A ANARQUIA PERANTE OS TRIBUNAIS

Pietro Gori

Prefácio

Nascido em Messina (Itália), em 3 de agosto de 1859, Pietro Gori devotou-se à propaganda e defesa dos ideais libertários em termos que fazem dele uma figura destacada da história do anarquismo.

Os recursos familiares permitiram-lhe que estudasse em Livorno e em Pisa, doutorando-se em Direito, nesta última universidade, em 1889, com a tese "Miséria e Delito".

Desde os 18 anos, porém, que já realizava conferências para operários e estudantes, ao mesmo tempo que colaborava em diversos periódicos.

Acusado de propaganda subversiva e de promotor de greves, e ainda por ter publicado o opúsculo Pensamentos Rebeldes, Pietro Gori foi julgado em 1880, no Tribunal de Pisa, mas o defensor, o grande criminalista italiano Enrico Ferri, conseguiu a sua absolvição.

Voltou a ser julgado, por propaganda ilegal, em 1890, com mais 20 operários, pela participação numa conferência promovida pelas associações populares de Livorno no 1° de maio desse ano; e dessa vez foi condenado a um ano de prisão, pena que havia de ser revogada em recurso - sem interesse pr´tico, aliás, pois Gori aguardara o julgamento na situação de prisão preventiva, que se prolongou bastante.

Foi nessa altura, na prisão, que Pietro Gori começou a revelar os seus talentos poéticos, escrevendo três volumes de versos; publicados em Milão com o título Prisões e Batalhas; a edição, de dez mil exemplares, esgotou-se em poucos dias.

Juntando-se ao advogado e anarquista italiano Saverio Merino na defesa dos companheiros - Gori exerceu sempre intensamente a advocacia -, os dois, e ainda enrico Malatesta e Amilcare Cipriani, seriam talvez, em 1891, os militantes mais ativos e entusiastas do movimento anarquista italiano.

Em 8 de abril de 1891, Pietro Gori participou, em Milão, num comício internacional sobre "direito ao trabalho", o qual contou também com representações espanholas, francesas e russas; e em agosto desse ano, foi delegado ao primeiro congresso operário italiano, também em Milão, encabeçando a linha socialista antiautoritária que se opôs com denodo à linha autoritária defendida pelo socialista Filippo Turati.

No ano seguinte (14 e 15 de outubro de 1892), no congresso operário de Gênova, é inevitável a cisão entre anarquistas e socialistas-parlamentaristas - nasce então, aliás, o partido socialista italiano -, e Pietro Gori assume o papel de maior relevo, contrariando vigorosamente as propostas de Andrea Costa (outro grande nome do movimento anarquista italiano, que trocou em 1879 pelo socialismo revolucionário, de cujo partido era deputado em 1892).

De 1892 em diante, Gori participou em diversas agitações operárias e realizou excursões por toda a Itália, organizando sociedades de resistência e de instrução.

Em Milão, e com outros companheiros, fundou o periódico O Amigo do Povo e a revista científica Luta Social, qualquer deles objeto de sucessivas apreensões policiais que estiveram na origem de outros tantos processos-crime.

Na segunda metade de 1894, já muito perseguido, Gori viu-se forçado a sair da Itália, refugiando-se primeiro em Lugano (Suíça) - paradeiro habitual dos exilados políticos -, passando daí à Alemanha e, depois, a Bruxelas, onde Elisée Reclus o convidou a reger um curso de "Sociologia Criminal" na Universidade Nova.

Os insistentes pedidos de extradição do governo italiano obrigaram Pietro Gori a procurar refúgio, sucessivamente, na Inglaterra, Holanda, Noruega, Suécia, Irlanda, e, finalmente, em Nova Iorque, desdobrando-se sempre gori numa incansável e intensíssima atividade de conferencista; assim, e só no ano de 1895/96, Gori percorreu em estradas de ferro perto de 33.000km, realizando cerca de 300 conferências.

Voltando a Londres, em 1896, uma doença impediu-o de acompanhar Louse Michel aos Estados Unidos, mas Pietro Gori prosseguiu com a sua atividade de propagandista libertário, que na Prússia (Hamburgo, Berlim, Dresden), quer no Império Austro-Húngaro (Praga, Viena, Budapeste).

De novo enfermo - estamos em princípios de 1897 - Gori tem de voltar à Itália, onde não é incomodado imediatamente pelas autoridades, mas fica sujeito, contudo, ao regime de liberdade vigiada.

