Libera Nº 85

A SEMENTE E A ESTRELA
(adeus a Jaime Cubero)

No último dia 20 de maio, às 6h, depois de longa e insidiosa doença, falecia na UTI do Hospital Voluntários de São Paulo, o companheiro Jaime Cubero. Contava com 71 anos completados em 5 de abril último; não deixou filhos nem posses, mas uma farta herança política, intelectual e ética para seus muitos herdeiros espalhados pelo Brasil.

Nascido em Jundiaí de uma família de pobres imigrantes operários, e ele mesmo sapateiro por muitos anos, até ser conduzido ao jornalismo por Edgard Leuenroth, teve desde cedo uma aguda, concreta e por vezes dolorosa experiência da questão social. Assumi-damente anarquista des-de os 13 anos de idade, dotado de uma inteligência rara e de bons dotes oratórios, persuasivo, solidário e possuidor de uma rara e fina ironia que era o seu granun salis, Jaime, juntamente com seu irmão Francisco, foi um dos grandes responsáveis pela manutenção e ampliação das atividades libertárias em São Paulo, por quase cinco décadas.

É muito difícil para mim – que o conheci recém-saído da adolescência em 1972 – traçar um quadro objetivo de suas atividades e de seus pensamentos, meu envolvimento pessoal com ele foi muito grande para tanto. Jaime, como tantos anarquistas desde Bakunin, cativava mais pelo gesto, pelo ato e pelo exemplo, do que convencia pela argumentação. Para ser totalmente honesto, um quadro de sua personalidade deveria estar recheado de detalhes concretos de episódios biográficos, e não de encômios descritivos, pois para ele – como para os antigos gregos os Mistérios de Elêusis – o Anarquismo tinha que ser primordialmente vivido e não explicado. Como nos mistérios, o discurso era importante, mas sem a prática poderia degenerar-se em um galimatias, ou em mero protocolo de boas intenções, servindo mais a uma conspiração de belas-almas, que a uma Revolução Social efetiva.
Não quero com isso dizer que seu discurso fosse trôpego ou mal costurado, ao contrário, era um dos melhores oradores que já conheci, hábil tanto nas conferências que preparava formalmente e com esmero, quanto nas situações mais polêmicas em entrevistas (que são muitíssimas), debates e mesas-redondas ou na veemência militante dos discursos em manifestações, intervenções em assembléias e congressos, discussões com autoridades ou antagonistas, etc. Embora o discurso fosse forte, o que cativava era a sua atitude, era o detalhe de seu cotidiano, aparentemente banal, mas conscientemente construído sobre os axiomas libertários, que para ele eram os sólidos fundamentos de seus imperativos éticos.

Lembro-me que, de início, não compreendi corretamente esta vinculação de ética, cotidiano e política. Em meio à ditadura de Médici, circundado pela patriotada oportunista e de mau-caráter dos militares e seus áulicos de um lado, e pelos delírios da esquerda autoritária com seu jargão falido, por outro, não estava habituado a pensar a conexão do agir político com a ética, confundindo muitas vezes tal conceito com as moralidades de ocasião com que nos brindam aos borbotões as ideologias de todos os matizes. Foi duro aprender a lição mas esta foi uma das coisas mais importantes que aprendi na vida: que o socialismo é indissociável de uma ética social, que a própria ética, ao invés de um código arbitrário, um devaneio de poeta ou uma simples máscara ideológica é, ao contrário, como queriam bem antes de Lukaks um Proudhon e um Kropotkin, uma ontologia do ser social. Aprendi que, portanto, não existem fatalismos ou determinismos na História, e que a luta pelo socialismo pouco tem a ver com uma obra de engenharia social capitaneada por tecnocratas revolucionários de qualquer matiz.

Este aspecto da ética permeava toda a atividade do Jaime, e neste ponto refletia a influência de um de seus grandes mestres, o pensador libertário Mário Ferreira dos Santos. O Anarquismo como luta concreta pela justiça social, a inseparabilidade dos ideais e das atitudes na vida, esta vivência do Anarquismo, são a segunda lição importante que ele nos deixou. Não era um asceta, mas totalmente desapegado dos bens materiais, pois a acumulação não se coaduna bem com a abolição da propriedade; deste modo, salvo as quantias que reservava para a sua modesta manutenção e da sua companheira, seus “luxos” de livros e alguns jantares com amigos, e um pequeno pecúlio para a velhice, ele investiu tudo o que possuía nas atividades do movimento, como um dia uma sua biografia irá demonstrar.

