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O futuro se faz com números? No princípio de setembro, o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) revelou dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) de 1995. É a mais ampla pesquisa desde 1967, entrevistando, entre os dias 24 e 30 de setembro, 334.263 pessoas em 102.787 residências distribuídas em 793 municípios de todas as regiões do país. A grande imprensa soltou fogos de artificio. Afinal, o rendimento médio do trabalhador brasileiro aumentou 29% de 1993 - quando se realizou a última PNAD - a 1995, e se encontra, atualmente, em R$ 433,00, o mais elevado desta década. A melhoria é resultado de um efeito de curto prazo da queda da inflação, causada pelo Piano Real, garantem os especialistas. Ponha um sonho na cabeça e R$ 433,00 no bolso. Vá com sua família a um shopping center da vida, ao voltar para casa com o bolso vazio, você vai descobrir como é fácil gastar um mês de trabalho e não conseguir satisfazer seus desejos e os de sua família. Os números afirmam que o brasileiro está vivendo melhor: 96,4% dos domicílios têm fogão; 88,8% têm rádio; 81% têm televisão e 74,8% têm geladeira. A máquina de lavar roupa está em 26,6% dos lares e o telefone em 22,3%. Dos domicílios ocupados no Brasil, 71,9% são casa própria. Agora, é bom perguntar: que comida se cozinha nesse fogão? Que rádio se escuta? Que programa de TV manipula a massa? E que barraco é essa casa própria? Esses são os números "otimistas". Outros números indicam que este país tem muito que melhorar. As mulheres continuam recebendo menos que os homens, embora respondam pelo comando de 22,9% dos lares brasileiros. São 3,3 rni1hões de crianças de 10 a 14 anos trabalhando e, pela Constituição, elas não deveriam fazer parte da força de trabalho. E 10% da popu1ação detêm 47,1% da massa total de rendimentos, dando ao país o triste campeonato de pior distribuição de renda do planeta. Repetimos: o Brasil ainda tem muito que melhorar. Talvez possamos começar a pensar em justiça social quando o salário-mínimo puder comprar o necessário para uma vida digna. Sem isso, só teremos números que enganam. |topo| Há 14 anos, Mumia Abu-Jamal circulava numa noite fria de dezembro, na Filadélfia, no volante de um táxi, seu segundo emprego, o qual lhe permitia agüentar a atividade de jornalista free-lancer. Eram tempos de tensão racial, na cidade. Às quatro da manhã, foi entregar o táxi. Ao entrar numa rua, deparou com um grupo de policiais espancando um negro. Era seu irmão, Bill, que havia feito uma inversão de marcha numa rua de sentido único. Mumia tentou parar o espancamento, mas a única coisa que conseguiu foi apanhar também. Os acontecimentos que se seguiram apresentam contradições de fundo entre as testemunhas. Sabe-se que Mumia foi atingido por uma bala no abdome e que um policial foi mortalmente baleado. Testemunhas indicam que, mesmo à beira da morte, o policial ainda bateu em Mumia, no local e, posteriormente, no hospital. Não demorou muito para que a Procuradoria Distrital viesse a acusá-lo de assassinato e pedir a pena capital. O caso chegou às mãos de Albert Sabo, um juiz que, entre 1978 e 1991, condenou 31 pessoas à morte. Entre elas, apenas dois brancos. A história de Abu-Jamal possui todos os ingredientes de um escândalo judicial: racismo, perseguição política e vingança policial. Os erros do julgamento são clamorosos. Informações essenciais, que poderiam ter levado o júri a concluir pela inocência de Abu-Jamal, foram escondidas pela promotoria. Nem a defesa nem os jurados tiveram acesso a um exame de balística mostrando que o policial Daniel Faulkner foi morto por uma bala de calibre 45. O revólver de Abu-Jamal, encontrado momentos depois do crime, era calibre 38. Estudos mostram que, nos EUA, os condenados por assassinar brancos têm maior probalidade de pegar a pena de morte do que os culpados de homicídios de negros. Desde 1977, quando a pena de morte voltou a ser aplicada, 85% dos réus executados foram condenados por matar brancos. Somente em 11% dos casos de execução as vítimas dos condenados eram negras. Desde 2 de junho de 1995, data em que foi marcada a execução de Mumia