Libera
Nº 81
GENOCÍDIO
TERCEIRIZADO
Foram recentemente divulgados pela grande imprensa os
dados sobre acidentes de trabalho no Brasil. Em 1996, o Instituto
Nacional de Seguridade Social (INSS) computou 428.072 acidentes, sendo
que 5.538 foram fatais. Esses números mostram que 15 trabalhador@s
foram mort@s por dia no país, o pior resultado em 9 anos e
o segundo pior registrado desde 1972. Os dados do INSS mostram ainda
que os números crescem progressivamente desde 1993, quando
foram registradas 3.110 mortes; em 1994, 3.129 (26% a mais) e, de
95 para 96, o aumento foi de 40%. O número de trabalhadores
que vem sendo aposentados por invalidez também cresce assustadoramente.
Em 1996, 25.095 pessoas foram qualificadas como permanentemente incapacitadas
- 390% a mais do que os 5.962 casos registrados em 1994, e 65% superior
aos 15.156 casos de 1995.
Temos que ressaltar que esses acidentes são apenas aqueles
computados oficialmente, não sendo levados em conta, obviamente,
os inúmeros acidentes que mutilam e matam @s trabalhadores
por esse Brasil afora, nas plantações de cana, no beneficiamento
do sisal e do babaçu, nas fábricas e oficinas clandestinas
das grandes cidades, etc. Em um país onde o trabalho escravo
e semi-escravo ainda é comum nas áreas rurais de todos
os Estados, quem é que sabe o que acontece com essas pessoas
sujeitas à condições desumanas de trabalho, aos
castigos físicos, a jornadas extenuantes e ao total anonimato.
Segundo o economista norte-americano Armand Pereira, da OIT, a situação
brasileira se comparada a outros países de renda média
alta (classificação do Banco Mundial para países
com renda per capita entre US$ 766 e US$ 9.385; na qual o Brasil se
enquadra com a renda em torno de US$ 5.000), está entre as
dez piores. Segundo a Organização Internacional do Trabalho
(OIT), de 1992 a 1996 morreram em média no Brasil 22 trabalhadores
para cada 100.000 que estavam empregados, enquanto em países
como os EUA e a Suíça esse índice é de
5 e 2,7, respectivamente.
E qual foi a tática do capitalismo para maximizar seus lucros
que entrou com toda a força na década de 90, e que vem
sendo a responsável por grande parcela desse massacre ? Acertou
quem disse a terceirização da mão-de-obra. Entre
os petroleiros, por exemplo, os acidentes com empregados de prestadoras
de serviço são maioria: de janeiro a outubro do ano
passado, 70 empregados da Petrobrás se acidentaram contra 96
das empreiteiras. As empresas terceirizadas geralmente têm prazos
para fazer os serviços e contratam mão de obra sem treinamento,
expondo @s trabalhadores ao risco. Os empregados dessas empresas trabalham
em condições precárias, não recebem informações
de segurança e, raramente, manuseiam equipamentos que tiveram
manutenção preventiva. São comuns as denúncias
de falta de compromisso com as normas de segurança do trabalhador
por parte das prestadoras de serviços, que compram equipamentos
de qualidade inferior apenas para atender as exigências da fiscalização.
Depois das privatizações das grandes siderúrgicas,
por exemplo, foram demitidos milhares de trabalhadores e, enquanto
isso, a produção continuou crescendo. Segundo o presidente
do Sindicato dos Trabalhadores da Usiminas, os metalúrgicos
trabalham sob intensa pressão, precisam render muito mais e,
além disso, a empresa em vez de fazer manutenção
preventiva dos equipamentos, só faz a corretiva, geralmente
depois que ocorre um acidente. Já na Acesita, além da
redução do número de empregados, a empresa contratou
muita mão-de-obra terceirizada e não qualificada, vinda
de empresas prestadoras de serviço que tentam oferecer o menor
preço para ganhar as concorrências, sem se preocupar
com o treinamento.