Durante os tempos duros da década de 70, a sua sapataria servia de ponto de encontro para os militantes paulistas, brasileiros e, até mesmo, internacionais. Grande parte do ressurgir do interesse pelas idéias libertárias, a partir de 1975, deveu-se a este seu desprendimento, que era também o de sua família próxima (sua companheira, seu irmão Francisco e sua cunhada). Não conheço muitos exemplos entre os “heróis da resistência” tupiniquins de tal coragem simples, modesta, mas tremendamente efetiva. Não conheço muitas pessoas que naqueles tempos soturnos arriscassem com tanta simplicidade seu ganha-pão e o bem-estar de seus familiares em prol de um ideal político. Tal coragem manifestava-se sem os ouropéis da empáfia, sem buscar fama ou reconhecimento – fazia-se o que deveria ser feito e ponto final: simples, modesta, monolítica é tal grandeza anônima de anarquistas, que jamais se tornarão nomes de ruas ou terão estátuas em praça pública, que me fez persistir no movimento, que me fez acreditar que a anarquia é possível e viável, desde que as pessoas realmente se empenhem para construí-la.

Que me seja permitido citar um pequeno episódio ocorrido durante a “Revolução dos Cravos”, em 1974: os companheiros portugueses necessitavam desesperadamente de literatura anarquista, dado o seu vertiginoso crescimento. Nós, por outro lado, possuíamos muito material remanescente do Centro de Cultura Social (CCS) que lhes poderia ser útil (brochuras em português de Faure, Malatesta, etc.), mas o problema era a férrea censura dos Correios. Jaime conseguiu a informação de que algumas agências possuíam autonomia para “fechar” pacotes, isto é, poderiam elas mesmas verificar e selar a correspondência que desta forma não seria aberta pela Censura no Correio Central, e então desenvolveu o seguinte estratagema: ele tinha muita amizade com a chefe de uma destas agências; enchia caixas de sapato vazias com os panfletos, recobria-os com material comum (revistas, panfletos religiosos, etc.) e despachava-os como sendo “intercâmbio cultural” para um endereço relativamente discreto no Porto. As caixas de sapato, seladas na agência nunca despertaram suspeitas e todo o material chegou seguramente às mãos dos companheiros portugueses...

Um último aspecto que gostaria de ressaltar de sua personalidade é mais difícil de definir; alguns denominavam tolerância, outros, como o companheiro Evaldo em seu velório, humanidade, eu prefiro simplesmente chamar de amplitude, elasticidade mental.
De fato, ele tinha uma capacidade imensa de conviver e dialogar com a diversidade que o fazia um arauto e um embaixador natos. Seu aspecto franzino, seus olhinhos castanhos e míopes transmitiam a quase todos que o conheceram uma sensação de compreensão e camaradagem, sua voz atenorada raramente se exaltava. Sabia discutir maieuticamente, compreendendo o outro , mas jamais abrindo mão de suas posições fundamentais, estes dons pessoais o tornavam naturalmente persuasivo e empático – um Kropotkin sem barbas...Deste modo era benquisto e conseguia dialogar com todos: punks e religio-sos; operários e intelectuais. Considerava a amplidão da mente como essencial ao anarquista, que não concebia como um ser dogmático; uma de suas definições preferidas de Anarquismo era a de “um conjunto de postulados gerais e convergentes, derivados de algumas idéias-força fundamentais como a liberdade, a responsabilidade e o anti-autoritarismo”. Conseqüentemente, sujeitava as deduções destes axiomas básicos a uma contínua e constante revisão. Já em 1969, por exemplo, era um leitor atento de Georges Friedmann, que previa em seus livros o esfacelamento do trabalho humano devido à automação e, conseqüentemente, inquietava-se com o futuro do anarco-sindicalismo, que, ao seu ver, necessitava levar em conta as transformações concretas do mundo do trabalho.

