Libera Nº 80

ANO NOVO, SUBSERVIÊNCIA VELHA

Com a falência do Banco Peregrine de Hong Kong, no dia 12 de janeiro de 1998, as bolsas de todo o mundo entraram em pânico e voltou a ser questionada a posição das contas externas brasileiras.

O ministro Pedro Malan declarou que o Brasil já havia adotado as medidas necessárias (referindo-se ao aumento dos juros e ao pacotão de 10/11/97) e que não havia porque mudar a política econômica. Esta posição foi questionada pelo ex-ministro da ditadura Delfim Netto, que declarou: O governo tomou uma série de medidas, mas continua com sua posição cambial fragilizada.
Mas por que o governo tomou as medidas econômicas de novembro; qual o perigo que o país corre e, por que FHC continua a seguir o perigoso caminho “neoliberal”, o qual já afundou o México, a Coréia, a Indonésia e, agora, atinge Hong Kong?

No editorial do Libera...#51, de agosto de 1995, alertamos para a insustentabilidade das contas externas do Brasil. Explicamos que o Plano Real está ancorado no câmbio, ou seja, no dólar. Através da manutenção da paridade do real com a moeda norte-americana, da abertura para as importações e da não emissão de moeda, o governo conseguiu barrar a inflação. No entanto, o custo disso é alto. Visto o câmbio favorecer as importações, o déficit comercial do país em 1997 foi de 8,3 bilhões de dólares. A isto, somam-se as transferências e remessas de lucro ao exterior (6,5 bilhões de dólares em 97), aos pagamentos dos juros da dívida externa, etc...O Brasil deve ter, esse ano, um déficit de 35 bilhões de dólares em conta-corrente.

Para financiar este buraco, o país tem que atrair (e manter por aqui) capitais especulativos externos, através de altas taxas de juros. O problema é que estes capitais são extremamente voláteis, ou seja, podem ser aplicados em qualquer parte do globo. Logo, eles se dirigem para onde houver melhores remunerações. Assim, basta que um outro país aumente sua taxa de juros para o Brasil perder bilhões em aplicações. Mas os capitais especulativos também podem sair de um país por insegurança; seja por temer a perda de direitos (como de enviar seus ganhos para a matriz), ou por modificações na política cambial (uma maxidesvalorização pode gerar uma grande perda instantânea).

A retirada destes capitais em grande quantidade, por qualquer das razões expostas acima, convencionou-se chamar de “ataque especulativo”. O Brasil chegou a sofrer um desses ataques logo após a crise das bolsas de outubro de 97, quando o país perdeu 5 bilhões de dólares em apenas um dia. Para estancar este processo de fuga de capitais, o governo elevou a taxa de juros, ou seja, ofereceu maior remuneração para que os capitais se mantivessem aqui.

O aumento das taxas de juros, aumentou as despesas do estado e, para cobrir este prejuízo, foi lançado o pacotão de novembro. Portanto, o pacote de medidas foi elaborado para que o governo conseguisse recursos para cobrir o rombo que ele mesmo criou (ao aumentar os juros) e continuar sua política de dependência do capital internacional. Aquelas medidas deram um sinal claro do governo FHC ao mercado mundial: não pretendemos mudar nossa política de câmbio e de juros. Além disso, mostrou que o governo tinha de onde tirar recursos para honrar seus compromissos, neste caso, com o sacrifício do povo. Em outras palavras, nosso sacrifício está viabilizando os altos ganhos em juros dos capitais aplicados por aqui.

Mas apesar do pacote contemplar algumas medidas de incentivo às exportações (e assim eles ganham com os juros e com o “preço de banana” dos nossos produtos), nossa balança comercial continua deficitária, significando que o país continua dependendo do capital especulativo para se financiar. Este, porém, pode resolver sair daqui a qualquer momento. Desta forma, o país ficaria sem ter possibilidade de honrar seus compromissos em dólar, a não ser que contasse com a “caridosa” ajuda do FMI. Por isso, o nefasto Delfim Netto alertou para a manutenção da fragilidade da posição brasileira, querendo dizer que o pacotão foi um mero paliativo.