Para as empresas estatais ou privadas a terceirização
da mão-de-obra é muito cômoda pois, além
de reduzir os custos, as isenta da responsabilidade sobre
os mortos e mutilados que prestam serviços para elas. Para
a prestadora de serviços, basta encaminhar os problema
ao INSS (ou seja, aos cofres públicos) que, de 1994 a 1996,
teve um aumento de 148% de gastos com os benefícios pagos a
acidentados no trabalho. Devemos ressaltar que esses benefícios
do INSS, geralmente, levam o trabalhador inválido ou a família
dos mortos à indigência.
Ao contrário dos empresários, técnicos e governantes,
para nós, anarquistas, toda essa tragédia não
se resume a um monte de números e estatísticas. Atrás
de tudo isso está a crueldade e a desumanidade do velho sistema
capitalista, agora travestido de economia globalizada
e outras falácias vindas dos defensores da nova ordem
econômica. Para nós, são milhares de seres
humanos mortos ou jogados com suas famílias na marginalidade
e na exclusão social, prontos para serem substituídos
na produção pela legião de desempregados que
vagam pelas ruas. Para eles, que consideram o ser humano uma mera
peça descartável na máquina de fazer dinheiro
que é o capitalismo, é tudo muito simples.
Não podemos nos render a esse sistema predatório que
está levando o planeta e a maioria absoluta de seus habitantes
à destruição. A resignação e a
inércia perante tudo isso é o que eles querem de nós.
O nosso grito de basta! deve ser expresso como ação.
Organiza-te e luta!
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ALGUMAS
EXPERIÊNCIAS HISTÓRICAS DE
NOSSA CORRENTE
Desde o início do processo da Construção Anarquista
Brasileira, em janeiro de 1995, passando por sua concretização
no congresso de fundação da Organização
Socialista Libertária (Belo Horizonte, 2 a 6 de julho de 1997),
até o presente momento, tivemos poucas oportunidades de aprofundar
nosso conceito de corrente anarquista orgânica latino-americana
e o nosso campo político.
Devido a sobrecarga de tarefas, esses dois importantes temas pouco
foram abordados. Nesse texto, tentamos expor as referências
européias clássicas de nossa corrente desde a 1a Internacional
até a Revolução Espanhola e a 2a Guerra Mundial.
Acreditamos que na interna do Movimento Anarquista, nossos
princípios e métodos já estão bem difundidos.
Nos sete Estados onde hoje atua a OSL (RS, SP, RJ, BA, DF, MT e PA)
@s companheir@s próximos que conosco militam conhecem, através
de nossa prática política, aquilo que pensamos e fazemos.
Os exemplos já existem em bom número e seria redundância
repeti-los. Mas uma lacuna sobre nossa corrente talvez deixe margem
a equívocos como, por exemplo, a noção de que
a OSL está inovando o anarquismo com nossas ferramentas
organizativas. Ou, ainda, que por termos uma identidade brasileira
e latino-americana, não temos vínculos com o anarquismo
de outras partes do mundo. E é justamente o contrário.
Apenas estamos tentando colocar em prática o anarquismo histórico,
de classe e de luta, internacionalista, todo ele forjado na ação
direta popular. Para fundamentar isto, gostaríamos de apresentar
algumas experiências anteriores que para nós são
referências.
A primeira experiência relevante foi a Fraternidade, que atuou
nas décadas de 1860 e 1870. Esta organização
carbonária anarquista funcionava de modo semi-aberto dentro
da Aliança e, ambas, ao nível operário-popular,
dentro da ala federalista da 1a Internacional (AIT). Seu ativista
mais conhecido foi Miguel Bakunin. A partir desta mesma ala federalista
da AIT, houve uma série de experiências orgânicas
com práticas carbonárias do anarquismo italiano. Praticavam
um federalismo político e de inserção camponesa
e operária. Tinham como princípio que os partidários
da anarquia deveriam se organizar numa instância específica
e, simultaneamente, se inserir nas lutas e insurreições
populares. O ativista mais conhecido e difundido a partir destas lutas
foi Errico Malatesta.
No decorrer da Revolução Russa, os camponeses e operários
da Ucrânia estruturaram uma autogestão socioeconômica
em larga escala. Suas bases eram as comunas e as unidades produtivas,
não havendo moeda e, a economia, em pleno esforço de
guerra revolucionária, funcionava por troca direta. Para garantir
e avançar nas conquistas, montaram uma organização
específica de classe e anarquista, com características
político-militares chamada Exército Insurrecional dos
Camponeses da Ucrânia. Combateram e venceram brancos e bolcheviques.
