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A
ORGANIZAÇÃO ANARQUISTA
Por
Luigi FABRI
(Trad. J.C.M)
ADVERTÊNCIA
Como
conclusão ao relatório que se segue sobre a "a ação
individual e coletiva no movimento anarquista", apresentado ao
1º Congresso Anarquista Italiano , reunido em Roma de 16 à
20 de junho de 1907, foi proposta a seguinte moção:
O Congresso:
considerando
que na luta contra as forças organizadas do capitalismo e
dos governos é necessária a união das forças
anarquistas, aspira que
tal união se determine sempre mais forte e mais extensa, sobre
a base da
solidariedade e do concurso consciente de todas as vontades individuais;
consequentemente retém que os anarquistas, de acordo não
somente no
plano das idéias, mas também sobre os seus métodos
de luta, unam suas
forças constituindo-se por grupos em toda a parte e associando
tais grupos
entre si, conservando naturalmente a autonomia individual nos grupos
e a
autonomia dos grupos em suas uniões; declara que, ainda que mantendo
como necessária esta associação de energias para
a ação coletiva, é
igualmente necessário que permaneça a ação
individual, nos seus
desenvolvimentos mais conscientes, de cada um segundo suas forças.
O congresso, pela unanimidade menos um, aprovou esta moção
de caráter teórico e tomou, para a Itália, a seguinte
deliberação de ordem prática:
O
congresso recomenda aos camaradas das diferentes localidades
formar rapidamente grupos para poder proceder, no menor lapso de
tempo possível, à formação de uma Aliança
socialista anarquista italiana,
sobre as bases da mais completa autonomia, encarregando os
grupos já existentes do trabalho preparatório.
Apresentando o mesmo relatório teórico e tático
ao Congresso Internacional Anarquista de Amsterdam, eu espero que resoluções
idênticas e ainda mais precisas sejam lá tomadas e que
da afirmação doutrinária se passe rapidamente ao
terreno dos fatos com a constituição de uma Associação
Internacional Anarquista.
Viva
a Internacional Libertária!
Roma,
20 de agosto de 1907
Luigi
Fabbri
CAMARADAS
Há muitos anos que o movimento anarquista, tendo começado
tão esplendi-damente no seio da Internacional, se debate em uma
crise sem solução, sobretudo por falta de boa vontade
entre nós.
Nós anarquistas, é preciso confessá-lo, se jamais
fomos abatidos pelas perse-guições que chovem sobre nós,
sempre tivemos um medo maldito de um fantasma que nós mesmos
criamos. Nós nos resignamos a ser vítimas de todos os
loucos, de todos os extrava-gantes, de todos os exagerados que, com
o pretexto da lógica, pretenderam não apenas justifi-car
tudo aquilo que eles consideravam inconveniente e ignóbil nos
burgueses, mas também impedir e demolir todo o trabalho de reconstrução
que outros camaradas tentaram, lançando permanentemente o espectro
da incoerência com as idéias.
A idéia anarquista têm, como base primeira, a liberdade
individual, mas aqueles que pretendem que a liberdade individual na
anarquia seja infinita e absoluta, seriam utopistas no sentido mais
ridículo do termo, pois o infinito e o absoluto são conceitos
abstratos, confi-gurações mentais sem possibilidade de
realização prática. Pois bem, é sempre em
nome da li-berdade individual que numerosos anarquistas, segundo lhes
seja conveniente, ou proclamam o direito de fazer seja lá o que
for, inclusive atingir a liberdade e o direito do outro, ou decla-ram
incoerente toda a tentativa de realização revolucionária
e de organização pela propaganda.
Esperamos nos ocupar, no presente relatório, das objeções
que são lançadas contra a idéia de organização.
Ouvimos dizer que a organização é um método
e não um fim; isto é um êrro. O princípio
da organização não se propagou somente porque organizando-nos
hoje podere-mos melhor preparar a revolução, mas também
porque o princípio da organização em si é
um dos postulados principais da doutrina anarquista.
Na sociedade burguesa, que o Estado e a Igreja se encarregam de manter
unida pela hierarquia para poder explorá-la em sua vantagem,
a vontade individual é absorvida e fre-qüentemente anulada
pelo mecanismo social, que pretende prover a tudo e a regular a vida
dos indivíduos desde o seu nascimento até a morte. Nesta
sociedade, cuja organização é monopoli-zada pelo
Estado e pelo capitalismo, a única organização
concebível é aquela para luta contra a opressão
e a exploração.
Mas a sociedade preconizada pelos anarquistas, onde não haverá
nem homens nem institutos "providenciais", que se baseará
sobre o concurso de todos os indivíduos na produção
e na associação, necessitará que a organização
se estenda até o último indivíduo e que cada um
concorra voluntariamente à harmonia geral. E como a participação
de cada um deva ser expontânea, voluntária e livre, pois
sem existir coerção ninguém faltará ao dever
de solidariedade, é preciso que, em primeiro lugar, esteja disseminada
a consciência da necessida-de da organização, de
maneira que esta organização signifique a satisfação
de uma necessidade verdadeira , tanto material quanto moral. Eis porque,
em nossa opinião, a propaganda da or-ganização
deve ser feita ininterruptamente, bem como a propaganda de todos os
outros postu-lados do ideal anarquista.
Como criticamos as instituições atuais do Estado, da propriedade,
da família, para preconizar o advento da anarquia, do comunismo
e do amor livre, nós sentimos igual-mente a necessidade de atacar
e de criticar o sistema de organização autoritária,
para propagar a idéia da organização libertária.
Quando ouvimos alguns camaradas dizer-nos para "acabar com esta
questão ultra-passada da organização", experimentamos
a mesma impressão que experimentaríamos se nos dis-sessem
para acabar com a propaganda anarquista. Infelizmente ainda estamos
muito distantes de ter convencido todos os anarquistas da necessidade
da organização libertária: eis porque não
deixamos de discutir com êles e de fazer a propaganda no sentido
que nos parece corres-ponder à verdade.
Visto que, como se sabe, a melhor propaganda é a que se faz pelo
exemplo - a propaganda pelo fato - nós buscamos nos organizar,
constituir grupos, federar-nos. Nossos adversários nos atacam
precisamente neste ponto, criticando o nosso trabalho e as organiza-ções
existentes ou que já existiram. Cada um dos defeitos, dos êrros
e das incoerências nelas existentes tornam-se uma arma eficaz
para combater a idéia. Eles não se apercebem que os êr-ros
e defeitos são inevitáveis nos detalhes, pois nada de
perfeito existe no mundo, e que isto, de resto, não destrói
a utilidade geral do conjunto, da mesma forma que as desventuras da
vida não constituem razão suficiente para negar a vida
em si.
Sem a organização a anarquia é tão inconcebível
quanto o fogo sem a matéria para fazê-lo. E nós
propagamos esta idéia não somente pelas razões
que iremos enunciar, mas também porque estamos tão persuadidos
de que as consciências modernas devam impregnar-se deste seu espírito,
sobretudo as consciências dos anarquistas. A organização
para metas ge-rais, com pessoas de outros partidos e outras idéias
é útil; mas para formar a consciência anar-quista,
para precisá-la naqueles que já são anarquistas,
temos que adotar a organização dos próprios anarquistas,
que deve esforçar-se por ser a mais libertária possível.
É neste esforço de tornar libertária a organização
dos anarquistas, que consiste a elaboração da nova consciência
anti-autoritária entre nós, cujo anarquismo é amiúde
limitado à uma convicção unicamente doutrinária.
Não sei se nós, que somos seus partidários, conseguiremos
verdadeiramente construir esta organização que aspiramos
e vencer este espírito de reticência que existe para se
fazer qualquer coisa que demande um certo trabalho, longo e paciente.
Mas nós queremos ini-ciar este trabalho paciente e longo para
não negligenciar este forte meio de propaganda que é a
tentativa e o exemplo. Pode ocorrer que, apesar de todas as nossas razões,
muitas coisas impe-çam o aparecimento de organizações
anarquistas verdadeiras e duráveis, na medida em que o bloqueio
dos antiorganizadores não cesse.
Pode ser que tenhamos que continuar ainda este deprimente trabalho de
Sísifo, começando a coisa por um lado enquanto outros
a destroem por outro, como é hábito aconte-cer entre nós
há alguns anos. Não sei por quanto tempo poderá
durar este fato de que nossas organizações apareçam
aqui ou acolá para impulsionar a nossa propaganda, respondendo
à uma necessidade premente, mas tendo um caráter esporádico.
Tais organizações aliás caem mais freqüentemente
nestes erros próprios de sua juventude, que se repetem , pois
lhes falta a continuidade de existência e de ação...
.
Que importa? Antes de mais nada o próprio fato de que as organizações
exis-tentes ou finadas terem existido ou terem uma tão breve
existência, as desculpa dos êrros co-metidos, que apenas
são evitados através da experiência adquirida pela
prática e não somente com as noções apreendidas
em brochuras e jornais.
Nós pensamos que a mais bela e perfeita organização
estará destinada a morrer se seus membros, por mais sábios
que sejam em teoria, permanecerem inertes. A vantagem das organizações
consiste no fato de que, em igualdade de outras condições,
é preferível que pessoas de-cididas à ação
estejam organizadas que não organizadas. É natural que
um indivíduo isolado atuante valha mais que mil pessoas inaptas
e não organizadas.
Quer a propaganda para fazer surgir em curto prazo a organização
anarquista que cremos necessária frutifique ou não, isto,
até certo ponto, não é importante. Não nos
a-gradará não termos sucesso, pois assim não poderemos
colher todos os frutos que esperamos, mas ao menos teremos feito a propaganda
de um conceito que é inseparável da idéia de anar-quia,
teremos lançado sementes que, mais dia menos dia, germinarão.
