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Um ciclo de debates que vem acontecendo no Chile, país recém saído de uma ditadura militar de graves conseqüências, pretende criar um documento-base para as esquerdas de representativos países latino-americanos. São eles: o Brasil, o próprio Chile, Argentina e México. Esta iniciativa não mereceria maiores comentários, se não fosse pela peculiar decisão - harmônica e unânime - dos membros do encontro. A bizarra atitude, a qual nos referimos, é a supressão da palavra socialismo da redação do texto final, que tem como objetivo nortear as agendas políticas para os pleitos eleitorais nos referidos países. Seria pouco ético de nossa parte divulgar informações levianas, levando a acreditar que os debates transcorreram sem divergências de encaminhamento ou princípios. Sim elas ocorreram, mas não em torno da exclusão da "incômoda" palavra socialismo. Neste particular, sob a batuta do filósofo Roberto Mangabeira Unger, de Harvard, os membros do encontro firmaram sua comunhão, conforme publicado pela Folha de São Paulo em 11 de maio deste ano. Segundo observadores do encontro, que pretende já em 1998 produzir no Brasil bases teóricas para uma frente de centro-esquerda, os antigos "dogmas" da esquerda como: privatizações e reformas no Estado, devem ser objeto de reavaliações. Depois de tantas "novidades", nos vêm à mente uma dúvida natural e até certo ponto primária. Se o socialismo foi rejeitado, dada - segundo os ideólogos do colóquio - a complexidade e variações das interpretações do termo, o que se coloca no lugar do vazio, antes ocupado por ele?! A esquerda institucional, que ora nos proporciona um espetáculo de excrescência lapidar, tem a sua disposição um cardápio interessante e pode optar pela defesa de um Capitalismo democratizado, defendido pela grande parte dos participantes, ou ainda pela designação petista, do presidenciável Tarso Genro, qual seja de um Capitalismo regulado. Foi preciso sacrificar o socialismo, para que Lula e Brizola se encontrassem em um exuberante centro de convenções no Chile, para traçarem planos "realistas" para a esquerda brasileira. O preço da reforma petista, passa pela adesão às fileiras da contra-revolução. Para um partido que tem, entre outros, Emir Sader (o Perry Anderson tupiniquim) na crista da produção de seus "desígnios" ideológicos, aderir às conclusões do nipo-americano Fukuyama, materializadas na Teoria do Fim da História (aceitando o Neo Liberalismo como destino), é um papel patético e por demais degradante a se desempenhar. Acreditar que a humanização do capitalismo é possível, é aceitar a hipótese de que este configura-se em telos, ou seja, o fim do processo de "evolução" da humanidade. Da mesma forma que o Partidão (PCB) nos anos 50 no Brasil, defendia apoio a burguesia nacional, contra o Imperialismo. Grande ingenuidade, revestida de mecânica newtoniana, que levou o PCB a um desgaste profundo, do qual não se restabeleceu. Esta esquerda, parece obedecer a uma vocação, ou arquétipo da estupidez. É um determinismo histórico adotado com o aval das possibilidades ou possibilismos. O mais desconcertante é que os petistas, falamos destes, pois não devemos "chutar cachorro morto" (PDT), sob o manto do realismo eleitoral, acabam hipotecando suas certezas ideológicas, para um possível, mas incerto, resgate após os pleitos. Chegando ao poder o PT, terá que "regular" o capital e, por conseguinte, abrir mão do socialismo. Se for derrotado, no jogo estabelecido pela burguesia, talvez atribua a culpa ao excesso de reivindicações sociais ainda existentes no programa. Em qualquer das duas hipóteses o grande perdedor será o socialismo. Quanto de maquiagem será necessário para "limpar" a graxa das mãos (o que ainda há de mais autêntico) dos "companheiros" do PT? O
aburguesamento dos partidos "operários", quando tornam-se
alternativa de poder, ou mesmo antes, não era estranho a Bakunin
no século XIX e não deve sê-lo para os anarquistas
deste fim de século XX. Mas ainda assim, poderíamos
esperar um pouco mais de dignidade dos "combativos companheiros",
ou então, o mínimo de decência ao despojarem-se
