Libera
Nº 77
ANARQUISMO:
UMA QUESTÃO DE PALAVRAS
– De onde veêm as palavras “Anarquismo” e “Libertário”
–
A palavra
anarquia é tão velha quantos o mundo. Deriva das antigas
palavras gregos an, arkhe, e significa algo
como ausência de autoridade ou do governo. Contudo, durante
milênios acreditou-se que o homem não poderia passar
sem ambos e, a anarquia têm sido entendida de modo
pejorativo, como sinônimo de desordem, caos ou desorganização.
Pierre - Joseph Proudhon, ???? por suas frases chocantes (como a
propriedade é um roubo), se apropriou da palavra anarquia.
Como se seu objetivo fosse impactar as pessoas o máximo possível,
em 1840 criou o seguinte diálogo com o personagem Filisteu:
És um republicano?
Republicano, sim; mas isso não significa nada.
Res publica é o Estado. Os reis também são republicanos.
Ah, bom! És um democrata?
Não
Como! És talvez um monarquista?
Não
Constitucionalista, então?
Por Deus!
Então, és um aristocrata?
Em absoluto!
Queres alguma forma mista de governo?
Menos ainda!
Então, o que és?
Um anarquista.
As
vezes, Proudhon fazia a concessão de escrever an-arquia,
para dificultar as confusões criadas pelos adversários.
Por esse termo, entendeu qualquer coisa menos desordem. Aparências
a parte, ele era mais construtivo do que destrutivo, como vieremos.
Considerou os governos como responsáveis pela desordem e acreditou
que apenas uma sociedade sem governo poderia restaurar a ordem natural
e voltar à harmonia. Argumentou que o idioma não poderia
alojar outro termo e decidiu devolver à antiga palavra anarquia
seu significado etemológico estrito. No calor de suas polêmicas,
porém, abstinada e paradoxalmente, ele usou a palavra anarquia
em seu sentido pejorativo de desordem, convertendo a confusão
em perplexidade. Seu discípulo, Mihhail Bahumin, o acompanhou
neste sentido.
Proudhon e Bahunin experimentaram um malicioso prazer de brincar com
a confusão criada pelo uso dos significados ??? da palavra:
para eles, anarquia era tanto a desordem mais colossal, a desorganização
mais completa da sociedade e, mais além, uma gigantesca mudança
revolucionária, a construção de uma nova, estável
e racional ordem baseada na liberdade e na solidariedade.
Os seguidores imediatos dos pais da anarquia vacilaram
em utilizar a palavra de maneira tão deploravelmente elástica,
que produziria uma idéia negativa aos não iniciados
e se prestava a ambigüidades. Proudhon, inclusive, chegou a ser
mais cauteloso ao fim de sua breve trajetória e era feliz autodenoninando-se
federalista: Seus seguidores pequenos burgueses preferiram o
termo mutualismo a anarquismo e, a linha socialista, adotou coletivismo
que foi rapidamente substituído por comunismo.
No final do século XIX, na França, Sebastien Faure retomou
uma palavra, originada em 1858 por Joseph Dejacque, para utiliza-la
como título de um periódico: O Libertário.
Atualmente, os termos anarquista e libertário
chegam a ser intercambiáveis.
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*
Saudações Libertárias *
Muito
foi escrito e ainda vai ser, na tentativa, de definir o movimento
punk. Nesse artigo vamos tentar dar a nossa definição,
mas de forma alguma queremos dizer que a nossa é a verdadeira
e incontestável. Trata-se apenas uma definição
baseada em alguns de militância no movimento punk e de análise
pessoais.
A princípio, deve ficar claro que o PUNK é um movimento
exclusivamente contra-cultural de contestação e confrontamente
ao sistema, a sociedade ???? e aos valores capitalista. Essa contra-cultura
se baseia numa apresentação visual desajustada,
na nossa música na nossa arte em geral, e principalmente, na
nossa forma de viver o mundo. É uma resposta à realidade
institucionalizada, das grandes metrópoles, e às injustiças
e brutalidades cometidas pelo mundo a fora.
É óbvio que pelo próprio fato de a cultura punk
ser uma cultura de confrontamento, naturalmente algumas ideologias
e filosofias políticas radicais de oposição ao
capitalismo acabaram sendo absorvidas por diversos segmentos do movimento.