Abu-Jamal, intensificaram-se as manifestações em solidariedade ao jornalista e em repúdio à pena de morte. A data de sua execução seria 17 de agosto do ano passado, mas graças ao trabalho intenso de várias organizações não-governamentais, autônomas, ecologistas e alternativas por todo o mundo, conseguiu-se o adiamento da aplicação da sentença. Toda essa campanha é um trabalho contínuo e intenso, que se desenrola há 14 anos nos meios alternativos, apesar do desconhecimento público total. No final do ano passado, a irmã de Mumia Abu-Jamal, durante o Congresso Continental dos Povos Negros das Américas, disse que estava receosa desse segundo julgamento. Ela fez um apelo, no sentido de que intensifica se ainda mais a campanha de apoio a seu irmão. É isso que estamos fazendo, e esperamos poder contar com a sua ajuda, unindo todos os esforços para que a justiça seja feita. O que podemos
e devemos fazer: |topo|
Companheiros do coletivo APPL, em Salvador, comunicam que em 23 de outubro passado foram assassinados, a tiros, depois de barbaramente torturados, dois jovens anarquistas, integrantes de uma banda de rock e membros da comunidade libertária local. Chamavam-se Osmundo Moreira da Silva Filho e Alexandro José Novaes Conceição. Seus assassinos pertencem à Polícia Militar e, na ocasião, estavam sob o comando do cabo Gidi Santos Barreto. Após o crime, os policiais colocaram uma arma nas mãos de um dos mortos para simular resistência à prisão. O fato foi denunciado no jornal Bahia Hoje de 26 de outubro. Grupos anarquistas e amigos dos assassinados organizaram diversas manifestações, como a realizada em Salvador em 6 de novembro passado, para denunciar o ocorrido e exigir punição para os criminosos. Pede-se aos companheiros de todas as partes do mundo que mandem mensagens de repúdio a este brutal homicídio, exigindo castigo para os policiais assassinos. As mensagens devem ser enviadas para: Comissão de Direitos Humanos da Assembléia Legislativa da Bahia: Fax (071) 371-0883; e Ministério da Justiça do Brasil: <webmaster@mj.gov.br> A solidariedade de todos com respeito a este caso é muito importante. Qualquer outra informação sobre o assunto procure difundi-la tão logo seja recebida. |topo|
Roma, 14-15 de setembro de 1996 O Comitê de Delegados USI-AIT, reunido em Roma, em 14 e 15 de setembro de 1996, confirmou o que fora estabelecido no último Congresso: diante do avanço mundial da lógica da exploração do homem pelo homem, peculiar ao sistema capitalista, deve ser lançado urgentemente um movimento amplo dos trabalhadores e de todas as camadas sociais oprimidas, um movimento anticapitalista e antiautoritário (antifascista, antistalinista, anti-racista, antimilitarista), baseado no federalismo libertário, de acordo com as várias expectativas locais e nacionais. Tal movimento deve apresentar urna proposta de autogestão global da sociedade, sem exploradores e explorados. A USI-AIT afirma que é necessário, hoje, superar quaisquer diferenças artificiais entre o sindicalismo revolucionário e o anarco-sindicalismo, urna vez que ambos apontam para um projeto de sindicalismo global autogestionário. Este deve ser capaz de construir urna alternativa mundial aos planos de exploração do Capitalismo e dos Estados; de fazer com que milhões de trabalhadores e oprimidos se juntem na luta e organização, conforme ocorreu, por exemplo, na Itália em 1920 com a USI e na Espanha, em 1936, com a CNT. Um plano sindicalista cujo objetivo é a autogestão social, como a única alternativa real ao regime de exploração mundial corrente, para uma sociedade constituída por pessoas livres e iguais. A AIT deve dar força aos princípios de unidade e solidariedade entre os trabalhadores, conforme declarado pela ala antiautoritária, na Primeira Internacional, baseando suas ações nos interesses comuns e reais dos trabalhadores, sem controvérsias internas inúteis. Para atingir seu objetivo, é importante que a AIT não se radicalize como uma organização constituída exclusivamente por trabalhadores anarquistas, mas atue como uma união de classe dentro do movimento dos trabalhadores, sem qualquer discriminação racial ou sexual. Como proposta de Agenda para o XX Congresso Internacional da AIT-IWA, de Madri, o Comitê se refere aos documentos das diferentes seções da USI, cujo resumo é apresentado a seguir: 1) Possibilidade de mais de uma seção nacional fazer parte da AIT, a fim de efetuar os princípios do federalismo e autodeterminação, contanto que essas seções estejam alinhadas com os Princípios de Saint Imiers e os princípios da AIT, e antes de tudo baseadas em considerações logísticas e composição etnolingüísticas, especialmente em grandes nações. 2) Nomeação
