Libera Nº 87

UMA LEMBRANÇA DE PIERRE CLASTRES

O indivíduo ocidental (aquele que surge com o aparecimento da Grécia), reconhece naqueles que detêm o saber a força necessária para se submeter a eles. Portanto, saber é poder. A capacidade de conhecer e estudar a retórica, a gramática, a física, a matemática ...as ciências sociais ... dá ao conhecedor o privilégio do poder sobre os que se negaram ou não tiveram a oportunidade de obter este conhecimento.

No ocidente, todas as revoluções foram teorizadas por aqueles a quem se devia sujeição: os intelectuais. À esquerda ou a direita, são eles que possuem direito a palavra. São as personagens principais de todas as histórias, construídas por eles próprios, é claro.

Robespierre, Danton, Mao, Lenin, etc. O exemplo do Brasil, hoje, é excepcional. Temos um sociólogo com direito a palavra. Demos a ele este direito por livre escolha. Livre?

Sejam períodos revolucionários ou em períodos de paz, eles estão lá, dentro ou ao lado do poder. Sejam iluministas, fisiologistas, liberais, social-democratas, marxistas, e tantos outros. Eles estão lá. E uma coisa é certa. Detestam sair. Se amarram, imploram, enrolam...matam, assassinam até milhões de pessoas, porque crêem estar fazendo a coisa certa.

Outras sociedades sabiam disso, mesmo há centenas de anos atrás. "A sociedade primitiva sabe por natureza, que a violência é a essência do poder. Neste saber se enraíza a preocupação de manter afastados um do outro, o poder e a instituição, o comando e o chefe." Pierre Clastres decifrou o porque das sociedades indígenas, que estudou no Brasil, mantinham o chefe sem poder. Eles temiam por isto. Por isto deram ao chefe não o direito a palavra, mas o dever. Ele fala, mas seu discurso é vazio, porque ele não pode dar ordens. Ninguém precisa escutá-lo, mas ele deve continuar falando.
Os intelectuais e sua mídia no ocidente precisam do IBOPE (Gallup ou qualquer outra empresa) para saberem se estão sendo escutados. Se possuem o poder de sedução. Se tem o controle da situação. Somente esta possibilidade de obter a resposta ao seu discurso lhes dá poder político suficiente para acariciar seus egos, e ainda uma graninha de gorjeta. Oxalá possamos ainda ver estes idiotas rabujentos apenas falando, mas sem nenhuma audiência. Neste dia poderíamos chamar os seres humanos de autônomos, realmente.

Carlos Baqueiro (Salvador/BA)

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ENTREVISTA COM A TENDÊNCIA LIBERTÁRIA MOBILIZAÇÃO DIRETA

A TLMD iniciou suas atividades no início de 1997 por iniciativa de companheir@s libertári@s vind@s do movimento popular e de entidades de base do movimento estudantil. A TLMD vem com uma alternativa construída com muita prática de militância cotidiana, fazendo parte da esquerda revolucionária, e tem como objetivos a prática política da Ação Direta organizada e classista pela construção do Poder Popular.

Sua constituição parte de uma mudança profunda de mentalidade d@s militantes libertári@s gaúchos, que por um longo período se excluíram dos processos históricos das lutas da classe trabalhadora e da juventude, não tendo uma política clara e incisiva de inserção nesses movimentos. Sua prática libertária cotidiana passou a ser organizada, e a intervir politicamente nas entidades e movimentos das classes oprimidas, sendo isto um marco e um avanço em relação ao momento anterior. Se antes insistia-se em apostar em táticas ultrapassadas (construção de entidades paralelas e ações individuais). Hoje consolidou-se uma estrutura organizativa horizontal que permite a coordenação da atuação d@s libertári@s nos movimentos sociais pelo método da ação direta e de eixos programáticos traçados coletivamente. Publicamos a seguir uma entrevista com a companheira Anita, coordenadora da Célula de Porto Alegre.

PERGUNTA: Na condição de um agrupamento político de Tendência Libertária como se dá a relação da TLMD com o movimento social? Qual o modelo de organização que a organização reivindica e como está distribuída no Rio Grande do Sul?