Como exemplo de algumas dessas ideologias, podemos citar o anarquismo,
o niilismo e, também muito difundido na cena de alguns países
da América do Sul, uma espécie de esquerdismo socialista
radical (algo semelhante ao guevarismo), provavelmente influenciado
pelo ideário das guerrilhas locais. A existência dessa
diferentes correntes de pensamento e até a inexistência
de qualquer uma delas, não é um problema em si, pelo
contrário, prova que a dinâmica interna é muito
boa e ressalta a importância da autonomia pessoal de interpretação
do próprio movimento, não exigindo programas, cartilhas,
filiação ou coisas do gêneros; o problemas vem
exatamente quando determinados setores ou grupos entendem que apenas
as suas posturas, práticas e ideologias é que são
verdadeiras, considerando automaticamente as outras como
falas e que portanto devem ser ignoradas e até combatidas em
nome de uma purificação do movimento. O
que queremos dizer é que em termos de posturas, práticas
e ideologias, o movimento punk assume duas promessas básicas:
o não-comercialismo e o anti-autoritarismo (variando aí
as concepções particulares do que se entende por não-comercialismo
e anti-autoritarismo), qualquer tentativa de atrelar todo o movimento
à essa ou àquela postura, prática ou ideologia
é tambému uma tentativa autoritária de limitar
as potencialidades desse movimento.
Nosso movimento é imensamente diversificado em todas as suas
características: existem punks de visual extrenso e outros
que não se consegue identificar como tal pela aparência,
existem punks exclusivamente atraídos pelos mais sujo
grind/noise core e outros exclusivamente atraídos pelo mais
básico e tradicional punk rock 77, existem punks diretamente
ligados à militância revolucionária dentro e fora
da cena e outros que não possuem nenhum interesse por nenhum
tipo de atividade ligada ao movimento ou à causa revolucionária.
É nessa diversidade, nessa verdadeira babel que
está a riqueza do PUNK. O principal erro é encarar o
movimento punk como algo fechado, homogêneo, como um movimento
político com diretrizes únicas definidas, quando na
verdade ele é algo muito amplo e heterogêneo.
Dentre todas as vertentes do movimento, uma nos interessa em espeical
por ser provavelmente a mais complexa e por nos enquadramos nela,
vamos tentar comentar e fazer uma análise sobre o ANARCO-PUNK.
Anarco-punk é por definição aquele indivíduo,
banda, publicação, coletivo ou demais organizações
que associam à rebelião contra-cultural punk, a ideologia
anarquista, e por sua vez o movimento anarco-punk é o conjunto
desses indivíduos, bandas, publicações, coletivos
e demais organizações, Acontece que mesmo dentro do
movimento anarco-punk existe uma grande diversidade, da mesma forma
como são diversas as interpretações do anarquismo
e as práticas anarquistas, também são diversas
as associações dos diferentes anarquismos com a contracultura
punk. Temos todos que aprende a conviver com as diferenças
sem precisar impor aos outros as nossas concepções,
não se pode exigir todos os anarco-punks que militem em movimentos
sociais e nem pelo contrário, exigir que todos se limitem a
militar no interior da cena underground. Não podemos é
por ignorância nos achamos melhores ou piores que os demais
companheiros não-punks que estão na militância
anarquista, criar uma rivalidade entre punks e anarquistas não-punks
por mais que seja esse o desejo de alguns grupos de ambos os lados,
é um erro não só existencial mas também
estratégico, pois quanto mais divididos e em conflitos estivermos,
mais fácil será derrubar-nos.
Mas não podemos deixar de dar o merecido valor ao movimento
punk, nós sabemos do nosso potêncial e nunca devemos
nos esquecer de nossas raízes. Pense bem: quantos grandes revolucionários
do presente e o futuro começaram, estão começando
ou começarão suas trajetórias de luta através
do movimento punk?
Depois
de muito refletimos e analisamos, decidimos soltar esse documento
como uma proposta de debate reavaliação do que se entende
e do que é colocado na prática no Brasil em termos de
Anarco-punk.
Segundo a definição que colocamos anteriormente, anarco-punk
é todo e qualquer indivíduo ou coletividade que associe
a contra-cultura punk à ideologia anarquista e assim o é
em todo o mundo, e por que não aqui?
Durante vários anos alguns grupos por todo o Brasil se auto-proclamavam
o movimento anarco-punk (e alguns ainda o fazem) a despeito de todos
os outros punks anarquistas do país. Bem, como pode sendo MOVIMENTO
ANARCO-PUNK todo o conjunto de indivíduos e coletividade punks
anarquistas, uma pequena parcela de todo esse universo se denominar
o movimento anarco-punk?
Sob a sigla de MAP. esses grupos se relacionavam e ainda
se relacionam numa espécie de federalismo informal.
