Libera Nº 45

SALÁRIOS E GOVERNABILIDADE

Dez anos depois que os generais abandonaram o governo sem deixar o poder, a democracia brasileira continua sendo o que um liberal reacionário, acometido de lirismo chamou de "uma florzinha enra e delicada". A mais banal política econômica, um mero reajuste de salários pode desencadear uma crise institucional e ameaçar a tão consensual governabilidade. No fim do mandato presidencial, o catatônico Itamar Franco esperneou mas concedeu um mísero abono de 15 reais para quem ganha salário mínimo. Seu empertigado sucessor, o não menos suporífero (aliás, sociólogo) Fernando Henrique Cardoso, que acha muito natural anistiar velhas ratazanas da política e aumentar os próprios vencimentos, não admite que os salários - a começar pelo tal mínimo, atualmente em 70 reais - sejam reajustados. Após cuidar do próprio bolso, a maioria dos parlamentares aprovou o reajuste de 70 para 100 reais. Contudo, o presidente da república, furioso com o que classificou de "demagogia", garante que vai vetá-lo. Quanto ao Partido dos Trabalhadores, da oposição mais loquaz e veemente, coube-lhe acionar o indefectível Paulo Paim, deputado federal, especialista em tráfico de influências e outros conchavos, que promete "negociar sem descanso até conseguir que FHC mude de idéia".

Nós, incuráveis utópicos, continuamos afirmando que o difícil é para já e o impossível só demora um pouco mais. Ou seja: se a democracia dos ratos vai mal, tanto pior para os que nela acreditam; se a ditadura dos gorilas é um espantalho, só assusta os que se habituaram a aceitar o que julgam ser menos ruim. Quando o proletariado em luta reivindica um aumento de salários, está atacando a mais-valia, exigindo a redução dos lucros do capital e da exploração capitalista. E óbvio que, mesmo vitoriosa, tal luta não ameaça a existência do capital, ainda que seja necessária para melhorar as condições de vida dos trabalhadores ou, antes, impedir que venham a piorar.

Mas a luta do proletariado é total (econômica, política , ideológica...), tem como objetivo a revolução social e só termina com a abolição do trabalho assalariado, que pressupõe a destruição do estado e o aniquilamento do capital. Se os trabalhadores não lutam, só lhes resta aceitar as esmolas que os bonzos sindicais e os mandarins dos partidos de esquerda conseguem, depois de hábeis negociações. Todavia, a ação direta proletária é antagônica às manobras organizadas pelos agentes sindicais e partidários a serviço do capital (mobilizações tais como : passeata, dia de luta, operação padrão, greve em horário de almoço e conchavos interpartidários, por exemplo), aos quais a burguesia recorre para domesticar os/as trabalhadores/as e manter intacto o sistema baseado na escravidão assalariada.

Nas escaramuças do cotidiano, o proletariado se contrapõe objetivamente ao capital, porque sua finalidade imediata é diminuir a extensão e à intensidade do trabalho, tentando se reapropriar de parte da mais-valia. Ainda que parcial, toda reapropriação contém em si a possibilidade da destruição da mais-valia e, além de ser uma afirmação da vida, tende a resgatar o tempo que o capital nos rouba.


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ESPAÇO LIBERTÁRIO DO SUL

A PODRIDÃO ELEITORAL CONTINUA!

Dizem por aí que vivemos numa democracia e que o PT (na prática Poder e Teoria) é seu maior representante. Tanto que o tal PT abriu uma ação cautelar de busca e apreensão contra um grupo libertário de Porto Alegre que, desde o começo de 1994, estava divulgando 0 adesivo Anulalá e Aqui Também! Os Políticos são Todos Iguais, Só Muda a Quadrilha. Coletivizar as Decisões!. Essa ação judicial foi feita através do Tribunal Regional Eleitoral do Rio Grande do Sul.