Companheira Anita: Antes de tudo, a TLMD encarna o papel de agente animador/fomentador da ação direta das massas, e é esse nível de luta de classes que essa organização corresponde. Portanto, seu programa e sua estrutura devem atender a essa realidade. Intentamos ser uma organização combativa de massas que reproduza-se nos espaços onde se concentra a classe oprimida, com a orientação socialista e revolucionária. Assim, não somos uma organização de "quadros", nem reivindicamos o modelo vanguardista que pretende substituir a classe pelo partido. Nos posicionamos como militantes do povo, da classe oprimida, lutando e gerando influência em seu interior, e não como elementos estranhos, como "pára-quedistas iluminados". Somente assim podemos estimular a auto-organização dos oprimidos e dinamizar seu protagonismo coletivo na busca de alternativas e no enfrentamento direto com as classes dominantes.

Hoje estamos distribuídos em células de base por todo o Estado do Rio Grande do Sul, colhendo ricas experiências de luta e organização. Desde a democratização da gestão de entidades estudantis, a inserção em sindicatos e associações de moradores, passando por manifestações populares radicalizadas, ocupação de estabelecimentos públicos, greves, confrontos com o governo e seus agentes de repressão, enfim, até congressos, fóruns de discussão e grupos de estudo para formação militante. São valorosos trabalhos coletivos, animados pela dedicação e disciplina libertária da companheirada articulada na TLMD. Não somos mais engolidos por qualquer corrente política como em anos atrás, não tememos a burocracia estalinista que patrola o Movimento Estudantil, ou ainda a social-democracia e sua política imobilista e pelega que assola as organizações populares de base e o movimento social. Entendemos como nossa terefa imediata disputar a hegemonia desses espaços, contrapondo-se à esquerda institucional, que muitas vezes tem um discurso rebelde e socialista, mas uma prática essencialmente conciliadora.

PERGUNTA: Frente aos altos índices de desemprego, ao ataque do governo aos direitos dos trabalhadores, privatizações e sucateamento dos estabelecimentos públicos em geral, quais as alternativas ainda possíveis? No que as eleições podem contribuir para a minimização dos problemas sociais?

Companheira Anita: Num momento como esse nos cabe denunciar as políticas neoliberais do governo FHC e organizar a resistência ao projeto de exclusão social que está sendo aplicado à mando dos grandes grupos econômicos internacionais. Nosso programa deve estar orientado para a garantia dos direitos dos trabalhistas, manutenção dos serviços públicos e do patrimônio que a classe conquistou em sua luta permanente; deve bater de frente com a rendição ideológica das direções dos movimentos populares. É preciso combater os pelegos de todas as correntes plantadas nos movimentos das classes oprimidas, e trabalhar ma perspectiva de construir uma alternativa que brote do seio do povo, e contemple a sua auto-organização e ação direta na luta de classes. Qualquer organismo parlamentar que sirva de intermediário e/ou porta-voz dos anseios populares à classe dirigente é conciliador em essência. Porque não existe atuação parlamentar revolucionária, existe sim atuação reformista, rendida, legitimadora do poder burguês. A institucionalidade democrática burguesa é o cenário perfeito para se travar uma luta, na ótica das elites. Nesse sentido permanece sempre atual a crítica libertária às eleições burguesas.

Estamos certos de que, para influenciar as lutas da classe oprimida de maneira libertária, torna-se indispensável que iniciemos a discussão de uma corrente política revolucionária, classista e extra-parlamentar em nível nacional. Essa organização que falamos é o pressuposto da construção de uma alternativa junto a nossa gente. Essa alternativa, que demanda uma estratégia a longo prazo, é o que denominamos de Poder Popular.

Secretariado da TLMD: Caixa Postal 180; CEP 92001-970; Canoas/RS.

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O QUE QUEREMOS

Nós lutamos pela igualdade ante tudo, pela verdadeira e única igualdade. Não por aquela mentira escrita nas prisões das monarquias ou nos muros da França republicana.