Chegamos a 1898 e são conhecidos os acontecimentos que agitaram a Itália: primeiro, em maio, as barricadas deMilão e as centenas de desempregados que foram abagtidos, só porque pediam pão e trabalho ao rei Humberto I; depois, em 10 de setembro, o atentado do anarquista italiano Luigi Lucheni na pessoa da imperatriz Elizabeth da Áustria, que sucumbiu aos ferimentos recebidos.

Embora não seja conhecido com detalhe o envolvimento direto de Pietro gori no primeiro daqueles eventos, o certo é que o Tribunal de Guerra de Milão o condenou severeamente: na pena principal de oito anos de prisão - seguida de desterro com domicilio imposto, por mais 10 anos -, acrescida da medida de segurança de três anos de internamento em regime de vigilância pessoal, e ainda na pena acessória de interdição definitiva do exercício da profissão (a advocacia).

Ora, Pietro Gori - que respondera à revelia, pois à cautela passara à clandestinidade - conseguiu chegar à França, onde se manteve algum tempo com a ajuda de Sébastien Faure; daí passou para Barcelona, embarcando para Buenos Aires em junho de 1898.

Na Argentina, Gori foi professor de criminologia, fundou a revista Criminologia Moderna, e, em 25 de maio de 1901, promoveu a constituição da Fedéracion Obrera Regional Argentina (FORA), que rapidamente agregou cerca de 250.000 membros, transformando-se na mais importante central sindical argentina (anarco-sindicalista).

Regressando a Roma em 1903, Pietro Gori dirige, com Luigi Fabri, a revista O Pensamento, e até morrer foi um infantigável propagandista libertário, quer em conferências quer em reuniões populares.

Falecido em 8 de janeiro de 1911, na ilha de Elba (em Portoferraio), o último discurso proferido por Pietro Gori - então já bastante atingido pela tuberculose - o o elogia fúnebre de Andrea costa (que falecera em 19 de janeiro do ano anterior).

Autor de vasta obra poética (Cancioneiro dos Rebeldes e outros livros de versos), gori escreveu no exílio a letra da célebre canção "Addio Lugano Bella", epopéia política dos proscritos libertários do fim do século XIX; e escreveu ainda várias obras jurídicas (de sociologia criminal, sobretudo) e políticas - estas últimas, as chamadas Conferências Políticas, reunidas em 10 volumes.

***

O funeral de Pietro Gori constituiu uma impressionante manifestação de pesar e não é exagero dizer que quase todo o Elba o acompanhou até à sepultura, chorando a perda de um homem bom, leal e generoso, que à causa anarquista dedicara o melhor do seu esforço e saber.

Lutador desinteressado pelo ideal da anarquia, do qual sempre se afirmou fervoroso adepto e defensor, Gori era, sinceramente, amado pelo povo, e essa sua popularidade impressiona vivamente, sobretudo por se tratar de um intelectual - advogado, poeta, sociólogo e professor universitário.

Simplesmente, Pietro Gori nunca se afastou do povo e, ao contrário, chegava a revelar-se quase ingênuo no seu apostolado e até na metodologia do seu combate.

Homem puro como era, Gori impôs-se à admiração de todos pelos seus ssentimentos humanitários - e dele se dizia que tinha a preocupação de que ninguém gritasse a plavra "morte" fosse contra quem fosse.

Lia-se no Le Libertaire: "para nós... Pietro Gori está sempre vivo. As suas obras, o seu pensamento, o magnífico exemplo de toda a sua vida, não desapareceram da nossa memória, e não julgaremos nunca honrá-lo melhor, senão quando nos abraçarmos, possuídos de um novo ardor, à chama do ideal a que sucumbiu".

E, curiosamente, em apontamento necrológico sobre Gori, uma semana após o passamento deste, escreveu Mussolini: "Nós, socialistas, diante dos despojos de Pietro Gori, levantamos, enlutados, as nossas bandeiras!"; o busto de Gori, porém, levantado sobre o seu túmulo, no cemitério de rosignano (na Toscana), havia de ser mutilado mais tarde pelos fascistas.

Os escritos e intervenções orais de Gori não relevam muito, ou não relevam decisivamente, no plano da elaboração doutrinária e ideológica.

Nessa medida é que Pietro Gori prestou, fundamentalmente, um poderoso contributo, empenhado como se mostrou sempre na defesa intransigente dos ideais anarquistas, quer na difusão deles, quer na sua justificação sociológica, nunca de poupando a esforços numa atividade e com um entusiasmo e um espírito de sacrifício notáveis.

