Libera Nº 84

“Falta título ”

Há exatos 30 anos, o mundo ocidental foi atingido por uma grande vaga político-cultural, inserida em uma conjuntura que, guardadas as proporções, foi bastante revolucionária.

As passeatas dos estudantes, também aqui, pressionaram e precipitaram os acontecimentos, tornando-se o presságio de um enrijecimento ainda maior do regime autocrático dos militares.

Enquanto no velho continente frases ornamentavam os cinzentos muros de Paris com a promessa de utopias libertárias (Imaginação no Poder ou Sejamos realistas... Exijamos o impossível), no Brasil, a questão não era varrer da política uma permanência gaullista do aparato político do Estado de Direito, ou mesmo uma crítica profunda a esquerda tradicional, mas, pelo contrário, a realidade tupiniquim apresentava-se dramaticamente como a necessidade de salvação do Estado de Direito, ameaçado pelo regime de exceção.

Os estudantes brasileiros, ao contrário de seus “pares” franceses, não participavam, através dos conflitos de rua de um simples ritual de passagem, ou ainda, em uma perspectiva freudiana, do parricídio tão necessário aos jovens. A questão nos trópicos sempre foi muito diferente em seus resultados e a rebeldia, distintamente de como aconteceu na França, custou muito mais caro aos nossos jovens militantes de esquerda, tanto que este período de crise convencionou-se chamar “Anos de Chumbo”.
Será que agora, passadas as três décadas podemos, com maior clareza pontuar nossas avaliações sobre o maio de 68 em Paris e o ano de 1968 no Brasil, com seu desfecho fatídico no AI-5 ?

Naquela época os paradigmas ideológicos eram bem definidos, até com um certo sectarismo, mas sabia-se o campo de disputa de cada contendor e as cores de suas idéias. E é nesse contexto que encontramos FHC, o jovem e promissor membro da nossa intelligentsia, em Nanterre, no Quartier Latin, dialogando e sendo reconhecido, segundo Zuenir Ventura, por Daniel Cohn-Bendit, o anarquista símbolo da radicalidade estudantil, como interlocutor legítimo e porta voz das mazelas terceiromundistas.

O FHC político de hoje nos parece uma miragem distante do sociólogo marxista dos anos 60 mas, mesmo em uma lógica evolucionista, podemos aceitar que este tenha mudado de opinião e “amadurecido” com o tempo. Mas ao despojar-se hoje de sua crisálida acadêmica o “nosso” presidente parece inebriado com a pós-modernidade das afirmações do fim da história e, mesmo, do relativismo selvagem dos conceitos. Ao proferir anátemas contra a esquerda, diminuindo o conteúdo intelectual de quem a ela se filia, FHC fere de morte o seu passado acadêmico, mas mesmo assim, insiste em utilizar-se deste para garantir sua imagem de político ilustrado. O presidente procura utilizar o prestígio do que foi, para que os outros aceitem incondicionalmente o que se tornou. A esquizofrenia do político seria apenas uma patologia se ela não se traduzisse em uma prática sistemática de governo. A cortina de fumaça criada pelo marketing político do PSDB e a simbiose entre pragmatismo e noções particulares do intelectual FHC do que é esquerda, produz uma miopia crônica e proposital nas definições ideológicas. FHC tenta conferir ao seu discurso neo-liberal uma dignidade de esquerda; intento impossível em tese, mas viável em um panorama de caos conceitual. A proposta caleidoscópica da autoproclamada “nova esquerda” do PSDB tem aí sua face perversa, qual seja, a de atirar tudo o que possa na lata de lixo da história.

A modernidade tucana cheira a essência produzida pelas destilarias pós-modernas do pessimismo e das distopias burguesas. Talvez no Brasil nunca se tenha presenciado o que Roland Barthes fala sobre a linguagem com tanta veracidade: “Mas a língua, como desempenho de toda linguagem, não é nem reacionária, nem progressista; ela é simplesmente: fascista; pois o fascismo não é impedir de dizer, é obrigar a dizer.” Quando o sociólogo, na pele do político, refere-se a oposição como “as vozes das cavernas” em clara alusão a alegoria platônica, ele não apenas identifica seus opositores com os habitantes da escuridão, mas os condena ao obscurantismo. Só vale para o governo o discurso monocórdio da unanimidade e, como diria o lingüista Noam Chomsky, a privatização da democracia, a apropriação do discurso político pelo grupo de iluminados donos da razão histórica e tradutores únicos dos signos da nova era de síntese neo-liberal.