A propaganda pela orga-nização dos anarquistas se imporá
pela necessidade das coisas; e será mérito desta propaganda
se a organização surgida for a nossa e não uma
mercadoria avariada que nos seria legada por nossos adversários.
O ridículo com o qual tentam nos cobrir cairá conseqüentemente
no vazio. Nós já sabemos que, enquanto existir a sociedade
burguesa, nossas tentativas não vingarão ou continuarão
imperfeitas, mas tal convicção não nos faz renunciar
à "propaganda pelo fato".
No fundo o que é a luta revolucionária senão uma
série de inumeráveis tentati-vas, das quais apenas uma,
a derradeira, tem sucesso? Quem teria vencido se não houvessem
os fracassos antecedentes? Da mesma forma, no que tange à organização,
tentaremos com todas as nossas forças obter sucesso; cada derrota
nos aproximará da vitória, mas em cada vez fare-mos com
que nossa tentativa seja melhor e que tenha um resultado menos imperfeito.
Isto será mil vezes mais útil para formar consciências
que a predicação doutrinária sómente.
Por outro lado, aqueles que se declaram inimigos da organização,
o são geral-mente porque sentem-se incapazes da solidariedade
libertária e no fundo não sabem sair deste dilema: comandar
ou serem comandados. Não possuem a consciência "libertária"
e portanto não vêem teoricamente outra garantia para a
liberdade individual senão o isolamento, a ausên-cia de
qualquer pacto e de qualquer vínculo livremente aceitos. Na prática
são êles que querem dirigir o movimento e à primeira
tentativa de alguém para subtrair-se de suas diretivas, ao primeiro
sinal de independência daquele que obstina-se a pensar e a agir
à sua maneira, logo se verá tais indivíduos lançarem
excomunhões, gritar por incoerência e traição
e afirmar que a-quele que não age e não pensa como eles
não é anarquista. Assim fizeram os padres de todos os
tempos e de todas as religiões. Alguém de boa fé
se ergueria mais contra a forma do que contra a substância.
Eles não querem a organização mas falam de acordo,
de entendimento, de livre pacto e de associação! Não
nos ocuparemos destas questões terminológicas e nos limitaremos
a relembrar,de uma vez por todas, que organização não
significa nem autoridade, nem governo, nem vexação, mas
apenas : associação harmoniosa dos elementos do corpo
social.
Como queremos que todos os homens, um dia, estejam associados harmoni-camente,
preconizamos hoje, na luta pela preparação de um tal futuro,
a associação harmonio-sa dos anarquistas. A organização
é um meio para atingir este fim, e um meio mais condizente com
as finalidades sociológicas do anarquismo.
*
* *
Não
perderei muito tempo demonstrando como, em linhas gerais, a organiza-ção
libertária é uma necessidade. Já mostrei, em outro
lugar, que a organização, longe de limi-tar a liberdade
individual, a estende e a torna verdadeiramente possível, pois
ela oferece ao in-divíduo uma soma maior de forças para
vencer obstáculos e para melhorar, forças estas que faltariam
a cada indivíduo tomado isoladamente.
"A maior satisfação possível de seu eu - dizia
eu então - o maior bem estar material e moral , a maior liberdade
são possíveis somente quando um homem estiver ligado ao
outro pelo pacto de ajuda mútua. Um homem de acordo com a sociedade
é sempre mais livre que um homem em luta contra a sociedade.
Os anarquistas combatem a organização social atual justamente
porque ela impe-de a existência de uma sociedade relativamente
útil a todos os indivíduos e trabalham para que a so-ciedade
inteira não seja mais regulada pela luta a mais encarniçada
e feroz, sobre a exploração e so-bre a violência
tirânica do homem sobre o homem.
Podemos nos rebelar contra esta má organização
da sociedade, mas não contra a sociedade em si, como pretendem
alguns individualistas. A sociedade não é um mito, nem
uma idéia, nem um órgão pré-ordenado e feito
por alguém, para que seja possível não reconhecê-la
e tentar destruí-la. Ela nem mesmo é - como nos acusam
de pensar os stirnerianos - uma coisa superior aos indivíduos
e à qual é necessário fazer o sacrifício
do seu eu como diante de um fetiche. A sociedade é simplesmente
um fato do qual nós somos os atores naturais e que existe na
medida em que lá estamos. A socieda-de é o conjunto dos
indivíduos vivos e cada indivíduo é, por sua vez,
tal qual as influências externas, sem excluir as sociais, o formam.
Tudo isso é um fato natural, ligado à vida universal do
cosmos. Rebelar-se contra este fato é rebelar-se contra a vida
: morrer. Cada indivíduo existe na medida em que ele é
o fruto material, moral e intelectual da união de outros indivíduos;
êle sómente pode continuar vivo, sómente pode ser
livre, sómente pode desenvolver-se fisicamente com a condição
de viver em sociedade."
Muitos nos objetam que o homem é egoísta e que sempre
é o egoísmo que im-pele o homem a agir, mesmo quando,
aparentemente, os pensamentos e ações são altruístas.
Negando o altruísmo, estes opositores chegam logicamente a negar
o espírito de solidariedade e de associação.
Não há nada mais perigoso, de certo modo e especialmente
para cérebros pou-co refletidos, do que se apossar da lógica
e levá-la às últimas conseqüências à
partir de um princípio dado. Isto vale especialmente quando,
à partir do mesmo princípio, pode-se chegar a conclusões
absolutamente opostas. Ocorre muitas vezes que, construindo teorias
mais ou me-nos justas no seu ponto de partida, ao evoluir com a lógica
cheguemos a um ponto ao qual não esperávamos ou não
queríamos chegar. Isto acontece especialmente quando tratamos
com doutrinas abstratas, abandonando completamente o campo experimental
dos fatos.
Isto acontece de fato com muitos anarquistas individualistas de todos
os mati-zes, desde o individualismo stirneriano anti-socialista até
o individualista comunista anti-organizador.
Conduzidos pela lógica abstrata, estes camaradas chegam a perder
de vista o interesse da propaganda anarquista e revolucionária.
Eles isolam-se da sociedade ao ponto de não mais poder exercer
sobre ela influência alguma e isso eqüivale a condenar nossa
idéia a permanecer perpetuamente no estágio de utopia.
Se, ao pretender para cada ato de propaganda ou de ação
revolucionária a coerência absoluta com o princípio
abstrato da anarquia ou de sua própria interpretação
deste princípio, se (e esta talvez seja a razão mais verossímil)
diante da inegável dificuldade de se agir libertáriamente,
afastarmos toda a forma de ação na qual tal di-ficuldade
seja a mais forte, acabaríamos por fazer muito pouco ou nada
- exatamente como Orígenes que, para se manter puro (ou antes
porque não possuía forças para assim se manter)
decepou seus órgãos sexuais.Toda a ação
anarquista assim concebida acaba por se limitar à parte crítica
da obra de outrem , à propaganda teórica - muitas vezes
caótica e cheia de con-tradições - e a algum ato
isolado de rebelião que, na melhor das hipóteses contém
justamente o êrro de exigir um esforço muito grande para
poder ocorrer e assim exercer alguma influência visível
sobre os acontecimentos.
De resto, tanto a propaganda teórica quanto a propaganda pelo
fato ( não ne-go a utilidade desta última) podem ser úteis,
mas tal propaganda, de forma unicamente indivi-dual não basta.
Para que a propaganda teórica seja mais eficaz é preciso
que ela esteja coorde-nada; para que o fato seja mais útil, é
preciso que êle seja meditado e razoável.
É verdade que um gênio ou um herói fazem mais propaganda
ou desenvolvem mais energia sozinhos que muitos medíocres. Mas
o mundo é feito de medíocres e não de gê-nios
ou heróis; seria ótimo se um gênio ou um herói
brotassem entre nós, mas enquanto isso não ocorre nosso
dever é, se quisermos ser positivos e ter a segurança
de atingir nossa meta, contar igualmente e sobretudo com a ação
contínua e incansável da maioria. Mas a maioria é
uma força somente quando está unida; cada indivíduo
forma, completa ou afina a sua consci-ência na união. Não
nos esqueçamos que os gênios e os heróis podem também
se enganar, e quando isto ocorre fazem mais mal que os outros. Existem,
além disso, formas de atividade necessárias para as quais
o trabalho de um só, mesmo que seja excepcional, não basta
e que ne-cessitam da cooperação de muitos, atividades
para as quais muitas vezes um gênio ou um he-rói não
sabe se dobrar. A cooperação, a organização
com base em uma idéia e um método li-vremente aceitos
e que não excluam os melhores mas sim que os pressuponham, são
métodos que muitos anarquistas de tendência individualista
negam. Eles os negam somente porque, ou de acordo com os adoradores
do Estado, não crêem possível organização
alguma sem autori-dade, ou talvez porque não tenham a coragem
de afrontar a dificuldade de começar a ser anar-quista organizando-se
em bases anarquistas, por temer as primeiras e inevitáveis quedas.
Quando uma criança apreende a andar, ela começa por cair,
mas isso não é ra-zão suficiente para se sustentar
que a marcha é nociva e que tem por conseqüência quebrar
a cabeça. Os anarquistas que chegam à afirmação
individualista e à negação da organização
pen-sam, ao contrário, desta forma: que à partir do momento
em que nos organizamos poderemos cair e cairemos fatalmente no êrro
ou na incoerência.