Ao serem traídos pelo Exército Vermelho, seus militantes
mais reconhecidos foram capturados numa emboscada. Os sobreviventes
desta experiência, já no exílio, teorizaram sua
luta na chamada Plataforma da Organização. Seu ativista
mais conhecido foi Nestor Machnó.
Após ser fundada em 1911, fruto de um trabalho que começou
em 1870, a Confederação Nacional do Trabalho (CNT),
passou diversas vezes por períodos de clandestinidade total.
Em 1927, numa situação de repressão do anarquismo
espanhol e português, os grupos anarquistas da Península
Ibérica decidem por formar uma federação orgânica,
específica, para impulsionar a luta das massas naqueles países
expressada pelo anarco-sindicalismo. Formada por companheir@s forjad@s
na ação, a Federação Anarquista Ibérica
(FAI), em seu período revolucionário -até o fim
da 2a Guerra Mundial- foi a alma e o sangue da classe operária
espanhola. Este processo culminou com a Revolução Espanhola,
a maior revolução social em larga escala da história
da humanidade. Os ativistas mais conhecidos da FAI foram Francisco
Ascaso e Buenaventura Durruti.
Numa militância quase ininterrupta da virada do século
XIX até a 2a grande guerra, o anarquismo búlgaro se
defrontou com o Império Ottomano, uma repressão política
brutal e a necessidade de um trabalho de inserção que
aglutinasse elementos de classe (camponeses e pastores das montanhas
com uma incipiente classe operária urbana) com uma resistência
étnica-nacional contra uma potência invasora. No correr
desta luta foi criada a Federação Anarquista Búlgara,
que unificou os objetivos de conquista do socialismo libertário
com a libertação nacional. Seu ativista mais conhecido
foi Balkhansky.
Essas cinco experiências organizativas de nossa corrente e ideologia
nos servem de orientação até os dias de hoje.
Faltou falarmos de nossas experiências no Brasil e na América
Latina, que são nosso cenário de atuação.
Também ficamos devendo falar de nosso campo político,
que é o das esquerdas revolucionárias latino-americanas.
Infelizmente, o espaço e o tempo são escassos e as tarefas
inúmeras. Esperamos que esse pequeno texto possa sanar qualquer
dúvida ou equívoco a respeito das ferramentas organizativas
da OSL, e também oferecer alguma noção
sobre a trajetória do anarquismo internacional.
Lutar
para Organizar, Organizar para Lutar
Organização Socialista Libertária (OSL)
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O
EPISÓDIO DA RUA FREI CANECA: 70 ANOS
Pode-se dizer que tudo começou em meados de 1921, quando chegou
na redação do diário anarquista A Vanguarda,
em São Paulo, o delegado do governo soviético para a
América do Sul, Ramison Soubiroff. Veio oferecer a Edgard Leuenroth,
editor daquele jornal, plenos poderes para a organização
do partido bolchevique no Brasil. Após uma reunião amigável
no Palace Hotel, Edgard recusa o convite e indica para a incumbência
o já vacilante anarquista Astrogildo Pereira, que
morava no Rio de Janeiro, então Distrito Federal. Poucos dias
depois, Astrogildo chega a São Paulo e, encaminhado por seu
(até então) amigo Leuenroth, é recebido por Soubiroff
no mesmo hotel, onde aceitaria a tarefa de organizar o Partido Comunista.
Após as inúmeras greves da década de 10, que
culminaram com a grande greve de 1917 e a tentativa de insurreição
no Rio de Janeiro (1918), o movimento anarquista sofreu por parte
do governo Epitácio Pessoa uma feroz perseguição,
quando foram deportados entre 1919 e 1921 centenas de ativistas libertários
estrangeiros. Os sindicatos sofreram forte pressão por parte
da polícia, sendo que muitos foram fechados, e seus integrantes
presos. Apesar de toda a repressão, organizou-se no Rio no
final de abril de 1920, o 3° Congresso Operário Brasileiro,
na Rua do Acre, no 19, sede da União dos Operários em
Fábricas de Tecidos.