E é nesse contexto que a reflexão sobre 68 é pertinente e oportuna. O ano emblemático e polêmico nos legou algumas novas e reforçou antigas perspectivas e, entre muitas, a de que ser libertário e crítico do poder estatal não é defender o Estado mínimo e ser liberal. Foi um movimento que nos alertou, dando consistência às nossas críticas, para os perigos das ditaduras dos Estados Totalitários e, também, das tessituras dos ideólogos de movimentos como o da Escola de Chicago e seu expoente Milton Friedman, ou mesmo, de Karl Popper, Friedrich von Hayek, entre outros. Os estudos dos paradigmas de 68 e a lembrança dos objetivos dos manifestantes no Brasil e em Paris, em que pese as suas singularidades, servem hoje para muito mais que relembrar uma idade mítica dos movimentos de esquerda, mas são importantes para definir posições e desmascarar a farsa.

|topo|

IRMÃOS GÊMEOS - IRMÃOS INIMIGOS

A atualidade do anarquismo pode ser medida um pouco por toda a parte do mundo editorial. Na Europa, nos EUA e na América do Sul, em toda parte, apareceram nos últimos tempos antologias de textos sobre o anarquismo e monografias dos grandes pensadores libertários. Por que este renascimento? Porque se procura reparar uma injustiça. Um pensamento tão fecundo e original não poderia cair no esquecimento e quer-se exatamente que ele saia de lá. Além do mais, se tornou notório que o anarquismo, enquanto doutrina de reconstrução social, está sempre vivo. Certamente, ele hoje não conta com porta-vozes no mundo como já contou outrora. Mas as melhores de suas idéias viveram mais e sobreviveram melhor que os seus partidários.
De um modo geral, o anarquismo continua atual em dois planos: Em primeiro lugar, um século decorreu, e o anarquismo apercebeu-se e denunciou de modo profético os riscos e os desvios autoritários do marxismo ditatorial, fundado num Estado todo poderoso, dirigido por uma minoria que pretende monopolizar a ciência do devir histórico.

Seguidamente a esta falsificação do marxismo, contra a qual ele já tinha prevenido de antemão, opondo àquela concepção uma outra que chamarei libertária, repousando sobre noções inversas, construída de baixo para cima e não de cima para baixo, fazendo apelo à iniciativa criadora das massas e indivíduos e à participação espontânea de largas camadas de população explorada. Hoje, graves inconvenientes do primeiro tipo de socialismo são evidentes até nos países que o haviam erigido em dogma. No plano da produção apercebemo-nos de que é mediocremente rentável e, para corrigir os excessos, alinham-se, sem o saber e sem o proclamar, pela escola de Proudhon.

O anarquismo é inseparável do marxismo. Opô-los um ao outro é colocar um falso problema. É a disputa entre família. Vejo aí dois irmãos, numa disputa sem sentido, que faz deles irmãos inimigos. Eles formulam duas variantes, extremamente aparentadas de um só e mesmo socialismo.

A sua origem é aliás comum. Os ideólogos que os tornaram possíveis tiveram a mesma água para beber; em primeiro lugar a grande revolução francesa e em seguida o esforço iniciado pelos trabalhadores do século XIX na França a partir de 1840, em vista de se emanciparem de todos os jugos que os dominavam.

A sua estratégia a longo prazo, a sua finalidade última é, afinal de contas, idêntica. Propõem-se ambos destruir o capitalismo e abolir o Estado, acabar com todos os tutores e confiar as riquezas aos próprios trabalhadores. Apenas estão em desacordo quanto a alguns meios de como chegar lá. Ainda sim, não com todos eles. Há zonas de pensamento libertário em toda obra de Marx, como na de Lenin, e Bakunin, tradutor de O Capital para o russo, deve muito a Marx.

O seu desacordo de a um século estava sobretudo no ritmo do desaparecimento do estado no seguimento de uma revolução, sobre o papel das minorias (conscientes e dirigentes) e, também, sobre a utilização dos meios da democracia burguesa (sufrágio universal). Só aí se colocaram um certo número de mal-entendidos, de preconceitos e de palavras.

Mas o fosso entre anarquismo e marxismo só se tornou intransponível no início deste século, isto é, quando a revolução russa, libertária e soviética em 1917, se deu pouco a pouco lugar a uma formidável máquina estatal, ditatorial e policial. O anarquismo, a idéia anarquista, foi liquidada na Rússia, como de resto foram liquidados os próprios sovietes.