A carta do PT para o TRE diz que a finalidade da propaganda é conturbar o processo eleitoral, confundindo e tentando influenciar o eleitor. Pois bem, temos o direito de votar, mas, se não votamos. somos punidos. Agora, o PT quer que nós votemos e não manifestemos o que sentimos perante essa contradição que reflete uma pequeníssima parcela da podridão eleitoral. Mesmo porque, alguns anarquistas votaram no PT, não se manifestando pelo voto nulo no segundo turno, por preferirem a esquerda dita democrática, à direita opressora e reformista: Tudo bem, mas agora o PT ajuda a confundir seu próprio perfil partidário, na medida em que se mostra tão opressor, conservador e reformista quanto a direita que critica.

Analisemos, agora, uma alucinação em meio a toda essa babaquice: muitos petistas ainda ficaram condenando os anarquistas pela derrota de Olívio Dutra ao cargo de governador do Rio Grande do Sul, como se as pessoas que votaram nulo o tivessem feito por influência nossa. Não acreditamos que a maior parte dessa massa que votou nulo tenha conhecimento das idéias anarquistas, ou sequer premeditem uma mudança radical na sociedade através do socialismo libertário. Acreditamos, isto sim, que a maior parte votou nulo, convicta de que estava negando a falsa democracia que vivenciamos através do direito de votar 1 dia e a obrigação de ficar 1461 calados. Deixemos, então, umas perguntinhas no ar: Como reagiria o PT - se tivesse ganho a presidência da república - diante da primeira greve geral ou grande ocupação de tetras que pintasse no seu governo? Como se colocaria diante da máfia empresarial que manda e desmanda impunemente no Brasil?

Caso alguém queira cópias dos documentos do TRE sobre o caso do adesivo, escrevam para nós. Juventude Libertária (Juli/RS); A/C Co-Info; Caixa Postal 5036 ; CFP 90041-970; Porto Alegre/RS.


ATENÇÃO LIBERTÁRIOS/AS!! 1° DE MAIO DE 1995
UM GRITO DE PROTESTO CONTRA O FMI E O BANCO MUNDIAL!!

Juntamente com o movimento libertário do mundo todo, convocamos grupos e pessoas a unirem-se nesta grande frente que se formará para o 1 ° de maio deste ano. Atendendo à convocatória da Associação internacional dos Trabalhadores (AIT) e de diversas organizações libertárias, chamamos todos para preparar, desde já, um grande dia de protesto mundial contra um dos símbolos máximos do capitalismo.

Agora, mais do que nunca, com o crescimento do espaço libertário na sociedade, se faz necessário que os grupos e pessoas aproveitem para estreitar laços com outros grupos e organizações, clareando os objetivos e a prática do pensamento libertário. Aos poucos chegaremos a um amadurecimento prático de nossas idéias, concretizando uma alternativa de organização coerente, quebrando as barreiras que dificultam a divulgação da proposta libertária para a população menos informada deste país.

É importante que o Mov. Anarquista se desenvolva no sentido de podermos coordenar nossa ação, visando um maior impacto na sociedade.

(Juli/RS)

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CONSCIÊNCIA, CONSCIÊNCIAS E DIVERGÊNCIAS

Há muita pertinência no texto assinado por João Madeira, publicado no Libera...43 (dez/94), com o título Consciência ou Consciências? De fato, o tema está no centro dos debates libertários de hoje, o que me estimulou a desenvolver - como sugere o autor - alguns desdobramentos reflexivos.

Que o anarquismo não pode se tornar uma doutrina fechada, obscurantista, messiânica, qualquer pessoa saudável concorda. O respeito pela pluralidade de concepções sempre foi um dos mais caros princípios do anarquismo e não há na história do movimento nenhum período marcado por perseguições a dissidentes.


Todavia, há o risco de se reduzir o ideário anarquista a um simpaticíssimo e inofensivo elogio ao livre pensamento. O pensar deve ser um ato livre? É óbvio que sim, mas imaginar que só isto é suficiente para responder aos desafios humanos do nosso tempo também é "pagar um grande tributo ao pensamento positivista do séc. XIX."(1). Os liberais construíram sua doutrina pensando livremente, e isto não os tornou menos nocivos.

