Libera Nº 63

AS TRÊS BOCAS DO LOBO

A prática sempre foi clara ainda que jamais declarada: quem está no poder, quer mais poder. E, para chegar ou se manter lá é capaz de fazer tudo: vender o irmão, trair o amigo, matar o vizinho. Impulso irreprimível, fome insaciável, o poder é o afrodisíaco dos impotentes.

Alguns idealistas célebres lançaram a velha teoria da divisão do poder. Esta seria a melhor forma de administrá-lo. Assim, o Poder Executivo seria controlado pelo Poder Legislativo e o Poder Judiciário ficaria de olho nos outros dois. Os idealistas imaginaram o animal político perfeito: um lobo de três bocas. Na hora da fome, cada boca impediria as outras de comerem além de sua porção correta. Cuique suum. A cada um o seu.

Mas os que vêm sendo devorados, através dos séculos, teimam em não perceber nenhuma vantagem nesse monstro de tríplice mordida. 0 fato é que, no Brasil, o Poder Executivo executa a nação com imenso apetite: a saúde do país está em coma; o ensino, em estado de burrice avançada; a polícia, cada vez mais assassina; a distribuição da riqueza, sempre mais criminosa. No caso do governo FHC, o Executivo ganhou um discreto charme intelectual, uma fluidez verbal e um brilho universitário que o tornam quase irresistivelmente acaciano.

Já o Poder Legislativo continua legislando em favor do próprio bolso. No Brasil, o político é o menestrel da corrupção, aquele que canta em benefício próprio e se vende sem crise de consciência. 0 político não tem consciência. Recebe um mandato do povo e faz desse mandato um balcão de negócios junto ao Poder Executivo. Em nosso país, o político é o "abusuário" de mordomias, um traidor contumaz e um traficante de influências. As exceções apenas confirmam a regra.

No caso do Poder Judiciário, estamos diante de um melodrama de tribunal: fala-se muito, mas as cartas estão marcadas. Não existe sociedade mais injusta que a brasileira. Aqui, morre-se de fome ao lado dos silos, onde toneladas de cereais apodrecem. Aqui, subvive-se em favelas e há latifúndios que podem ser percorridos durante um dia inteiro. Este é o país onde o ladrão de galinha recebe muitos anos de cadeia e o banqueiro que desvia bilhões recebe ajuda do Poder Executivo, aplausos do Poder Legislativo e habeas corpus do juiz de plantão. Não há como negar: a justiça tarda, falha, e é cega. Mordido pelas três bocas do lobo, o cidadão: eleitor, contribuinte, consumidor esperneia e se desespera. No horizonte, alguns vislumbram a utopia de uma sociedade justa.

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LUTA AUTÔNOMA

Muita gente nos pergunta, faz tempo: o que é Autonomia? Quem são os autônomos? Antes de mais nada, é preciso dizer eu "autônomo" significa "que ou quem a si mesmo governa". Por isso, as mobilizações dos grupos autônomos têm sempre o indivíduo como protagonista, em contra-posição às organizações hierárquicas e autoritárias.

A Autonomia não é uma ideologia, nem mesmo uma política, mas uma alternativa à política. O certo é que se trata da única tendência revolucionária que não se deixou rotular, monopolizar ou rebocar por velhos dogmas, clichês ou hábitos. A Autonomia se define como anticapitalista e antiautoritária, e combate sem tréguas o patriarcado, o capital, o estado e todas as opressões ditas específicas.

Reconhecemos o papel desempenhado pelos autênticos revolucionários comunistas e anarquistas na luta contra o sistema capitalista. Nosso modelo e objetivo é a sociedade livre, sem classes, sem estado e sem capital; a sociedade autogerida, cujo princípio regulador é: de cada um segundo suas possibilidades, a cada um segundo suas necessidades.

No sentido amplo, somos milhões: operários desempregados ou precarizados, estudantes sem futuro, presos, camponeses arruinados, imigrantes, ocupantes, insubmissos, gays e lésbicas, prostitutas, grupos solidários, enfim, todos os setores que se encontram à margem do sistema capitalista. São autônomos os que se situam fora e contra as engrenagens do poder, com seus três mecanismos de controle: instituições totais (caserna, escola, fábrica, sanatórios, hospícios, penitenciárias etc), partidos e sindicatos. No capitalismo, todos esses setores estão condenados à pobreza e à marginalização.