Negando-se a organização, nega-se no fundo a possibilidade
de vida social e também da vida em anarquia. Dizer que a negamos
somente hoje nada significa, pois negá-la hoje implica em suprimir
o meio de prepará-la para o amanhã. De resto, neste terreno
a lógica continua a pregar-nos as suas peças. Quando se
nega a organização operária, alguém já
come-çou a negar a possibilidade de uma organização
comunal na sociedade futura. Simplesmente porque não se consegue
perceber, dentro deste mesmo êrro de óptica, que a comuna
do futu-ro, formada pelo complexo de organizações livremente
federadas, seja distinta do mir patriarcal russo, que ela poderá
também possuir suas assembléias de discussão dos
interesses da comuni-dade, mas que não herdará necessariamente
todo o caráter autoritário, de violência impositiva
deste último, que tal comuna não será em nada semelhante
a tais comunas burocráticas de ho-je, com seus impostos, seus
guardas municipais, seus guardas florestais e seu prefeito nomeado pela
monarquia.
A questão de que o homem é egoísta e que isto basta
para negar a associação apoia-se em uma interpretação
absurda de um conceito verdadeiro. Sim, todos os homens são egoístas,
mas de modo diferente. O homem que tira o pão da boca para alimentar
o seu seme-lhante é um egoísta na medida em que ele interiormente
sente, sacrificando-se, uma satisfação maior do que a
de comer tudo sozinho, sem nada dar ao outro. Isso acontece igualmente
com relação aos outros sacrifícios, mesmo os mais
sublimes que a história nos lembra. Mas a satis-fação
do explorador burguês, que faz com que seus operários morram
de fome, ao invés de lhes sacrificar uma única noite de
teatro, também é egoísmo.
Um e outro são egoísmo, mas - cáspite! - ninguém
negará que são egoísmos distintos um do outro.
Tal diferença encontrou sua expressão na linguagem humana,
que bati-zou a forma mais nobre de egoísmo com o nome altruísmo.
Este altruísmo é uma manifestação da solidariedade
humana, que responde à necessidade de ajuda mútua - existente
entre os homens, assim como em várias outras socieda-des animais.
Existem individualistas que não negam a solidariedade, mas negam
a organiza-ção, que é um meio de manifestar e de
exercer a solidariedade. A solidariedade é um sentimen-to e a
organização o fato que corresponde a este sentimento;
o fato pelo qual a solidariedade torna-se o elemento ativo da revolução
nas consciências e nos eventos.
A solidariedade é um licor cheio de força e aroma que
tem a necessidade de um vaso para contê-lo para que não
se perca, espalhando-se inutilmente e evaporando.
Este vaso, esta forma, esta explicação da solidariedade,
é a organização libertá-ria, aonde as consciências
não apenas não se deterioram, mas sim se completam quando
não são bem formadas, ou quando o são nela se refinam.
A organização não significa - repito - uma diminuição
do eu, mas sim a possibilidade para este de atingir, com a ajuda dos
outros, o má-ximo de suas satisfações. Ela não
significa a compressão ou a violação do egoísmo
natural dos indivíduos, mas sim o seu contentamento, o seu enobrecimento,
de modo a provocar no indi-víduo um gozo que tenha a necessidade
do bem do outro e não do mal.
Como se denomina tal forma de egoísmo na linguagem natural de
altruísmo , para distingui-la da outra espécie brutal
, hoje presente em nossa sociedade de patrão e de es-cravos,
de governo e súditos, e que consiste na satisfação
de si mesmo em detrimento de todos os outros sem critério algum
de proporção e de relatividade, e sem fazer uso de tantos
sofis-mas ou de finezas filosóficas, concluo que o altruísmo
é alguma coisa de positivo e de concreto que é formado
e que existe no homem.
Esta divagação doutrinária foi necessária
para que eu pudesse demonstrar co-mo esta questão da organização,
não apenas pelo lado do método mas também por sua
fina-lidade, enlaça-se e conforma-se com a idéia mãe
do anarquismo; para que se compreenda que a divisão que existe
neste ponto entre os anarquistas é muito mais profunda do que
o que normalmente se acredita, e que supõe igualmente uma inconciliável
discordância teórica.
Digo isto para responder aos meus bons amigos , favoráveis a
um acordo a qualquer preço, que afirmam: "Não criemos
problemas de método! A idéia é uma só e
a meta é a mes-ma; permaneçamos pois unidos sem nos rasgarmos
por um pequeno desacordo sobre a tática". Eu, ao con-trário,
dei-me conta há muito tempo atrás, que nos dilaceramos
justamente porque estamos muito próximos, por que estamos artificialmente
próximos. Sob o verniz aparente da comuni-dade de três
ou quatro idéias - abolição do Estado, abolição
da propriedade privada, revolu-ção, antiparlamentarismo
- existe uma diferença enorme na concepção de cada
uma destas a-firmações teóricas. A diferença
é de tal monta que nos impede de tomarmos o mesmo caminho sem
querelarmo-nos e sem neutralizar reciprocamente o nosso trabalho ou,
se assim quiser-mos, permanecer em paz sem renunciarmos àquilo
que acreditamos ser verdadeiro. Repito : não existe apenas uma
diferença de método, mas sim uma grande diferença
de idéias.
Muitos objetam serem apenas adversários da organização
na sociedade atual, pois consideram tal organização impossível,
no sentido verdadeiramente libertário, antes da revolução.
Mas esquecem que a revolução não virá por
si mesma como um maná do céu, em virtude apenas das trombetas
de Jericó da propaganda teórica tão somente e nem
ao menos virá como decorrência do estampido de uma bomba
isolada. Eles esquecem que, depois da re-volução, a anarquia
não brotará por si mesma como um cogumelo após
a chuva, se não encon-trar organismos adaptados para responder
à necessidade da vida social e que substituam os ve-lhos organismos
abatidos. É até mesmo possível que, dada a ausência
de organismos libertá-rios, a necessidade de viver sugira aos
homens a necessidade de restabelecer organizações auto-ritárias.
Mas os inimigos da organização negligenciam sobretudo
- como negligenciam muitas vezes os seus amigos - de considerar a questão
do ponto de vista da preparação revolu-cionária.
Certamente, aqueles que meteram na cabeça a idéia de que
as revoluções não são feitas pelos homens,
mas sim que ocorrem naturalmente,como os cataclismos e os terremo-tos
, podem ser contrários a toda organização e contentar-se
com a propaganda verbal e escrita ou com algum belo gesto isolado a
cada dois ou três anos. Ora, reconhece-se atualmente que as idéias
avançam com os homens e que as revoluções são
geradas pelo seu pensamento e rea-lizadas por seus braços, mas
que também são elas provocadas por fatores sociais e econômicos
tornados inevitáveis pelo encandeamento de efeitos cujas causas
remontam às épocas bem an-teriores à nossa.
Uma revolução artificial, feita em proveito de um partido
ou de uma única classe seria inevitavelmente votada ao fiasco,
se não se voltasse para interesses mais gerais ou se não
supusesse condições favoráveis à uma reviravolta
cuja necessidade fosse sentida mais uni-versalmente.
Sabe-se que a questão social assume atualmente o aspecto quase
exclusivo do problema operário e a ele é preciso consagrar
todas as forças para realmente sublevar o mun-do, buscando sempre
não desviar pelas sendas da política, do intelectualismo
ou do esporte revolucionário e libertário. Isto não
nega o fato de que, para que se resolva a questão operária,
para que também se resolva, conjunta e integralmente, a questão
do pão e da liberdade - sem que caiamos miseravelmente no egoísmo
de classe que é o produtor do reformismo - não se deva
considerar esta questão sobre o prisma o mais amplo possível.
É preciso demonstrar que a emancipação do proletariado
do monopólio capi-talista, depende também da resolução
da liberdade individual do homem e de todos os pro-blemas que oprimem
a consciência contemporânea.
É preciso também que os interessados nesta sublevação,
os proletários, tor-nem-se conscientes de seus direitos, das
necessidades e da força que têm em suas mãos, desde
que assim o queiram. Para que se crie uma atmosfera revolucionária,
é preciso que os traba-lhadores se ressintam da privação
enorme na qual vivem, que não permaneçam numa atitude
de descaso e numa resignação muçulmana. É
preciso igualmente que eles tenham uma visão rela-tivamente clara
do remédio necessário ao mal que padecem e sobretudo é
preciso uma concep-ção nítida e precisa sobre o
modo de destruir e abater a atual ordem das coisas. Devemos nos ocupar
, antes de mais nada, em formar esta consciência no proletariado
e o meio mais eficaz para tanto continua sendo a propaganda, isto é,
o exercício contínuo da luta contra o capital e o Estado.
Mas é preciso também preparar os meios para derrubar o
capital e o Estado e eis o ponto aonde se apresenta a necessidade da
organização revolucionária.O primeiro meio, o mais
importante, é a união - não caótica, irregular,
local e fragmentada - mas sim constante e contínua no tempo e
no espaço.
Aqueles que não toleram este vínculo moral que resulta
do compromisso as-sumido de auxiliarmo-nos reciprocamente para um dado
fim, dirão que isto diminui a sua au-tonomia individual, e isto
pode ocorrer. Mas a liberdade e a autonomia absolutas são conceitos
abstratos; deveremos retornar aos fatos, àquilo que queremos
realmente e o que podemos ob-ter desta autonomia e liberdade.
A autoridade contra a qual combatemos - a do padre, a do patrão,
a do policia l- bem merece, para que dela nos desembaraçemos,
que façamos um mínimo de sacrifício vo-luntário
de nosso orgulho individual, para que possamos trabalhar com os outros
e nos li-vrarmos da dominação burguesa e estatal, mesmo
com aqueles que não tenham a nossa força e consciência,
tão duramente formada.
Não sei se a humanidade conseguirá ser um dia um conjunto
de indivíduos tão livres um do outro que não dependam
reciprocamente por qualquer tipo de interesses materi-ais ou morais.
