Libera
Nº 73
OS
FILHOTES DO PODER
Madrugada
de Domingo, 20 de abril, capital federal. Cinco jovens "bem-nascidos"
da sociedade brasiliense decidem, em uma mesa de lanchonete, qual
o programa ideal para concluir a noitada. Naquele clima de tédio,
alguém sugere: "Ah! Vamos tacar fogo em um mendigo!".
E lá se foram eles em busca da vítima, que logo encontram
dormindo em um posto de gasolina, voltam ao local e, lentamente, despejam
o líquido sobre o corpo inerte. Todos, excitados, acendem fósforos
e os soltam...
Totalmente envolto em chamas, desorientado pelo susto e pela dor,
o índio pataxó Galdino Jesus dos Santos grita, corre,
se debate e queima. Socorrido pôr alguns motoristas que lá
passavam, é levado ao hospital onde morreria 24 horas depois.
Os cincos jovens foram presos rapidamente e , perante o delegado,
um deles declarou: "Nós não sabíamos que
era um índio"(!!!). Cruel ironia, Galdino veio a Brasília
para as mobilizações do Dia do Índio(19/04) e
foi enterrado no dia 22 de abril, exatamente 497 anos após
os portugueses desembarcarem no litoral da Bahia, onde encontraram
justamente seus antepassados pataxós.
Depois da tragédia, mais essa faceta do extermínio sistemático
das populações marginalizadas no Brasil veio à
tona. Segundo pesquisa realizada pelo Hospital Regional da Asa Norte,
de Brasília, o atentado a fogo contra Galdino foi o 29º
nos últimos 10 anos. Poucas semanas depois da morte do índio,
era queimado nas ruas de Brasília o desempregado Alan Araújo,
que não morreu, tampouco recebeu visita de representantes dos
governos federal ou distrital.
Mas a história dos crimes bárbaros cometidos pelos "filhotes
do poder" no Distrito Federal é mais antiga. Em 1973,
em plena ditadura militar, a menina Ana Lídia Braga de sete
anos, foi estuprada e morta. Entre os acusados, Alfredo Buzaid Jr.,
filho do então ministro da justiça, e um garotão
de cabelos longos, filho de um senador, chamado Fernando Collor de
Mello. Ninguém foi punido. Recentemente, Fabrício Klein,
filho do ex-ministro dos Transportes, atropelou e matou um pedreiro,
fugindo em seguida. Mas esse "filhote" recebeu da justiça
uma pena "duríssima": doar todo mês uma cesta
básica a uma instituição de caridade.
Os cinco "filhotes" que mataram o índio Galdino talvez
sejam condenados a longas penas, devido à grande repercussão
nacional e internacional de seu crime. Certamente, se a vítima
fosse um mendigo, nada lhes aconteceria. Não que os índios
no Brasil sejam privilegiados, muito pelo contrário. Estes
foram os primeiros marginalizados brasileiros, vítimas de um
massacre que se extende pôr quase cinco séculos, e que
deve entrar pelo século XXI até o desaparecimento completo
dos povos e das culturas indígenas.
Crimes como esse, que temos denunciado constantemente em nossa páginas,
demonstram que, cada vez mais, uma grande parcela das elites brasileiras
não toleram a convivência com os marginalizados sociais,
e agem de forma brutal para receber esse "problema". Com
o assassinato de Galdino, talvez tenham sido interrompidas cinco brilhantes
vocações para carreiras políticas, para as Forças
Armadas ou o oficialato da PM. Mas muitos outros "filhotes do
poder" estão aí, em qualquer lugar do Brasil, sendo
"preparados" para se tornarem as futuras elites políticas
e econômicas do país.
E é esse o futuro que queremos? Certamente que não!
O movimento anarquista, constituído predominantemente pôr
jovens, deve, cotidianamente, organizar-se para luta contra esse sistema
perverso que gera hoje, apenas uma amostra do que ele nos reserva
para os próximos anos e décadas. A fascistização
do aparato de poder e da sociedade brasileira é notória
e., cabe também a nós, impedir que esta se consume e
consolide. Temos que, com nosso exemplo de luta, de ética e
de comportamento, suscitar na imensa parcela de jovens amortecidos
e impotentes, a iniciativa pela construção de uma nova
sociedade de justiça, liberdade e respeito à vida.