de Subsecretário, tomando por base as áreas demográficas,
necessária tanto para suportar o crescimento autônomo das
seções descentralizadas, como acompanhar melhor as iniciativas
de luta em áreas geográfica e historicamente fechadas. 4) Reforço dos sistemas de informação e intercâmbio, mesmo por redes de informação internacionais. 5) Quanto à presença de amigos da AIT-IWA no Congresso, foi proposto dar-lhes a mesma possibilidade de intervenção que os hóspedes têm, sem desvantagens. 6) Quanto às relações com a SAC, deve ficar estabelecido um diálogo e co1aboração de acordo com as iniciativas de luta, assim como com os outros sindicatos antagonistas, auto-organizados, revolucionários, respeitando suas peculiaridades e objetivos, mas apontando para a unidade dos trabalhadores e expandindo na sociedade o projeto de autogestão AIT. Neste tema, o Comitê Nacional de Delegados da USI, fazendo autocrítica, considera um grande erro a ausência da AIT no "Encontro Antineoliberalismo" zapatista, ocorrido em Chiapas, no último verão, e sugere um contato oficial com o E.Z.L.N. 7) O Comitê Nacional da USI propõe que a AIT convoque, para a próxima primavera, em Milão, um Encontro Internacional de toda a oposição sindicalista mundial a fim de definir iniciativas de luta real e unitária. União
Sindical Italiana |topo| Estava velho, sabia. Mas não temia a morte, o fim natural de toda existência. Seus materialismo e ateísmo não tinham sido corroídos pela inevitável decadência física. A imensa biblioteca que tinha de nada servia, agora. Não podia mais ler os livros que testemunhavam sua cultura. Não lia, mas falava e escutava. Suas curiosidade e insatisfação não tinham limites. Era assim Brito, o velho anarquista. Ainda criança, emigrou com os pais para Buenos Aires. Lá cresceu e se tornou anarquista, atuando no poderoso movimento operário anarco-sindicalista argentino, criado por emigrantes espanhóis, italianos e russos. Um movimento que viveu episódios marcantes e trágicos, como os retratados em Patagônia Rebelde. Brito morou em cidades, viveu pelos pampas como peão, escondeu-se em florestas, viajou clandestinamente em trens de mercadorias, por toda a Argentina, divulgando idéias. A sua militância, que nenhuma memória irá recuperar, levou-o ao Paraguai, onde participou de ações insurrecionais e, novamente nessa fuga incessante dos rebeldes do começo do século, veio para o Brasil, onde andou por Mato Grosso. A cartografia de sua revolta não pode ser reconstituída, seus companheiros de então morreram há muitos anos. Sua própria existência, anônima, é certamente desconhecida pelos historiadores do movimento operário latino-americano. Quando o conheci nos anos 70, durante o tempo que vivi em Lisboa, encantou-me sua figura saída da galeria dos revolucionários românticos: cabelos e barba branca desalinhados, lenço preto, era um profeta libertário. Encontrei-o em sua modesta casa, num dos bairros mais típicos, em pleno coração da cidade, na Bica. Naquele labiríntico primeiro andar, em cima de um boteco, cheirando a vinho e sardinhas assadas, com vista para o rio Tejo e para Cais do Sodré, existia um fantástico mundo de cultura e memória. As velhas paredes, ocultas por livros, testemunharam muitos sonhos, paixões e resistências. Daquela casa saiu a ajuda para muitas presos e perseguidos da ditadura portuguesa, lá chegavam muitos livros proibidos, inclusive editados no Brasil para circular clandestinamente de mão em mão. Brito acompanhou a Guerra Civil Espanhola e, em Maio de 68, quando a Europa ferveu, foi a Paris para encher os pulmões de liberdade e utopia. A modesta casa de peixeiro - sua última profissão - testemunhou muitos dramas e sonhos do nosso