É certo entretanto que a meta da revolução social
e libertária que se anuncia, e cujo advento desejamos, não
será outra, pelo momento, senão a emancipação
do proletariado do privilégio do monopólio capitalista
e do jugo de todos os indivíduos que detêm a autorida-de
coercitiva e violenta do homem sobre o homem.
Para realizar tal tarefa, temos que lutar contra forças formidáveis:
a coalizão dos patrões apoiada pelos padres, a burocracia,
o exército, a magistratura e a polícia. Para combater
tais forças, para destruir todas estas pavorosas engrenagens
maculadas de sangue da máquina capitalista autoritária,
é bom unir os oprimidos em um pacto mútuo e solidário,
vo-luntariamente aceito ( para aqueles que não toleram vínculos),
por uma disciplina moral.
Não basta que os homens estejam conscientes de seus direitos
e necessidades e que saibam qual é o meio para reinvindicá-los;
é preciso que todos estejam em condições de adotar
estes meios de reivindicação.
A vontade dos revolucionários toma neste ponto toda a sua importância.
Uma revolução de inconscientes seria quase inútil;
mas a consciência das necessidades e dos direitos por sua vez
também permanece quase tão inútil, tanto na coletividade
quanto nos indivíduos, se não existir a força e
a vontade de agir, de colocar em prática aquilo que se apreendeu
em te-oria. Eis porque é preciso unir-se e organizar-se: primeiro
para discutir, depois para reunir os meios para a revolução,
e finalmente para formar um todo orgânico que, armado com seus
meios e fortalecido por sua união possa, quando soar o momento
histórico, varrer do mundo todas as aberrações
e todas as tiranias da religião, do capital e do Estado.
*
* *
"A
organização que os socialistas anarquistas defendem não
é naturalmente a organização autoritária
que vai da Igreja católica à Igreja marxista, mas sim
a organização libertária, voluntária, de
nu-merosas unidades individuais, associadas com vistas a uma meta comum
e que empregam um ou vários méto-dos considerados bons
e livremente aceitos por cada um dos membros. Uma tal organização
é impossível , se os indivíduos que a compõem
não estão habituados à liberdade e não estejam
desembaraçados de preconceitos au-toritários. Ë necessário,
por outro lado, estar organizados , para se tentar viver livremente
associados..." , is-so para se habituar ao uso da liberdade.
Assim , a necessidade de organização permanece. Por organização,
entendemos a união dos anarquistas em grupos e a união
federal dos grupos entre si, sobre a base de idéias comuns e
de um trabalho prático comum à realizar. Tal organização,
deixará naturalmente a autonomia dos indivíduos nos grupos
e dos grupos na federação, com plena liberdade dos grupos
e federações para se formarem segundo as oportunidades
e circunstâncias, por ofício, por bairro, por província
ou por região, por nacionalidade ou por língua, etc.
A organização federal assim concebida, sem órgãos
centrais e sem autoridade é útil e necessária.
Útil simplesmente porque a união faz a força; necessária
porque...Nos esfor-çaremos por dar outras razões, além
das já enunciadas, sem entretanto ter a pretensão de ter
enunciado a todas.
Existem tantas pessoas que se dizem anarquistas no mundo, batiza-se
de anar-quia tantas idéias nos dias de hoje, tantas opiniões
e táticas diferentes, que impõe-se a quem luta alguma
escolha para saber quem são aqueles que possuem aspirações
comuns às suas, pois alguns, embora dizendo-se anarquistas, têm
idéias totalmente opostas . Se alguns seguem uma via totalmente
contrária à nossa e utilizam meios de luta que são
contraditórios, neutralizantes e destrutores dos efeitos que
obtivemos, tais diversidades e contradições dependem dos
signi-ficados e de interpretações diferentes, muitas vezes
completamente opostas, que são dadas ao termo anarquia .
Ora, se tivéssemos tratando de pura academia cientifica e filosófica,
não have-ria necessidade de tanto se diferenciar nas formas e
de tanto separar grupos. Nem ao menos e-xistiria a necessidade de agruparmo-nos.
Mas o anarquismo, em minha opinião e , segundo creio, na opinião
de muitos outros, se ele é na teoria uma tendência cientifica
e filosófica, uma doutrina especulativa, ele se quer igualmente
na prática um movimento humano de luta e de revolução.
Um movimento que possui meios definidos de ação e que
fixou como ponto de partida algumas verdades dadas em torno das quais
concordam todos aqueles que atuam neste sentido. Pois bem, como será
possível anunciar um movimento enérgico e resoluto se
nós que acreditamos estar mais que os outros na posse da verdade
e que nos parece ser nosso dever propor bons métodos revolucionários
para se avançar para a integral liberdade da anarquia, como faríamos
nós se não nos reuníssemos, não nos organizássemos
de maneira alguma de modo que a obra de alguns não fosse contraditada
e neutralizada pela de outros? Como pode-ríamos mesmo saber quem,
muito embora dizendo-se anarquista está conosco e quem está
contra nós?
Se quisermos nos mexer, se quisermos fazer alguma coisa a mais do que
aquilo que o isolamento permite a cada um de nos deveremos saber com
quais dos ditos camaradas, podemos estar de acordo e com quais estamos
em desacordo. Isto é especialmente necessário quando falamos
de ação, de movimento, de métodos com os quais
é preciso trabalhar com muitas mãos para conseguirmos
obter alguns resultados que caminhem em nossa direção.
Visto que existem iniciativas, movimentos e ações que
não são possíveis sem o concurso de inúmeros
indivíduos, de legiões ou de nações inteiras,
eis que aparece a necessida-de da organização não
apenas entre indivíduos ou grupos de uma mesma cidade mas também
entre grupos de uma cidade e de outra e - porque não? - entre
grupos de diferentes nações.
A necessidade de se diferenciar, organizando-se entre anarquistas que
têm formas e métodos de luta coletiva e de propaganda em
comum, impõe-se também pela clareza das idéias
diante dos adversários. Enquanto permitirmos que nos tomem todos
em bloco sob a denominação comum de anarquistas, será
sempre permissível que nos inquiram qual é a nossa anarquia.
Existem aqueles que dizem ser ela uma escola do socialismo e outros
que, ao contrá-rio, a batizam como sua negação;
há os que nela buscam o triunfo do indivíduo contra a
hu-manidade e que a interpretam como uma luta contínua dentibus
et rostius entre os homens e há quem a interprete como a solidariedade
humana por excelência.
As piores extravagâncias desenvolveram-se como a quintessencia
da filosofia anarquista; alguém mesmo afirmou, recentemente,
a função social útil do delito em anarquia ...
Não temos pretensões à infalibilidade; poderemos
até mesmo estar errados, mas cremos entretanto estar com a razão
e, enquanto pensarmos estar com a razão, buscare-mos fazer com
que nossa idéia não seja tomada pelo contrário
do que ela é. Temos muita difi-culdade em reunir nossos parcos
recursos para fazer a propaganda na qual acreditamos e recu-samo-nos
a apoiar aquela que consideramos nociva.
Nem mesmo remotamente queremos nos solidarizar com idéias e métodos
que não são os nossos e, conseqüentemente, desejamos
evitar a confusão que nos une indiscrimi-nadamente e que torna
a nossa propaganda caótica, contraditória e sem resultado.
Parece que as diferentes interpretações da anarquia reconhecem-se
nos méto-dos e nas vias de fato, elas também são
bastante distintas e contraditórias e algumas de tal for-ma anti-sociais
e antilibertárias, que fazem mais obstáculo à nossa
propaganda que a mais fe-roz das reações.
Vós, que sois partidários da organização
sindical, por exemplo, fareis uma con-ferência para aconselhar
aos operários que se organizem! Pois bem, no mesmo local em que
fa-lastes a favor da organização, da greve geral, da agitação
revolucionária pelas oito horas em nome da anarquia, ouvireis
amanhã alguém que virá dizer que a organização
operária é um emplastro inútil, que a greve geral
é uma utopia ou um conto da carochinha, que a conquista das oito
horas é uma reforminha indigna de ser defendida por autênticos
revolucionários; tu-do aquilo enfim, que muitas vezes li em jornais
anarquistas de tendência anti-organizativa.
Tentai escrever para exprimir a vossa opinião ao jornal e no
próximo número, vereis um outro que a contradirá
completamente e, se não tiveres a sorte de ser o manipulador
supremo do jornal, não tereis por vezes nem mesmo a liberdade
necessária para discutir.
Mas depois, mesmo que possais discutir livremente, conseguireis apenas
um bom debate acadêmico, pois não podereis agir e nem reunir
em vosso entorno para a ação a-queles que aprovam a vossa
idéia, talvez nem consigais ver aprovada a vossa idéia
pelo número indispensável de pessoas. É preciso
que vos diferencieis, que vos associeis com aqueles com os quais estejais
de acordo, dizendo: "Pronto! Somos anarquistas que querem fazer
isso e aquilo, e que sobre tal ponto pensamos assim ou assado. Ponhamo-nos
à obra, pois".
É preciso não esquecer que a organização
é um meio de se diferenciar, de se precisar um programa de idéias
e de métodos estabelecidos, um tipo de bandeira de reunião
para se partir ao combate sabendo-se com quem se pode contar e tendo-se
consciência da força que se pode dispor.
As formas desta organização importam menos; o nome é
por vezes a única di-ferença que distingue a organização
inconfessa daqueles que dizem não estar organizados. As-sumimos
o nome porque ele precisa a nossa idéia e as nossas proposições,
porque ele possui o valor de um programa. Dizemos , por exemplo, partido
anarquista, entendendo simplesmente por isso o conjunto de todos aqueles
que combatem pela anarquia. Quando dizemos federação socialista-anarquista,
pensamos na união preestabelecida dos indivíduos e grupos
aderentes que, em determinada localidade, puserem-se de acordo em torno
de um programa de idéias e méto-dos.