Na nossa visão está perfeitamente bem que esses grupos
se federalizem e se relacionam por todo o país, mas ao se proclamarem
o movimento anarco-punk eles fecham toda uma concepção
ampla em si mesmos, fazendo entender que todos os outros punks de
ideologia anarquista (anarco-punks) que não fazem parte de
seus grupos ou de seu federalismo informal são
qualquer coisa menos anarco-punks.
Assim como o movimento punk e o movimento anarquista, o movimento
anarco-punk é extremamente amplo e heterogêneo (diversificado);
da mesma forma como os anarco-sindicalista ou os anarco-coletivista
não podem se reinvindicar o movimento anarquista ignorando
os anarco-comunistas por exemplo, uma parcela de anarco-punks não
pode se reinvindicar o movimento anarco-punk ignorando todo o resto,
isso no mínimo é uma atitude autoritária que
nos lembra a postura vanguardista de alguns partidos de esquerda.
Não estamos com esse documento querendo crucificar
ou responsabilidadar todos os individuos que fazem parte do M.A.P.
por esa situação, na verdade esse documento é
um apelo à consciência e capacidade pessoal de cada um
de poder se auto-questionar e abrir a mente para novas concepções
e criarmos todos juntos uma nova realidade.
O movimento anarco-punk é um movimento intenacionalista e de
proporções mundiais, por isso mesmo não pode
possuir dogmas nem verdades absolutas pois cada povo que o assimila
acaba incorporando ao movimento uma certa carga de identidade cultural
própria desse povo e da situação em que ele vive.
Não é preciso dizer que o movimento anarco-punk na Espanha
e nas Filipinas por exemplo não são idênticos
e nem tampouco as preoupações da militância dessas
respectivas cenas. Temos que pensar que cada realidade é uma
realidade, se por exemplo a militância anarco-punk de alguns
países da Europa está mais voltada para a defesa dos
direitos dos animais, já no México por exemplo, essa
militância tem uma boa participação no apoio às
ações do EZLN só para citar um único exemplo,
toda militância tem sua importância e não nos cabe
considerar o seu valor maior ou menor, tudo varia do ponto de vista
pessoal; como toda militância é válida temos que
considerar que a atuação política interventiva
é mais uma forma de militância, assim como é o
simples fato de tocar em uma banda ou editar um fazine para divulgação
de nossos ideais e de nossa cultura. A adoção de determinadas
posturas como únicas verdadeiras é que são
o problema como dissemos anteriormente, como por exemplo: a postura
do D.I.Y., o veganismo, e etc., não podemos dizer que nenhuma
dessas posturas são as únicas que são realmente
verdadeiras pois isso varia de concepção
e ninguém é menos anarco-punk por não ser vagan
por exemplo. De acordo com tudo isso estamos trazendo a seguinte proposta:
*Nenhum
grupo ou organização que seja, tem o direito de se reinvindicar
o MOVIMENTO ANARCO-PUNK, pois isso não passa de uma atitude
autoritária que não cabe mais na realidade em que vive
o movimento punk atualmente no Brasil. Basta, cada grupo tem o direito
de assumir a postura que quiser, seja ela o mais sectária que
for desde que esse grupo se assuma como apenas mais um grupo e não
como o MOVIMENTO ANARCO-PUNK, cabe a todos nos, o conjunto dos anarco-punks,
impedir que qualquer grupo ou coletivo que seja utilize a denominação
de movimento anarco-punk para se auto-definir, e o melhor método
de fazê-lo é o mais simples não-reconhecimento
de tal denominação daqui para frente.
Gostariamos que esse debate fosse discutido, o mais amplamente possível
(inclusive pelos membros dos grupos que hoje se denominam M.A.P),
para que possamos num futuro próximo todos vivemos nosso movimento
num ambiente de companheirismo e não de guerra declarada.
O
movimento punk nunca há de morrer
Este
material está plenamente aberto a
divulgação e republicação
Coletivo anarco-punk Contraste.
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KROPOTKIN
E LENIN
Quem diz ser parteiro, afoga o que luta para
nascer!
Pedro
Kropotkin decidiu regressar à Rússia em 1917, pouco
depois de alcançarem a Europa os primeiros indícios
da grande revolução que se avizinhava. Tinha 75 anos
(43 dos quais passados no exílio) quando enfrentou a penosa
viagem e as dificuldades do momento revolucionário. Havia levado
demasiados anos desejando este momento, lutando por este instante,
colaborando com o titânico esforço do povo russo para
romper as correntes que o oprimia.