O governo FHC, para atender às exigências deste mesmo capital, mantém-se fiel à política neoliberal, sendo responsável por conduzir o país a total dependência externa e impor mais sacrifícios ao nosso povo. É impossível melhorar as condições de vida da população se, a cada ano, o país remete para fora dezenas de bilhões de dólares. Velhas reivindicações visando diminuir a sangria de riquezas do país, como decretar a moratória da dívida; dificultar as transferências e remessas de lucros; a diminuição dos juros e o ajuste do câmbio, são vistas por FHC como pretensões de “dinossauros jurássicos”.

A política neoliberal subserviente de FHC mantém o país num ciclo vicioso gerador de miséria onde, para compensar as perdas internacionais em dólar, é necessário a atração de capital externo, que exige o aumento dos juros e que, por sua vez, aumenta as perdas internacionais do país.

O Libera..., sempre que possível, voltará a abordar este tipo de discussão “macroeconômica”, para que noss@s leitores/as não fiquem completamente desarmados diante das mentiras e da propaganda governamental.

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ANARQUISMO E A LUTA PELOS
DIREITOS DOS ANIMAIS

A luta anarquista e a luta pelos direitos dos animais precisam ser unidas.

Nós que lutamos pelos direitos dos animais, somos várias vezes acusados de sermos autoritários. Quando começamos a falar sobre vegetarianismo, veganismo e direitos dos animais em geral, as pessoas tendem a se irritar e reclamar que estamos tentando dizer-lhes o que fazer com suas vidas. Acreditamos que vocês deveriam se tornar veganos sim, mas, de maneira alguma, queremos que vocês tomem alguma decisão somente por que falamos sobre ela. Não queremos que apenas ouçam o que dissemos, queremos que observem o que as pessoas dizem, que observem os fatos. Caso você considere todas estas coisas provavelmente tomará uma decisão correta. Se você se importa com solidariedade, se você se importa com os outros, provavelmente pensará em parar de apoiar a exploração animal.

Anarquia é a liberdade completa. Mas infelizmente a maior parte dos anarquistas vêem sua liberdade somente extendida aos seres humanos. A liberdade precisa ser extendida a todos os seres. É estranho mas alguns acham que se as pessoas não pudessem comer carne em uma sociedade anarquista teriam sua liberdade restringida. Estupro e assassinato fazem parte da utopia que eles imaginam? Nós duvidamos muito. Nós acreditamos que a liberdade completa é poder fazer o que quisermos, desde que não interferíssemos na liberdade dos outros. Isso significa que ninguém poderia ser prejudicado pelas ações dos outros. Caso os animais continuem sendo usados para alimentação ou em experiências "científicas", onde ficaria a completa liberdade? O que significaria anarquia para estes animais? Se queremos liberdade aos oprimidos, precisamos acabar com todo o tipo de repressão, independente da espécie.

O que significa anarquismo sem a liberdade para os animais? Uma sociedade anarquista onde os animais são explorados não é realmente anarquista. É somente outra ditadura fascista, a ditadura do Homo sapiens.

Mas da mesma forma, o que significam os movimentos pelos direitos dos animais? Geralmente, estes incitam as pessoas a se envolverem com política e a votar em candidatos que são simpáticos a este movimento. Estas pessoas estão sendo bastante ingênuas se acham que estes políticos farão algo pelos direitos dos animais. Nós, como anarquistas, precisamos mostrar aos grupos pelos direitos animais que humanos e animais nunca estarão em harmonia enquanto vivermos sob este sistema opressor.
Os movimentos anarquista e pelos direitos dos animais precisam se unir nesta luta!

Somente quando lutamos por nossa liberdade, levando em consideração a liberdade dos outros, estamos lutando pela anarquia.
Hoje em dia, uma grande parte dos anarquistas estão envolvidos com lutas contra diversas formas de opressão (como rascismo, o sexismo e a homo-fobia). Por que a luta contra a opressão aos animais está sendo ignorada? Somente uma pequena parte do movimento anarquista está envolvida nesta luta.

