Libera
Nº 75
70
ANOS DA MORTE DE SACCO E VANZETTI
"Sacco
e Vanzetti! Tornar-se-ão lemas, símbolos, bandeiras da cruzada geral
que as nações, sequiosas de direito, e os povos unidos pela solidariedade
da mesma angústia, hão de desfraldar, um dia muito próximo, contra
a ignomínia dos assassinos legais".
Mário Rodrigues
Há
exatos 70 anos, a burguesia completava mais uma de suas obras de iníquas
conseqüências. Em 22 de agosto de 1927, os operários
Sacco e Vanzetti foram executados covardamente em uma sala, na temida
Casa da Morte, onde encontraram a famigerada cadeira elétrica.
Presos em 1920, suspeitos de um crime que não cometeram, o
sapateiro Nicolau Sacco e o vendedor de peixe Bartholomeu Vanzetti,
experimentaram momentos de angústia e desespero nos sete anos
que os separaram da prisão até o patíbulo. A
certeza de um julgamen-to com veredito anunciado, só amenizado
pelas manifestações po-pulares, que chegavam através
de cartas e notícias de jornal, produzia nos dois acusados
sensações que oscilavam da mais profunda con-vicção
nos seus ideais, até a indignação com os injustiças
burguesas.
Era claro, naquela altura, que os imigrantes italianos e anarquis-tas,
eram culpados, única e exclusivamente de sua condição
social e não do crime que lhes imputavam. A constatação
taxativa de um julgamento político, universalizou o processo
e os implicados por todo o mundo. Ultrapassando fronteiras e mesmo
imprimindo ao caso uma ce-lebridade histórica.
No Brasil, em 6 de agosto de 1927, o jornal libertário APlebe
publicava o seguinte artigo:
Embora todo o mundo proteste ante a iniqüidade da sentença,
os dis-tribuidores da justiça americana, inexoráveis,
cruéis, como a Bíblia de que se alimentam, querem oferecer
à face dos povos escravizados pelo guante do capitalismo, o
imponente espetáculo da intangibilidade do direito e da justiça
burguesa.
Embora se confessem tacitamente errados, os honrados juízes
do polvo capitalista, a fim de salvaguardar o princípio de
uma doutrina de justiça inquisitorial num tremendo desafio
à humanidade, não trepidam sacrificar a vida de dois
homens, de dois anarquistas, de dois sonhadores da redenção.
Renova-se assim a tragédia de Chicago.
Sacco e Vanzetti, Parsons, Spies, sonhadores, idealistas, sa-crificados
em holocausto aos seus princípios de amor e solidariedade
quando será o dia em que o rubro sol da cólera do povo,
aos gritos de: Basta de explorações? Basta de crime
rolar pelo mundo afora im-ponente, vitoriosamente belo?
Sacco e Vanzetti irão ser sacrificados, morrerão à
consagração de seu ideal.
A anarquia, porém, jamais morrerá.
Em estilo não menos veemente, manifestou-se o jornalista Mário
Rodrigues no jornal A Manhã, de 23 de agosto de 1927. Com o
título Odisséia da Redenção,
começava ele:
... Dizem os telegramas que Sacco e Vanzetti estão perdidos
irremediavelmente. Talvez apareça nesta edição
a notícia do sacrifício odioso dessas vidas humanas,
mortificadas de sobra em sete anos de presídio. Contra o assassínio
nefando, levanta-se o clamor de toda a humanidade; o mundo inteiro
sofre os horrores da tragédia a esta hora; revolta-se a consciência
dos povos; mas, a tamanhos reptos da alma universal, se sobreleva
o fetiche das leis, a miséria das fórmulas, a infânia
dos preconceitos: a justiça americana sentenciou e não
há como lhe obstar a frieza inclemente dos ares-tos!
Hedionda justiça... Não se satisfaz como o martírio
dos mortos-vivos que as cadeias torturaram, a cada momento, durante
eternidades. Nutre-se do furor sádico, triturando presas inermes,
ou matando defuntos que se amortalham em vida. Não sabe perdoar.
Não sente. Não se comove. A carantonha molda-se-lhe
na pedra e só se anima de arestas respulsivas. Supõe-se
a quintessência das civilizações requintadas e
despercebe-se da fragilidade das contingências humanas de que
ressumbra o seu espírito falível. Eu a odeio, odeio
essa comborça odienta, cujo ventre, presumido de fecundar-se
ao raio divino do sol, supura a gangrena de avarias torpes, gerando
os grandes erros, as iniqüidades calamitosas. Sacco e Vanzetti!
