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Libera
Nº 79
Feliz
1998 IDEAL!
para
o Movimento Anarquista no Rio. Reforçamos nossa unidade no trabalho
duro e concreto, no CELIP, nas instâncias internas e nas ruas.
Muita gente nova e cheia de garra se aproximando para as mais diversas
terefas e atividades, ganhamos oxigênio e pudemos ver aquilo que
já imaginávamos: um Movimento forte, atuante e presente,
nas ruas, lutas e comunidades; um CELIP crítico, criativo, com
participação de tod@s libertári@s do Rio e Grande
Rio. Na gíria da esquerda tem fluxo e refluxo, e agora é
o nosso fluxo, e vamos a ele.
Para nós um centro de cultura anarquista é um espaço
de reflexão, uma escola de formação e autoformação
da militância e gente afim com a luta libertária. Também
é o espaço para forjarmos nossa unidade no trabalho, compartindo
tarefas e exercendo direitos. Ao contrário das ideologias centralistas
e autoritárias, no anarquismo, quanto mais participação
e espírito crítico, melhor. O CELIP também tem
as suas especificidades para serem respeitadas e, mais do que isso,
desenvolvidas. Outra vez seguindo na história do anarquismo,
resgatar na memória aquilo que já fazemos nas ruas. Buscar
novas formas de linguagens, narrativas do cotidiano popular, ajudar
num embrião de cultura libertária, a luta pela sociedade
justa e livre que tanto queremos.
Sempre onde houve Movimento Anarquista forte e atuante, tivemos (e temos)
nossos centros de cultura, e no campo da pedagogia, escolas livres e
universidades dos trabalhadores. A transformação dos valores
caminha lado a lado com a transformação da realidade social;
um não existe sem o outro. Assim como, para o Movimento do Rio,
toda nossa unidade se forja no CELIP.
1998 marca os 80 anos da Insurreição Anarquista do Rio
de Janeiro, ocorrida em 18 de novembro 9de 1918. Marca também
o desejo e o incansável compromisso de fazer do CELIP um espaço
aberto, criador e aglutinador do anarquismo no Rio. Fazer do Libera...
um veículo plural mas atuante, presente e unificador. Trabalhando
pelo anarquismo homenageamos aos companheiros insurretos de 1918, à
FORJ, ao CEPJO, a José Oiticica, Juan Perez, Domingos Passos,
Ideal Peres, Ester Redes e a milhares de inquebráveis companheir@s
que tanto lutaram e lutam por nosso IDEAL.
Por um ano pleno de lutas, avanços e conquistas; para um CELIP
a altura de seu papel e nome é que mais uma vez desejamos: Feliz
1998 IDEAL!!!
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2o
Encontro de jovens por um anarquismo organizado na América Latina
Nos dias
8, 9 e 10 de agosto, reuniram-se em Montevidéu, Uruguai, na sede
da Federação Anarquista Uruguaia, um grupo de jovens anarquistas
que, tomando como referência a FAU (que vem há 40 anos
atuando nas lutas concretas de seu povo) pretendem trabalhar pelo anarquismo
de linha especifista na América Latina. Estavam presentes no
Encontro as seguintes organizações políticas anarquistas:
Organização
Socialista Libertária (Brasil)
CAIN (Buenos Aires, Argentina)
Grupo Anarquista de Rosário (Rosário, Argentina)
Organização Anarquista Bandeira Negra (Chile)
Federação Anarquista Uruguaia ( Uruguai)
Há
um ano estivemos presentes no 1º Encontro, onde fizemos, de um
modo geral, uma avaliação dos erros e acertos que o anarquismo
teve historicamente, e como trabalhar por ele na atual conjuntura. Assim,
tiramos uma base de acordos e princípios básicos, tais
como inserção social e classismo. Um ano depois, voltamos
para compartilhar nossas experiências, e vimos satisfeitos o quanto
avançamos em nossa militância. Vimos os frutos de nossos
trabalhos (que só vingaram porque começamos a fazê-lo
com seriedade, compromisso e humildade), em que nossas práticas
libertárias começaram a ser respeitadas no movimento estudantil,
comunitário, nos bairros, e nas outras tantas frentes de atuação.
Vimos que nossa união latino-americana não é feita
de troca de correspondências, uma vaga idéia utópica,
ou ainda da pretensa integração imposta pelo Mercosul,
mas sim de práticas e peleias comuns, forjadas diariamente pela
libertação de nossa gente.
Vendo o quanto avançamos, começamos a visualizar uma maior
organicidade latino-americana, que a longo prazo poderá originar
uma organização política comum. Mas para isso ainda
temos que avançar nas organizações nacionais, etapa
essa que, felizmente, vencemos aqui no Brasil, organizando conjuntamente
lugares tão distintos como Rio Grande do Sul e Pará, São
Paulo e Rio de Janeiro, sob o signo de Organização Socialista
Libertária.