Em março de 1922, Astrogildo Pereira e mais 11 militantes,
fundam o Partido Comunista do Brasil (PCB). A reação
inicial da maioria dos anarquistas do Rio de Janeiro foi de cautela,
visto que a maioria dos fundadores do PC era oriunda do anarco-sindicalismo.
Alguns libertários, entretanto, reagiram enfurecidos à
traição, entre esses o sapateiro Galileu Sanchez, mais
conhecido como Pedro Bastos, que chamou os integrantes da Seção
Brasileira da III Internacional de ratazanas de capas vermelhas.
Talvez tenha sido a última coisa certa que ele disse na vida...
Não demorou muito para os ânimos entre os ativistas das
duas tendências se acirrassem. Os anarquistas eram bem mais
numerosos, hegemônicos em diversos sindicatos, sendo os principais
a União dos Operários em Construção Civil
(UOCC), a União Geral dos Trabalhadores em Hotéis, Restaurantes,
Cafés e Similares (os gastronômicos) e a
Alliança dos Operários em Calçados e Classes
Anexas (os sapateiros). Desde 1921, a imprensa libertária
vinha publicando notícias sobre as perseguições,
fuzilamentos e deportação dos anarquistas na União
Soviética, fazendo com que aquela ilusão inicial de
muitos libertários perante à Revolução
Russa fosse desmoronando. Já em 1923, os bolchevistas (como
os anarquistas os chamavam), controlavam duas ou três organizações
sindicais, sendo a principal a União dos Alfaiates. Já
praticavam, com aquela falta de ética que sempre lhes foi peculiar,
atos de provocação, calúnia e difamação
contra militantes anarquistas, chegando ao ponto de perpetrar emboscadas,
como as agressões sofridas por Marques da Costa e Izidoro Augusto,
em 1923. Os anarquistas, no entanto, estavam mais preocupados com
a forte repressão exercida pela polícia do Marechal
Carneiro da Fontoura (o Marechal Escuridão), que
constantemente prendia seus ativistas, invadia as sedes sindicais
e impedia suas manifestações. Mesmo assim, reorganizou-se
a Federação Operária do Rio de Janeiro (FORJ)
a partir do segundo semestre de 1923, que veio a reunir mais de uma
dezena de organizações de tendência anarco-sindicalista
até o ano seguinte.
Em março de 1924, foi fechada a sede da UOCC na Rua Barão
de São Félix, no 119. A sede, da UOCC, da FORJ, dos
gastronômicos, dos sapateiros e dos
tanoeiros foi, então, reunida na Praça da
República, no 42/3°andar. As prisões de ativistas
ácratas se sucedem e, nesse mesmo mês, o jornal anarquista
A Plebe, de São Paulo, é proibido de circular nas repartições
postais do Brasil. No dia 5 de julho, ocorre em São Paulo uma
sublevação militar liderada pelo General Isidoro Dias
Lopes, contra o governo ditatorial de Artur Bernardes. Diversos libertários
paulistas assinaram uma moção de apoio a sublevação
e solicitaram armas para a formação de um batalhão
ácrata, que evidentemente foram recusadas. A derrota da sublevação
é a deixa para o governo Bernardes desencadear
uma feroz perseguição aos anarquistas, especialmente
aqueles que haviam assinado a moção. As sedes das organizações
libertárias do Rio e São Paulo foram saqueadas e fechadas
pela polícia e, centenas de ativistas foram encarcerados nos
presídios estaduais ou deportados para as ilhas Rasa, das Flores
e do Bom Jesus, ou para a distante Colônia Agrícola
da Clevelândia, na fronteira com a Guiana Francesa, onde morreram
vários companheiros.
Enquanto isso, os valorosos bolchevistas se faziam de
mortos, aproveitando o desmantelamento do movimento libertário
para captar novos integrantes e fazer crescer sua influência
nos sindicatos. Cresceu também a influência dos sindicatos
colaboracionistas (amarelos), que viriam a ser tornar
a base de todo o sindicalismo oficial de Getúlio Vargas, na
década de 30.