A essa tarefa emprestou três qualidades apreciáveis, que muito concorreram par o êxito da sua propaganda: a formação jurídica, que era grande; a preparação cultural, que não era inferior, e, finalmente, a arte de advogado e os dotes oratórios, que arrastavam os ouvintes a grandes movimentos de alma. Sob o ângulo das idéias, propriamente ditas, Pietro Gori foi sempre um convicto partidário do comunismo libertário - na linha de Kropotkin, Malatesta e Cafiero -, tal como este começou a desenhar-se a partir do congresso da Federação do Jura, em La Chaux-de-Fonds, em 1880.

Portanto, e a mais que os coletivistas antiautoritários que seguiam Bakunin, não defendia apenas Pietro Gori a coletivização dos meios de produção, mas também que fossem postos em comum os próprios bens de consumo, cuja repartição não devia ser regulada pelas associações de trabalhadores (de acordo com as prestações de trabalho), cabendo antes fazer valer o princípio de que tais bens deviam ser distribu8ídos de harmonia com a fórmula "de cada um segundo as suas possibilidades, a cada um segundo as suas necessidades".

Isto, no plano dos princípios; especificamente, a conjuntura política italiana obrigou Pietro Gori a bater-se intrepidamente contra o parlamentarismo dos socialistas, tática legalista essa que Gori denunciava como o "prejuízo mais pernicioso que causa ao movimento socialista e operário", desviando as atenções do proletariado para "fins absolutamente secundários e muitas vezes inconclusivos, sobretudo quando se trata de política e de governo" (conferência-programa, intitulada "Socialimo legalista e socialismo anárquico", proferida em Milão, em 4 de abril de 1892 apud Pietro Gori, Conferenze politiche, Milão, 1948).
A esse ideário se manteve fiel Pietro Gori até ao fim de seus dias.

***

A peça forense que segue, documenta as alegações finais - ou discurso de defesa - de Pietro Gori no chamado processo-crime dos "Anarquistas de Gênova", e compendia, em certo sentido, os princípios ideológicos professados pelo autor.

Já se disse que Gori foi além do mais, advogado; e não fica mal acrescentar que foi um grande advogado.

Estagiou no escritório de um dos mais renomados causídicos milaneses do seu tempo - o socialista Turati -, com que cedo se iniciou na prática da profissão.

Ora, a envergadura intelectual de Pietro gori, apoiada numa eloqüência impetuosa, tudo foram atributos que o conduziram rapidamente a um lugar de grande prestígio nos tribunais italianos em geral - e no foro milanês, em particular.

Foi chamado a intervir, assim, em numerosas causas (sobretudo em processos políticos movidos contra anarquistas), e, precisamente por isso - porque havia defendido santo Caserio por duas vezes em causas políticas anteriores -, Pietro Gori chegou a ser implicado no atentado que aquele perpetrou contra o presidente francês Sadi-Carnot.

Quanto ao discurso que ora se publica, a leitura dele - pela sua simplicidade e clareza - por si própria se explica.

Vários anarquistas italianos - no número dos quais se contava o pintor de Livorno Plinio Nomellini - foram processados pelo crime de "associação de malfeitores", infração penal que costuma receber o tratamento reservado aos crimes de terrorismo, ou contra a segurnça do /estado, e que, no caso (art. 248 do Código Penal Italiano), era punido com uma pena que tinha o limite mínimo de cinco anos de prisão.
Não seria muito escrupulosa a acusação pública em relação aos indícios que autorizasssem semelhante imputação (extensiva, a princípio, ao próprio Gori - que não chegou, porém a ser pronunciado), e assim o fez sentir, calorosamente, Pietro Gori, que aproveitou para denunciar, com ardor, as irregularidades da instrução policial e os vícios de vida social italiana, ao mesmo tempo que expunha - e fê-lo com brilhantismo - aquilo a que ele chamava as teorias socialistas anárquicas.

É de acreditar que muito se receasse pelo desfecho do julgamento, pelas sucessivas vags de histeria que as autoridades deixavam abater sobre os anarquistas, em conseqüência da onda de atentados, da autoria de anarquistas individualistas, que assombravam os governos.