Esta sua amplidão de espírito reflete-se, talvez melhor que em qualquer outra parte, em sua biblioteca pessoal, rica em quase 3.000 volumes distribuídos por quase todas as áreas de conhecimento; em seus últimos dias, por exemplo, dedicava-se a reler Heródoto, alternado-o com Joyce...Quando fui admitido pela primeira vez em sua casa, espantei-me ao ver organizados, em lugar de destaque, obras de Nietzche e vinte volumes de uma coleção sobre o liberalismo americano, com textos de Jefferson, Franklin, Stuart Mill, entre outros, recebendo dele a explicação, chocante para mim na época, de que era preciso conhecer bem uma corrente de pensamento que tinha influenciado uma Revolução e que tinha formado a mentalidade de uma parcela ponderável da população do planeta, e imediatamente argumentou que Rudolf Rocker também tinha dedicado um livro importante ao pensamento liberal nos EUA. O papel reacionário do estado americano deveria ser contestado, mas as idéias políticas não poderiam ser censuradas, mas sim debatidas...

Outro exemplo interessante é o volume de obras sobre religião que ela abriga (120 volumes); ateu convicto e anticlerical militante, nem por isso desdenhava a importância da religião na história da humanidade; preocupava-se principalmente com a fuga para o misticismo característica das épocas de crise e, ao estudar o fenômeno religioso, pretendia elucidar tais mecanismos e, deste modo, vemos ao lado de Bakunin e Fourier, bíblias, tratados islâmicos e livros espíritas. Ao lado de clássicos do Anarquismo, vemos Lenin, Stalin, Plínio Salgado, além de obras de História, Sociologia, Antropologia e Psicanálise, isto sem mencionar as centenas de volumes de literatura desde clássicos como Dostoiévski, Hugo, Balzac ou Tolstoi até os autores mais modernos.

O conhecimento para ele tinha uma função revolucionária, não se tratava de esgrimir argumentos em justas acadêmicas, mas sim de utilizar as informações disponíveis para resolver problemas concretos, para avançar a luta social.

Mesmo sem o saber, o mundo fica mais pobre sem o Jaime, com tanto desgraçado para morrer e a natureza nos prega essa peça...Mas vai companheiro, vai para longe pois assim talvez tu te transformes na estrela incorruptível no céu de nossos corações, vai que te dedicamos uma árvore para que a semente de teu trabalho não demore a dar os ansiados frutos. Adeus Jaime Cubero.

PELA ANARQUIA ATÉ A ALFORRIA FINAL!

José Carlos Orsi MOREL

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Jornadas Libertárias da Colômbia
– maio de 1998 –

No período de 26 a 29 de maio aconteceu na Colômbia o evento que recebeu o nome de “Vigencia del Pensamiento Libertario” (Jornada de mayo del 68-98). Estavam presentes diversos grupos da Colômbia e de outros países da América Latina, além da participação de delegados espanhóis da AIT (Granada) e CNT (Madri). As palestras, que compuseram o arcabouço teórico do acontecimento, apresentaram um nível bastante bom e foram acompanhadas por militantes e simpatizantes com visível interesse. A capital Bogotá, típica cidade colonial espanhola, forneceu o clima e as dimensões necessárias aos deslocamentos constantes para os campi da Universidad Nacional de Colombia, onde aconteciam as palestras e os demais eventos.

Os companheiros do coletivo Alas de Xué ( Filhos do Sol em Chibicha) – Librería de Estudientes de Derecho U.N. Mujeres Libres – Centro de Investigaciones U. Libre, organizaram um belo encontro e mostraram um empenho organiza-tivo invulgar para esses tempos de refluxo ideológico. As temáticas abordadas foram relevantes, mas algumas chamaram mais a atenção do nosso (CELIP) representante, aliás, infelizmente o único de língua portuguesa nas Jornadas.

O companheiro da AIT e professor catedrático de Filosofia da Universidade de Granada, José Luis García Rúa, com a autoridade de quem viveu e vive o conteúdo de seu discurso, prendeu a platéia com reflexões sobre o anarco-sindicalismo e suas perspectivas para o próximo século. O magonismo esteve representado pela clareza e independência intelectual do companheiro Juan Carlos Beas, residente em Oxaca no estado de Chiapas. As questões de gênero foram brilhantemente tratadas pela companheira Casilda Rodrigáñez, da Espanha, e o antimilitarismo ficou por conta dos companheiros do Ateneu Libertari Estel Negre de Palma de Mallorca (Pedro) e da Venezuela (Rafael).

