Libera Nº 86

COMPLEXO DE INFERIORIDADE

Neste editorial não temos a pretensão de tecer análises profundas ou conclusivas. Não se trata de uma matéria jornalística ou de um estudo científico. É apenas um desabafo ou, ironicamente, "um brado forte e retumbante".

A nossa revolta, nesse caso, não está ligada as grandes questões nacionais, como os sem-terra, a fome no Nordeste, a tragédia da saúde e da educação pública, o desemprego e as terceirizações, ou a privatização da Telebrás, que em 1997 lucrou R$ 4 bilhões e será entregue ao capital privado.
Estamos, sim, nos referindo ao complexo de inferioridade que sempre assolou o país. Nossa formação histórica, assim como de tantos outros países, foi de subserviência. Fomos colônia por 322 anos e, para ficarmos "independentes", assumimos a dívida da corôa portuguesa com a Inglaterra. Aceitamos o papel de monocultores voltados para a exportação, enquanto nossa abasta(r)da burguesia se comportava e consumia como se vivesse no hemisfério norte. Até a entrada e participação do Brasil na Segunda Guerra Mundial foi de modo rastejante.

Mas agora que estamos na "era da informação", o nosso complexo se adequou aos novos tempos. Podem reparar que, volta e meia aparece um pau-mandado das grandes potências, com fama de intelectual ou especialista, e diz que o país está fazendo isso ou aquilo errado; que deve fazer este ou aquele ajuste. E depois que o gringo fala, é uma correria alucinada para responder e se justificar. Isso quando tal crítica não tem conseqüências concretas, como uma mudança de condução na política econômica do governo, por exemplo.

O mais ridículo, porém, foi quando o governo brasileiro fez o pacote de outubro de 1997 visando conter a fuga de capitais estrangeiros (vide Libera...#80, jan/98), e toda a mídia saiu correndo atrás dos analistas econômicos do "10 Mundo", para saber se eles haviam gostado das medidas. É óbvio que eles gostaram, pois as medidas foram feitas para os países de onde são representantes. Se um desses analistas tivesse repentinamente um acesso de sinceridade, ele certamente responderia:

- É claro que gostei, afinal vou poder manter meu dinheiro no Brasil da mesma forma que antes, recebendo muito mais em juros, sem ter a preocupação de ter o meu dinheiro preso ou de ver o câmbio desvalorizado.

Queríamos ver se o governo brasileiro, ao invés de sacrificar o povo, estabelecesse uma moratória ou dificultasse a saída de capitais...Aí com certeza os analistas iriam esculhambar.
Por isso alertamos, não deêm ouvidos a esses vermes. Eles não estão interessados em nossas grandes questões nacionais, muito menos no bem estar de nosso povo. Eles querem, apenas, ajudar a garantir as melhores condições possíveis para a valorização dos grandes capitais externos investidos no país.

Mas há gente pior. Temos por aqui indivíduos que batem no peito se dizendo brasileiros e, sob essa máscara, fazem o serviço subalterno para o capital internacional. São os Pedro Malans, Roberto Campos e FHCs da vida.

Pode estar parecendo que estamos fazendo um discurso nacionalista, mas não se trata disso. Não somos tolos para cair nessa armadilha tão antiga. Na verdade, o discurso nacionalista só leva em conta qual burguesia será beneficiada pela expansão do capital; se a daqui, se a de lá, ou se as duas...Ser contra a interferência da pseudo-intelectualidade imperialista não significa nacionalismo; significa tão somente respeito a nossa realidade, as nossas necessidades. Acima de tudo, significa trilhar um caminho independente, construído por nós mesmos, onde as propostas libertárias poderão ter voz e vez na luta do nosso povo por justiça e dignidade.

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CHINA: UMA PERSPECTIVA LIBERTÁRIA


Copa do Mundo, eleições chegando, esse ano tem sido quente e cheio de emoções... principalmente para o capital. À parte esses eventos, que movimentam e movimentarão muita grana, queremos comentar um outro, que passou menos apercebido, mas que é mais um passo do capital para garantir o seu próprio futuro. Falamos da visita do presidente norte-americano Bill Clinton ao "império comunista" chinês.