É curioso que seja justamente este termo federação,
mais do que o termo genéri-co partido, que provoque disputas;
nós o escolhemos justamente porque ele implica (como era também
a intenção de Bakunin) o conceito de organização
decentralizada, de baixo para cima, ou melhor ( posto que não
deve haver nem baixo e nem alto) do simples ao composto. Nós
dizemos precisamente nos federar por que este termo já vem adquirindo
um significado oposto e negativo com relação à
centralização. Em um sentido muito mais relativo, por
exem-plo,existem republicanos federalistas em oposição
aos republicanos unitários.
Nós anarquistas que, em alguns locais como em Roma, temos nos
organizado, formulamos um programa. Todos aqueles que o aceitam formam
a organização cujo programa foi assim auto-estabelecido,
sejam eles grupos ou indivíduos; cada grupo e cada federação
de-cide, através de sua correspondência, dos jornais, dos
congressos, etc. a maneira pela qual con-cordam para desenvolver a ação
comum, as formas de organização federal e os grupos e
moda-lidades internas. Um grupo ou uma federação poderão
exagerar em certos formalismos e, mesmo que alguns êrros sejam
cometidos, serão tais que, mesmos aqueles contrários à
organi-zação e que se unem somente uma vez com vistas
à uma ação , podem também cometê-los.
Achamos necessário que nos ponhamos francamente em marcha por
um cami-nho bem definido, com nossos meios e assumindo a responsabilidade
de nossas ações, de mo-do que aquilo que façamos
não seja destruído pelos outros. São muitos aqueles
que, tanto na propaganda teórica quanto na ação
dizem e fazem muitas idéias e coisas que não nos parecem
anarquistas, ou que ao menos , em nossa opinião, não são
úteis ao movimento, antes pelo contrário.
Aqueles que não se decidem a ficar conosco por medo de uma palavra,
embora agindo de acordo com nossa prática, e assim procedendo
apenas para não desagradar aqueles que,no fundo, são nossos
adversários, dão prova de fraqueza e perpetuam o equívoco.
Eles cobrem com sua bandeira e com sua boa intenção muita
mercadoria avariada. É então preferí-vel que eles
separem-se de nós.
Entretanto, organizar-se e diferenciar-se daqueles que, em algum ponto
essen-cial, não estão de acordo conosco na interpretação
do termo e dos métodos da anarquia, não significa que
pretendamos o monopólio do termo e do movimento anarquista ou
que queira-mos excluir quem quer que seja da grande família libertária.
Mas sermos todos da mesma famí-lia, não significa que
tenhamos todos as mesmas idéias e o mesmo temperamento, nem que
queiramos fazer a mesma coisa e que estejamos de acordo sobre tudo.
Na maioria das famílias é antes o contrário o que
ocorre.
Pode ocorrer que não apenas as idéias nos dividam na prática,
mas também que o temperamento atue um pouco e que ele determine
a união ou a desunião de alguns. Sin-to-me pessoalmente
bastante senhor de mim mesmo, quer dizer indivíduo o bastante
e me sinto mais forte quando tenho atrás, diante e ao meu lado
a solidariedade de outros. Não parece-me que me diminua quando
me enlace, em torno de um pacto mútuo, com meus companheiros
de jornada. Esta questão do temperamento reforça, em lugar
de enfraquecer, a minha tese. Se e-xistem correntes incapazes de permanecer
unidas por causa do temperamento, é melhor que cada um tome o
seu caminho e que elas se diferenciem.
Insisto em sustentar a necessidade da organização, mesmo
diante daqueles que, embora admitindo-a de fato e na prática,
a repelem na teoria e no nome. Estou convicto - e creio não me
enganar - que muitos daqueles que se dizem em desacordo conosco, o estão
mais nos termos do que nas idéias, mais na aparência do
que nos fatos. Eles são , em parte vítimas de uma ilusão;
seu medo do termo nada mais é que um indício de uma certa
contrariedade in-consciente e inconfessa com a substância.
*
* *
Mas
muitos camaradas, que tem mais medo do termo do que da substância,
sa-crificam uma à antipatia da outra. Eles dizem que não
é necessário fazer a organização, pois ela
existe já por si mesma.
É verdade, o homem que pensa e que luta é um ser sensível,
organizavel e or-ganizado por excelência. Assim , mesmo aqueles
companheiros que se dizem opostos à orga-nização
são , no fundo, organizados.
A diferença é que tal organização, não
tendo nome nem formas exteriores, pa-rece não existir e serve
para que possamos dizer: Vejam! Sem organização andamos
muito bem! Isto serve também para mascarar e para dissimular
aquilo que pode existir de pouco coe-rente com o conceito de autonomia
integral no funcionamento interno de uma tal organização.
Tais incoerências são inevitáveis na sociedade atual
e eu não me sirvo delas para combater o método anti-federalista,
mas apresso-me em observar que lá onde faltam as formas exteriores
da organização, falta também um meio importante
de controle, para verificar até que ponto tal organização
continua libertária. Quando, ao contrário, a organização
é visível, sua substância é denunciada pela
forma e ela se presta melhor à crítica: pode-se conseqüentemente
melhor combater e eliminar, na medida do possível,de seu seio
as manifestações anti-libertárias.
A organização consciente é útil porque ela
é o melhor meio - quando real e substancial e não apenas
formal - para impedir um indivíduo ou um grupo de concentrar
em si todo o trabalho de propaganda e de agitação, tornando-se
assim um árbitro do movimento.
Os não organizados, ou melhor, aqueles que estão organizados
sem o saber e que por isso se crêem mais autônomos que os
outros, têm maior probabilidade que os organi-zados, de serem
presas do conferencista que passa,do camarada mais ativo,do grupo mais
em-preendedor e do jornal mais bem feito. Eles são inconscientemente
organizados pelo confe-rencista,pelo agitador e pelo jornal. Enquanto
estes últimos fazem o seu trabalho , tudo corre bem, mas se eles
tomam uma direção falsa...boa noite! E antes que se perceba
passará um bom tempo. Os anarquistas que estão organizados,
ao contrário, sabendo já o que fazem pois as próprias
formas exteriores lhes relembram constantemente que estão associados
, que discutem do seu ponto de vista toda a proposição,
venha de onde venha, estão menos expostos à surpre-sas.
Justamente porque a união faz a força, eles podem opor
uma maior força de resistência às sugestões
dos camaradas mais inteligentes, mais simpáticos ou mais ativos.
Eles sabem organi-zar-se e é reconhecidamente mais difícil
manipular uma massa de pessoas conscientes de sua si-tuação,
do que uma numerosa quantidade de inconscientes.
Mas os organizados são homens também e nem todas as virtudes
da organiza-ção podem impedi-los de cair no erro. Na sociedade
atual, a perfeita coerência libertária de uma organização
é impossível ( aliás, mesmo em anarquia seria ela
possível?) . Eles também , em menor medida, oferecerão
flancos à crítica dos puros em teoria. Poderá ocorrer
que sua or-ganização assuma , vez por outra, aspectos
incoerentes, ou que produza algumas manifestações de centralismo
ou de autoritarismo.
Mas estes seus erros, ao contrário dos erros dos anti-organizadores
consistem em que o cisco que têm nos olhos esteja sempre imediatamente
visível, porque existe uma or-ganização pública,
enquanto que a trava que existe nos olhos dos outros não se vê
imediata-mente - o que não impede que isso provoque grandes danos
ao princípio da anarquia.
Nunca será demais insistir sobre esta verdade: a ausência
de organização visí-vel normal e aceite por cada
um de seus membros torna possível o estabelecimento de organi-zações
arbitrárias , menos libertárias ainda, que crêem
ter vencido todo o perigo do autorita-rismo apenas negando a sua essência.
Tais organizações inconscientes constituem um perigo maior
porque colocam o movimento anarquista à mercê e a serviço
dos mais hábeis e dos mais intrigantes.
Hoje , o conjunto dos anarquistas está desorganizado; esta desorganização
formal faz com que a massa dos camaradas submeta-se à dominação
intelectual incontrolada de um diretor de jornal ou de um conferencista...
Mesmo assim , isto é uma forma de organi-zação,
só que menos anarquista porque mais centralizada e mais pessoal.
Queremos de fato uma organização consciente que dependa
de nossa vontade,para não estarmos obrigados a nos submeter à
uma organização inconsciente e involuntária. Ten-tando
fazer triunfar algo de determinado e preciso, existe a necessidade de
organizar-se de fato e não apenas nominalmente, porque há
necessidade de quantidade e não somente de consciência.
Sermos nu-merosos em nada nos atrapalha... Não se pense porém
que queiramos colocar em antítese os termos consciência
e quantidade. Poderemos ser numerosos, mantendo nossa consciência,de
resto, mesmo se os conscientes forem pouco numerosos, ter o auxílio
dos menos conscientes não os tornará decerto inconscientes.
Isto sem contar com o fato de que os menos conscientes,em contacto com
os mais conscientes na organização, adquirem a consciência
que lhes falta, mais ou menos segundo a sua inteligência e boa
vontade.Mesmo quando não se está organizado, não
ocorre igualmente que muitos inconscientes sejam atraídos para
a órbita da ação por al-gum grupo ou indivíduo
mais simpático, inteligente ou ativo? A diferença , neste
caso é so-mente a de que muitos daqueles que poderiam ser atraídos
para o terreno da luta, para auxiliá-la e em seguida tornar-se
conscientes da ausência de organização, são
deixados na obscuridade e na inércia...