Os contatos de bastidores não foram menos importantes e a experiência de conversar com Pascual Gonzalez Gonzalez da CNT, com @s compas da América hispânica (Tatiana, Sônia, Nidia, etc) certamente serão de grande valia e relevância para os militantes do Rio de Janeiro.

E definitivamente: o conhecimento e carinho dos anarquistas Hugo P. Espinosa, conhecedor e palestrante da questão cigana, e de Juan Carlos G. Martínez, autor do livro sobre o anarquista colombiano Biofilo Panclasta, serão para sempre lembrados pelo nosso representante no evento e por nós libertários do CELIP.

Maiores detalhes do acontecimento e de seus objetivos chegarão até aos leitores do Libera... em entrevistas feitas no local com os nomes já citados.

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ANARQUIA

Un mundo donde nadie gobernará sobre el trabajo y el esfuerzo de otro.
Donde cada corazón y mente será libre.
Esto es anarquía.

Un mundo donde la libertad traerá buena fortuna a todos,
al débil y al fuerte, a “el” y a “ella”
donde lo “tuyo”y “lo mio” no oprimirá a nadie.
Esto es anarquía.

São tempos difíceis para se viver com justiça e liberdade, para que cada um, como ser único, possa desenvolver seus potenciais criadores em solidariedade com outros igualmente livres.

Esta é uma era desapiedada, pois a cada dia aumentam os contingentes de excluídos de dignidade, dos direitos elementares.
A sede de poder e de riqueza das minorias privilegiadas em todas as latitudes, parecem não ter mais limites que não seus próprios delírios.

Enquanto uma reduzida parte dos habitantes do planeta Terra continua na “esbórnia”, cerca de 400 milhões de seres humanos padecem de fome e doenças. Estes também são seres humanos, mas a lógica capitalista os estigmatizou como os “condenados da Terra”.

O sistema vigente é o capitalismo, atualmente em sua versão neoliberal com o discurso da globalização. Mas hoje como ontem, este baseia-se no lucro a todo custo, com uma indústria armamentista florescente, que diariamente produz novos cenários de aniquilação maciça. Este último fundamento está embasado na existência do princípio da autoridade, fonte de todos os abusos estatais, policiais, judiciais, militares, eclesiásticos, carcerários, familiares, etc. A propriedade dos meios de produção e comunicação também a detêm as minorias. Estas, mais que a liberdade de imprensa, praticam a liberdade de empresa. Suas mensagens incitam ao consumo de mercadorias desnecessárias, manipulam os sentidos, idiotizam e desinformam.

Vivemos também a era da mídia. O globo terrestre é circundado por ondas de diversos tipos, que unem os continentes mas que, paradoxalmente, isolam as pessoas, criando-lhes uma ilusão de participação plena. Não é raro ver pelas ruas seres abstraídos do mundo, prisioneiros de um som que não é o dos pássaros, do vento ou das vozes de seus semelhantes.

Nada devemos esperar daqueles que exploram, contaminam, manipulam, governam. A sensibilidade não é uma de suas virtudes e, em todo caso, devemos recordar que a liberdade se conquista lutando, e não mendigando.

Através da história já apareceram muitos tiranos e, também, sistemas que desprezavam todos os seres vivos. Mas poucas vezes na história da humanidade, a espécie humana esteve tão perto da autodestruição.

Foi-nos declarada uma guerra surda e a forma de sobreviver deve partir do apoio mútuo, semelhante ao praticado por outras espécies animais. Devemos criar desde o nosso cotidiano formas organizativas de autogestão que nos liberem da alienação capitalista. Existe um fundamento biológico para o socia-lismo. Caminhemos para ele!

O ser humano rebelde é aquele que se planta na frente do opressor e, ao negá-lo, nega também sua condição de escravo, começando assim sua emancipação.

David Edelstadt (Rosario/Argentina)

Nota: Extraído da revista La Campana # 43 (fev/97), Pontevedra, Espanha. Traduzido pelo Coletivo de Tradução do Libera. Como forma de complementar as idéias expressas neste texto, sugerimos a leitura de livros como O Apoio Mútuo (P. Kropotkin) ou A Sociedade Contra o Estado (P. Clastres).

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