Concretamente, autônomos são os coletivos e individualidades que se propõem viver a Revolução hoje, sem esperar diretivas de ninguém, sem aceitar a direção das vanguardas autoproclamadas, cujo dogmatismo e autoritarismo servem apenas para manter a exploração com outro nome.

A Autonomia é uma rede de grupos que atuam solidariamente com os presos, ocupantes, insubmissos, coletivos operários de fábrica e estudantis, de contra-informação e ação direta, entre outros movimentos sociais libertários.
Viver a revo1ução agora é liberar espaços, incentivando o ócio autogerido e superando o medo institucionalizado; é atacar os burgueses, reapropriando a identidade na rebeldia, na criatividade e na solidariedade com os que lutam pela destruição do capital.

Um autônomo jamais diz: "filia-te ao nosso grupo." Isto porque os autônomos não se julgam donos da verdade. Mas um autônomo diz: "Se queres mudar a tua vida e transformar a sociedade, organiza-te e luta."

La LLetra A , nº 46 - jan/fev 1996
Os textos assinados não necessariamente refletem a opinião do Coletivo Editorial do CELIP.

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AUTONOMIA & ORGANIZAÇÃO

POR AUTONOMIA entendemos urna luta pela transformação social, que realizamos desde a auto-organização como setores explorados. A evolução tecnológica dos meios de produção acarretou urna reestruturação do sistema capitalista. Faz-se necessária uma redefinição do conceito de classe social. O trabalhador não é mais o operário de fábrica, característico do século XIX e começos do século XX, nem, tampouco, o operário qualificado ou o operário-massa das grandes indústrias que se desenvolveram até os anos 60. Atualmente, o conceito de classe operária, além de incluir os já tradicionalmente considerados trabalhadores, abrange também os desempregados, os trabalhadores eventuais e os da economia submersa, os trabalhadores imigrantes, os terceirizados e todos aqueles que, mesmo não tendo um vínculo jurídico de dependência com o capitalista, produzem mais-valia.

A organização que tem como finalidade a transformação social deve adequar-se às novas realidades, levando em conta que as velhas organizações dos trabalhadores não mais atendem às expectativas de luta do operário social (denominação da nova definição do proletariado). Uma organização revolucionária tem de considerar, a todo momento, qual é a realidade social em que atua, analisar a estrutura de classes vigente e designar o sujeito da transformação social. Se isto não acontece, a teoria se afasta da prática social, alienando-nos da realidade e nos impedindo de transformá-la.

Organização: Queremos uma autêntica ruptura com o sistema capitalista, lutamos por uma sociedade sem classes, sem hierarquias, que tenha abolido a família patriarcal, por uma convivência livre e respeitosa com a natureza. Para ajustar-se aos objetivos apontados, nossa organização deve ser assembleária, na qual sejam respeitadas todas as posições e se busque o consenso possível. Somos contra os profissionais da política, os líderes, os aspirantes a ditadores do proletariado e outros infalíveis coveiros da revolução social. Combatemos as delegações permanentes, a burocracia e todos os demais mecanismos de representação/alienação do protagonismo dos trabalhadores. O fato de pagar urna quantia periodicamente não é suficiente para o compromisso orgânico, isto é, militante. É preciso assumir responsabilidades. Ser autônomo é ser ativo.

Ideologia aberta: A visão libertária dos problemas e das soluções tem mudado, com o passar do tempo. A um mesmo problema tem sido dadas respostas diferentes, em função do contexto histórico, econômico e social. Portanto, mantendo nossos princípios e sem perder de vista nossos objetivos, construímos e desenvolvemos nossa ideologia no cotidiano, através da constante discussão e análise dos temas sociais. Este método nos facilita o reconhecimento, no interior do movimento libertário, de uma questão essencial: o respeito à diversidade.