publicamente, de forma esquizofrênica, de seus princípios. |topo| A pluralidade da humanidade é uma característica fundamental não só para sua evolução, como para sua própria sobrevivência. Todos sabem que duas pessoas nascidas na mesma época, na mesma região, filhos dos mesmos pais, estudando na mesma escola, com os mesmos educadores, reagem de forma diferente. Não há certo ou errado. Há diferenças. Respeito ao ser humano significa igualdade de direitos e deveres, que implica e é implicada por liberdade de expressão e realização. Respeito ao ser humano implica também vida digna para todos: na alimentação, abrigo, higiene, educação, atendimento médico, lazer. Tudo sem pressão, sem repressão, sem hierarquias, sem autoridades, sem grupos fechados, sem poderosos, sem propriedades, sem controle de informação, com organização horizontal e autogestão. O fulcro básico para chegar à igualdade, ao respeito e à liberdade é acabar com a exploração do homem pelo homem. A exploração ser humano é totalmente inaceitável numa sociedade socialista. A exploração do ser humano é a base da sociedade hierarquizada. Hoje, passamos nosso dia-a-dia em meio à , pressão, à repressão e à exploração. E difícil, mesmo para aqueles que acreditam e lutam por uma sociedade libertária, viver ou mesmo projetar a vivência em uma sociedade horizontal igualitária, sem opressão, sem pressão, sem exploração. Por isso, para a evolução e sobrevivência da humanidade é fundamental a difusão e discussão da ideologia libertária. Mas
constatamos que a cultura libertária não interessa a
muitos. Não interessa, por exemplo, aos poderosos: exatamente
àqueles que hoje ditam as regras, controlam a mídia,
sustentam as forças armadas e a polícia, liberam espaço
para as instituições religiosas : pregam a submissão
do povo e a adoração de heróis. Interessante é que, apesar de toda a opressão, grupos socialistas libertários têm aberto espaço para a crítica e difusão da cultura-libertária e anarquista. E enfocando estes grupos socialistas libertários, verifica-se que há também pluralidade. Uns são coletivistas, outros individualistas; uns são pacifistas, outros mais agressivos; uns são religiosos, outros anti-religiosos; uns são sindicalistas, outros comunitaristas; e uns trabalham, outros estudam; uns dedicam-se à prática, outros à teoria; uns protestam contra a poluição dos rios, outros contra a matança de animais; uns são vegetarianos, outros carnívoros; uns falam alto e forte, outros preferem a discrição; uns escrevem bem, outros gostam de um bom papo. Certamente devido à horizontalidade ao respeito e à liberdade dos grupos, essa pluralidade é significativa, visível e escancarada. Alguém está mais certo? Alguém está certo? Não há acertos ou erros, há organicidade. Cada um traça seu caminho de acordo com o que vê como sendo o melhor e dentro das oportunidades que aparecem, e ninguém pode dizer ao outro o que fazer ou como fazer. Certo é que não podemos aceitar mais práticas de desrespeito e exploração ao ser humano, mas as diferenças pessoais tem que ser respeitadas, do contrário, não teremos a liberdade. As diferenças existem porque as realidades, as experiências, as capacidades, os medos é as limitações são diferentes. O ceticismo não faz parte da cultura libertária, que é contra a censura e prega a discussão, o direito de ir e vir, o direito de crítica, o direito de resposta, o direito de tentar, fazer, refazer, aprender. Nós, libertários, sonhamos com a vida comunitária tomando decisões em assembléias e federações. Não queremos tomar o poder, queremos eliminar com a acumulação de poder, distribuí-lo igualmente a todos, o que corresponde a eliminar o poder. Pensar que no fim da sociedade autoritária e hierarquizada tudo ocorrerá como o "ego" imagina é um grande engano. Ou o "dono" do "ego" está se enganando, ou está enganando seus companheiros. Nossa grande contribuição, no momento, para a construção da sociedade libertária está na difusão desta cultura e na abertura de espaços para discussões e vivências. Contribuir, opinar, debater, criticar, mas sem querer impor seu ponto de vista. Também é absurdo hierarquizar grupos socialistas libertários, ou um grupo fechado pretender ser o porta-voz de um determinado movimento ou grupo amplo. Ou o grupo se assume como fechado e com as limitações inerentes a esta posição, ou garante a abertura de espaço para a participação de todos os que diz representar Finalmente, não há espaço no movimento libertário para os famosos golpes que tanto vemos nas sociedades hierarquizadas e autoritárias, onde os mais espertos e ladinos assumem o poder, onde os poderosos compram votos, onde os que controlam as informações dominam a mídia e procuram impor a sua verdade e o modo de fazer e o modo de pensar de seus "companheiros". Nós, socialistas libertários, trabalhamos pela igualdade e liberdade total, sem nenhuma obediência, por menor que seja, a alguém ou a qualquer grupo. Antonio