Com o fim do governo Bernardes e do Estado de Sítio no início
de 1927, grande parte dos militantes libertários foram soltos
e retornaram a luta nos sindicatos e na campanha pró-Sacco
e Vanzetti. O movimento renasce e, evidentemente, voltam a se acirrar
as relações com os bolchevistas. Em agosto desse ano,
outro duro golpe para os anarquistas foi a prisão e o desaparecimento
em São Paulo do grande militante Domingos Passos, conhecido
como o Bakunin brasileiro.
Em 1928, os militantes bolchevistas no país eram cerca de 1.250
segundo Leôncio Basbaum, o que discorda Edgar Rodrigues, que
aponta para um número bem inferior em seu livro Novos Rumos.
Haviam candidatado-se a vereadores pelo Bloco Operário e Camponês
os dirigentes bolchevistas Octávio Brandão e Minervino
de Oliveira e, no ano anterior, o PCB apoiou a eleição
para deputado federal do Dr. Azevedo Lima. A luta pelo controle dos
sindicatos era intensa entre os anarquistas, bolchevistas e amarelos.
Os bolchevistas, ainda mais intensamente, promoviam atos de provocação
durante as reuniões dos sindicatos por eles não controlados
produzindo, quando as deliberações não eram encaminhadas
segundo os seus desígnios, tumultos através dos famigerados
rapazes da Tcheka. Os libertários, mesmo nas categorias
onde eram minoritários, estavam lá para se fazer ouvir
e acusar as práticas ditatoriais e aéticas dos estalinistas.
Em conferência eleitoreira de Azevedo Lima na sede dos marinheiros
remadores, na Praça Harmonia, José Oiticica e
outros libertários lá estavam para desmascarar os bolchevistas,
sendo violentamente ameaçados pela claque de capas vermelhas.
Ficou marcada outra conferência para a sede dos tecelões,
na Rua do Acre, no 19, onde a polêmica anarquistas-bolchevistas
prosseguiu mais pesada, quando os candidatos do PC defenderam suas
candidaturas e racionalizaram sobre os crimes de Stalin.
Como não conseguiram um resultado satisfatório, acusaram
de agente policial o então presidente da União dos Operários
em Fábricas de Tecidos, Joaquim Pereira de Oliveira, que tinha
derrotado a chapa bolchevista nas eleições sindicais.
Azevedo Lima afirmou poder provar a acusação e desafiou
o acusado e demais contendores para um novo debate na sede dos gráficos
e marceneiros, na Rua Frei Caneca, no 4 (hoje o prédio
da Gafieira Elite), no dia 14 de fevereiro. Segundo depoimentos de
velhos companheiros presentes a reunião (vide Edgar Rodrigues
in Novos Rumos, p.296), essa reunião (...) foi uma descarada
chantagem armada para provocar a desordem, que daria motivo ao assassinato
dos anarquistas José Oiticica, João Perez, Albino de
Barros, Joaquim Pereira de Oliveira, Antonino Dominguez e outros marcados
para morrer. Após Azevedo Lima ter feitos todas as acusações
a Pereira de Oliveira este, ao tentar se defender, foi impedido por
uma claque comandada por Roberto Morena e Octávio Brandão.
Feito o tumulto, entram no recinto Eusébio Manjon e Galileu
Sanchez (o mesmo Pedro Bastos das ratazanas de capas vermelhas)
e descarregam os revólveres sobre a assistência, buscando
atingir os anarquistas já relacionados. Foram atingidos mortalmente
o sapateiro anarquista e grande militante social Antonino Dominguez
e, devido a falta de mira dos assassinos, o gráfico bolchevista
Damião José da Silva. Foram feridos diversos outros
operários que, se esvaindo em sangue, tiveram que fugir para
não morrerem nas celas da polícia carioca.
Em plena segunda-feira de Carnaval, um longo cortejo fúnebre
saiu da Praça da República em direção
ao cemitério São Francisco Xavier, onde foi enterrado
por seus familiares, amigos e companheiros o operário Antonino
Dominguez, assassinado pelas ratazanas vermelhas.
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Quem
foi Antonino Dominguez
Operário sapateiro de origem espanhola da Galícia, chegou
ao Brasil no início do século. Começou sua militância
na União dos Artífices em Calçados, de São
Paulo, tendo também atuado em Belém do Pará.