A cadeira elétrica tor-rará esses corações,
mas a eletro-cussão determinará tal revol-ta de hemisfério
a hemisfério, que mal-dita ficará sendo ao correr dos
séculos a raça empedernida dos juízes implacáveis,
cujos ouvidos se trancam aos gritos de inocên-cia, de desarmados,
para não os examinar, nem reter. Eu, da minha humildade, odeio
a abjeta organização legal que, depois de genufle-tir
aos pés dos bezerros de ouro, se desvaira de cio, a multiplicar
os suplícios dos fracos. Da minha insignificância eu
prevejo o dia da terrível revindita, do formidável ajuste
de contas, em que os casti-gos de Deus estrelejarão, definitivos,
desse monstruoso acervo de crimes da precária justiça
humana e das fátuas leis humanas, jactanciosas da sabedoria
eterna, atributo sagrado dos céus. Sacco e Vanzetti! Tornar-se-ão
lemas, símbolos, bandeiras da cruzada ge-ral que as nações,
sequiosas de direito, e os povos unidos pela solidariedade da mesma
angústia, hão de desfraldar, um dia muito próximo,
contra a ignomínia dos assassinos le-gais. Dia virá,
que não tarde, a fim de refulgir sobre os destroços
dessa cultura de dólares e batatas, na qual falta lugar para
a clemência. Oh! civi-lização maldita, que se
ceva na morte! Oh! maldito verme!
Não choremos, contudo, a imolação de Sacco e
Vanzetti.... Dela raiará a alvorada.
A morte de Sacco e Vanzetti, não surtiu o efeito esperado pelos
seus carrascos. Ao contrário, o exemplo da resistência
destes trabalhadores e suas idéias libertárias, passavam
a embalar os sonhos mais caros aos revolucionários de todo
o mundo.
|topo|
DANDO
FORMA À UTOPIA
O
que queremos é vida digna para todos os seres hu-manos. Vida
digna para todos, independente de sexo, raça, instrução,
profissão, idade, estar empregado ou não, religião,
nacionalidade. Vida digna sem qualquer distinção.
O conceito de dignidade que vem sendo difundido na mídia capitalista
é direcionado pela moral burguesa. Para a burguesia e a classe
média, um homem digno é aquele que tem dinheiro e poder,
e se comporta de acordo com suas regras. Para os mais pobres, mais
oprimidos e explo-rados, o conceito de dignidade é limitado
à honestidade. A dignidade de que falamos implica igualdade,
liberdade e soli-dariedade, e não aceita a explo-ração
do homem pelo homem.
Entendemos que o respeito básico pelo ser humano com-preende
a garantia para cada um e para todos, sem distinções:
saúde (alimentação, higiene, atendimento médico,
hospitais, terapias, lazer), educação (es-colas, atividades
culturais, ati-vidades físicas), abrigo (resi-dência
em local com sanea-mento, limpo e saudável), renda-padrão
(igual para todos, independente de estar ou não empregado)
e ocupação em sua comunidade (como meio de criação,
construção e crescimento, sem exploração;
trabalho visto como opção e constru-ção
da comunidade, nunca como obrigação).
Hoje, a procura por um tra-balho é extremamente cruel. O capitalismo
a cada dia precisa de menos mão-de-obra e os homens têm
que trabalhar para garantir sua sobrevivência precária.
Vida digna, nem pensar. Esta luta é desigual e injusta. O respeito
pelo ser humano exige que todos tenham garantido saúde, educação,
abrigo, renda-padrão e ocupação.
Outra questão fundamental é a liberdade de expres-são.
Quando aparece algum conflito, este deve ser apro-fundado e discutido.
Ouvindo as críticas é que podemos respondê-las
e/ou melhorar. Criticando, apontando erros e injustiças é
que conseguimos construir uma sociedade libertária.
Quanto à informação, na sociedade competitiva
e ca-pitalista, é dado a quem ocupa um cargo de gerência,
ou direção, o direito de manipular a informação,
selecionar o que pode ser dito e o que deve ser escondido, e este
pro-cedimento tem sido aceito por todos sem contestação.
Mas este é um procedimento absurdo, um dos alicerces da sociedade
opressora e exploradora.
Uma sociedade libertária, igualitária, solidária
e digna tem por princípio a total transparência de toda
a sua estrutura, de todo seu fluxo de informações. Quem
ocu-par um cargo de administração ou gerência
tem a obrigação de manter todas as informações
disponíveis e bem apresentadas.