Nós queremos que tudo pertença a todos; queremos que as máquinas sejam propriedade dos operários que as fazem produzir, e que sejam expropriadas dos seus atuais donos, que enriquecem as custas da fadiga dos trabalhadores.

Queremos que a terra, hoje em poder de viciosos proprietários, que vivem na cidade em meio ao luxo e em plena orgia, seja entregue ao camponês que a cultiva e a faz frutificar.

Queremos, em uma palavra, que todos os instrumentos do trabalho sejam utilizados pelos trabalhadores livremente associados e que todos os produtos naturais e artificiais sejam declarados propriedade de todos. Por isso nos declaramos comunistas. E desafiamos a todos aqueles guiados pelo egoísmo que nos demonstrem como a verdadeira igualdade é possível sem o comunismo, que sintetiza o dever e o haver entre o indivíduo e a sociedade, com a velha e insuperável fórmula: de cada um segundo suas forças e a cada um segundo suas necessidades.

Mas sem a completa liberdade não é possível a igualdade completa, como sem a verdadeira liberdade não é concebível a verdadeira e própria liberdade. O que não possui é escravo daquele que possui. E como não é possível realizar a igualdade sem suprimir os patrões, despossuindo-os de tudo aquilo que injustamente detêm, tampouco é possível reivindicar a liberdade sem eliminar os governantes, abolindo todo o governo, que é o privilégio político onde descansa a exploração do homem pelo homem. Nem amos nem assalariados; nem governantes nem governados. Todos iguais na liberdade; todos livres na igualdade.

Sem propriedade privada, que eqüivale dizer sem amos e, conseqüentemente, sem exploração econômica, todos os indivíduos serão economicamente iguais. E isto é o comunismo, que também pode ser definido como a propriedade comum de todas as coisas.

Sem governos, sem autoridade do homem sobre o homem, sem a violência moral da leis antinaturais, sem polícias e sem burocracia, todos os homens serão livres politicamente; isto é, cada indivíduo terá a exclusiva e plena soberania sobre si mesmo, não encontrando quem lhe impeça de cooperar para o bem coletivo. Os homens e mulheres poderão trabalhar espontaneamente, segundo lhes reclamem seus interesses individuais, existindo completa harmonia nos interesses de todos. Esta liberdade é a Anarquia, a liberdade da liberdade. Somos por tudo isso comunistas anarquistas, porque queremos ser verdadeiramente livres e completamente iguais.

Porque queremos a libertação de todos os oprimidos, porque amamos vivamente as nossas mães, as nossas filhas, as nossas irmãs, as companheiras de nossas vidas e das nossas dores, chamamos a mulher duplamente escrava, do patrão e do macho. Venham e lutemos juntos pela redenção de todas as misérias, para que entre vocês não impere a infelicidade!

Nós queremos purificar a união sexual e nada mais. Faze-la desinteressada através da abolição da propriedade, causa principal de todos os interesses baixos; faze-la livre, desaparecendo com todas as correntes, morais e materiais, que se oponham ao desenvolvimento espontâneo e natural de todas as suas manifestações.

Os governos e capitalistas, para melhor dominar, se dedicam a suscitar ódios fratricidas entre os povos, e estes nunca compreendem o jogo insidioso que todos os potentados e patriotas fazem com seu sangue. Os trabalhadores já começam a entender que seus inimigos não estão mais além desta ou daquela fronteira, e sim que estão em todos os países, em todas as pátrias: seus mesmos governantes e patrões. Somente uma aliança internacional dos explorados e dos oprimidos de todas as pátrias, em aberta rebeldia contra a coligação dos governos e do capitalismo, derrotará toda essa velha ordem social baseada nos privilégios, opressões, tiranias, instaurando em toda a Terra uma nova era de amor e bem estar para todos os homens iguais e livres. Por essas razões, os comunistas anarquistas se declaram internacionalistas.

Mas toda essa renovação substancial e profunda da sociedade humana, só é possível através de uma violenta insurreição do povo contra a violência legal dos atuais privilégios econômicos e políticos. Aqui parte a necessidade de uma revolução social. E por isso nós somos antilegalitários e revolucionários.