Foi depois desta altura que as pontes foram cortadas entre os dois irmãos. E eu creio que a tarefa dos nossos dias para os verdadeiros socialistas é tornar a reestabelecê-las. O socialismo, um pouco desacreditado nos nossos dias, poderia ainda ser regenerado se houvesse êxito e injetar um pouco de “soro” do anarquismo nos marxismos de hoje.

Em que é que o anarquismo pode oferecer elementos utilizáveis ao esforço para construção da futura sociedade socialista?
Primeiramente o anarquismo, após Proudhon, é o advogado por excelência da associação operária, que nós chamamos hoje autogestão. Os libertários não querem a gestão econômica pelo capitalismo, mas rejeitam também a gestão econômica pelo Estado, porque a revolução proletária será aos seus olhos esvaziada de todo seu conteúdo se trabalhadores caírem sob uma nova forma de dominação: a dos burocratas.

A autogestão é a democracia na fábrica. O trabalhador desdobra-se: ele é simultaneamente produtor confinado na sua especia-lidade e co-gestionário da empresa. Ele deixa de ser alienado e escapa ao salário e recebe a quota-parte dos frutos da empresa. Mas o que acabamos de dizer não é instaurar uma espécie de patronato coletivo impregnado de uma mentalidade egoísta e será necessário que, apesar de independentes, todas as empresas sejam solidárias. O seu objetivo deve ser o interesse geral e portanto teriam que enquadrar-se num plano de conjunto. Esta planificação não seria burocrática, como no comunismo de Estado, mas animada de baixo para cima e regulada em comum pelos diversos delegados das unidades de produção.

Um outro elemento construtivo do anarquismo é o federalismo. A idéia de federação não nasceu no cérebro de um teórico e Proudhon não fez mais do que tirá-la da experiência da revolução francesa, onde tinha germinado espontaneamente. Com efeito, no vazio criado pelo aprofundamento do antigo regime absolutista, as municipalidades tentaram federar-se e reconstituir pela base a unidade nacional. O federalismo proudhoniano é a unidade sem coação, isto é, um pacto livre e livremente consentido entre os diversos grupos de base quer no plano econômico, quer no plano administrativo. Esta federação, como uma pirâmide, que se enlaça localmente, regional e nacionalmente e, também, de um modo internacional, associa entre elas, simultaneamente, empresas e comunas autônomas.

Não nos lembramos nunca que as idéias de Lenin sobre a questão nacional, a livre determinação e direito de separação são idéias do anarquismo. A própria república dos sovietes foi, na sua origem, uma república federativa.

Um terceiro elemento que o anarquismo mais tarde juntou aos dois primeiros o edifício é o sindicalismo revolucionário. Para assegurar a solidariedade das empresas autogeridas e, ao mesmo tempo, para animar as comunas, unidades primárias de administração, é necessário um organismo que imane diretamente da classe operária e que englobe conjugando-as, as suas diversas atividades e ele próprio estruturado de um modo federativo. Tal papel é o dos sindicatos - na sociedade capitalista simples órgão de reivindicação e contestação - e na sociedade socialista, para além da sua função de defesa dos trabalhadores, ou de coordenação, de estruturação, estimulação e educação, funções para as quais se deveriam preparar desde já. Graças a um poderoso sindicalismo operário, na condição de primeiro ter sido desburocratizado, a indispensável unidade do conjunto poderia ser assegurada sem ter a necessidade de recorrer a coação estatal. Na Catalunha de 1936, o município, isto é, a comuna e a união local dos sindicatos uniriam-se de uma forma total.

Isto é, apenas a hipótese de abastardamento e burocratização dos sindicatos se deveria recorrer a um organismo inteiramente novo e, portanto, fazer tábua rasa dos sindicatos. Tal organismo poderia ser uma federação de conselhos operários, nascidas dos comitês de greve e onde fossem agrupados sindicalizados e não sindicalizados.

O anarquismo foi durante muito tempo uma doutrina sem possibilidade de aplicação. Depois, no decurso do presente século, teve a prova de uma prática revolucionária: sobretudo na revolução russa e na revolução espanhola.

