|
Os argumentos neoliberais em favor da privatização (produtividade, mais investimentos, zerar o déficit estatal, etc...) escondem uma questão de fundo: o ataque contra as conquistas dos trabalhadores do setor público. O Estado, que não quer assumir o ônus político dessas medidas é o mesmo que privatiza. A privatização traz consigo: o "enxugamento" das empresas, ou seja, mais demissões e mais desemprego; achatamento salarial; perda da estabilidade no emprego e de outras vantagens que tornam as condições destes trabalhadores menos aviltantes. Como se não bastasse, o aumento do desemprego e a perda da estabilidade dificultam a organização dos trabalhadores: A privatização é, pois, uma tática do capital para aumentar o domínio sobre os trabalhadores. A campanha da mídia pela privatização tem produzido um efeito devastador. Os trabalhadores mais explorados não lutam para igualar as conquistas dos empregados das estatais, sendo direcionados a considerar estes como vagabundos. Portanto, os trabalhadores que conquistaram condições de vida menos escravizantes, estão sendo desmoralizados pela mídia patronal. Leiloando cargos no primeiro e segundo escalões da administração pública e barganhando com o prestígio devido aos 4 anos de governo que ainda tem, FHC prepara o ataque contra as empresas estatais. Serviços como luz, água, correios, telefones, não podem ter fins lucrativos. Na Argentina, país de inverno rigoroso, o fornecimento de energia elétrica é questão de vida ou morte, pois dela dependem os aquecedores. Com a privatização do setor, as companhias pararam de investir nas zonas pobres. Resultado, as camadas proletarizadas estão condenadas à escuridão e ao frio. No Brasil, privatizadas as telecomunicações, será que algum empresário instalará, telefones no meio da Amazônia ou no sertão nordestino? Já é hora de nós, anarquistas, nos posicionarmos contra as privatizações. Não por preferirmos a propriedade jurídica estatal, uma vez que a revolução social abole as relações de propriedade, com a expropriação dos meios de produção estatais e privados. Somos contra essa (não tão) nova estratégia de reprodução do capital, que obtém superlucros numa batida de martelo, por entender que este é mais um ataque aos trabalhadores e pelas conseqüências desumanas deste processo. Nossa
avaliação é conjuntural- Se FHC confiscar a estabilidade
dos servidores públicos - entre outras coisas que ameaça
fazer - nivelando-os aos trabalhadores da iniciativa privada, reservamo-nos
o direito de reformular nossa posição. Se nos omitirmos
diante desse ataque do capital, restringindo nosso discurso apenas
em prol da autogestão, não estaríamos apoiando
a luta dos trabalhadores para manter conquistas importantes e, quem
sabe, avançar em suas lutas e reivindicações. |topo| E AS ANARCO-FEMINISTAS O QUE SÃO? Conhecemos
a aparência de uma bota Logo
invadiremos como ervas daninha
Quando
dissermos: ataque! Peggy Kornegger Quando se ouve a palavra anarco-feminismo, logo vem a impressão de mulheres que excluem os homens de suas vidas, que querem separar as pessoas pelo sexo, etc. Mas o que nem sempre se para prá pensar, é porque se tem essa impressão. Continuam, até mesmo os anarquistas, a se espelharem nas imagens distorcidas que veiculadas pelos meios de comunicação da sociedade burguesa. Se assim fosse, acreditaríamos também que anarquia é bagunça, que Deus existe, que os anjos existem e tem asas... É necessário, para se compreender realmente alguma coisa, que nos desvinculemos das respostas prontas já fornecidas pela imprensa burguesa, que a mente se abra para receber novas idéias e questioná-las. Anarco-feminismo não é separatismo! Se você é homossexual e resolve se juntar a outros homossexuais para lutar por sua emancipação, você está sendo separatista? Você acredita que cada classe oprimida conquista sua liberdade através de seu próprio esforço e luta? Sim? Então, pára de reclamar! As mulheres estão se dando conta do quanto são oprimidas e exploradas dentro da sociedade patriarcal, de que nunca puderam ouvir sua própria voz e discutir sua opressão. O que acontece, hoje, no movimento libertário, é que nós, mulheres que estamos tomando consciência de nossa