A série já era longa, antes de junho de 1894, e já depois de 11 de julho de 1892, data da execução de Ravachol: em 23 de julho de 1892, Alexandre Berkman dispara e fere o magnata do aço Henry Clay Frick; em maio de 1893, Paolo Sehicchi lança uma bomba sobre o consulado espanhol de Gênova; em 9 de dezembro do mesmo ano, Auguste Vaillant atenta, também com dinamite, contra a Câmara dos Deputados francesa; em 12 de fevereiro de 1894 - o processo dos "Anarquistas de Gênova" aguardava o julgamento -, Émile Henry lança o pânico (ainda à bomba) no café de Saint-Lazare (e depois do julgamento, no dia 24 do mesmo mês, Sante Caserio apunhala Sadi-Carnot).

Logo se alcança, assim, que seria da maior expectativa o ambiente à volta do julgamento dos "Anarquistas de Gênova"; e melhor se compreende, em conformidade, que Pietro Gori usasse das necessárias cautelas num discurso que podia ser apenas uma peça jurídica, mas que é mais do que isso, pois trata-se também de uma intervenção política que ilustra, documentalmente, um dos períodos mais expressivos da história do anarquismo, ou, com mais rigor, da história do comunismo libertário - se não se quiser atribuir-lhe um sentido mais amplo ou um significado mais atual.

Alfredo Gaspar

Senhores Juízes:

Depois do rasgado vôo ao céu da ciência e do sentimento dessa águia do pensamento jurídico italiano, que dá pelo nome de Antonio Pellegrini meu amigo e mestre, dou começo à minha tarefa vivamente comovido e quase desesperado, falando do ponto de vista social destes homens e destas idéias, que a iludida multidão inconsciente tampouco conhece e entende. Mas as minhas pobres palavras, se bem que reflitam a tumultuosa impressão da solenidade do momento, brotarão, sem embargo, do coração, e terão aos vossos olhos o mérito, porventura o único, da singeleza e da lealdade.

E, por dever de lealdade, permiti-me antes de continuar que faça constar uma coisa e faça uma declaração.

O senhor Siro Sironi, ex-chefe da polícia de Gênova e chefe atualmente na capital da Itália, comprazeu-se em denunciar-me, a mim também, como cúmplice destes homens para delinquir contra as pessoas, a propriedade, a ordem pública, e para cometer na companhia deles todos os disparates de que fala o art. 248 do código Penal.

A Câmara do Conselho do Tribunal de Gênova, um ato de relativa justiça, absolveu-me da acusação.

Ora bem, senhores Juízes, eu tenho vivíssimo empenho em declarar o seguinte: que, se professar as nobres idéias anarquistas é delito. Se denunciar as iniquidades de uma civilização odiosa, se combater todas as formas de tirania e de exploração, se ter os olhos fixos na aurora do porvir incorruptível e se levar à multidão de míseros e oprimidos a boa nova da liberdade e da justiça, se tudo isso é delito, então de todos esses fatos sou também culpado e fizestes mal em absolver-me. E se as vossas leis o consentem, rogo-vos que me abris as grades daquela jaula, enobrecida neste momento, e permiti-me que me sente ao lado destes honradísssimos malfeitores, para responder como acusador às estranhas acusações que hoje a sociedade (demos-lhe este nome) lança contra estes homens.

Uma acusação monstruosa

Disse a acusação pública que este não é o processo das idéias; e eu tento que sim, que é o processo das idéias, e, algo pior ainda, o processo das intenções.

Tentou o Sr. Delegado sustentar que todo o indivíduo é livre de pensar como quiser. Isto diz-se, e é verdade; mas também é esta uma de tantas mentiras convencionais sobre as quais se base4ia a caduca e bamboleante organização social.

Livre de pensar, segundo se pretende, entre as impenetráveis paredes do crânio? Mas neste caso, ilustre magistrado do Ministério Público, muito obrigado pela vossa liberalidade e pelas vossas leis. O pensamento humano não tem necessidade desta concessão. Ele exercita no íntimo de todo o organismo pensante os direitos imprescritíveis de um soberano que não tem a prepotência dos desconfiados inquisidores ou torpes polícias.

É a liberdade de propagar e defender este pensamento o que as leis sábias e livres (se leis sábias e livres pode haver) devem, não somente consentir, mas também garantir.

Mas o meu egrégio adversário não o entende deste modo e chega até a afirmar que este processo não é um processo político. Por quê? Acaso por política deve entender-se somente a arte mesquinha de fazer e desfazer ministérios? E não notais, em todas as manifestações, que qualquer discussão política é atualmente uma questão essencialmente social? Não vos dais conta de que os intelectos perspicazes e os espíritos sedentos de idealismo elevado e humano, olhando tanto para a substância das coisas como para a sua forma árida, tendem para uma grande obra de renovação, através das modestas e perenes demonstrações da injustiça econômica que fere os trabalhadores, os quais são (quer queira, quer não queira o senhor delegado) os únicos produtores de toda a riqueza social?