Assim, por exemplo, o inesquecível episódio dos camponeses libertários no sul da Ucrânia sob o impulso de Nestor Makhnó, praticando a guerrilha revolucionária para derrotar, melhor do que o Exército Vermelho, os exércitos brancos intervencionistas de Denikin e Wrangel, criando sovietes livres numa época em que os sovietes já eram domesticados pelo Estado Bolchevique, entretanto em conflito com os comissários do povo instalados no campo pelo governo central, e depois finalmente esmagados por um Exército Vermelho ao serviço de um estado cada vez mais ditatorial.

Um outro episódio me parece particularmente esclarecedor, aquele da revolta dos marinheiros de Kronstadt, em março de 1921. Estes insurretos eram revolucionários autênticos e tinham estado em 1917 na primeira linha de combate pela revolução comunista. Eles estavam muito ligados com a classe operária, com as fábricas de Petrogrado, então o maior centro da indústria russa.
Ousaram entrar em contestação com o poder bolchevique e reprovaram ao Partido Comunista ter-se desligado das massas, ter perdido a confiança dos operários e estar a tornar-se burocrata. Denunciaram a domesticação dos sovietes e a estatização dos sindicatos. Denunciaram a máquina policial que exercia seu poder sobre o povo ditando sua lei seja pelos fuzilamentos, seja pela prática do terror. Protestaram contra um duro capitalismo de Estado onde os operários não eram mais do que simples assalariados do Estado explorados como antigamente.

A Revolução Espanhola mostrou, apesar das circunstâncias trágicas de uma guerra civil, agravadas bem depressa por uma intervenção estrangeira, o assinalável êxito da autogestão quer no campo quer na cidade e também a busca, realizada pelos libertadores, de uma conciliação entre os princípios anarquistas e as necessidades da guerra revolucionária: através de uma disciplina militar sem hierarquias nem graus, livremente consentida, praticada, concebida e simbolizada por um grande soldado anarquista: Durruti.

O anarquismo, antes de tudo, valoriza o indivíduo. É partindo do indivíduo livre que ele se propõe edificar uma sociedade livre. Aqui reaparece o princípio federalista. O indivíduo é livre de se associar ou não; esta sempre a tempo de deixar a associação. Um tal pacto é aos olhos dos anarquistas mais sólido e fecundo que o pretenso contrato social de Rousseau, onde os libertários não vêem mais do que impostura e coação societária.

O indivíduo não é um meio mas o próprio fim da sociedade e, por isso, o anarquista entende ajudar o indivíduo a libertar-se plenamente, a cultivar e a desenvolver todas as suas forças criadoras. A sociedade lucra tanto como o indivíduo, porque ela é formada, não por seres passivos, mas por uma adição de forças livres e, portanto, um conglomerado de energias individuais.
Deste postulado da liberdade decorre todo o humanismo anarquista, a sua rejeição tanto da autoridade religiosa como do puritanismo dos costumes. Neste domínio último, o da liberdade sexual, os anarquistas muito antes de Freud, dos racionalistas à Renê Guyon, dos existencialistas e dos situacionistas, fizeram figura de pioneiros.

Daniel Guérin

Nota: Texto escrito ainda durante a existência da União Soviética, sendo seu autor um dissidentes do comunismo, que viu no anarquismo um novo caminho a ser percorrido.

|topo|


PRINCÍPIOS GERAIS DO
ANARQUISMO

Cremos que a maior parte dos males que afligem a Humanidade é devida à má organização social; e que os homens, por sua vontade e saber, podem fazê-los desaparecer.

A atual sociedade é o resultado das lutas seculares que os homens travaram entre si. Os homens desconheciam as vantagens que podiam resultar para todos, orientando-se pelas normas da cooperação e da solidariedade. Consideravam cada um de seus semelhantes (excetuados, quando muito, os membros de sua família), um concorrente ou inimigo. E procuravam monopolizar, cada qual para si, a maior quantidade possível de gozos, sem pensar nos interesses dos outros.

Naturalmente, nessa luta, os mais fortes e os mais espertos deveriam vencer, e de diversas maneiras, explorar e oprimir os vencidos.

Enquanto o homem não foi capaz de extrair da natureza senão o estritamente necessário à sua manutenção, os vencedores limitaram-se a pôr em fuga e a massacrar os vencidos para se apoderarem dos produtos silvestres, da caça, da pesca num dado território.