Já não é mais novidade a ascensão da China Popular para um lugar destacado entre as nações capitalistas do mundo atual. Outrora considerada um dos grandes inimigos do "mundo livre", hoje essa China vai se tornando um parceiro comercial de peso. Ela conta com mais de 200 itens na pauta de exportação para os EUA e não pára de aumentar sua presença no comércio mundial. Essa mudança se deve, principalmente, à política atualmente seguida pelos ditadores chineses de "um país, dois sistemas". Através dessa política, enquanto a maior parte do país é mantida dentro dos padrões "socialistas" de economia do PC chinês, outras regiões, vizinhas ao oceano Pacífico e ao capitalismo feroz dos "tigres asiáticos", recebem permissão para desenvolver a livre-empresa e a exploração capitalista.

Uma pergunta: mudando a orientação econômica, mudou a base da ditadura política, ou seja, da opressão de um Estado todo-poderoso sobre "sua" população? Absolutamente; até se agravou.
Se tomarmos o exemplo da própria "capitalização" das ZEEs (Zonas Econômicas Especiais) e da produção industrial que cresce, veremos aí um dos fundos mais podres desse engradado que o regime chinês tenta vender como "avanço".

A produção chinesa, que já inunda o comércio de vários países, entre eles o nosso, provém em parte de mão-de-obra escrava. A nova orientação econômica não aboliu os Lao-Gai, as numerosas prisões-campo, onde muitos milhares de prisioneiros vivem cotidianamente sob maus-tratos e trabalho forçado. Para satisfazer o interesse do Estado para manter e ampliar o ritmo produtivo, muitos são mantidos presos após o cumprimento legal de suas penas, que são deste modo perpetuadas. Neste imenso número de prisioneiros-escravos, contam-se desde os criminosos comuns até os dissidentes políticos e religiosos. Entretanto, a situação deplorável destes infelizes é convenientemente varrida para debaixo do tapete, sobretudo diante das vistas condescendentes dos governos e empresas capitalistas do Ocidente.

Continuamente alertados por denúncias de violações chinesas aos direitos humanos, tanto uns quanto outras reagem, no máximo, com uma retórica vazia, ao passo que estreitam cada vez mais os laços com o regime que promove tais violações. Bill Clinton alegou, em linhas gerais, que obviamente não se omitiria diante das violações que presenciasse em sua visita de nove dias, a mais longa de suas viagens oficiais ao exterior. Ora, será que ele é tão ingênuo a ponto de crer que seus cicerones deixariam vestígios de sua truculência desfilarem bem à sua frente? E será que ele mesmo quer ver alguma coisa que não lhe impeça de ganhar prestígio político e bons negócios?

Nesse caso, hóspede e anfitriões se fazem cúmplices, para serem sócios.

De qualquer forma, isso pouco importaria: o regime chinês sempre se mostrou eticamente imune à reprovação de quem quer que seja, quando estão em jogo sua autoridade e seus interesses. Em 1989, o massacre pavoroso de milhares de jovens na famosa Praça da Paz Celestial foi perpetrado sem que os todo-poderosos do governo dessem a menor importância aos protestos que se levantaram pelo mundo afora. Com esse banho de sangue, a ditadura do PC chinês assinalou que "abertura econômica" não significa necessariamente "abertura política", e que não se admite no país nenhum diálogo além daquele em que o interlocutor deve concordar com tudo.

Alega-se que a milenar cultura chinesa, que encerra na palavra "estrangeiro" o mesmo signo de "bárbaro", e os problemas do "Império do Meio" (que como tal se coloca até hoje, pois trata a presença do resto do mundo como periférica e desprezível) são específicos demais. Uma cultura extremamente coletivista, diluidora do indivíduo, seria pouco "adaptável" a noções "ocidentais" de direitos individuais e liberdades de expressão e pensamento, que o Iluminismo e o Liberalismo nos legaram. Que seria "felicidade", tal como a pensavam, por exemplo, os revolucionários franceses, naquele mundo oriental? Que seria ela, num colosso social sempre às voltas com a tarefa de sustentar e abrigar uma população, que hoje ultrapassa o bilhão de pessoas?