Mas entendamo-nos bem sobre esta bendita consciência!
"Se nos dizem: ou vossa organização reúne
conscientes, sendo então inútil ( e-xiste um erro, mas
deixemos de lado) ou ela reúne inconscientes e então é
perigosa porque desvia-se e torna-se centralizada e autoritária",
etc.
Lembremo-nos primeiramente que se aqueles que se dizem anti-organizadores,
na prática são obrigados a organizar-se, se não
querem isolar-se da vida e da luta; a objeção va-le também
para aqueles que usam a organização. Mas o dilema acima
é uma falsa objeção. Não existem conscientes
ou inconscientes de maneira absoluta; a consciência é uma
coisa relativa e multiforme. Existem os mais conscientes e os menos
conscientes; e entre o absoluto (inexistente, ali-ás) da consciência/virtude
e da inconsciência/vício, existe uma escala de gradações
tão longa quanto a escada de Jacó. Alguém pode
ser desta forma um revolucionário consciente e um a-narquista
pouco coerente ao mesmo tempo; ao passo que um anarquista coerente até
o escrú-pulo carola pode tornar-se diretamente a própria
negação de um revolucionário. Não obstante,
tanto um quanto o outro são úteis para a anarquia.
De resto, se alguns destes ditos inconscientes aceitam permanecer em
uma or-ganização anarquista e nos auxiliam na luta, isto
será sempre melhor e sempre nos trará mais ganho do que
a hipótese contrária; de qualquer forma, estes serão
mais conscientes do que a-queles que permanecem no obscurantismo e jazem
na inação, o que, pior ainda, militam contra nós
como força bruta nas mãos do padre ou do delegado de polícia.
Se a organização servisse apenas para criar número
(e ela, ao contrário, serve para fazer muitas outra coisas) -
mesmo sem ter em conta a cultura que difunde, o conhecimento de idéias
que o contato contínuo com os organizados permite aumentar -
mesmo que se tratassem só de números, dizíamos,
ela ainda seria útil como fator de consciência individual
e coletiva.
Mas, a propaganda determinada pelos anarquistas organizadores é
também uma forma de manifestação para preparar
a sociedade futura: trata-se de uma colaboração com a
finalidade de constituir um jeito de influenciar o meio ambiente e de
modificar as suas con-dições. Outros também trabalham
de acordo com a mesma obra. Nós queremos trabalhar da maneira
que acreditamos seja a mais eficaz, escolhemos assim certas formas de
luta que estão mais conforme à nossa maneira de ver e
até mesmo ao nosso temperamento, se assim se quiser. De qualquer
forma este seria apenas um modo, como outro qualquer, da divisão
de trabalho.
Justamente, por contribuir mais poderosamente para a formação
de um meio livre, por in-fluenciar o proletariado e por lançá-lo
na luta contra o capital da maneira, a mais proveitosa e orgânica,
nós, que temos uma concepção especial da luta e
do movimento, pretendemos doravante colo-carmo-nos em acordo sobre o
modo que, sem desperdiçar nossas forças, possamos dar
uma tal contribuição e exercer tal influência.
Se isso atrair o proletariado para as nossas fileiras, para nosso partido,
melhor; isto significa que soubemos fazer bem a propaganda e que soubemos
nos aproximar da revo-lução e do triunfo da anarquia.
A organização anarquista deve ser a continuação
de nossos esforços e da nossa propaganda; ela deve ser a conselheira
libertária que nos guia em nossa ação de combate
coti-diano. Podemos nos basear em seu programa para difundir a nossa
ação em outros campos, em todas as organizações
especiais de luta particulares nas quais possamos penetrar e levar nossa
atividade e ação: por exemplo nos sindicatos, nas sociedades
anti-militaristas, nos agrupamen-tos anti-religiosos e anti-clericais,
etc. Nossa organização especial pode servir igualmente
como um terreno para a concentração anarquista (não
de centralização!), como um campo de acordo, de entendimento
e de solidariedade a mais completa possível entre nós.
Quanto mais estiver-mos unidos menor será o perigo de que sejamos
arrastados nas incoerências ou, que desviemos nosso ímpeto
de luta para batalhas e escaramuças aonde, outros que não
estão de forma algu-ma de acordo conosco, poderiam cortar-nos
as mãos.
E se nossa organização chegar a ser assim, não
somente de nome mas também de fato, se ela conseguir estabelecer
vínculos sólidos e seguros de amizade e de camaradagem
entre todos os anarquistas e se obtiver o seu acordo ativo sobre os
principais postulados de nosso programa, então tal organização
será um órgão poderoso e útil para a ação,
depois de ter sido um instrumento de preparação. Uma organização
adaptada a tal finalidade não se impro-visa. Não podemos
esperar vê-la surgir dos eventos ao invés de prevê-los,
agindo assim corre-mos dois riscos: ou nos vemos na obrigação
de subitamente nos colocarmos de acordo sobre bases pouco seguras e
pouco libertárias, ou nos deixaremos surpreender (o que infelizmente
é o caso mais provável) como tolos pelos próprios
eventos.
*
* *
Uma das objeções mais freqüentes ao conceito de organização
não apenas local mas também regional e nacional, realizada
através do método federalista é a de que ela pode
nos fazer cair na incoerência com o conceito anti-autoritário
da anarquia.
Para mais uma vez falar desta coerência bendita é necessário
que tornemos preciso o seu conteúdo! Muitos são aqueles
que possuem a "coerência", que se torna tão elás-tica
ao ponto de ampliar-se ou restringir-se segundo aquele que a adapta.
Podemos aplicar muitas vezes aos anarquistas das diferentes frações,
parafrase-ando-a, a conhecida divisa que Ferrero atribui aos selvagens:
"aquilo que faço, eu e meus ami-gos, é coerente;
aquilo que fazem os que pensam diferentemente de mim é incoerente.
E dessa maneira podemos nos excomungar mutuamente até o infinito,
pois cada um saberá encontrar uma maneira de demonstrar que seu
adversário é incoerente com as idéias e que portanto
não é um bom anarquista". Isso é tanto mais
verdade quanto os princípios de anarquia que são tomados
por base variam de interpretação de indivíduo para
indivíduo e de um grupo para ou-tro.
O que significa esta coerência que se arbora a todo momento, especialmente
por aqueles que nada fazem, contra aqueles que gostam de mexer-se e
de agir?
Isto significa nada fazer na prática, que esteja em contradição
com a teoria. Uma proi-bição que, como se vê, os
individualistas são os primeiros a não reconhecer, eles
que se dizem escrupulosamente ou melhor literalmente partidários
do "faz o que queres" de Rabelais, mal digerido.
Para que exista coerência entre teoria e prática, é
preciso antes de mais nada que seja definido o programa teórico,
nos limites do qual a prática se apoie para não contradi-zê-lo.
E o nosso programa já foi muitas vezes dito e redito para que
nós aqui não nos esten-damos muito para falar dele.
A anarquia significa ausência de governo, ausência de qualquer
organização auto-ritária e violenta através
da qual, com violência ou ameaça de violência, obrigue-se
o homem a fazer aquilo que não quer e a não fazer aquilo
que quer. Ausência portanto não apenas de or-ganismo governamental,
cujas leis proíbem e/ou impõem fazer aquilo que os legisladores
es-tabeleceram, mas também ausência do patrão que
impõe a sua vontade dando ao seu bel prazer mais ou menos pão
aos estômagos dos proletários; ausência também
do padre que impele a todos a inclinar-se diante dele, impelindo especialmente
o povo a obedecer o governo e o pa-trão, com a violência
moral da religião (ameaça de uma violência terrível:
o inferno após a morte).
Ora, para ser incoerente com os princípios da anarquia em uma
organização de anarquistas, seria preciso que esta organização
se opusesse a um tal programa, criando em seu seio uma autoridade que
tivesse a autorização e a possibilidade de impor ao seus
associados, com a violência de sua vontade ou com a vontade da
maioria. Qualquer um vê que em nossas organizações
tal coisa é praticamente impossível, para não dizer
absolutamente impossível. Como querer que uma coletividade de
anarquistas autorize uma ou várias pessoas a impor a sua vontade?
Na hipótese absurda de que eles assim o quisessem (e então
ela não seria mais uma associação de anarquistas
pelo próprio fato de que estes últimos quiseram tal coisa),
onde conseguiriam um meio de constituir tal autoridade que pudesse constranger
com violência seus subordinados a fazer aquilo que não
querem?
O movimento revolucionário anarquista é uma luta contra
a manifestação vio-lenta e coercitiva da autoridade. E
os partidos nos quais tal coerção não se exerça
- e para que não se falsifiquem minhas palavras, entendo por
violência a violência material direta ou a ame-aça
de tal, contra quem o constrangimento se exerce - , tais partidos não
são autoritários na prática. Para sê-lo,
mesmo não possuindo organismos violentos, é preciso que
optem pela vio-lência deliberadamente, por programa e por princípio.
Por exemplo, o partido republicano, o partido socialista e numerosas
organiza-ções operárias são autoritárias
não porque verdadeiramente exerçam uma autoridade violenta,
não porque estejam organizados, mas simplesmente porque sua finalidade
é autoritária, suas idéias e seus programas admitem
ou até mesmo exigem como necessária a autoridade, seus
mé-todos de luta política apoiam-se, através do
legalismo e do parlamentarismo, na autoridade, na ação
dos governos e da sociedade burguesa.
Para os anarquistas tal coisa é impossível, do momento
em que uma insuperá-vel barreira os separa duplamente dos meios
governamentais e burgueses: a idéia anti-autoritária e
a prática intransigente, extra legal, anti-parlamentar e revolucionária.