Em seguida, quando, com a criação do gado e com o aparecimento da agricultura, o homem soube produzir mais do que precisava para viver, os vencedores acharam mais cômodo reduzir os vencidos à escravidão e fazê-los trabalhar para eles.
Muito tempo após, tornou-se mais vantajoso, mais eficaz e mais seguro explorar o trabalho alheio, por outro sistema: conservar para si a propriedade exclusiva da terra e de todos os instrumentos de trabalho, e conceder liberdade aparente aos deserdados. Logo, estes não tendo meios para viver, eram forçados a recorrer aos proprietários e a trabalhar para eles nas condições que os patrões lhes impunham.

Assim, pouco a pouco, a Humanidade tem evoluído através de uma rede complicada de lutas de toda espécie - invasões, guerras, rebeliões, repressões, concessões feitas e retomadas, associações dos vencidos unindo-se para a defesa e dos vencedores coligados para a ofensiva. O trabalho, porém, não conseguiu ainda a sua emancipação. No atual estado da sociedade, alguns grupos de homens monopolizam arbitrariamente a terra e todas as riquezas sociais, enquanto que a grande massa do povo, privada de tudo, é espezinhada e oprimida.

Conhecemos o estado de miséria em que se acham geralmente os trabalhadores, e conhecemos todos os males derivados dessa miséria: ignorância, crimes, prostituição, fraqueza física, abjeção moral e morte prematura.

Constatamos a existência de uma casta especial - o governo - que se acha de posse dos meios materiais de repressão e que se arroga a missão de legalizar e defender os privilégios dos proprietários, contra as reivindicações dos proletários, pela prisão; e do governo contra a pretensão de outros governos, pela guerra. Detentor da força social, esse elemento utiliza-a em proveito próprio, criando privilégios permanentes e submetendo à sua supremacia até mesmo as classes proprietárias.

Enquanto isso, outra categoria especial - o clero - por meio de uma pregação mística sobre a vontade de Deus, a vida futura, etc., consegue reduzir os oprimidos à condição de suportar docilmente a opressão. Esse clero, assim como o governo, além dos interesses dos proprietários, prossegue na defesa dos privilégios.

Ao jugo espiritual do clero ajusta-se o de uma “cultura” oficial que é em tudo quanto possa servir aos interesses dos dominadores, a negação da ciência e da verdadeira cultura. Tudo isso fomenta o nacionalismo jacobino, os ódios de raças, as guerras - e as pazes armadas, por vezes mais desastrosas ainda que as próprias guerras. Tudo isso transforma o amor em tormento ou em mercado vergonhoso. E, no fim das contas, reinarão o ódio mais ou menos disfarçado, a rivalidade, a suspeita entre todos os homens, a incerteza e o medo de cada um em face de todos.

Os anarquistas querem mudar radicalmente este estado de coisas. E, pois que todos os males derivam da luta entre os homens, e da procura do bem estar particular pela cooperação fraternal para o bem de todos; a opressão e o constrangimento pela liberdade; a mentira religiosa e pseudo-científica pela verdade.

Em resumo, querem os anarquistas:

10 - Abolição da propriedade (capitalista ou estatal) da terra, das matérias primas e dos instrumentos de trabalho, para que ninguém tenha meios de explorar o trabalho dos outros e para que todos, assegurados os meios de produzir e de viver, sejam verdadeiramente independentes e possam associar-se livremente uns com os outros, no interesse comum e de conformidade com as afinidades e simpatias pessoais.

20 - Abolição do estado e de qualquer poder que faça leis para impô-las aos outros; portanto, abolição de todos os órgãos governamentais e todos os elementos que lhe são próprios, bem como toda e qualquer instituição dotada de meios de constranger e de punir.

30 - Organização da vida social por iniciativa das associações livres e das livres federações de produtores e de consumidores, criadas e modificadas conforme a vontade de seus componentes guiados pela ciência e pela experiência e libertos de toda obrigação que não se origine da necessidade natural, a qual todos de bom grado se submeterão quando lhe reconheçam o caráter inelutável.

40 - A todos serão garantidos os meios de vida, de desenvolvimento, de bem estar, particularmente as crianças e a todos os que sejam incapazes de prover a própria subsistência.

50 - Guerra a todos os preconceitos religiosos e a todas as mentiras, mesmo que se ocultem sob o manto da ciência. Instrução completa para todos até aos graus mais elevados.

60 - Guerra as rivalidades e aos prejuízos patrióticos. Abolição das fronteiras, confraternização de todos os povos.

70 - Libertação da família de todas peias, de tal modo que ela resulte da prática do amor, livre de toda influência estatal ou religiosa e da opressão econômica ou física.

Errico Malatesta

|topo|