não estará fechada sobre si mesma, deverá se inserir num movimento social anticapitalista e antiautoritário, reunindo também alternativas escolares e educativas, cooperativas operárias de produção, comunidades agrícolas, coletividades de vida, alternativas sindicais, políticas e culturais...

3°) Pensar e funcionar coletivarnente ao máximo, ao nível dos que vivem diretamente em Bonaventure e, também, de todos que sustentam o projeto. Tudo através de comissões e assembléias.

4°) Instituir a gratuidade, tendo como base correntes de solidariedade e ações de cooperação de todas as qualidades.

Para entrar em contato com a escola, escrever para: Bonaventure; 35
Allée de 1`Angle Chaucre; 17190 - Saint Georges d`Oleron; França.


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