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CRISTÃOS
E ANARQUISTAS
Nós,
militantes Anarquistas Cristãos do Rio de Janeiro, nos vemos
diante da responsabilidade de esclarecer algumas informações(ou
antes, deformações) publicadas no Libera...nº69,
de fevereiro/97. Referimo-nos a uma nota, assinada, que pôr
conter várias generalizações equivocadas e iinverídicas,
pôr si só antilibertárias, podem gerar vários
mal-entendidos, prejudicando não só o momento de fértil
reestruturação que estamos vivendo, mas também
o trabalho de divulgação das propostas Anarquistas nos
Movimentos Sociais que nos são próximos.
Vemos o Libera...como um veículo de divulgação
do Anarquismo em suas várias expressões. Há vários
anos fazemos uma distribuição dirigida(a pessoas que
demonstrem um mínimo de interesse pôr nossas idéias)
do Libera...em todos os locais aos quais temos acesso. Esta tarefa,
livremente assumida, embora pequena e muito aquém do que gostaríamos
de fazer, limitada ainda pela dificuldade de uma participação
mais efetiva devido a um acúmulo de atividade, demonstra o
quanto nos identificamos e confiamos no boletim do CELIP, embora nem
sempre concordemos com todas as opiniões expressas. O que,
aliás, é natural num veículo e num Movimento
libertário.
A diversidade de opiniões e pontos de vista é saudável
e desejável, se mantidas numa atmosfera de respeito mútuo
e, principalmente, de respeito à diferença, à
liberdade de cada pessoa crer de acordo com a sua consciência.
Porque, se somos Anarquistas, sem somos Libertários, precisamos
ser necessariamente um pouco mais que democratas. Mas nunca, em hipótese
alguma, menos. Porque assim estaríamos abdicando, na prática,
do Anarquismo.
Nós, Anarquistas Cristãos, entendemos que o Anarquismo
é, antes de mais nada, uma ideologia politica de transformação
social. Toda e qualquer outra consideração filosófica,
individual ou coletiva, precisa ser vista pôr este prisma. O
Anarquismo não é uma divagação vazia de
desocupados, ao qual se agrega o que qualquer um quiser. O Anarquismo
não se presta a devaneios e querelas "filosóficas"
e muito menos a definições absolutas. O anarquismo é
sim uma ideologia política bastante clara e bem definida pôr
elaborações, práticas e princípios que,
longe de serem absolutos, estão em permanente renovação.
O que nos proporcionou este conteúdo ideológico tão
sólido foi a contribuição criativa de cada companheiro
e companheira - "grandes" ou "pequenos", célebres
ou anônimos - que nos precederam na luta. Os rumos que esta
luta terá serão definidos pelo que faremos com este
corpo ideológico vivo que recebemos e assumimos voluntariamente.
O Anarquismo é uma ideologia social. A sua legitimidade é
para ser provada na vida prática do povo em luta. Há
muito tempo o Anarquismo fez a sua opção de classe:
nasceu entre os trabalhadores, na luta pela libertação
do jugo do capital, e esta luta justifica a sua imprescindível
existência.
O princípio basilar do Anarquismo é a Liberdade: a Liberdade
que pode advir de uma Revolução Social feita pôr
trabalhadores. Mas também a Liberdade de cada pessoa buscar
a sua própria verdade, e o direito de crer porque provou a
sua verdade em si mesmo.
O que nós, Anarquistas Cristãos, não podemos
de maneira alguma admitir( e pensamos que nenhum anarquista sincero
possa) são definições dogmáticas e autoritárias
de "anarquismo" que, além do mais, excluem, ou tentam
excluem, ou tentam excluir militantes politicamente provados em vários
anos de estrada. Que pôr não se enquadrarem em tais definições
autoritárias de "anarquismo" ateísta, não
seriam, portanto, anarquistas.
O Anarquismo não é propriedade de alguns "iluminados"
que decidem quem é ou não é anarquista. A prática
nos mostra que a estes geralmente falta um embasamento ideológico
mínimo até para definir o que é e o que propõe
e Anarquismo.