Ocorre com as organizações aquilo que acontece com muitas
coisas. Já vimos degenerar os partidos políticos existentes
até hoje e alguns atribuem a razão disto ao fato de eles
serem organizados. Mais aí inverte-se a causa e o efeito. A organização
republicana, socia-lista e operária degenerou-se, em um sentido
autoritário e legalista pela simples razão de con-ter
em si o gérmen de tantos males. A própria idéia
de que sem autoridade nada pode subsistir, este gérmen, foi cultivada
intensamente com a prática legalista da participação
nas funções au-toritárias dos organismos estatais
e burgueses.
A organização anarquista possui um forte antídoto
contra este gérmen do au-toritarismo: a tática anti-parlamentar
e anti-legislativa, intransigente para com todos os orga-nismos governamentais.
É por isso que sou anti-parlamentarista intransigente, é
por isso que tantos anarquistas não cedem uma linha sequer -
sem pretexto algum de oportunismo ou utili-dade momentânea - eles
poderão enfraquecer um pouco, por outras razões, seu espírito
revo-lucionário, mas permanecerão sempre anarquistas na
alma e na palavra; e então o espírito revo-lucionário
ressurgirá pelo próprio impulso da idéia. Se a
sua organização tem como fundamen-to um programa que precise
a ação, não é possível que a idéia
se torne autoritária, porque ela não tem necessidade,
nem possibilidade, nem mesmo a oportunidade de tal transformação,
sem ter que renegar completamente a idéia, de toda a prática,
toda a história e mesmo o próprio termo anarquia.
Para assim fazê-lo, seria preciso deliberadamente e aprioristicamente
mudar to-talmente o caminho, dar as costas a teoria e o movimento e
dizer: não somos mais anarquistas.
A organização não é um órgão
consciente em si, que guie os seus membros; são estes membros
que a fazem segundo seus próprios critérios teóricos
e práticos. A organi-zação não pode transformar
anarquistas em não anarquistas, mas sim os anarquistas que mu-dando-se
a si mesmos podem transformar uma organização anarquista
em autoritária. Pois bem, enquanto os anarquistas estando organizados,
permaneçam anarquistas, conservando o ideal e continuando a fazer
a sua propaganda, e a perseguir a tática sustentada até
agora, o me-do de desvios e incoerência gerado apenas pelo fato
da organização, permanece irrealista e até mesmo
pueril.
Já disse que é preciso conceber a coerência com
as idéias de maneira relativa, que é preciso conceber
todas as coisas e idéias de maneira relativa, porque não
quero excluir, mesmo que isso me pareça impossível, a
possibilidade do erro.
Falando da abolição da autoridade e da liberdade, existem
alguns anarquistas que entendem por isso também a eliminação
da autoridade não coercitiva, da disciplina moral que surge da
necessidade de união de várias pessoas, no terreno de
um pacto recíproco de convivência e ajuda mútua.
Eles não pensam que a liberdade absoluta do homem não
existe, não conside-ram que ela seja uma coisa totalmente relativa
determinada por causas exteriores e submetidas a estas.
A liberdade é em suma a possibilidade de poder satisfazer todas
as nossas necessidades físicas e psíquicas e de não
suportar predominância alguma por parte dos outros. Tal liberdade
é impossí-vel sem organização.
E prestem atenção, não estou me referindo apenas
aos tempos felizes quando viveremos em anarquia! Quero dizer que, organizando-nos,
podemos mesmo hoje gozar de maior liberdade do que a que teríamos
se estivéssemos isolados. Unidos podemos melhor re-sistir à
dominação do patrão e do governo, unidos podemos
melhor satisfazer nossa necessi-dade de ação propagandística
e revolucionária, temos assim diante de nós um campo mais
vas-to de lutas e maiores meios à nossa disposição;
e isso não impede a cada um de nós de explicar a mesma
coisa e de exercer melhor as formas de atividade essencialmente individuais.
Quando afirmamos querer nos organizar, fixamos também o porquê
da nossa organização; esta deve servir para agir lá
aonde, isolados ou em pequeno número, a coisa fosse impossível
ou difícil. Naturalmente, quando a força de um só
basta, este, mesmo estando orga-nizado, atua por si sem recorrer aos
outros, porque suas forças lhe bastam. Da mesma forma o grupo
não recorre aos outros grupos federados para coisas que pode
realizar sozinho.
Toda organização libertária aparece na medida em
que há necessidade da uni-ão em grupo para realizar uma
dada meta; assim como, para realizar outras, é necessário
fede-rar grupos, e assim por diante.
Muitos nos objetam que toda coletividade é suscetível
de dividir-se em maioria e minoria, e que, em muitos casos a organização
fará com que a minoria deva submeter-se a maioria. Nós,
ao contrário, não admitimos dominações deste
tipo, e por isso não damos nem à maioria nem à
minoria o direito e os meios de poder se impor.
Certamente, uma divisão de pontos de vista e de opiniões
podem surgir. Se a discórdia brota das idéias e da tática
fundamental, é preciso que as duas partes se separem, pois elas
constituem, a partir de então, dois partidos distintos. Foi desta
forma que nós, anarquistas, quando a diferença apareceu
como irremediável e muito grande, separamo-nos dos socialistas
autoritários no seio da Internacional.
Ao contrário, se existem divisões sobre questões
de importância menor, que não dizem respeito ao movimento
e às idéias gerais, cada um pensa e atua, fora da organização,
à sua maneira, sem erguer obstáculos ao trabalho comum
da organização.
Mas, se for no próprio seio da organização que
o desacordo surgir, que a divi-são entre maioria e minoria aparecer
por questões secundárias, sobre modalidades práticas
ou sobre casos especiais, então não se pode acusar de
incoerência nenhuma parte nem outra; en-tão poderá
ocorrer com maior ou menor facilidade que a minoria se incline a fazer
conforme a maioria. Mas, como esta condescendência somente pode
ser voluntária, todo o caráter de auto-ridade e coerção
está ausente. Se o partido quer fazer um congresso e todos são
unânimes na vontade de se reunir com anarquistas do mundo inteiro,
se existe apenas uma diferença sobre o local da reunião,
uns propondo Roma e outros Paris por exemplo, é preciso que uns
ou ou-tros cedam. E naturalmente cederão, se neles for forte
a necessidade e o desejo de reunir-se; como é natural que sejam
os menos numerosos que cedam pois mesmo estes serão da opinião
de que é preferível, para a economia geral das forças,
que seja uma minoria e não uma maioria quem suporte um dado inconveniente.
É conhecido o fato de que os adversários da organização
federal, por oposição a nós, declarem-se autonomistas,
e denominem autônomos seus grupos; é bom lembrar, de uma
vez por todas, que todos somos autonomistas, quer dizer partidários
da autonomia individual nos grupos, da autonomia dos grupos na federação
e no partido. Isto para evitar, mesmo sob forma lingüistica, as
derradeiras aparências de formalismo que nos são reprovadas.
Este termo formalismo é erroneamente empregado a nosso respeito:
ou ele quer dizer dar forma as idéias e a luta, e isto então
é tão natural que todos são obrigados a utilizá-lo,
ou então significa a adoração das formas com a
negligência da substância, e então nós, a-narquistas,
não merecemos tal pecha, que não se justifica por nenhum
fato positivo.
São justamente estas vagas acusação de "formalismo",
"autoritarismo", "artifi-cialismo", que formam o
patrimônio polêmico dos adversários da organização.
Estas palavras abstratas possuem um significado tão amplo e uma
interpretação tão vasta, que podem ser lan-çadas
contra qualquer adversário contra o qual não se tenha
outros argumentos válidos. Cer-tamente elas causam efeito, e
sempre é embaraçoso defender-se delas; elas são
muito úteis à-quele que possui a habilidade de delas servir-se
primeiro. Mais são palavras ocas de sentido, a partir do momento
em que ninguém torna preciso qual formalismo ou qual autoritarismo
é verdadeiramente nocivo e conflitante com as doutrinas anarquistas
e possíveis em uma organi-zação anarquista. Não
se trata portanto do vago espantalho do formalismo, mas sim de certas
formas autoritárias e determinadas de organização,
que bem conhecemos, que é necessário combater dentro de
nós, assim como as criticamos em outros partidos. Tais formas
são tão vi-síveis, que não devemos temer
que seduzam o mais inconsciente dos anarquistas, muito menos ainda uma
coletividade anarquista inteira.
Outra grave acusação que se faz à organização
federal dos anarquistas é de ser esta "artificial".
Mas todas as coisas que se fazem, que são feitas pelo homem,
salvo os movimen-tos totalmente involuntários, são artificiais;
isto porque as coisas naturais não bastam, e são muitas
vezes perigosas. O raio é natural, mas contra ele preferimos
adotar o artificial pára-raios, e muito embora sejam o câncer
e a tuberculose igualmente naturais, milhares de médicos esgotam-se
a buscar um meio artificial para curá-los, e fazem muito bem.
A propaganda é também uma coisa artificial; que quanto
mais for feita com arte, mais proveitosa será. Por que não
poderia existir uma organização, com fins de propaganda,
a partir do momento que esta se tornasse importante?
Todo o medo dos anti-organizadores vem da forma, do artifício,
do método; eles observam que uma forma de organização,
um nome, um método foram adotados por nos-sos inimigos e daí
concluem pela condenação em bloco destes. Não conseguem
realizar o ra-ciocínio muito simples de que muitas destas formas,
destes termos e destes métodos são ino-fensivos em si,
e que não tem outro valor senão o do seu conteúdo.