Mas o atual defensor das leis quer que esta obra de crítica e de reconstrução ideal seja somente privilégio e monopólio dos filósofos... segundo diz o acusador público. E põe-no nervoso que estes operários, estes trabalhadores, que são os mais interessados nesta elevada questão, que ao fim e ao cabo é problema eterno da vida social (e que é hoje problema essencialmente operário), se preocupem e se ocupem com amor destas idéias, destes debates, destas aspirações. O operário ideal do senhor Procurador devia ser o pacífico ruminante, sem sensações e sem pensamentos, que se deixasse tranqüilamente, e sem protestar, conduzir por aquele que tivesse a astúcia de se munir de um persuasivo bastão e de um par de tesouras.
Mas estes trabalhadores, que estão sempre em rude e perpétua luta com a fadiga e a miséria diárias (uma e outra, herança dolorosa do povo) levantam a cabeça e protestam contra esta classe que extrai dos seus músculos as melhores forças, sem lhes corresponder com a adequada compensação; estes homens aspiram a dias melhores para a sua classe desprezada; aspiram a um futuro de liberdade e de bem-estar para todos; proclamam que os operários - estes desconhecios criadores do bem-estar e da sociedade - têm o direito de se sentar à mesa do grande banquete social, à qual os seus esforços conjugados trouxeram baixelas tão ricas e manjares tão requintados; demonstram que tudo quanto esiste de belo e de útil sobre a terra foi produzido pelo seu esforço; afirmam que o único vínculo que envolve a destruída falange dos novos catecúmenos é o trabalho, que hoje se converte para eles em estigma de inferioridade social, mas que amanhã será para todos o único brasão de nobreza; e ainda que em volta deles ruja a maré das paixões egoístas e vis, desfraldam valorosamente ao vento uma bandeira e serenamente arrostam com as perseguições mais idiotas e os escárnios mais amargos.

E, todavia, nesta bandeira está escrita uma palavra de esperança e de amor para todos os deserdados, para todos os oprimidos, para todos os famintos da terra, ou seja, para todas as multidões infinitas e beneméritas sobre as quais se ensoberbece, rindo às gargalhadas, uma pequena minoria de privilegiados.

Ah! Acaso estes seres não têm direito a pensar, só por que não são filósofos? Não têm o direito de manifestar os seus pensamentos em voz alta? Por que se lhes proíbe professarem publicamente essa fé num futuro mais eqüitativo e mais humano? Como se o trágico e vergonhoso presente fosse a última etapa da humanidade na sua incessante peregrinação até à conquista dos ideais!... Sim, isto é um delito, um atroz delito de grande amor aos homens, livremente professado numa sociedade na qual o antagonismo dos interesses determina o ódio entre os indivíduos, entre as classes, entre as nações; um ódio imenso que faz sangrar os corações sensíveis, uma injustiça sem limites que permite ao parasita rebentar de indigestão ao lado do produtor que morre de fome. Está aqui toda a síntese do problema.

A análise fá-la cotidianamente o camponês, o qual se pergunta como é possível que ele, cansando-se dia e noite a cavar a terra, fustigado pelos ventos do inverno e queimado pelos raios de sol do verão, permanece sempre pobre e economicamente sujeito a um patrão que nem uma gota de suor derramou sobre aqueles campos, que nenhum esforço muscular dedicou àqueles desprezados trabalhos dos quais a humanidade extrai o seu pão diário.

A análise continua-a o operário da indústria, o qual vê sair dos seu trabalho, com o dos seus companheiros, torrentes de riqueza, que, em vez de proporcionarem o bem-estar da família dos verdadeiros produtores, como são os operários, acabam por encher a gaveta do capital, que sem a virtude fecunda do trabalho seria uma coisa perfeitamente inútil no mundo.

A análise completam-na todos os trabalhadores, desde o marítimo que desafia o perigo de mil tempestades para nos trazer os artísticos objetos japoneses e as pérolas preciosas para as senhoras lânguidas, sempre preocupadas sobre como oferecerão melhor as recepções facilitadas pelos rendimentos... dos demais, até ao esquálido professor, ao qual a pátria não dá sequer a milésima parte do que paga a esses uniformizados agentes, incumbidos, pelo modo mais breve, de exterminar o próprio semelhante em guerra "aberta" e "leal", e, se têm oportunidade, de convencer os plebeus com o "argumento" de que não vale a pena levantarem demasiado a voz quando tiverem fome.