Reconhecemos que estes fatores merecem ser levados em conta, na situação político-social da China de hoje. Mas podemos também perguntar: se a economia regida pelo deus-mercado e a exploração capitalista do trabalho humano podem ser instaladas, por que não a educação do povo não substitui a doutrinação massiva? A nosso ver, mais uma vez se confirma a perspectiva anarquista: onde o poder do Estado se mantém, seja ele capitalista, socialista ou "híbrido". Resta sempre aos trabalhadores e pobres coadjuvar, no papel de explorados e oprimidos. Uma educação libertadora e experiências práticas de gestão coletiva da vida econômica e política são consideradas perigosas, já que permitiriam "desvios" na linha de ação que o PC e seu aparelho estatal preconizam para o país. Repete-se, assim, a surradíssima desculpa que todos os regimes dão para amarrarem e amordaçarem seus governados: o povo é bom, mas ingênuo; é preciso que se lhe dê a mão para ele não se perder.

A desgraça de milhões no presente se justifica diante dos propósitos de progresso e justiça social que os líderes sempre projetam para o futuro, que se confunde no fim das contas com o futuro dos seus projetos pessoais. Por essa lógica, a sobrevivência do Estado é o mais importante, mesmo que ele "precise" torturar e degradar o povo que ele pretende "defender". Mesmo que ele "precise" compactuar com a exploração, interna e externa. Para nós, anarquistas, porém, toda esta lógica é espúria e mentirosa. O Estado, por sua própria natureza, é parasita, ladrão e assassino. Um povo (e isto se aplica aos povos que habitam a China) não deve aceitar a escravidão em nome da sobrevivência num mundo "globalizado".

Escravos, sejam eles de indivíduos particulares ou do Estado, como o são os prisioneiros dos Lao- Gai, sempre são escravos. Não importa a orientação ideológica que este Estado possa adotar. Prova inequívoca disso é a aproximação entre o cínico capitalismo representado pelo presidente norte-americano, e o sistema híbrido que os ditadores chineses, com mais ênfase a partir das reformas de Deng Xiaoping, ensaiam desde 1978. Negócios, negócios, ideologias à parte. E os povos também.

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OS DESAFIOS DA AUTOGESTÃO

Em época de eleições fica oculto o papel fundamental que as burocracias administrativas e técnicas têm dentro do estado moderno. As eleições acabam possibilitando (quando possibilitam...) que os cidadãos escolham um pequeno número de candidatos a algumas tantas vagas do executivo e legislativo, ficando fora dessa decisão a quase totalidade da complexa rede do Estado que está sujeita a uma lógica que é tudo menos democrática. No chamado Estado de Direito acabaram-se consolidando-se as burocracias, que se mantêm inamovíveis nos corredores do poder.

Na política, como na economia, as teias do poder são cada vez mais complexas e sutis, tornando-se na maioria dos casos irrisório o papel desses dirigentes eleitos. O exemplo das grandes potências governadas por estranhas figuras, de um ator de segunda categoria, a um alcoólatra autoritário, dão um panorama da irrelevância de seus papéis.

A descrença generalizada na existência de alternativas e o sentido de impotência que toma conta dos cidadãos em quase todo o mundo, é produto da constatação desta crua realidade. Por essa razão as elites necessitam cada vez mais de nos chamar a participar. Mas o único objetivo real é sufragar um sistema visceralmente heterogestionário, onde as decisões efetivas cabem a uns poucos, aos políticos profissionais, aos burocratas camuflados sob o rótulo asséptico ou até aos mais obscuros poderes transnacionais, sobre os quais os cidadãos não têm nenhuma forma de controle democrático.

Só que esse simulacro ritual de participação, não se confunde com a existência de mecanismos que permitam que as comunidades possam efetivamente decidir. O que teria que passar por auto-organização, descentralização, federalismo e autogestão, valores opostos aos do estado e suas burocracias. Esse projeto social de autogoverno, tem afinidades com o conceito original de democracia, as comunidades decidindo diretamente sobre sua própria vida e com o projeto socialista libertário que se desenvolveu a partir do século XIX.