Maria da Silva |topo| Projeto Libertário e Autogestão "Enquanto as ideologias do poder procuram ocultar as múltiplas alienações do homem moderno, a proposta autogestionária surge como denúncia, como possibilidade real e radical de transformação social". Fernando Prestes Mota in Burocracia e Autogestão Para entendermos o capitalismo e o estado com suas instituições burocráticas, não basta analisá-lo enquanto modo de produção, temos de o reconhecer também como uma forma histórica e particular de heterogestão social. Clarificar este ponto é determinante para os movimentos sociais, principalmente para aqueles que pretendem preservar o desafio da mudança, em tempos que a ideologia dominante pretende nos convencer de um novo determinismo histórico, que se traduz num dogma teológico: o da eternidade do capitalismo e do estado. O Capitalismo é um modo de produção histórico que conseguiu integrar à sua lógica todas as instituições sociais, e a seus valores todas as diferentes culturas num processo de homogeneização sem precedentes. Se é verdade que não foi ele que inventou os mecanismos de exploração e dominação, não é menos certo que acentuando e cindindo irreversivelmente os papeis sociais, unidimensionalizando e empobrecendo a existência do produtor já vítima de mecanismos econômicos de expropriação, o capitalismo manifesta toda a negatividade tanto da exploração, quanto da dominação política e cultural, que se traduz na crescente alienação dos seres humanos. As formas de administração capitalista contemporânea se caracteriza hoje, pelo seu caráter burocrático e heterogestionário, onde os trabalhadores e mesmos os intelectuais e os especialistas do irrisório, perdem o controle sobre a produção e gestão do todo. Da mesma forma, o chamado Estado de Direito acaba usurpando para si, ou seja, para a sua burocracia e seus especialistas da representação, todo o papel decisório, sendo os cidadãos meros espectadores que são chamados a sufragar essas elites. Isto não quer dizer que as elites dominantes não necessitem de nos chamar a "participar". Certas formas de "management" contemporâneas tem como ponto central as virtudes da participação, cooperação e iniciativa dos trabalhadores travestidos de "colaboradores". Dos EUA e Japão ao Brasil há gente, "especialista", ganhando dinheiro com o tema. Abolir a conflitualidade social, principalmente no aparelho produtivo, através de um corporativismo ou do paternalismo feudal é a modernidade capitalista, que se espelha naquele projeto carcerário já implantado em alguns países de colocar as prisões em autogestão: os presos se vigiando ! Só que a autogestão nada tem a ver com esta caricatura Os valores da autonomia, auto-organização, cooperação, solidariedade e apoio mútuo foram historicamente valores opostos aos do capitalismo, e se manifestaram no movimento socialista principalmente na corrente autogestionária. O conceito de autogestão, embora recente, traduz um outro que era central para o socialismo libertário, o de autogoverno, ou seja, de que todos nós enquanto cidadãos ou trabalhadores podemos dispensar a burocracia e o estado na gestão social. Este foi um ponto central para o movimento social durante as experiências socialistas desde a Comuna de Paris, passando pela Revolução Soviética e a Revolução Espanhola. Mas aí não era uma técnica que visava aumentar os lucros privados advindos duma forma de administração mais inteligente, que não pretende mais alinhar estupidamente os trabalhadores em linhas de produção à maneira de Henry Ford, até porque a automação e a robótica estão liquidando de vez a necessidade das "máquinas" humanas. A divisão social do trabalho - e a partidocracia representativa exige a ilusória participação de todos, principalmente dos de baixo, para obter dois resultados: uma crescente produtividade e legitimidade, combatendo o desinteresse, que é uma manifestação socialmente perigosa. Basta olhar o que acontece com o absentismo, baixa produtividade, stress e sabotagem em muitas linhas de montagem industrial. No campo político basta imaginar as conseqüências de os dirigentes políticos se elegerem com 20%, 10%, 5% dos votos. Como legitimar seus discursos e suas políticas ? Nos movimentos sociais, como contraponto ao Estado e às formas de organização hierarquizadas e autoritárias, foi-se definindo um modelo de organização assente em práticas coletivas e igualitárias e em relações de solidariedade e cooperação voluntária, em resumo autogestionário, constituído por grupos auto-administrados, cooperantes e onde a hierarquização e dominação não tivessem mais lugar. Certamente que essas formas de organização voluntária e não hierarquizada exigem um empenhamento pessoal, uma participação e uma consciência, ao contrário das formas de organização hierarquizadas que recorrem à coerção, chantagem e recompensa. Por essa razão é evidente mais difícil e mais demorada a criação e