E nada nem ninguém, nem preconceito nem "dogma",
pode querer impedir que Anarquismo encontre as pessoas que buscam
a Liberdade na luta cotidiana, na vida. Nenhuma visão estreita
e fanática de ateísmo pode ser um obstáculo para
que qualquer pessoa sinceramente interessada, descubra-se anarquista.
Quanto a nós estamos tranqüilos,, porque a nossa prática
e o nosso trabalho respondem pôr si. E também porque
não somos os primeiros a afirmarem-se Cristãos e Anarquistas
convictos e coerentes. Não somos nem os primeiros, nem os melhores.
Poderíamos citar uma lista razoável e dar exemplos de
como esta questão já foi tratada, inclusive pôr
ateístas ou descrentes, de forma lúcida e construtiva.
Mas achamos que não cabe aqui, neste Manifesto.
É preciso dizer que não buscamos polêmicas. Buscamos
sim um diálogo leal com qualquer pessoa ou grupos interessados
em discutir e aprofundar estes assuntos. Mas a polêmica estéril
e rancorosa, que divide e imobiliza, evitamos com a segurança
e a firmeza de que, assim como nunca intentamos convencer ninguém
a pensar como nós, da mesma forma esperamos ser tratados.
Porém, se ainda assim o "espírito de polêmica"
quiser arreganhar seus dentes, propomos que a coisa seja tratada da
seguinte formal: ao invés de querelas intermináveis
que nada acrescentam(não havendo respeito mútuo), que
cada uma das partes prove a sua verdade na arena da vida concreta,
na luta dos trabalhadores, dos estudantes, dos desempregados, nos
Movimentos Sociais. Porque é aí que queremos, todos,
vero Anarquismo atuando e fermentando.
Nós, Anarquistas Cristãos, publicamos este Manifesto
visando esclarecer todas estas questões, pôr entendermos
que nos afetam diretamente e também ao trabalho que desenvolvemos
junto aos Movimentos Sociais. E pôr acharmos que já era
hora de fazer ouvir nossa voz Esperamos que haja outras vozes e que
elas expressem estes sentimentos melhor do que nós. Mas estamos
convictos de que, mesmo que só houvesse uma única voz,
ela mereceria ser escutada, pelo menos entre os anarquistas.
ANARQUISTAS
CRISTÃOS DO RJ FEV/97
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AS
NOVAS CADEIAS DE PROMETEU: ANARQUISMO, CIÊNCIA E TECNOLOGIA.
Introdução
A relação do pensamento anarquista com a ciência
e a tecnologia é um tema altamente instigante e de uma importância
política fundamental, num momento como o que estamos vivendo,
onde as bases de produção capitalista já não
podem expandir-se tão livremente como outrora, limitados que
estão, pôr um lado, pelas conseqüências ecológicas
da poluição e da catastrófica produção
de lixo característicos das SOCIEDADES DE CONSUMO e pôr
outro lado pela continua e cada vez mais rápida OBSOLÊNCIA
das técnicas de produção em voga causada pelos
maciços investimentos em PESQUISA E DESENVOLVIMENTO, que as
corporações multinacionais utilizam como fatores estratégicos
pôr melhores posições dentro de um "mercado"
mundial cada vez mais restrito e oligopolizado.
O pensamento capitalista e certas vertentes do pensamento marxista
clássico sempre viram na tecnologia e na "racionalidade"
produtiva da grande indústria um fator positivo para a Humanidade
em geral, ou seja, os seus benefícios, embora concentrados
em determinadas camadas sociais, e apesar de causarem alguns problemas,
acabariam pôr se difundir pôr toda a sociedade, aumentando
assim o confronto e o bem-estar globais. A história econômica
dos últimos cem anos vem mostrar-nos que as coisas não
são tão simples.
A recente crise ecológica, hoje já não negada
pôr ninguém, e o impacto da informação
nos processos industriais fazendo reavivar em escala global o fantasma
do desemprego e da superprodução que pareciam Ter sido
definitivamente exorcizados pela engenharia econômica keynesiana
desde o fim da Segunda Guerra Mundial reavivaram o interesse pelos
estudos históricos e sociológicos das repercursões
humanas da Ciência e da Tecnologia.