As muitas dificuldades e fracassos de experiências históricas, prendem-se com o fato de a autogestão exigir um empenho pessoal, uma participação efetiva e uma consciência, ao contrário das formas de organização hierarquizadas que recorrem à coerção, chantagem e recompensa, seja no mundo da produção ou na política. Por essa razão é evidentemente mais difícil e mais demorada a criação e desenvolvimento de formas de organização cooperativas, até porque a resistência à inovação, a introjeção dos valores dominantes e a rotina, tendem a nos afastar de formas de organização que implicam maior responsabilização pessoal e maior esforço. Será então que a autogestão (e mais ainda a autogestão generalizada) pode se constituir como uma alternativa social, uma real possibilidade histórica?

Certamente que o caminho dessa alternativa social não é curto nem linear, e muito menos produto de qualquer determinismo econômico, até porque a história nos mostra quanto o fenômeno da subordinação e da alienação está interiorizado em todas as classes e grupos sociais, mais ainda na nossa sociedade massificada e paralisada pela ideologia do consumo e do espetáculo. Além do que, o antagonismo competitivo possui raízes culturais (e há quem diga biológicas) profundas, tendo como conseqüências mais funestas a exploração, a violência e a guerra.

No entanto, como bem demonstrou Pedro Kropotkin em seu livro Apoio Mútuo, no mundo animal, como nas sociedades humanas, um dos fatores decisivos da evolução e sobrevivência das espécies foi a cooperação. Do ponto de vista filosófico e político, a questão está em saber até que ponto as sociedades humanas serão capazes de, baseadas nesses potencial de solidariedade e na aprendizagem dos processos históricos, recriar libertariamente as organizações e instituições sociais, ampliando a participação e a cooperação, baseadas nos valores da solidariedade e do apoio mútuo, colocando os mecanismos hierárquicos, autoritários e de dominação no museu da história.
É esse o debate que continua sendo central para os movimentos sociais, se não quiserem ser meros usufrutuários de um sistema socialmente injusto e eticamente inaceitável.

Com a derrocada dos regimes autoritários de capitalismo de Estado (que o discurso dominante chamava de socialismo), com a crise que se instalou no próprio coração do Estado e com a perda de referenciais alternativos, está na hora de recomeçar com lucidez e esperança a percorrer o que Martin Buber chamava caminhos da utopia, que terão de passar pela autogestão generalizada.

Jorge Silva (Florianópolis/SC)

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PARA NÓS QUE VIEMOS DEPOIS DELES

Há 75 anos, em março de 1923, implantava-se na Bulgária a ditadura militar de Stambolisky, que empreendeu uma feroz perseguição ao ativo movimento anarquista local. Este texto foi originalmente publicado pelo jornal libertário português A Batalha, órgão da Confederação Geral dos Trabalhadores (CGT), e republicado no dia 04/07/23 na Secção Trabalhista do jornal A Pátria, do Rio de Janeiro:

"No dia 27 de março, patrulhas militares foram passar buscas as casas habitadas pelos anarquistas; 13 camaradas foram presos e conduzidos à caserna. Ali pelas 5h, fizeram-nos ir ao pátio, formaram-nos em linha e um oficial gritou: "Quem for anarquista dê três passos em frente." Todos deram três passos em frente e o camarada Theodoro Darzeff, pressentindo a sorte que os esperava, disse ao oficial: O anarquista nunca se envergonha do seu ideal. e voltando-se para seus camaradas, disse-lhes: Camaradas, vivemos e agimos como anarquistas, morreremos como tal e daremos nosso exemplo aos que vierem depois de nós. Nesse momento, caíram dizimados por uma metralhadora, ao grito de Viva a Anarquia! Afim de se assegurarem que as vítimas não ressucitariam, os soldados mergulharam as baionetas nos corpos assassinados. Por milagre, o camarada Kiri Kehayoff conseguiu escapar enquanto os assassinos abriam sua cova. Veio para a cidade e contou a cena aos transeuntes. Mostrou-lhes as sua feridas e conduziram-no ao hospital. Duas horas depois, apresentou-se um oficial acompanhado de alguns soldados. Levaram do hospital o camarada e conduziram-no à caserna onde o mataram com um tiro de revólver."

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