desenvolvimento de formas de organização cooperativas, até porque a resistência à inovação, a introjeção dos valores dominantes e a rotina tende a nos afastar de formas de organização que implicam um trabalho árduo e permanente de inovação e participação. Mas será então que a autogestão - e mais ainda a autogestão generalizada - é uma possibilidade histórica ? Os anarquistas dirão que sim otimisticamente, já que a exploração e a dominação, com a conseqüente miséria e alienação, produzem resistências e imaginários que substanciam o desejo de outra sociedade que seja a imagem de outras formas de organização e de relação entre os seres humanos. Certamente que o caminho dessa alternativa social não é tão curto e linear quanto alguns pensavam - os defensores do marxismo-leninismo -, até porque a história nos mostra quanto o fenômeno da subordinação e alienação está interiorizado em todas as classes e grupos sociais, mais ainda na nossa sociedade massificada e paralisada pela ideologia do consumo e do espetáculo. O antagonismo competitivo tem raízes culturais - e há quem diga biológicas- profundas e tem como conseqüência nas suas formas mais violentas a exploração, a morte, a guerra e a alienação, mas como bem demonstrou Pedro Kropotkin em seu livro Apoio Mútuo, mesmo no mundo animal um dos fatores decisivos da evolução das espécies foi a cooperação entre os seus membros. Do ponto de vista filosófico e político a questão está em saber até que ponto as sociedades humanas são capazes de levar o seu processo de aprendizagem histórico e de recriação das formas de organização social; ou se a força conservadora da inércia misturada com as teias autoritárias do poder, podem hibernar a criatividade e insatisfação humana que percorre a história. O caminho da liberdade é o caminho de superação da dependência absoluta da natureza e do outro, em resumo, de construção da autonomia. E esse caminho que os grupos sociais e os indivíduos buscam através da história, exige o fim das amarras da exploração, da dominação e da alienação, potenciando uma relação autêntica e profunda entre o indivíduo e os que o rodeiam, a reciprocidade entre os homens como falava Buber. E esse o debate que continua a se impor aos movimentos sociais, se não quiserem se perder no caminho das facilidades com que o sistema sempre acenou, no passado ao sindicalismo, hoje aos novos movimentos sociais, tornando-os na maioria dos casos, meros usufrutuários da exploração e dominação que antes condenavam. Esse caminho recebeu o nome de pragmatismo, mas melhor pode ser avaliado pelas suas lideranças, sedes, e pelas ações que possuem nas bolsas de valores. Um sindicalismo burocrático, reprodutor de formas heterônomas de organização e que se baseia da existência de um grupo de dirigente: inamovíveis, que são especialistas da representação do mundo do trabalho concordando dessa forma com os gestores de todas as instituições da sociedade capitalista na defesa da "necessidade" da delegação e da "inevitabilidade" da burocratização das organizações. O sindicalismo autônomo - autônomo em relação ao Estado e ao Capital - e a livre associação por afinidade é ainda um dos principais instrumentos possíveis para a mudança social. Só que essa concepção de sindicalismo não passa pela mera opção por alguns vagos princípios teóricos, mas impõe outras formas de associação que apontam desde já a um modelo igualitário, autônomo e auto-organizativo, um micro-modelo do que seria o nosso projeto para a sociedade global. Um modelo de participação direta, e interativa onde a delegação seja feita tendo em vista tarefas determinadas e durante prazos limitados respondendo permanentemente os delegados perante as assembléias e podendo ser revogados a qualquer momento) que recuse a burocratização e esclerose administrativa dos sindicatos e movimentos sociais, contribuindo para o enriquecimento cultural e social dos trabalhadores, criando uma cultura alternativa e de resistência pilar das novas relações sociais, condição prévia para a recriação das formas de organização social. Esse foi o caminho que começou a ser percorrido pelo sindicalismo revolucionário e anarco-sindicalismo, interrompido tragicamente pela convergência de forças negativas no começo do século: o leninismo, o nazifascismo e no caso do Brasil, o autoritarismo de Vargas nos anos 30. Com a derrocada do capitalismo de estado na Europa do Leste e com o capitalismo atravessando uma crise profunda, está na hora de recomeçar com lucidez e esperança a percorrer o que Martin Buber chamava caminhos da utopia, que levam à autogestão generalizada. Jorge
Silva |topo|
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