Todos acompanhamos, nos anos 60 e 70, o desabrochar das lutas antinucleares,
ecológicas e antiinstitucionais, das críticas à
falta e ao descontrole social das aplicações das tecnologias.
Parecia, num primeiro momento, que se tinha atingido um ponto nevrálgico
do sistema capitalista, mas como sempre após um breve momento
de confusão vêmo-lo reagir às críticas
lançadas tentando incorporar estas lutas a um reformismo que,
ao ceder os anéis, tenta preservar os dedos da ordem e desde
meados da década de 80 com o problema da destruição
da camada de ozônio e dos acidentes nucleares de grandes proporções,
ninguém mais alimenta ilusões paradisíacas sobre
o desenvolvimento tecnológico. Os próprios meios de
comunicação começam a invocar um discurso "ecológico"
e "preservacionista" que obscurece ainda mais os termos
do problema e permite que as grandes empresas e o Estado lancem o
seu "marketing" em defesa da vida, encobrindo assim a real
extensão da sua atividade destrutiva.
A esta situação de fato, restam poucas alternativas
a um pensamento de esquerda na área, a maior parte dos grupos
parte para uma posição folclórica de "defesa
da vida natural", sem Ter claro o que significa esta pretensa
"natureza", ou tenta através da luta parlamentar
e institucional(vide pôr exemplo Partidos Verdes)onde movimentos
reformistas resolvem alguns problemas mais gritantes.
Na verdade a questão é mais profunda e aponta, como
sempre, para a questão do "controle". A ciência
moderna constitui com o seu desenvolvimento um objetivo de imenso
poder social - "o conhecimento técnico" puro ou aplicado
- mas, infelizmente, pouco contribui para o desenvolvimento ético
da sociedade humana, recipiente e meta final do exercício deste
poder. Assim, o exercício deste poder científico, numa
"era" que propaga defender falsamente o liberalismo e a
democracia, é consumadamente despótico, pois controlado
pôr uma minoria de capitalistas, burocratas e intelectuais e
em momento algum é submetido ao controle, ou nem mesmo explica-se
às enormes massas humanas sobre as quais desaba misteriosamente,
interferindo em suas vidas, alterando o seu cotidiano, matando ou
deixando viver.
É neste quadro que uma crítica libertária à
Ciência e à Tecnologia precisa atuar. Contrários
a todos e qualquer monopólio de poder, os anarquistas não
podem deixar impune a Ciência, apesar de toda aura reverencial
que seu nome ainda invoca no ser humano comum. Cumpre fazê-la
descer do seu pedestal e dialogar franca e honestamente com o Homem,
o seu criador, esta "última forma de religião"
deve ser também criticada para se fugir ao seu fascínio
brutal e para que se possa enfim decidir sobre a repartição
de seus frutos e sobre o seu cultivo coletivamente. A tal propósito,
como contribuição modesta estão dedicadas estas
linhas.
Precisando
os termos
É necessário, antes de prosseguir, definir um pouco
os termos do problema. A relação do Anarquismo com a
Ciência sempre foi uma relação rica, contraditória,
dialética, Defensores da Ciência contra a Metafísica
e a teologia, pioneiros da luta pela divulgação científica
e Instrução Integral, os anarquistas nunca deixaram
de ressaltar as suas pertubadoras conseqüências sociais:
Proudhon e Bakunin nunca deixaram de chamar a atenção
para o perigo de uma "ditadura de sábios" principalmente,
preocuparam-me muito com a invasão tecnológica do ambiente
industrial que tinha pôr conseqüência um afastamento
cada vez maior entre saber operário e técnica de produção,
dificultando assim o controle autogestionário da mesma. Na
sua "CARTA SOBRE A EDUCAÇÃO INTEGRAL" vemos
claramente um diagnóstico agudo das conseqüências
deste fato e um proposta prática de sua superação.
Kropotkin apesar de manifestar às vezes uma fé ingênua
no progresso científico, influenciado que foi pela reação
anti-hegeliana capitaneada pôr Spencer, não deixou, pôr
outro lado, de intervir favoravelmente ao controle social da tecnologia,
conforme podemos ver em "CAMPOS, FÁBRICAS E OFICINAS".