Será que uma vida animal é menos importante do que a humana? Seria uma vida mais valiosa que a outra? Precisamos aprender a valorizar a vida de um animal assim como valorizamos uma vida humana. De acordo com o PETA (People for Ethical Treatment of Animals), uma entidade ligada à luta pelos direitos dos animais, cerca de oito milhões de animais são mortos somente pelas indústrias para virar comida. Esta matança é comparada ao Holocausto Nazista. É uma trágedia menor somente por que as vítimas não são humanas? Parece absurdo, mas muitas pessoas lutam pela anarquia e continuam comendo carne. Será que oito milhões de assassinatos violentos a cada ano fazem parte da sua Utopia.

Você pode começar a mudar esta situação! Torne-se vegano. Se não for possível, pare de comer carne. Mas não se sinta satisfeito apenas com isso, empenhe-se em um levar um estilo de vida alternativo que não contribua com a morte e a exploração de animais. É difícil se tornar vegano, é necessário muita força de vontade e convicção, mas esta busca é supergratificante.
Se você busca informações sobre direitos dos animais, veganismo, experimentação animal ou simplesmente amizade, entre em contato conosco.

HECO
Caixa Postal 38018
CEP 22451-970 - Rio de Janeiro/RJ
(Traduzido e adaptado da revista Profane Existente # 29/30)

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POR UMA VIA ANARQUISTA NA
LUTA POPULAR

Entramos em ano eleitoral e, mais uma vez, os movimentos populares do Brasil estão acorrentados pelas esquerdas reformistas-institucionais e sua via democrático-burguesa. Em todas ou quase todas as movimentações de classe este ano, a pelegada vai tentar acumular para uma candidatura dita de “esquerda”. Até um certo tempo atrás, os anarquistas se contentavam em xingar e atacar os reformistas sem, no entanto, apresentar nenhuma opção viável de luta popular. Felizmente a situação mudou e, na gíria de esquerda, “passamos de pedra a vidraça”. Temos uma série de trabalhos de inserção concretos, reais e radicalizados até o limite que este momento permite. Ainda é pouco, mas já é um começo.

Gostaríamos de poder analisar as razões de tamanha passividade dos movimentos populares no Brasil hoje, e começar a apresentar algumas de nossas tentativas para uma via anarquista de luta popular.

Para começar a entender o acúmulo de forças para um ano eleitoral, precisamos ter a noção de que se a pelegada acumula para a eleição, a classe e o povo não acumulam para a transformação. Ou seja, quanto mais se vincula o movimento popular dentro das regras do inimigo de classe e do sistema, mais se distancia a militância da luta direta. A esquerda manipulando as entidades de base, movimentos de caráter nacional (como o MST) e as grandes centrais (CUT, UNE e CMP) para conseguir um pouco da parcela do poder institucional que a burguesia lhe concede é, simultaneamente, uma derrota da classe em luta! A tentativa dos partidos da esquerda legal de ocupar espaços democrático-burgueses é uma aliança tática destes partidos com o inimigo, ou seja, é mais uma capitulação dessa laia que não pensou duas vezes em concordar com a abertura lenta e gradual e com a anistia para os torturadores!

Esta capitulação, na prática, significa a ingerência de políticos profissionais em nossas entidades de base, centralização das decisões, intermediação de parlamentares nos conflitos e o freio de mão permanentemente puxado nas lutas. Falando em português direto, para o PT, PC do B, PSTU, PPS, PCB, PSB e outros grupelhos ganharem a eleição, a classe tem que perder!!! Para a esquerdalha comer migalhas nas mãos do inimigo, nosso povo tem que morrer de fome!!!

Até agora nenhuma novidade, a lógica imposta aos movimentos populares desde o final dos anos 70 até agora os torna reféns dos compromissos com a democracia burguesa. Felizmente, o senso comum de boa parte da população já sabe que os traidores do povo ocupando parcelas do poder do inimigo, não é a construção do Poder Popular. Também se percebe que a burocracia profissionalizada, além de perdida politicamente, já ganha ideologicamente pelos prazeres e virtudes o sistema. Coisas simples e coerentes como associar o discurso à prática, transformar seus valores simultaneamente com a transformação social e vincular a luta com entrega pessoal, não passa na cabeça destes burocratas de plantão.