Mas estas análises, estas demonstrações podem fazer-se... in pectore; ai daqqueles que as denunciem!... A verdade (especialmente quando é a verdade amarga e nua) deve dizer-se sotto voce. Melhor ainda é nem falar dela: deste modo, não se têm dores de cabeça nem incômodos. No caso contrário, um Sironi qualquer, ainda que seja comendatore, fá-los encarcerar (pelo menos) em menos tempo do que canta o galo, trama um lenda romântica que logo transmite à autoridade judiciária: fala enigmaticamente de certos indícios apurados pela espionagem... (respeitabisíssima) e depois de haver associado estes homens, honrados na desgraça comum, numa detenção preventiva, encontra por fim um tribunal que os associa para responder (in solidum) no termos do art. 248 do código Penal, até que o Ministério Público, atando-os à mesma cruz, os associa de novo ao prazer coletivo de desfrutarem meio século de penas, entre reclusões e detenções.

E muitos destes, como se provou já, nem sequer se conheciam, nem uma só vez se haviam cruzado no caminho do trabalho e da miséria que lhes são comuns.

Deviam encontrar-se e associar-se na bancada da desgraça; porque hoje, menos que nunca se pode chamar a esta bancada a bancada da desonra.

Certamente que uma cadeia invisível e ideal unia, ainda que se desconhecessem, os seus espíritos sonhadores de justiça e de uma paz luminosa; e despertaram dos seu belíssimo sonho com a algemas nos pulsos, amontoados como feras políticas entre os ferros desta jaula que os encerra.

Ah, nobres malfeitores! Eu renovo a minha saudação e insisto na honra que tenho, do alto desta solene tribuna, de poder reivindicar as idéias que me unem a mim, em liberdade, com todos vós, encarcerados. E renovo a minha petição à acusação pública: se estas idéias são delito, encarcerai-me a mim também e juntai-me a estes homens.

Entre estes malfeitores, sim entre eles me sentiria orgulhoso; não entre aqueles outros que em Roma e nestes mesmos dias se vêem conduzidos em carruagens e sem algemas ao Supremo Tribunal, porque tiveram a fortuna de fazer milhões... Mas perdoai-me, já me esquecia dos referidos senhores do capital, se bem que zelosos guardiães da propriedade em teoria, mas que se deleitavam, abolindo, praticamente, a propriedade dos demais... em benefício próprio, e que todos vós, amigos acusados, ainda que demolidores teóricos da propriedade, como privilégio de classe, e reivindicadores da riqueza inteira para a sociedade inteira, não havíeis nunca deitado a vossa mão sobre o que os primeiros têm de supérfluo (apesar de saberem que todo esse supérfluo era fruto dos vossos suores e das vossas privações), e vos conservasteis puros para terem o direito de gritar, em plena cara dos outros: "vos sois uns ladrões!"

E sem embargo, a miséria tem-vos atormentado várias vezes, a necessidade várias vezes vos tem estimulado e haveis sabido resistir-lhe; e enquanto os restantes roubavam para satisfazer as suas orgias, nenhum de vós tirou aos demais nem sequer cinco centavos para a vossa alimentação, nem para dar de comer aos vossos filhos, que vos pediam pão; vós permanecesteis firmes, pobres, honrados até ao escrúpulo, até ao ridículo; e o representante da lei pede, sem embargo a vossa condenação, como se tivesseis sido malfeitores.

Os demais, os provocadores, os devoradores de milhões, esses obterão porventura a liberdade... para roubar outros tantos.
São estes, Senhores Juízes, os homens que deveis julgar! E é monstruoso o raciocínio do Sr. Delegado do Ministério Público. Está de acordo em que todos os réus são incapazes de delinqüir. Mais ainda: está de acordo em reconhecer que são capazes de colaborar em todo o gênero de obras boas e generosas, como trabalhadores infatigáveis e cidadãos sem mancha.

Reconhece, e convém comigo, ainda que o não tenha dito, que a estes homens para os quais pede uma condenação, sentir-se-á sempre orgulhoso e considerar-se-á honrado, e depois da condenação, em apertar-lhes a mão.

Mas como...! Depois de todas estas declarações, não se vos queimavam os lábios quando para estes homens, que vós próprios reconheceis de fonte segura como honrados, pedis, tantos, "prêmios" de vigilância e de prisão?