Mas antes de prosseguir detenhamo-nos nas questões: "o
que é pensamento científico?" "o que é
Tecnologia?" Estas são indagações importantes
que merecem toda a nossa atenção.
Durante o século XIX forjou-se um preconceito de que a ciência
e a tecnologia são conquistas recentes na História da
Humanidade e apanágio da sociedade burguesa ocidental que se
desenvolveram a partir do Renascimento apenas, tendo atingido sua
maturidade apenas durante a Revolução Industrial a finais
do século XVIII. Este preconceito ainda faz escola em muitas
versões vulgares da História da Ciência e é
ainda fator da filosofia positivista de mais longa vida. Embora em
outros campos a filosofia positivista já tenha sido criticada
e superada em suas concepções, no terreno epistemológico
alguns de seus julgamentos preconcebidos ainda continuam fazendo fortuna,
talvez porque a idéia de uma crítica à história
do desenvolvimento da ciência ainda esteja associada, em muitas
mentes à junção de pontos de seitas irracionalistas
de metafísicos que tanto trabalho deram a ser superados.
Os estudos históricos mais modernos, entretanto, nos mostram
as raízes bem mais antigas para o pensamento científico
e tecnológico. Os próprios termos CIÊNCIA E TÉCNICA
a nós os herdamos da Antigüidade Clássica dos gregos
e dos latinos - embora isto não queira dizer que eles pensavam
tais questões exatamente da mesma maneira como nós as
pensamos. Agora, ao estudar o pensamento técnico-científico
dos gregos, pôr exemplo, veremos que seus melhores autores atribuem
a origem dos seus conhecimentos aos Egípcios e aos Caldeus,
atribuições estas longamente contestadas pôr intelectuais
europeus mas que foram brilhantemente confirmadas pelas modernas descobertas
arqueológicas.
José
Carlos Morel (Centro de Cultura Social de SP)
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FEDERAÇÃO
ANARQUISTA IBÉRICA(FAI):70 ANOS
Corria
o ano de 1927. Espanha suportava os estertores da ditadura de Primo
Rivera, enquanto Portugal começava a sentir os efeitos da ditadura
de Salazar. Muitos anarquistas, antecipando-se às grandes transformações
que estavam pôr vir, sentiram a necessidade de criar uma organização
que coordenasse eficazmente a imensa e multiforme atuação
que os grupos de afinidade vinham realizando em todas as frentes de
luta, inclusive a sindical. Esta necessidade havia sido assinalada
em âmbito internacional, no ano anterior, pelos libertários
ucranianos do grupo Dielo Truda(Causa Operária), entre os quais
Makhno e Archinov, na chamada Plataforma Organizacional, que propunha
uma União Geral dos Anarquistas.
Conseqüentemente, foi decidido realizar um Conferência,
cuja sessão inaugural ocorreu, em Valência, no dia 25
de julho de 1927, na ilegalidade. Lançada a convocatória
pôr toda a península ibérica e na França(para
reunir os anarquistas de língua espanhola naquele país),
a primeira dificuldade que tiveram de enfrentar os organizadores da
Conferência foi a passagem clandestina da delegação
portuguesa para a Espanha. Segundo Gómez Casas, em Historia
de la FAI, a delegação portuguesa entrou pela fronteira
de Huelva e estava composta pôr três militantes, entre
os quais se encontrava o escritor e jornalista de A Batalha, Quental,
que "falava devagar e intercalava palavras espanholas, tentando
fazer-se entender". Um representante do Comitê Nacional
de Grupos Anarquistas(FNGA da Espanha) saudou "os camaradas lusitanos
e de Viena, que morreram combatendo pela liberdade, os camaradas Sacco
e Vanzetti e demais condenados e presos no mundo inteiro".
A questão da Federação Ibérica foi encaminhada
na terceira sessão da Conferência, antecipadamente, porque
os representantes portugueses tinham de retornar aos seu país.