Se há concordância com a crítica, fica a pergunta de sempre: - E agora José, o que que a gente faz? E a pergunta na seqüência poderia ser: - E o que eu posso fazer nesta luta?

Primeiro a compreensão de que estamos participando, nos inserindo, e com o discurso, método e programa próprios, autênticos e legítimos. Os anarquistas não são “boiada” de dirigentes, são uma força política com identidade própria, sem “cair de pára-quedas”, como diz a gíria militante. Nossa inserção é legitimada por sua prática política cotidiana. Não se luta pelo povo ou para o povo, ou se está com o povo em luta ou não há luta, há mentira e conciliação de classes. Um outro ponto básico e geral, em cada tarefa, por mais simples que seja, tem que estar vinculada à Construção do Poder Popular. E o que isso significa na prática? Através de nossa experiência acumulada nos últimos três anos, significa de imediato não gerar nenhuma ilusão ou falsa expectativa. Quem faz os caminhos são os caminhantes e só o povo em luta traça e abre, na marra, seu caminho.

Simultaneamente gerar uma instância coletiva, uma assembléia da entidade ou um conselho de delegados de base (sempre em revezamento), que seja o fórum máximo de decisão e elaboração daquela comunidade e/ou categoria. Mas não basta criar a instância, é preciso gerar uma capacidade de tomada de decisão daquela parcela da classe. Aí é fundamental elementos de formação política, a partir da própria experiência de vida do pessoal envolvido. Mas tudo sempre numa noção de destino e caminho. Todos estes instrumentos auto-organizativos necessitam de um número de anarquistas inseridos no meio e dedicados de corpo e alma àquela luta específica. No processo, a militância vai sendo forjada, e nos embates diretos, irão surgindo novos militantes vindos daquele segmento e, aí, a coisa toda anda...

Este resumo de orientação de trabalho é parte dos frutos que viemos colhendo como experiências organizativas da Organização Socialista Libertária (OSL). Nada disso foi inventado ou lido, tudo foi e está sendo colhido na luta diária. Outras experiências são sempre bem vindas. Estamos escrevendo nossa própria história com os punhos erguidos, abrindo caminho no peito e na raça e, com isso, construindo a via anarquista na luta popular.

Ousar lutar, ousar vencer, viva à anarquia!


Núcleo Mutirão/OSL-RJ

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ATENÇÃO!


Andamos “comendo mosca” no Libera...# 78, de nov/97. As maravilhas nem sempre maravilhosas da informática engoliram um pedaço do texto Um conveniente Esquecimento da História, publicado na página 2 do referido exemplar. Este pedaço, resgatado dos recônditos dos hardwares e disquetes, começaria no final da primeira coluna e terminaria no topo da segunda:

“Não se abalou quando uma intervenção do auditório informou a verdade histórica sobre a repressão feita brutalmente pelo Exército Vermelho, sob a coordenação de Trotski e Zinoviev, usando, inclusive, tropas asiáticas, cossacos e tropas de fora de Petrogrado. As tropas locais, por medo de adesão aos marinheiros e operários da fortaleza, foram mantidas, na sua maioria, imobilizadas nas casernas.

O Professor Macedo, em repetidas oportunidades, sem perder a brandura do rosto e da voz, concentrou sua argumentação nos seguintes enfoques: (a) A necessidade do esquecimento (dizia “o não repisamento”) dos fatos reais e concretos da história do bolchevismo desde outubro de 1917 até o fim da União Soviética; (b) Sobre Stalin, afirmou simplesmente que o georgiano teria tido “equívocos”; (c) Revisou de modo peculiar a velha acusação aos anarquistas de buscarem acientificamente os caminhos do socialismo, no momento em que, para surpresa geral, criticou o conceito do marxismo ser científico; (d) A necessidade da união da esquerda - inclusive libertária, entendemos - olhando-se o futuro, esquecendo o passado (!) em busca de uma nova revolução.”

Pedimos desculpas aos/as noss@s leitores/as e ao autor.

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