A diversidade: No interior do movimento libertário são apresentadas diversas soluções (quanto aos meios) para o problema do encaminhamento das lutas. É necessário respeitar essa diversidade, para que a organização acolha as diferentes visões e supere o tradicional sectarismo, que, fazendo referência a uma suposta pureza dos meios, conduz ao dogmatismo e à inoperância.

Os símbolos: Os símbolos, como as palavras, significam alguma coisa. Consideramos equivocadas as teses que falam de superação das contradições mediante a supressão de todo símbolo, pois prescindir deles seria como prescindir das palavras. O que devemos fazer é rechaçar os símbolos que tenham uma carga histórica pejorativa e de desunião. Há quem utilize determinados símbolos para autojustificar seus delírios e defender seus micro-espaços de poder, confundindo a liberdade com uma tirania da própria personalidade sobre a dos demais.

Pensamos que a "estrela negra" é o símbolo adequado para superar antigas contradições, além de expressar abreviadamente o movimento autônomo.

Coordenação: Desde cada coletivo organizado, cada localidade, devemos coordenar-nos para obter uma resposta global ao sistema capitalista. As lutas pela transformação social exigem coordenação; sem esta não há possibilidade de ruptura com o sistema.

A coordenação se traduz, na prática, em posturas unitárias quanto aos temas e lutas que nos são comuns. Havendo opiniões divergentes, o movimento terá de ser flexível o bastante para que cada coletivo faça o que achar mais conveniente. Desta maneira, evitamos cair em uma organização fechada, dogmática e autoritária, o que nos faria perder o contato com as lutas sociais.

Perspectivas: Nossa luta deve assumir o conceito de autovalorização, isto é: a luta pela recuperação de nossa vida para nós mesmos, não uma vida submetida e explorada pelo capital. Por isso, consideramos o trabalho assalariado uma imposição do sistema capitalista. Portanto, não elogiamos o mundo do trabalho, o mundo da fábrica, pois seria elogiar o número de horas em que somos parte da engrenagem do capitalismo.

Nossa luta é, também, pela recuperação do máximo possível do resultado de nossos esforços para nós mesmos. Seja em forma de salários (mesmo que venham a ser absorvidos pela inflação), seja em forma de seguro-desemprego, transportes gratuitos ou reapropriação direta de nossa força de trabalho. Assim, cabe mencionar, a título de exemplo, que, segundo estudos recentes, 70% das mercadorias "roubadas" nos estabelecimentos comerciais são reapropriadas pelos próprios empregados.

Devemos estar presentes em todas as lutas econômico-sociais, impulsionando a auto-organização, explicando nossos pontos de vista e respostas aos problemas concretos, assim como a extensão das lutas anticapitalistas. Isto é, a difusão da idéia de que, dentro do sistema, as únicas soluções possíveis são meros embustes. O mal está no próprio sistema capitalista, que temos que destruir.

Portanto, temos que expressar nossa solidariedade com todas as lutas anticapitalistas do mundo inteiro. Aproveitamos para combater outra forma de dogmatismo, que consiste em transpor mecanicamente as formas de luta ocidentais e a interpretação ocidental do que seja "libertário" a outras regiões do planeta, que desenvolveram formas de auto-organização e visões anti-hierárquicas próprias (índios dos EUA, aldeias livres centro-americanas etc).

Para terminar, assinalamos alguns temas que consideramos essenciais em nossa luta: insubmissão ao serviço militar obrigatório, FMI, crise econômica, denúncia da repressão às lutas sociais, contra-informação, internacionalismo anticapitalista, combate às estruturas patriarcais, etc. Em todas as lutas, ressaltamos que o denominador comum, o responsável por todos os problemas é o sistema capitalista.

Esta é uma tomada de posição que não quer constituir nenhuma teoria pronta e acabada. Portanto, está aberta a toda crítica solidária. Finalmente, enfatizamos que a autocrítica é essencial para o avanço na construção de uma relação criadora entre teoria e prática.

Loita Autónoma (Coord. De Grupos Autónomos)
Traduzido de La LLetra A, nº 45, out/nov de 1995.

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