Desejava participar da insurreição geral, ainda que
cons-ciente de sua impossibilidade física para integrar-se
plena-mente às duríssimas condições de
luta e à tensão cotidiana em que viviam os anarquistas
mais jovens. Contudo, como tantos outros revolucionários da-quele
momento, Kropotkin con-siderou que por trás do levante popular
de fevereiro e outubro de 1917, se oferecia a ocasião de se
levar a cabo o velho sonho revo-lucionário de um novo mundo,
sem estado, sem exploração.
Sua primeira atitude perante o golpe de estado bolchevique de outubro
foi um silêncio alerta. Ainda que se opondo profunda-mente à
filosofia política mar-xista, abominando seu culto ao estado,
Kropotkin, a princípio, se eximiu de criticar os bolchevi-ques.
O silêncio de Kropotkin durante aquele inverno só
era in-terrompido pelas cartas a seus amigos, e nas reuniões
com os anarquistas que o visitavam: Vo-line, Emma Goldman, Berkman,
Maximov, Makhno, ... todos estes agentes ativos daquela ex-traordinária
maré revolucionária.
No entanto, aquela confian-ça inicial outorgada
ao bolche-vismo se quebrou ao primeiro choque com a realidade. Foi
durante aquele gigantesco incêndio revolucionário que
Kropotkin, já no final de sua vida, comprovou, com amargura,
como estavam se cum-prindo suas mais temidas predições
sobre as conseqüências de se adotar a via autoritária
e política para o confronto com o capitalismo e a opressão.
Contudo, no início de 1918, ainda não havia sido vencido
pelo desânimo, velho lutador, não cedendo no seu intento
de mudar o curso da história, agora através de seus
escritos e de suas reflexões. Mas a realidade era dura e o
autoritaris-mo se expandia como uma praga, convertendo os lemas revolucionários
em slogans que ocultavam toda a crueldade da nova ditadura contra
o povo trabalhador. Nos primeiros meses de 1918 aumentaram as críticas
dos anarquistas contra o rumo que os bolcheviques impunham à
revolução. Em abril, começou uma perseguição
sem quartel contra os libertários e os socialistas revolucionários.
As prisões, cas-tigos e execuções sumárias
de anarquistas foram constantes ao longo daquele difícil ano
e no começo do seguinte.
Foi nesse contexto que Kropotkin recebeu, no início de maio
de 1919, o convite para uma entrevista com Lenin, na residência
de um colaborador do governo bolchevique. A conversação
se centrou imediatamente na questão das organizações
de base (cooperativas, comunas, associações, soviets)
e seu papel no processo revolucionário. Para Kropotkin, este
era o problema. Para Lenin, uma questão insignificante ante
a enorme e absorvente atividade que impunha o movimento gerado
pela revolução de outubro.
Ambos estavam conscientes do abismo que os separava. Um deles, mais
velho, falava da revolução ainda possível. O
ou-tro, mais jovem, já havia renun-ciado a ela em nome do novo
estado. O ancião avisava sobre a fatalidade de uma evolução
que, seguindo desde sua origem linhas falsas, só poderia conduzir
ao fracasso e à reação. Lenin dis-cursava
apaixonadamente sobre vitórias, sangue, massas, terror vermelho,
até uma guerra de todos contra todos, esse o único
tipo de luta que pode ser assumi-do com êxito, as demais
são in-significantes, jogos de crianças. Kropotkin que
bem sabia que na-da pode ser conseguido em nenhum país,
sem a mais deses-perada luta, já demonstrava um profundo
desinteresse por aque-la retórica encobridora.
A entrevista não teve mais efeito prático do que dramatizar
o abismo que separava, não a duas pessoas, senão a dois
modos de compreender o momento que protagonizavam. O organizador da
entrevista, Bonch-Bruevich, captou bem aquele episódio e disse
de cada um: Observei Lenin. Seu olhos brilharam um pouco irônicos
quando escutava Kropotkin... e Kropotkin, que ouviu as
veementes palavras de Lenin primeiro aten-tamente, depois foi desinteressando-se.
Os dois nunca mais voltariam a se ver, ainda que Kro-potkin tenha
escrito várias cartas a Lenin, onde denunciava a impossibilidade
de se construir uma nova vida a partir da ditadura estatal e da ilimitada
autoridade que faz uso o Partido. Um ano e meio mais tarde, em janeiro
de 1921, morria Pedro Kropotkin. Um imenso cortejo de mais de cem
mil pessoas seguiu o féretro até o humilde túmulo
que o velho revolucionário havia escolhido.
M. GENOFONTE
Traduzido
e adaptado pelo Coletivo de
Tradução do CELIP, extraído de La Campana,
nºs 49 e 50, maio/97
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