Pedro Catalo, outro importante militante sapateiro, registrou suas
impressões sobre Antonino Dominguez depois de assistir uma
reunião da UAC em 1921: Antonino Dominguez era um homem
inteligente, de um físico fino e delicado, que jamais faria
supor tratar-se de um sapateiro. A sua palavra, com acento galego,
clara, pausada e compreensível, era robustecida por um profundo
conhecimento da questão social. Era o que se pode dizer um
militante libertário completo.
Perseguido pela polícia paulistana e sem trabalho, refugiou-se
em Guaratinguetá no início de 1923. No evento do 1°
de maio, não resistiu e discursou no palanque, pretexto para
sua prisão pela polícia do então governador paulista
Washington Luiz, o Patadas Cavalares. Trazido para o Rio
de Janeiro e ameaçado de deportação, recebe a
solidariedade ativa de todo o proletariado carioca e paulista, sendo
solto alguns dias depois. Em 1924, assina a moção de
apoio a sublevação contra a ditadura Bernardes e, juntamente
com outros companheiros, é perseguido. Antonino era talvez
o melhor amigo de João Perez, também operário
sapateiro, pai do nosso saudoso companheiro Ideal Peres.
Impedido de continuar em São Paulo, vem para o Rio de Janeiro,
ingressando na Alliança dos Operários em Calçados
e Classes Annexas, onde tomou a frente do confronto com os bolchevistas
que ameaçavam a sua entidade. Em seu leito de morte, sendo
entrevistado por um repórter, declarou que pouco tempo antes
havia repelido um ataque à sede dos sapateiros
por um grupo de bolchevistas liderados por Pedro Bastos e, este, teria
prometido vingar-se. Naquela domingo de carnaval, 14 de fevereiro
de 1928, Pedro Bastos covardemente cumpriu sua promessa. Dominguez,
assim como muitos outros companheiros libertários, não
se intimidou um só instante com as ameaças e violências
das ratazanas vermelhas, e morreu lutando para evitar
que os sindicatos operários se tornassem filiais do PC, manobrados
por sua corja de lacaios de Stalin.
Companheiro Dominguez, seus netos na luta não se
esquecerão jamais de você.
Renato Ramos (Rio de Janeiro/RJ)
Nota:
Esta matéria foi realizada utilizando-se como fontes os livros
de Edgar Rodrigues: Novos Rumos (Editora Mundo Livre, Rio de janeiro,
s/ data); Nacionalismo & Cultura Social (Editora Laemmert, Rio
de Janeiro, 1972) e Companheiros Vol. 1 (Editora VJR, Rio de Janeiro,
1994), assim como a Secção Trabalhista do jornal A Pátria
(Rio de Janeiro, 1923 e 1924).
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LAMENTÁVEL
EQUÍVOCO
No Libera... no 38 (julho de 94) o Coletivo Editorial adaptou um artigo
do companheiro Edgar Rodrigues (Sem Fronteiras). O dito
artigo gerou uma polêmica, ampliada, em parte, pela mal sucedida
adaptação feita pelo Coletivo na oportunidade. Naquela
altura, publicou-se no Libera... no 39 (agosto de 94) outro texto
de resposta, de autoria do companheiro Moésio, de Cubatão,
que por seu conteúdo contundente, provocou a reação
do primeiro articulista. Na intenção de apaziguar os
ânimos o Coletivo, na época, julgou melhor não
publicar o texto de resposta do companheiro Edgar.
Hoje, talvez um pouco tardiamente, este coletivo com membros em grande
parte não participantes do acontecimento, publica este pequeno
histórico dos acontecimentos e aproveita para se escusar aos
prejudicados pelo duplo equívoco: a adaptação
infeliz e a não publicação da resposta do companheiro
Edgar.
Aos leitores do Libera... e aos demais pedimos que creditem esse mal
passo à inexperiência e ao aprendizado necessário
ditado pelo cotidiano.
Encaramos o pedido de desculpas como um componente importante à
identidade de um grupo que se pretende libertário, mas é
importante aprender com o mesmo acumulando aprendizado e não
interpretar o erro como precedente aberto a repetição.
Coletivo
Editorial do CELIP
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