Os anarquistas são indivíduos únicos, mas isto não anula o que há de comum entre nós. Não há nada de mais superado hoje do que falar em "conscientizar as massas". Ainda assim, eu afirmo:

1) A população sofre um formidável processo de alienação que a confunde e dissipa sua revolta;

2)Nós, anarquistas, temos - às vezes vaga - a consciência desse processo e a firme disposição de nos opor, das mais variadas formas;

3) A convicção de que tal oposição seja animada desde já e isto nos distingue - pelos mais explícitos compromissos de justiça, liberdade e comunhão.

Respeitamos todas as pessoas de bem e acreditamos, em última análise, no ser humano, mas quem se quiser anarquista deve sustentar, ainda que com toda sorte de divergências, tais compromissos.

A aliança entre anarquistas e marxistas é o dado prático mais envolvido por essa questão. Se todos queremos o "mesmo" por que não nos unirmos? Nossa separação não seria fruto de um "enquadramento em esquemas, rígidos de militância" ou de um "utilitarismo sectário"? (2) Não seria melhor estamparmos nossos oito princípios na camiseta e partirmos prá dentro?

A união dos esforços libertários e marxistas não só é proveitosa, como até inevitável, pois ambas as forças promovem a resistência e a ruptura social. Entretanto, antes de proclamar tal aliança e de apresentar às pessoas um movimento único, sustentado por duas correntes irmãs, penso que deveríamos reconstruir minimamente nossas próprias organizações e instrumentos de ação, e só então medir o gás que dispomos para o inevitável diálogo com o mosaico de forças sociais das esquerdas, incluindo aí, é claro, os valorosos marxistas da Frente Revolucionária

Mauricin Saraiva
(1) - Extraído do texto citado. (2) - Idem.

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UM OLHAR SOBRE A F.A.U.

Recentemente, tive a oportunidade de estar no Uruguai. Foi uma grata surpresa. Apesar de conhecer um pouco a história do anarquismo lá, não tinha a menor noção de quão profundas e vigorosas são as raízes que a ideologia ácrata tem no seio das lutas do povo uruguaio. O impacto que essa experiência teve sobre mim, principalmente através do contato com a Federação Anarquista Uruguaia (FAU), é o assunto deste texto.

A atualidade da luta libertária no Uruguai é conseqüência de um processo iniciado quando o ideal anarquista lá chegou, há pouco mais de 100 anos. Trazido pela mão-de-obra imigrante, vinda da Europa, e fundido ao imaginário popular do gaúcho-pampeiro, livre e rebelde, em pouco tempo o anarquismo penetrou no inconsciente social e nas reivindicações da classe trabalhadora uruguaia.

No final do século XIX, surgiram os primeiros sindicatos livres e, no período de luta anarco-sindicalista, a Federación Obrera Regional Uruguaya (FORU) era hegemônica no movimento sindical até meados da década de vinte. Outra característica dos libertários orientais foi a fase do anarquismo expropriador, especialmente entre 1927 e 1937.

Passado esse período, o anarquismo não era mais tão forte, mas continuava vivo nas categorias mais combativas (padeiros, metalúrgicos da indústria automobilística, trabalhadores dos frigoríficos, operários químicos, etc.) e nos tradicionais bairros operários (especialmente os míticos Cerro e La Teja), redutos anarquistas em Montevidéo.

No início da década de 50, uma série de conflitos radicalizados prepara o terreno para a criação da FAU. O maior deles, uma greve da peãozada dos frigoríficos de Cerro, culminou na tomada do bairro pelos grevistas e teve, como reação patronal, o cerco e ó estado de sítio localizado. O imaginário popular dizia que era possível ser qualquer coisa na vida, menos "botón y carnero" (policial/ milico e pelego). Os enfrentamentos entre anarquistas e pelegos são uma característica da luta de classes no Uruguai. Em 1956 surge a FAU: uma organização específica, de inspiração malatestiana e que tem como razão de ser a Revolução Social. O seu papel é ser um organismo catalisador e propagador da luta revolucionária. Desde então, á FAU buscou aprofundar a influência anarquista nos meios sindical e estudantil, além dos bairros populares.