O treinamento técnico, o es-tudo e o aprofundamento do in-divíduo
em determinado assunto, prática ou técnica cria na-turalmente
especializações. E naturalmente as atividades são
exercidas por quem está preparado para tal; ao mesmo tempo,
as pessoas se preparam pa-ra exercer determinada ativida-de (gerando
músicos, sapateiros, médicos, terapeutas, matemáticos,
físicos, instrumen-tistas, agricultores, pintores, etc.) Numa
sociedade libertária não há distinção
entre os indivíduos em função da ati-vidade que
exercem e nenhuma especialização ou cargo gera poder,
assim como não existem as autoridades, não existem as
hierarquias.
A base de tudo é a igualdade, que numa visão macro leva
à in-ternacionalização. As naciona-lidades são
um meio de garantir vantagens para uns e miséria pa-ra a grande
maioria. A nacionali-dade também implica a imposição
de leis e regras de interesse de grupos minoritários e poderosos
que con-trolam os países. A divisão do planeta em países
leva à segmentação da humanidade, à disseminação
de ideolo-gias fascistizantes e preconceituosas, à maquinação
de guerras, destruição e extermínios, ao incentivo
à postura homem contra homem, à incitação
do ódio e da vingança da humanidade contra si própria,
enfim, ao enfraquecimento da humanidade diante do capital.
Uma forma de reagir ao poder do capital sobre o ser humano é
aplicar nossa consciência, lógica, inconsciên-cia,
sentimentos e intuições para a construção
de uma vida libertária em todo o planeta. Não é
nem mais uma questão de ponto de vista. Hoje é questão
de sobrevivên-cia. Ou vivemos na igualdade e liberdade, ou nos
diri-gimos para o abismo da competição, opressão,
explo-ração, destruição, sofrimento, dor
e morte. Morte não para um ou outro indivíduo, mas para
a vida humana no planeta.
Antonio
Maria da Silva
|topo|
O
Estado cosmopolita e o povo caipira
Fica
difícil alguém, a priori, definir um fato con-temporâneo
como histórico, tomando-se como histórico
algo que vá influir nos destinos de uma sociedade de forma
marcante e memorável. No entanto, podemos considerar co-mo
aspirante a esta categoria a presente manifestação do
Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra. A gran-de marcha efetuada
pelos mais do que simbólicos 1.000 quilômetros de chão,
até a chegada badaladíssima à capi-tal federal,
impressiona por ser visível, atrás dela, o poder de
mobilização demonstrado por esse movimento. Até
há pouco tempo atrás, esta capacidade era, deliberadamente
ou não, subestimada pela chamada grande imprensa
e pelos círculos políticos, particularmente aqueles
próximos ao núcleo governamental.
Em verdade, o acontecimento só mereceu a devida atenção
dos mídia e dos setores políticos quando a sua po-tência
revelava-se de forma tão clara que não se podia mais
ignorá-la. Foi exibida à exaustão o apoio ostensivo
das chamadas forças progressistas e esquerdas à
marcha sobre Brasília, e ao evidente esforço de muitos
em pegar carona na manifestação, com os
fins normalmente esperados daqueles que encaram a política
como uma profissão em si. Não seria de todo despropositado
interpre-tar na confrontação-diálogo do Governo
FHC com o MST, mais precisamente, das elites políticas brasileiras
cada vez mais recicladas sob discursos neolibe-rais e globalizantes,
e os empobrecidos do campo, proletários e proletarizandos,
o alargamento do abismo histórico entre as aspirações
de uns e de outros.
O irônico epíteto de caipira, atirado com
cordialidade calculada sobre o brasileiro em geral, vem com a precon-ceituosa
zombaria do homem brindado com oportunidades de valorização
pessoal e social, diante de um variado es-pectro de pessoas que, brindadas
ou não com essas opor-tunidades, não lograram obter
a visão elevada que ele aparenta ter obtido. As elites políticas
brasileiras, que têm em geral tais oportunidades, poderiam realmente
se in-teressar pela realidade dos despossuídos do campo? Pode-rá
dialogar a sério com um movimento que pretende representar
imensas camadas da população, se não pri-sioneiras,
pelo menos atadas à miséria e à marginalidade
por um verdadeiro cabo de guerra, puxado cada vez com mais força
pelos músculos de um capitalismo revigorado?
Agora que a grande novidade é a globalização,
regada a neoliberalismo, nossas elites, secularmente voltadas
pa-ra o exterior, certamente vêem nela a chance de se integrar
definitivamente a ele. Esta constatação evidencia-se
na-queles que consideram o fato de poder viajar, trabalhar e estudar
no Primeiro Mundo, ser aceito no convívio de suas elites, e
comungar dos sentimentos delas, como títulos de superioridade
total e absoluta sobre quem não pôde obtê-los.