Ou o meu grande amor à causa me apaixona, ou haveis esquecido a norma mais elementar de toda a legislação penal.

Que lei, e que Magistrado, qualquer que seja (ainda que superficialmente consciente e sereno) pode condenar indivíduos que não delinqüiram e que são incapazes de delinqüir? E eu pergunto-vos: que crime cometeram estes homens?

E vós responder-me-eis: Nenhum. Mas (ajuntareis) dados os princípios que dizem professar, para alcançar os seus fins políticos e sociais, deverão cometer isto, praticar aquilo e aqueloutro, e o mais que a lei prevê como delito. Por isso vos dizia: isto é, de fato, um processo de intenções, e na verdade, durante os debates, várias vezes se me escapou a palavra delito intencional. Direi mais: isto não e apenas um processo de intenções. É um processo à probabilidade de que os acusados tenham, dentro de algum tempo, a intenção de realizar um determinado fato previsto e punido pelo Código Penal.

Isto já é o cúmulo, não da repressão jurídica, mas da repressão policial.

O que é o anarquismo

De onde vêm e quem são, todos o vemos. A que tendem estes indivíduos?

A questão social, que é tão antiga como o antagonismo entre dominados e dominadores, atravessa hoje um período crítico e uma solução (que uns desejam pacífica, outros crêem que será inevitavelmente violenta) se impõe ao velho mundo em bancarrota. E até o mais cego (excetuando o Sr. Delegado do Ministério Público) vê os relâmpagos sangrentos que rasgam as nuvens carregadas de eletricidade.

Nestas obscuras épocas de transição, a parte dos que escoltam o futuro é perigosa. A palavra de advertência confunde-se com o grito de revolta; o livre pacto de fraternidade entre os que sonham e os que entrevêem um novo mundo, é interpretado como um contrato entre ladrões que preestabelecem o modo de repartirem entre si os despojos do próximo; a crítica formada com elevados argumentos de transformação em benefício de todos é interpretada como um ataque maligno de espíritos rebeldes a ordens decrépitas eu os ortodoxos julgam santas e inderrogáveis.

Mas o que há de inderrogável neste mundo, o que já de imutável nas multiformes leis dos homens?

Sem embargo, nesta luta secular das novas contra as velhas idéias; nesta fase aguda, entre uma época moribunda (como um velho carregado de achaques) e outra época que desponta no horizonte, radiosa como uma aurora, há uma estranha e sintomática semelhança de episódios. Assim como não é novo o confronto entre a atual época histórica, de inegável decadência, melhor dito, de desmoronamento do paganismo burguês, sem mais missão cívica e sem mais ideal, e o desmoronamento apocalíptico do antigo paganismo, arrastado pela galhardia esfuziante do jovem cristianismo.

Então, como agora, de entre a turba menosprezada se levantaram homens, pobres de ciência mas ricos de sentimentos, os quais combatiam os desenfreamento dos poderosos e dos parasitas.

Naquela revolta da multidão, incendiada pela propaganda cristã, precisamente Emílio de Laveleye viu já a gênese do socialismo.
Socialismo todo sentimental, disparidade impulsiva. Melhor: irrupção apaixonada de almas generosas contra as flagrantes monstruosidades sociais, comprovação serenamente científica do antagonismo entre os direitos do ovo, sempre pobre e explorado, e os privilégios dos ricos, dos patrões, sempre refratários à liberdade e ao bem-estar dos oprimidos.

Ah! Se eu vos lesse, representante da lei, as veementes invetivas que aquelas almas rebeldes - que foram os santos padres da Igreja - lançaram contra ops ricos, acaso vos sentireis impelidos a imitar o vosso colega, e superior hierárquico, o Procurador de Milão, que em um jornal das vossas preferênias, se comprazeu em recriminar as opiniões dos santos sobre a riqueza e a propriedadae privada, opinião reproduzida no dito periódico do livro de Laveleye, que tenho à mão, O Socialismo Contemporâneo, e que principia com uma insolente definição de São Basílio: "O rico é um ladrao", e termina, depois de formular os mais terríveis impropérios contra os privilegiados da terra, com esta comunística consideração de São Clemente: "Em boa justiça tudo deveria pertencer a todos. É a iniquidade o que faz a propriedadae privada".

E Laveleye, que foi um ardoroso socialista cristão, tira como conclusão que: "é impossível ler atentamente as profecias do Antigo Testamento, e lançar ao mesmo tempo um vista de olhos sobre as condições econômicas atuais, sem se sentir impelido a condenar este estado de coisas em nome do ideal evangélico".