século. Um dia, um jornalista lhe perguntou por que era comerciante, a resposta saiu irônica "É a única forma de poder roubar, sem ser preso." Quando a ditadura portuguesa caiu, logo retomou, à luz do dia, suas atividades libertárias, colaborando nos jornais, editando clássicos. Por sua casa passaram intelectuais, artistas, libertários das mais variadas nacionalidades. Uma de suas publicações iconoclastas, A Merda, ficou famosa e provocou a indignação da esquerda séria e moralista. Passaram anos, o jornal não existe mais, mas a crítica à política, ao Estado, à própria esquerda, permanece atual. Uma parte da esquerda ficou soterrada pela queda do muro, outra reciclou-se de liberal, os artistas e intelectuais críticos sumiram, convertidos em bobos da corte ou em pequenos burocratas, mamando nas tetas do Estado. Mas o Brito sobreviveu. Quando o vi pela última vez, em 1995, estava velho e radicalmente libertário. Criticando toda ortodoxia e pensamento esclerosado, repensando o que seria um socialismo libertário adequado à nossa época. Preocupado em entender os processos de alienação contemporâneos e contribuir para recriar um movimento libertário neste final de século. Despedi-me dele com um "até o ano 2000". -"Não", disse-me serenamente naquele seu sotaque, mistura de muitas vidas, "só preciso de mais dois anos para colocar algumas idéias em ordem e terminar uns textos". Há dias, recebi a notícia de amigos portugueses: morreu o Brito. O velho anarquista, resolveu morrer sem esperar o seu centenário e o final do nosso século. O seu terminou talvez há cinqüenta anos, embora tenha sobrevivido para ver as mudanças profundas sofridas pela sociedade nas últimas décadas, não aquelas por que lutou toda a sua vida, outras que tornam a nosso futuro sombrio. Mas como todo anarquista, partilhava um voluntarismo otimista: o futuro somos nós que fazemos! Jorge Silva (SC) - Novembro de 1996. |topo| O neoliberalismo cumpre hoje a mesma função ideológica que as teorias racistas, durante a transição do século XIX para o século XX: serve para justificar a exclusão de grande parte da mão-de-obra. No caso das teorias racistas, que também se apresentaram como verdade absoluta, quando se questionou (antes mesmo da abolição) o destino da escravidão do negro no Brasil, os "intelectuais" apelavam para o darwinismo social e sustentavam que o papel da raça negra já havia sido cumprido, sendo assim necessária a importação de mão-de-obra branca, que, com o tempo, iria " limpar racialmente" o Brasil. Através do embranquecimento, segundo o historiador Sílvio Romero, "o tipo branco irá tomando a preponderância, até mostrar-se puro e belo, como no Velho Mundo". E essa mentalidade não teve repercussão apenas no Brasil. Após visita ao Brasil no início do século, Theodore Roosevelt escreve: "o ideal principal é o desaparecimento da questão negra pelo desaparecimento do próprio negro, gradualmente absorvido pelos brancos." Havia, também, o pavor de uma insurreição generalizada dos escravos. Padre Antônio Vieira, no século XVII, já alertava que a história do Quilombo dos Palmares seria o estímulo para o surgimento de outros, transformando a Brasil "num mundo quilombo". Duque de Caxias, em carta a Dom Pedro II, mostrava a sua preocupação com os negros retornados da guerra do Paraguai. A insatisfação desses negros poderia muita bem iniciar uma revolta "como a do Haiti", onde a massa enfurecida eliminou a minoria branca. A não-incorporação da imensa massa negra (que, antes mesmo da abolição, já havia conseguido a própria liberdade - a lei Áurea libertou apenas 5% dos negros do Brasil; os demais, de uma forma ou de outra, já estavam em liberdade) gerou problemas que até hoje não têm solução. O processo de imigração retirou o negro do mercado de trabalho. Na época, já existia o que poderíamos chamar de protocampesinato, formado por quilombos). Além disso, havia negros em número reduzido na indústria, e até mesmo micro-empresários negros. O capitalismo lançou na "informalidade" a maioria da população negra. Tudo em nome de uma "nova ordem mundial", da entrada do Brasil no 1º mundo. Mas o Brasil só encontra a miséria sempre que procura a modernidade. Jobson |topo| |