No caso, os brasileiros pobres e ignorantes que só têm
na vida a experiência do Brasil pobre e ignorante.
O estilo de governo que é apresentado como mais efi-ciente
e racional, moderno e ágil, expõe, na sua lógica,
uma arena política áspera e objetiva, desligada
de sentimentos e emoções, mesmo as mais legítimas
e justificadas; uma economia áspera e utilitária, desligada
de qualquer subje-tividade humana que possa atrapalhar o livre exercício
do poder do mercado. O próprio movimento sem-terra é
rece-bido pelas autoridades em Brasília não tanto por
suas rei-vindicações, mas por ter suportado bem o teste
de resistência que o desprezo governamental pela reforma agrária
lhe impôs.
A produção de um imaginário social que tornou
o caipira ou jeca elemento estereotipado do comportamento do bra-sileiro
não é nova, embora obedeça a matizes distintos
de acordo com os momentos históricos do País. A obra
Urupês, de Monteiro Lobato, emblema de uma preocupação
em dar conta de uma realidade, já caricaturava a figura do
nosso homem do campo, minado pelas endemias rurais e debilitado por
um peso cultural secular que o obrigava a relacionar-se com o mundo
em posição acocorada, postura esta simbiótica
das permanências indígenas e sujeição cabocla.
A imagem do caboclo, jeca ou caipira confirma, para a elite, a necessi-dade
do progresso ditado por uma consciência européia (ain-da
em sua matriz) que assume no Brasil ares de modernida-de. FHC até
há bem pouco tempo condenava o MST a uma versão primitiva
de luta social, revelando coerência com o seu marxismo de conveniência.
Hoje, é intimado pela dinâmica do movimento camponês
a rever suas teses, formuladas com o preconceito da velha aristocracia
rural, ilustrada pelas vertentes intelectuais da Europa.
Com a reação dos caipiras ou primitivos
que le-vantando de sua posição acocorada, passam a escrever
sua história, a perplexidade do supremo mandatário
do país deve ter sido grande, até porque esta atitude
dos grupos rurais foge dos receituários da velha esquerda marxista
ou mesmo da corrente liberal.
O sítio do palácio do Planalto e da capital da república,
planejada para impedir manifestações desta ordem, estre-meceu
a opinião pública e com ela as certezas acadêmicas
dos grupos de poder. A história pregou uma grande peça
no Príncipe dos Sociólogos que junto com
sua estirpe tentou, com retórica, apagar o valor ou mesmo bestializar
as camadas exploradas da população.
João Madeira & Zé Ripa
|topo|
AVELINO
PUNK
Recebemos a dolorosa notícia do falecimento do nosso companheiro
e velho correspondente Avelino, o Avela Punk, ocorrida
no dia 28 de março deste ano. Transcrevemos a seguir trechos
da carta da companheira Márcia, de Sorocaba / SP, que militou
com o nosso saudoso amigo:
Vocês me pediram que escrevesse um pouco sobre o Avela,
então vou tentar escrever sobre o cara mais libertário
que já conheci. Ele não tinha um lugar certo para morar
pois sua família, de Tatuí/SP, desprezava-o. Por serem
todos crentes, acharam que ele estava com o demônio. Aí
ele dormia pelas ruas, ao relento, um dia em Tatuí, outro em
Sorocaba... Não tinha trabalho fixo e se recusava a enriquecer
o bolso dos burgueses. Então, ele prestava serviços
que fossem suficientes para sua sobrevivência.
Conseguiu viver até os 23 anos e, por onde passava, cativava
muitas pessoas, dividindo suas idéias e sua bondade com todos.
O mundo foi ruim demais com ele... A maneira como ele queria e conseguiu
viver estava cada vez mais difícil.
Na sexta-feira, 28/3, ele fez o Manifesto da Páscoa, que deveria
ser distribuído no domingo. Ao anoitecer ele disse a um amigo:
Talvez você não me veja mais. No sábado,
seu corpo foi encontrado em um sítio (em Tatuí) e, após
a autópsia, os médicos disseram que ele morreu por overdose,
após ter usado três tipos de drogas. Neste sítio,
planejávamos uma comunidade libertária, onde faríamos
palestras, shows e uma horta comunitária.
Segundo um amigo de Tatuí, todos os seus pertences foram queimados
por sua família.
Olha, eu nunca mais vou encontrar um amigo como ele, sincero e honesto,
que dividia até o que não tinha.
Comigo fica a eterna recordação de um maravilhoso libertário,
digno de respeito e carinho.