Nossa organização esteve presente com quatro delegados
de três estaduais (dois militantes da FAG, núcleos Ecológico
e Rio Grande; um do Mutirão, do Rio e um do Vermelho & Negro,
núcleo da OSL na cidade de São Paulo e sua região
metropolitana); os companheiros argentinos tinham dois delegados de
CAIN e quatro de Rosário, a FAU enviou quatro e os chilenos dois.
Também estavam presentes como observadores um companheiro do
Coletivo Libertário (Cuiabá-MT) e do Grupo Libertad (Buenos
Aires, Argentina), além de toda a companheirada uruguaia e mais
alguns de Rosario e La Plata que se fizeram presentes.
Este ano, fora todo o ambiente maravilhoso, os intervalos sempre ocupados
pelas canções da revolução espanhola e das
lutas revolucionárias latino-americanas, talvez a sensação
que melhor expresse o 2º Encontro seja a de responsabilidade militante.
Se avaliou, de uma forma concreta e realista, todo o potencial que nossa
coordenação poderá ter. Também, sem nenhuma
fantasia absurda, todas as respostas e contramedidas que a reação
(transnacionais, milicada, oligarquias, imperialismo e outras lacraias)
costuma tomar para coagir e reprimir organizações com
potenciais e propostas. Os temores são compreensíveis
mas saímos de lá com a certeza de que nosso compromisso
supera o medo e a repressão.
Foram debatidos temas como: Dinâmica atual do capitalismo; Movimentos
sociais e ação direta e, também, Visualizar uma
Organicidade Regional. Tudo foi debatido com tentativas de análises
com precisão e rigor e, obviamente, muita, muita paixão.
Tiramos um resumo dos debates e todas nossas resoluções
num documento conjunto, a ser implementado nos próximos três
anos.
Terminado o Encontro, voltamos para nossos lugares de origem e para
o trabalho de todos os dias, que é lutar para organizar
& organizar para lutar. Tendo a consciência de havermos
superado uma etapa inicial e que nosso caminho a seguir é longo
e certamente difícil.
Podíamos terminar este texto com mais um dos lemas que peleamos
para que se tornem legítimos e populares. Mas pensamos que melhor
retrata o espírito de nossos propósitos estes versos do
pajador anarquista uruguaio, companheiro Carlos Molina, versos compostos
para outro anarquista, o guerrilheiro gaucho Idilio de León,
combatente da FAU-OPR 33, que tombou num enfrentamento contra a repressão
da ditadura uruguaia, no ano de 1974:
Caiu o jovem combatente
com as carnes desgarradas,
sonhando as alvoradas
que iluminem o Continente
com nossa irrenunciável bandeira.
FAG/OSL
Obs:
A tod@s @s interessad@s em receber o documento do 2o Encontro Latino-Americano
basta escrever para o endereço da FAG (CP 5036; CEP 90041-970;
Porto Alegre/RS)
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CONTROLE DA QUALIDADE; CONTROLE
SOBRE TODOS NÓS
As primeiras normas de padronizão da qualidade surgiram nos EUA,
como resultado da expansão industrial da 2a guerra mundial. Estas
foram utilizadas pela indústria bélica e exigidas nos
contratos com a OTAN para a especificação da qualidade
e segurança dos produtos. Na área nuclear, foi desenvolvida,
na década de 70, a norma 10CFR50, que estabelecia itens para
qualidade assegurada de projetos e construção de instalações
nucleares. Estas normas, entre outras, foram a base para as normas sobre
a garantia de qualidade hoje utilizadas.
Mas o grande impulsionador das políticas de qualidade foi o Mercado
Comum Europeu (MCE) que, através da Organization of Standartization,
editou uma série de normas como medida de padronização
e de proteção para os seus produtos.
Os modelos dos sistemas da qualidade (ISO 9001, 9002 e 9003) são
dotados de alto grau de subjetividade, praticamente nada definindo.
São propositadamente pouco palpáveis, mas deixam indicativos
claros de suas exigências para a certificação da
empresa pelos organismos internacionais. E são esses indicativos
que nos permitem desvendar o que há por trás do difuso
e vazio discurso da busca da qualidade e satisfação do
consumidor.