E você, velho povo trabalhador, conforte-nos em nossa humilde e solitária obra com o rugido do leão, que afia as garras para entrar na luta. Ainda, no furor da batalha, verá como, ferindo o espaço, surgirá do peito dos trabalhadores o grito que é um símbolo de fraternidade e amor: Viva a humanidade livre!

Pietro Gori, anarquista italiano (1865-1911)

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CRÍTICA A MATÉRIA "TUPAC AMARU VIVE E CAVALGA DE NOVO, SEMPRE"
Libera...# 83, ABRIL/98, pág. 2

Publicamos a seguir alguns trechos da carta do companheiro Ciccillo, do Movimento Anarquista Peruano (MAP, Apartado 308, Cuzco, Peru), datada de 18 de julho do corrente ano, contestando a matéria publicada no Libera...# 83.

"Respondendo à matéria do Libera... 83, pág.2, com respeito ao MRTA (Movimento Revolucionário Tupac Amaru) do Peru, acreditamos que se trata de uma organização armada de tendência autoritária marxista-leninista, cujo objetivo é fundamentalmente a tomada do controle do Estado, sem nenhuma alternativa no contexto do sistema capitalista. (...) Cabe aos libertários uma óbvia diferenciação de todos os partidos políticos legalistas ou armados; temos frontais diferenças em princípios e métodos, e almejamos uma sociedade de justiça e igualdade que jamais estes movimentos armados admitiriam. Para o MRTA ou qualquer outro (...) os anarquistas são considerados como inimigos. (...) O companheiro que escreveu no Libera... baseou quase todo o seu texto nas informações da grande imprensa. Foi um fator importante a construção de um túnel por baixo da embaixada japonesa, paralelamente as negociações com os guerrilheiros e as múltiplas viagens de Fujimori, inclusive para encontrar Fidel Castro, que não fez nada para impedir o crime que se produziu no final de abril do ano passado. Este desde logo é um crime que temos que denunciar ao mundo e procurar que os responsáveis sejam julgados, como está acontecendo na Argentina com Videla (...) O crime da embaixada japonesa não é o único (...) os crimes de Fujimori são a continuação dos crimes de Alán Garcia, que representou a continuidade repressiva e criminosa do governo Belaúnde, com seus corpos militares assassinos treinados pelos yankees da Escola das Américas. Não esquecemos nem perdoamos os crimes de Garcia (...), como a chacina covarde de 400 prisioneiros político-sociais já rendidos que ordenou em julho de 1986, em Cantogrande (Lima). Isso não se julgou, nem ninguém que se diz defensor dos direitos humanos até agora tem reclamado. (...) Talvez não tenhamos nenhuma afinidade (...), mas defendemos com amplitude os direitos de todos, ainda que sejam nossos inimigos ideológicos e táticos. (...)

Resulta um absurdo que considerem como parte da "esquerda revolucionária" ao "anarquista" González Prada, que jamais poderia ser o "Magón peruano". Este companheiro está possivelmente mal informado: González Prada é apenas um literato, um político frustrado que viveu em Lima e não conheceu o Peru profundo; foi afrancesado e, só muito tardiamente como bem diz Cappelletti, escreveu alguns pequenos artigos sobre o anarquismo. G. Prada toda a sua vida aspirou o poder com seu partido Unión Nacional, de linha liberal-conservadora. Seus poucos livros não são anarquistas; espalhou artigos geralmente curtos nas datas operárias, como os 10 de maio, por puro populismo, quando seu partido já fracassara. Nós procuramos tudo o que escreveu G. Prada, nada anarquista encontramos. Seus artigos foram reunidos em um livrinho chamado "Anarquia" pelo já finado editor reacionário L.A. Sanchez, que nos falou com petulância que publicou e juntou os artigos "não para fazer propaganda ao acabado e antigo anarquismo", mas por seu valor literário. Flores Magón lutou, organizou e sofreu cárceres (...), enquanto Garcia Prada jamais foi perseguido, foi parte da elite peruana do fim do século XIX, seus livros são obrigatórios até nas escolas, é um vulto histórico de status quo (...).

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