Registrou-se em ata: "Houve acordo em declarar constituída
a Federação Anarquista Ibérica(FAI), composta
pela União Anarquista Portuguesa, a Federação
Nacional de Grupos Anarquistas de Espanha e a Federação
de Grupos Anarquistas de língua espanhola na França;
que não é proveitoso criar um novo Comitê, e que
uma das três atuais organizações assuma temporariamente
a representação da FAI; que o cargo do Comitê
Peninsular se translade periodicamente de um ponto à outro,
entre Portugal, França e Espanha; e que o Comitê da União
Anarquista Portuguesa se encarregue do Comitê Peninsular com
o auxílio e a informação dos Comitês Nacionais
de França e Espanha."
A delegação portuguesa tomou a palavra para sugerir
"que o primeiro secretariado deveria estabelecer -se onde havia
mais regionais". Já que os delegados catalães haviam
manifestado a necessidade de que escolha não recaísse
na Catalunha, optou-se pôr Sevilha, que aceitou o desafio "na
condição de que fosse efetiva uma assistência
pôr parte do secretário catalão que se retirava".
M.
Genofonte
(Livremente traduzido e adaptado pelo Coletivo de Tradutores do CELIP,
de LA CAMPANA, nº39 e 40, de 20 e 27 de janeiro de 1997).
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PLURALIDADE
E POTE COMUM
O
pensamento libertário tem se nutrido de muitas contribuições,
oriundas de diversas perspectivas culturais-antropológicas
de mundo e, pela sua própria natureza, deve dialogar constantemente
com as mesmas. A sociedade polifônica sempre foi um dos princípios
mais denotadamente anarquistas., a busca da valorização
do homem através de uma postura imanente do ser, esteve diversas
vezes acoplada aos projetos de libertação individuais
ou, pôr vezes, de classe enquanto sujeitos históricos.
A discussão de uma prática libertária coerente
com seus próprios pessupostos, não existe sem as polêmicas
inerentes à complexidade do tecido social que nos envolve e
influencia. É a superabundância de energias que, pôr
vezes, gera confrontos entre libertários e que encaradas como
pluralidades podem promover, através do debate, as relações
de tolerância sem as quais estaríamos muito próximos
do que combatemos. Para tanto, precisamos pensar a liberdade e o poder
sob a perspectiva anarquista. E esta reflexão pode iniciar-se
em qualquer ponto, até porque, a utopia não está
em parte nenhuma para poder existir em todas as partes.
Segundo o filósofo Jean-Pierre Vernant, quando refere-se à
democracia ocidental de matriz grega: "O 'Kratos' não
pode ser controlado pôr um dos membros da cidade, senão
instaura-se a tirania. E se situa no centro do espaço cívico,
como uma espécie de 'pote comum', que se compartilha - mais
uma vez à 'philia' - pôr meio de debate". Neste
sentido, o debate é apresentado não como panacéia,
mas como veículo que conferir ao interlocutor todo o respeito
e atenção devidas a um companheiro ou mesmo outro ser
humano. O "Kratos" como "pote comum" é
uma alegoria aqui emprestada " às perspectivas de grupos
ou sociedades preocupadas com a democracia, no sentido literal, e
empenhadas em resolver as questões sociais.
O libertário que dedicou sua vida a não perder de vista
a revolução, quando não observa estes princípios,
acaba pôr mantê-la sob vigilância. E cioso de seu
"dever", ou papel regulador, deixa de ser imediatamente
o que ele defende. A revolução torna-se prisioneira
dos "rigores da doutrina" - à luz das certezas de
seus defensores - e refém de uma oligarquia e oportunas: "Os
protetores são o piores tiranos". Pensamentos são
desejos. O perigoso nisso tudo é que, o que deve ser coletivo,
o "Kratos" pode transformar-se em objeto de adoração
e interpretação exclusiva de um grupo ou indivíduo
escolhido(geralmente pôr auto-intitulação) e a
transformação do saber em escrituras sagradas torna-se
inevitável.
A revolução, que já nasceu bastarda - ou seja,
sem pai - embora com diversos candidatos ao posto, é também
fruto de concepções pluralistas e é preciso entendê-la
como "pote comum", alertando a que pretende apropriar-se
muito de perfil do tirano.
JOÃO
MADEIRA MANOEL DE CAMPOS
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