Não nos parece precipitado começar afirmando que a normatização
dos sistemas de qualidade em todo mundo, é resultado de um considerável
desenvolvimento do sistema capitalista, onde os mercados são
abastecidos por oligopólios. Estas grandes corporações,
nacionais ou multinacionais, tendem a padronizar seus processos produtivos,
tirando espaço do improviso e das diferenciações
comportamentais regionais. O próprio processo de normatização
e generalização dos sistemas de qualidade padronizados,
constitui o aprofundamento das relações de dominação
do capital sobre o trabalho, sendo esta a nova solução
do capital para maximizar seu excedente apropriável (aumentar
sua rentabilidade). O lema Fazer certo na primeira vez, todas
as vezes sem erro, para não ter que refazer significa,
nada mais nada menos, do que menos gastos e desperdício.
Na verdade, o sistema de qualidade pouco tem a ver com qualidade do
produto. As apostilas do assunto geralmente definem qualidade como :
... o nível de satisfação alcançado
por determinado produto no atendimento aos objetivos do usuário....
Mas este palavrório em nada se efetiva, porque nenhuma empresa
prestadora de serviços, por exemplo, em nome da qualidade, deixa
a mão-de-obra ociosa durante todo o dia, visando ocupá-la
apenas durante o horário de pico. Os clientes que façam
filas! Qualidade no atendimento exigiria que a empresa não visasse
a maximização de seus lucros, mas esta empresa não
existe.
Mas os que já presenciaram a implantação da política
da qualidade devem estar nos questionando. A implementação
desta política demandaria uma boa soma de recursos e, se o capital
quer maximizar seus ganhos, por que gastaria dinheiro neste processo?
A resposta é simples. O investimento neste processo poderia diminuir
o lucro a curto prazo, mas traria uma rentabilidade futura compensadora.
Além do mais, essas empresas estariam se precavendo dos problemas
da concorrência intercapitalista, através das vantagens
de marketing na venda que o certificado possibilita. Ressaltamos também
o aprofundamento das relações de dominação
impostos pelo treinamento e pela incorporação ideológica
do trabalhador ao processo produtivo (através da propaganda de
valorização profissional), que fazem com que o operário
sinta-se responsável por sua atividade e pelo produto do qual,
na verdade, é alienado. Isto resultaria na queda do desperdício,
diminuição das interrupções no processo
produtivo e no conseqüente aumento da produtividade. Por fim, a
empresa teria menores custos, podendo proporcionar menores preços
e maior competitividade.
A série ISO 9000 não passa de um receituário do
controle. É a expressão do poder burocrático moderno
dentro da grande empresa capitalista. Isto é fácil de
deduzir a partir de uma simples leitura das normas ISO. Em linhas gerais,
a ISO determina:
10) Uma hierarquia rígida e bem definida, com as atribuições
de cada setor;
20) No topo desta hierarquia está a direção, responsável
pela política da empresa e por garantir que todos os níveis
reproduzam suas diretrizes;
30) Um complexo organizacional é estabelecido para que a direção
possa controlar tudo internamente. Um conjunto de documentos, registros,
classificações, relatórios e auditorias internas;
40) Medidas preventivas são realizadas para garantir a possibilidade
de substituição do trabalhador em todos os níveis,
a qualquer momento. As atividades realizadas estão descritas
e padronizadas, já as funções dos empregados são
maleáveis (o funcionário é versátil) e um
banco de trabalhadores aptos a serem recrutados está montado;
50) Todo o sistema de controle (ou parâmetros para que se efetue
o controle) tem sua coluna vertebral em um conjunto de documentos exigidos
da empresa que pretende ser certificada no sistema de qualidade. Esses
documentos definem as responsabilidades (a hierarquia/quem controla),
o que deve ser controlado, como vai controlar e como serão corrigidas
possíveis falhas;
60) Por fim, o próprio sistema monta uma estrutura para garantir
a revisão sistemática dos procedimentos (documentos onde
são descritas as atividades diárias), de como conseguir
as sugestões e maleabilidade necessárias para não
entravar os avanços no processo produtivo. Em outras palavras,
não emperrar a dinâmica do adestramento e da dominação
nas relações de trabalho.
Temos que desmascarar o que está por trás desse bonito
discurso pseudo-social da chamada política de qualidade. Esta,
junto com outros processos como o tempo justo, as reengenharias,
as terceirizações, não passam de métodos
que visam aumentar a cadência da produção, e terminar
de vez com um resto de liberdade que o operário usa para tornar
sua permanência na fábrica mais suportável.
Contudo, o mais importante é que os métodos dos sistemas
de qualidade são a nova fórmula do capital para incrementar
seu controle sobre o processo produtivo. O requinte dessas normas, porém,
é a homogeneização do controle do capital sobre
a produção e o trabalho em escala global, prevendo até
a sistemática aprovação desse controle por parte
de organismos externos à empresa, como os órgãos
certificadores internacionais.
Fábio López (Rio de Janeiro/RJ)
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