Se lhes for dado um con-teúdo anarquista, estarão com
perfeita coerência com a anarquia. Existem também, natural-mente,
formas que são unas com a substância, e estas podem ser
ou não anarquistas; mas este não é o caso da organização,
ela sozinha não basta para fazer surgir uma autoridade ao contrá-rio,
composta por anarquistas, ela se torna um obstáculo à
autoridade.
*
* *
Encontra-se
outro motivo de incoerência na pretensa facilidade com a qual,
nas organizações, os indivíduos mais inteligentes,
mais simpáticos, mais ativos ou mesmo mais falsos possam se tornar
verdadeiras autoridades sobre a massa, apresentando o perigo de fazê-la
desviar-se. Demonstrei acima que este perigo é maior entre os
não organizados, e que, ao contrário, a or-ganização
serve para combater e não para facilitar tal perigo.
De qualquer maneira, o perigo permanece, mesmo que reduzido e mesmo
que o elemento determinante não seja a organização.
Mas haveria uma verdadeira incoerência disto com a idéia
anarquista? Não o creio, porque se assim o fosse, a anarquia
seria impossível. Os homens nunca serão psíquica
e fisicamente iguais e mesmo que as disparidades enormes ten-dam a desaparecer,
sempre haverá homens de talento e homens medíocres, ativos
e inativos, simpáticos e antipáticos e uns terão
sempre sobre os outros uma indiscutível superioridade moral e
talvez isto fique muito mais claro quando não houver mais tiranias
materiais.
A anarquia, como aspiração positiva de batalha, é
a destruição das tiranias ma-teriais, ela nada mais tem
a opor às autoridades morais se não a ciência. A
própria ciência re-presenta uma fonte de autoridades morais.
Quem não reconheceria em anarquia a autoridade do médico
em questões de higiene ou do arquiteto em construção?
Da mesma forma existiria a autoridade moral do gênio, do homem
simpático, do ativo, etc.; a anarquia não deixaria de
e-xistir por isso, a partir do momento em que nem o médico, nem
o arquiteto, nem o homem genial ou ativo e nem o falso puderem fazer
valer a sua autoridade sem que os outros queiram a ela se submeter.
A organização social anarquista não colocará
à disposição nenhum meio de constranger a vontade
do outro. Tal fenômeno trará com certeza inconvenientes
mas jamais pensamos que na anarquia inconvenientes como esse desaparecessem
e que nós, de alguma forma, nela retornássemos ao paraíso
terrestre.
Nem mesmo ousamos afirmar que, nas organizações anarquistas
que existem no seio da sociedade atual, não possam ocorrer muitos
inconvenientes. Ao contrário, eles não são fruto
da organização, pois existiriam mesmo sem ela, talvez
até mais intensos; não repre-sentam em si mesmos uma incoerência
com a idéia anarquista.
"Mas e os cargos? - poderá alguém objetar - não
se assiste nas organizações a-narquistas à nomeação
de comitês executivos, comissões de correspondências,
secretariados, etc.? Não seriam estas já verdadeiras autoridades
e governos em miniatura?". Respondo que não, antes de mais
nada porque estes indivíduos não dispõem de nenhum
meio para impor sua vontade aos associados, sendo dado que eles devem
fazer aquilo que foram autorizados a fa-zer. Não são autoridades
porque, se o fossem, a própria existência da sociedade
civil e humana não seria possível.
Em toda a convivência existe divisão de trabalho entre
os associados; alguns deles devem se encarregar de funções
sociais necessárias e úteis a todos. Tais funções
possuem hoje em dia um caráter autoritário porque são
exercidas em grande parte por organismos auto-ritários, mas não
são em si a autoridade.
Muito recaem no equívoco seguinte: eles vêem uma função
indiscutivelmente útil exercida de maneira dominadora e má
pelo governo ou pelo capitalista; concluem que a o-rigem desta coisa
má e desta dominação é a função
e exigem a sua supressão. Creio que ne-nhum anarquista sustentará
que em anarquia se deva abolir o serviço postal ou o ferroviário
somente pelo fato de que hoje os correios e estradas de ferro são
geridos de maneira infame pelo estado capitalista. O que vale para a
sociedade futura vale para as organizações anarquis-tas,
que delegam a alguns de seus membros responsabilidade para cumprir uma
função deter-minada e não para exercer um poder.
Delegação de função e não delegação
de poder. Não se pode fazer mais do que a delegação
de função no momento em que em certo círculo não
po-dem todos os camaradas ser ao mesmo tempo o tesoureiro ou o secretário,
da mesma forma de que não podem todos por-se a realizar uma função
para qual basta o trabalho de um só.
A necessidade de tais mandatos amplia-se e torna-se mais forte quando
a orga-nização é maior e o seu campo de atividade
mais amplo. Mais basta, para suprimir todo o peri-go de autoritarismo
delimitar e definir muito bem as funções que devem ser
cumpridas; que os delegados não possam agir em nome da associação
a não ser quando seus membros lhes tenham explicitamente autorizado;
eles devem executar somente aquilo que os associados decidiram e não
ditar aos associados o rumo a seguir. Agindo assim, mesmo a mais longínqua
suspeita de incoerência fica afastada.
Se algum gérmen de autoridade pode se personificar nestes representantes
da associação este seria uma autoridade moral , sem perigo
de que possa se transformar em autori-dade coercitiva de fato. E um
tal tipo de autoridade assim surgida nunca seria tão forte como
aquela que um companheiro ativo e inteligente pode desenvolver em um
meio desorganizado. Hoje, até mesmo nas associações
burguesas, um tesoureiro, um secretário ou um comitê execu-tivo,
mesmo que tenham prerrogativas formais, na prática não
concentram tanto poder. Por que isto seria possível em uma associação
anarquista? Não se trata simplesmente de um inútil sofisma
doutrinário?
É uma besteira dizer que os anarquistas querem se organizar para
macaquear os partidos autoritários, porque crêem que estes
devem os seus progressos ao fato de estarem organizados.
A verdade é que os partidos autoritários fizeram progressos
não somente na maneira de estarem organizados, mas também
na própria organização; uma não exclui a
outra e a união resultante tem uma força apreciável.
A organização não possui, é verdade, uma
vida mágica, mas ela pode acrescentar força e capacidade
de ação aos aderentes desde que eles sejam "homens
e não carneiros". Uma or-ganização feita por
anarquistas com uma meta anarquista, seja qual for o termo pelo qual
ela se define, velho ou novo, não pressupõe em si nenhum
espírito autoritário inerente. Ela deverá o seu
caminho apenas parcialmente à organização, pois
segue uma idéia libertária; do mesmo modo que os partidos
autoritários depois de terem tanto caminhado através da
organização, começam agora a recuar não
por causa da organização, mas simplesmente porque a sua
meta residia nos meios e fins deliberadamente autoritários e
anti-revolucionários.
Assim, por exemplo, a insurreição será útil
para a revolução, mais podem exis-tir igualmente insurreições
reacionárias. Houveram insurreições sanfedistas
ou favoráveis aos Bourbons, mas seria este o motivo para os patriotas
italianos negarem a utilidade da insurrei-ção para a libertação
do jugo estrangeiro? A organização em suas formas serve
aos autoritá-rios, mas nelas não existe nada de contraditório
que nos proíba de delas nos servirmos tam-bém.
Todas as dificuldades residem no fundo nas denominações;
a uns não agrada o termo "partido", a outros o de "organização".
Desta forma alguns criticaram o fato dos anar-quistas terem constituírem
uma federação do Lacio e quererem construir uma italiana
bem como existam federações e partidos alemães,
holandeses, boêmios, etc. Como se quiséssemos desta forma
reconstruir o princípio das nacionalidades! Aí reside
verdadeiramente o formalis-mo, e do pior!...
*
* *
De
maneira alguma, o conceito de organização federal de indivíduos
em grupos e de grupos em federações regionais, nacionais
e internacionais, é contraditório com os princípios
de liber-dade do anarquismo.
Esta coerência com o método libertário no seio da
sociedade burguesa não está reservado às organizações
anarquistas. Existem e podem existir associações compostas
também por não anarquistas que em seu funcionamento interno
sejam libertárias, isso em nada atrapa-lha, mas ao contrário
facilita as suas metas particulares. Elie Reclus encontrou exemplos
de a-grupamentos libertários em povos primitivos que não
são regidos pela anarquia; Pedro Kro-potkin nos fala de associações
libertárias entre animais, entre selvagens, entre os artesãos
e nas comunas da idade média. Para demonstrar a existência,
na sociedade moderna, de uma forte tendência para o comunismo
e a anarquia, Kropotkin e Eliseé Reclus nos trazem numerosos
exemplos de associações comerciais, industriais, de beneficência,
científicas e artísticas que, muito embora não
tendo uma finalidade anarquista, são em sua organização
interna bastante libertárias. Se uma tal possibilidade não
se exclui para indivíduos não anarquistas, associados
para metas absolutamente burguesas, por quê deveríamos
excluí-la para nós? Por quê devería-mos negar
a possibilidade de associar-nos em bases libertárias nós,
que somos anarquistas e que nos propomos uma meta essencialmente anti
burguesa e anti autoritária?
Autonomia e organização estão longe de ser termos
contraditórios: ao contrá-rio, exprimem com precisão
o conceito que os anarquistas tem do indivíduo e da sociedade.
"Autonomia e federação são as duas grandes
fórmulas do futuro - diz nosso amigo Charles Malato - a partir
de hoje, é nesta direção que se orientarão
os movimentos sociais." Esta é também nossa idéia,
pois pensamos que a organização encontra na forma federativa
a melhor forma de se desenvolver em um sentido verdadeiramente anarquista.
Roma,
15 de Junho de 1907
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