condição de proletária do proletário ou escrava do homem escravo, temos condições de levantar a cabeça e discutir com outras mulheres (que também são vítimas da mesma opressão) o que queremos fazer para lutar contra isso. E isso não são apenas os homens machistas, mas sim uma sociedade cristalizada no patriarcado, onde os valores estão montados em cima da exploração, da escravidão e do preconceito. Precisamos de espaço para mostrar nossa cultura e desenvolver nossas potencialidades, que foram sufocadas no patriarcado. Tudo isso, só conseguiremos com muito trabalho conjunto e abertura, para que possamos mostrar o que queremos fazer e como fazer. Temos que desenvolver o nosso lado feminino real, e não o feminino imposto pela sociedade machista. Os nossos valores foram sufocados e, em lugar desses, vieram valores integrados, como a estética, a beleza, o comportamento, a maternidade obrigatória, etc., que não são naturais como parecem. Tais coisas, somente nós mesmas podemos avaliar, questionar e mudar, mais ninguém. Não se pode chegar para um negro e dizer-lhe o que fazer para lutar contra sua discriminação, se você nunca sofreu isso. Você pode ajudá-lo e apoiá-lo, mas se você nunca sofreu discriminação racial, nunca poderá saber o que ele sente, quanto mais decidir o que ele deve fazer. O mesmo ocorre com as mulheres. Mudando nosso comportamento e nossa visão de mundo, estaremos muito mais abertas para relacionamentos realmente recíprocos, e não paternalistas. Teremos muito mais autonomia para batalhar em outros coletivos e tomar conta de nossas próprias vidas. Isso é fato! Os
grupos de mulheres têm essa função que, dentro
do movimento anarquista, se torna imprescindível para quem
almeja uma sociedade livre, humana e igualitária. Nós precisamos de espaço e vamos lutar por ele. Que alguns torçam o nariz, que outros falem mal por não entenderem, que façam abaixo assinados e panfletagens, o que quiserem, mas estamos aqui e pronto! Acreditamos no anarquismo, mas só acreditamos nele funcionando no dia-a-dia. Se nós mulheres criamos grupos específicos, é porque estes nasceram dá necessidade, e não por brincadeira. Nossa luta não se restringe apenas ao feminismo, mas sim a tudo que engloba o anarquismo e, por isso, nossas atividades sempre são em conjunto com outros grupos anarquistas e anarco punks, os quais apoiamos e nos apoiam, sendo a luta e a caminhada lado a lado. Se a possibilidade das mulheres tomarem conta de sua própria luta o assusta, então apavore-se, pois nossa arte, nossa escrita, nossa poesia e nossa forma de lutar vão estar correndo livres velas ruas! Valéria
Bolevari, CAF/SP, C.Postal 117;CEP: 07111-970;Guarulhos |topo| O texto reproduzido a seguir, foi extraído do livro O Povo em Armas - Buenaventura Durruti e o Anarquismo Espanhol, de Abel Paz (Assirio e Alvim Soc. Editorial, Lisboa, Portugal). Este livro, publicado em dois volumes, aborda a trajetória de Durruti ao longo de todo o processo revolucionário espanhol, que culminou com a implantação do comunismo libertário em grande parte do país, após o 19 de julho de 1936. Buenaventura Dumiti morreu em Madri, com 40 anos de idade, nas primeiras horas da manhã do dia 20 de novembro de 1936. Um tiro havia atingido seu coração e o da Revolução. ... "Em duas semanas de guerra, tinham sido esgotadas as munições, na frente de Aragón. Não só faltavam balas para espingardas, como também as espingardas, do velho modelo 94, tinham que ser freqüentemente reparadas, quando não acontecia que já estivessem fora de uso. A artilharia economizava obuses e a aviação, muito reduzida, fazia apenas breves surtidas, obtendo como único resultado exasperar os fascistas que já dispunham da aviação italiana e alemã.