Dez anos depois de sua fundação, a classe dominante e sua (in)justiça proíbem a FAU, que passa a atuar na clandestinidade. Surge então a Resistencia Obrero-Estudantil (ROE), entidade de massas da organização. A ROE estabelece uma dinâmica antagonista, levando estudantes para ocupações de fábricas, sindicalistas para as passeatas estudantis e a gente dos bairros populares a funcionar como cordão solidário. Nessa época, a única organização que rivaliza com a FAU/ROE no campo da esquerda revolucionária eram os Tupamaros. A diferença é que os "tupas" tinham escassa inserção social (apenas simpatizantes), enquanto os libertários faziam da inserção social a razão de sua existência.

Com a radicalização, em fins dos anos 60, a FAU monta sua estrutura armada, chamada Organización Popular Revolucionaria los 33 (OPR-33). Como golpe de propaganda, expropriam a histórica bandeira do General Artigas, que contém os dizeres Libertad o Muerte. Como estratégia de ação, a luta armada, radicalizava a luta popular, a partir de situações que a própria luta gerava (greves, protestos, justiçamentos, etc.).

No início dos anos 70 a repressão estava ficando insuportável. Com o golpe de 1973, a situação piorou muito. Ainda assim, foi feita uma greve geral de um mês, como resposta ao golpe dos milicos. Em 1976, a ditadura militar consegue sufocar o movimento social. Com a volta da democracia burguesa em 1985, a FAU logo se reestrutura. Os/As companheiros/as voltam do exílio, saem das prisões e da clandestinidade. Com a experiência prática de uma organização libertária que funciona, em curto espaço de tempo conseguem uma dinâmica eficaz.

A FAU que tive a chance de conhecer é uma organização em sintonia com as lutas de nosso tempo. Pude perceber que algumas posturas são bem nítidas: Classismo: a luta de classes é uma realidade e um princípio; inserção social; uma abordagem latino americana do anarquismo. No campo teórico, análises e formulações contemporâneas da realidade vivida pelo povo. Na parte organizativa, o que pareceu fundamental foi a constante busca da responsabilidade militante e do trabalho coletivo. Também é muito importante que todos/as os/as companheiros/as saibam que não há tarefas "grandes e pequenas" e sim que toda contribuição e realização é de igual importância. Há três frentes de atuação: Sindical, Estudantil e Comunitária (Barrial). Todo militante tem que escolher uma das frentes para atuar. A influência da FAU se nota nos secundaristas (detêm a hegemonia do movimento), em algumas categorias mais combativas de trabalhadores, em alguns bairros populares de Montevidéo e quando há grandes questões gerais.

Outros aspectos importantes: o anarquismo é conhecido pela maioria da população; a FAU é respeitada pelas esquerdas e conta com um número grande de simpatìzantes e gente de apoio; a militância tem uma idade equilibrada (militantes na faixa dos 60, 40 e 20 anos), embora os jovens sejam maioria; a militância é de base popular e não classe média. Foi muito estimulante ver companheiros com mais de 40 anos de luta sem um pingo de arrogância. Melhor ainda foi saber que há uma deliberação coletiva de buscar a modéstia e a simplicidade como atitudes para melhor agir e aprender.

Sem dúvida a experiência concreta e atual da FAU, sua penetração em alguns setores da população (estudantes noturnos, subempregados, moradores de bairros proletários), a busca de uma integração e de identidade anarquista latino-americana, e a postura nítida de enfrentamento cotidiano contra a classe dominante (a tecnocracia, os assassinos fardados e as multinacionais) têm muito a colaborar com o movimento anarquista no Brasil.

Contudo, vivemos uma realidade distinta e não se trata de copiar modelos. O que escutei dos/as companheiros/as uruguaios/as foi a proposta de termos relações constantes e de troca aqui na América Latina. Este é um continente com características próprias e precisamos encontrar soluções libertárias apropriadas às nossas realidades. Um contato maior com a FAU pode ser um bom começo. Os grupos interessados escrevam para a sede deles: Magallanes 1764; Montevidéo- 12800; Uruguai.

Bruno

ARRIBA LOS/AS QUE LUCHAN!!!

Nota: Este é um texto de impressões pessoais e não fala em nome da FAU. Basta escrever para lá para conhecer o que pensa e faz a organização anarquista de "los/las hermanos/as uruguaios/as")

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