(...) Na zona ocupada pela Coluna Durruti, a inatividade era geral. Só os grupos guerrilheiros executavam alguns golpes que, por vezes, produziam um efeito psicológico considerável. Os combatentes, contudo, que se encontravam na imediações de Zaragoza, sem poderem dar o assalto à cidade, viviam um verdadeiro suplício. Aproveitando-se desse período de calma, Durruti dirigiu-se a Barcelona. Queria examinar, com o Comitê Central das Milícias, a situação em Aragón e o meio de saírem do imobilismo, ao qual os reduzia a falta de material de guerra. Na estrada de Bujaraloz a Barcelona, pôde largamente render-se à evidência de quanto as coisas haviam mudado: "O turbilhão que tinha arrastado as pessoas, ao longo dos primeiros dias de luta, tinha desaparecido. Presentemente, aldeões e operários tinham canalizado os ímpetos iniciais, começando por mudarem a sua maneira de viver. Tinham sido criadas novas relações sociais. O povo, quer dizer, operários e camponeses, estava armado e montava guarda à entrada e à saída das aldeias. Não havia guardias de asalto, nem guadias civiles, nem sequer uniformes de espécie alguma, apenas homens em armas postados em todos os lugares." Ao passar por uma aldeia da província de Lérida, Durruti parou e apresentou-se ante o controle operário como um miliciano que vinha da frente, declarando que tinha necessidade de gasolina. Queria ser ele próprio a observar qual o comportamento atual das pessoas desta aldeia com perto de 3.000 habitantes. Foi-lhe dito que se dirigisse ao Comitê Revolucionário, que se encontrava na antiga Câmara Municipal. Aí, logo lhe dariam uma senha. Durruti atravessa a plaza. E cerca de meio-dia. Não há transeuntes, apenas algumas mulheres que saem da igreja com um saco de provisões. Durruti pergunta-lhes qual é o caminho para ir até o Comitê. E porque passam pela igreja? Não, lá não está mais padre nenhum. O padre está nos campos e trabalha a terra com os outros camponeses. Matá-lo? Porquê? Ele não é perigoso. Fala até em unir-se a uma moça da aldeia. Ele está contente com a sua nova situação. E a igreja? Ah sim, a igreja. Pois eles queimaram todos os santos de pau. Expulsaram Deus e, posto que Deus já não existe mais, a assembléia decidiu substituir Adiós (Adeus) pela palavra Salud (Saúde). Na igreja, instalaram a cooperativa alimentar e, como a coletivização é total, toda a gente se serve na cooperativa. No Comitê, havia um único homem, já velho. Antigo professor primário, tinha sido substituído dois meses antes da revolução por um jovem professor de, Lérida. Desde então estava aposentado, não fazia mais nada, mas com a revolução tinha-se constituído voluntário para se ocupar dos trabalhos burocráticos, do Comitê. Os outros membros estão trabalhando. Assim o exige a estação, tanto mais que muitos jovens da aldeia partiram para a frente de guerra e é preciso ceifar o trigo. Se não, o que é que a gente vai comer durante todo o ano? Durruti pergunta como é que foi nomeado o Comitê. De maneira muito simples: reuniu-se uma assembléia, na qual participaram todos os habitantes. Tomou-se em consideração as capacidades de cada um e sobretudo - insiste o velho - a conduta anterior à revolução. Os partidos políticos? Alguns republicanos, talvez alguns socialistas também; mas não, a presença política não desempenhou qualquer papel. O Comitê representa toda a aldeia, portanto é preciso tomar em linha de conta a opinião de toda a gente. Os partidos políticos pra que? Trabalha-se para comer e come-se para trabalhar. Não é com a política dos partidos que se faz crescer o trigo, que se apanham as azeitonas e que se trata dos animais. Não, não, os problemas são coletivos e é coletivamente que eles devem ser resolvidos. A política separa, encerra em compartimentos estanques e a aldeia quer viver em coletividade total. Toda
a gente está contente, mas... e os antigos patrões?
Os antigos patrões é claro que não estão
encantados; não o dizem porque têm medo, mas vê-se
o que sentem estampado na cara. Alguns entraram para a coletividade,
outros escolheram aquilo a que agora se chama o "individualismo".
Conservaram as suas terras, mas são obrigados a cultivá-las
sós, porque, na aldeia, a exploração do homem
pelo homem acabou. E se eles não conseguirem cultivar toda
a terra de que dispõem? Então, nesse caso, a coletividade
toma a seu cargo as terras não cultivadas, porque deixá-las
de pousio, abandonadas, seria um crime contra a comunidade inteira.
Durruti deixou a aldeia. No controle. perguntaram-lhe se ele tinha
recebido a sua senha para a gasolina. Ele sorriu, disse que sim, atirou
um Salud para o ar e o automóvel tornou a arrancar na direção
de Barcelona."(...) |topo| |