Mas os santos padres da igreja, homens simples e rústicos, recriminavam pessoalmente os ricos porque ignoravam (o que a ciência veio a ensinar mais tarde) a rigidez das leis históricas, que não permitem se atribua à maldade dos indivíduos o que é produto da injustiça dos sistemas econômicos e políticos que até ao presente têm prejudicado o gênero humano.

Por isto, os socialistas anarquistas modernos, quando falam de exploradores, quando se lançam com desdém a apostrofrar os burgueses e a combatê-los, não é porque lhes atribuam, a título de maldade, a culpa das misérias sociais. Sabem muito bem que a pobreza fisiológica, intelectual e moral da plebe enganada deve atribuir-se a todo um sistema de coisas que inevitavelmente converte uns em escravos e outros em tiranos.

Mas, como dizia há pouco, o que mais aproxima na sua fisionomia complicada a época na qual surgiu o primeiro apostolado batalhador do cristianismo com o momento histórico que atualmente vem surgindo, belo como um jovem gladiador pelo novo conceito de humanitarismo, vem a ser a novidade da dominação face às manifestações das idéias de renovação social.
Caifás (diga-se sem intenção maliciosa) era um acusador publico dos seus tempos, e pediu a condenação do justo, como sedutor e instigador das plebes contra as leis do Estado e contra a uti possidetis dos ricos, dos escribas e dos fariseus.

E eu penso que se o art. 248 do Código Penal Italiano nos parece novo, velha é, sem embargo, a acusação, velhos são os métodos e os objetivos que a aconselham.

É a guerra não confessada e dissimulada; a guerra surda, implacável ao pensamento, um dia religioso, ontem político, hoje social.
Mas antiga e gloriosa é a falange dos malfeitores, imortais na história. E sobre a nossa cabeça - oh, senhores juízes! - fala ainda com a muda eloqüência do sacrifício, esta luminosa figura de Cristo, o anarquista da túnica vermelha de há dezoito séculos, como disse Renan, crucificado como malfeitor entre os malfeitores.

A história incorruptível deu razão ao rebelde da Galiléia e condenou os seus juízes. Desde o mais vil dos patíbulos, ele, o primeiro que trouxe a boa-nova aos pobres e aos martirizados, o inexorável acusador dos ricos e dos hipócritas fariseus, o rebelde justiceiro dos vendilhões do templo, fala ainda, através dos séculos, a linguagem humana que a muitos, depois da santificação do seu sofrimento, pareceu e parece ainda palavra divina.

E aquela outra túnica vermelha, que neste dia revive na nossa memória com o aniversário da sua morte, a de Garibaldi, o proscrito, o malfeitor, o condenado à forca por aquela mesma dinastia que da sua mão recebeu dois reinos? Não vos recordais?
Ah! Entre essas duas túnicas vermelhas, flamejando no princípio e no fim destes dezoito séculos, quantas nobres vidas dizimadas ou condenadas pela tirania!

É esta a sorte comum a todos os percursores. Amiúde se pensa (e às vezes com relativa boa-fé) encarcerar e condenar estes malfeitores, estes malvados, e estes homens não foram senão as vanguardas de gerações novas.

É, por conseguinte, história velha, a destes processos de malfeitores... honradíssimos. E, com pequenas diferenças, as imputações são sempre as mesmas. Os perseguidos de ontem, convertidos em dominadores, perseguem no dia seguinte as vanguardas, com idênticos motivos de acusação.

Sem embargo, o passado deveria ser uma lição par4a nos demontrar que enhuma perseguição é suficiente para deter uma idéia, se esta é verdadeira e justa.

Um ilustre sacerdote, Lamennais, escrevia há um século, nas sua Palavras dum Crente, estas santas exortações aos cristãos dos seu tempo.

Podem repetir-se, dirigidas aos odiados cristãos da nossa época:
"Lembrai-vos das catacumbas.

Naqueles tempos, conduziam-vos ao patíbulo, abandonavam-vos às bestas ferozes nas colinas, para diversão da plebe, arojavam-vos aos milhares para o fundo das minas e dos cárceres, pisavam-vos como se fosseis a pedra das praças públicas, confiscavam-vos os vossos bens e, para celebrardes os vossos proscritos mistérios, não vos deixavam mais que o pó da terra.

Que diziam os vossos perseguidores?

Diziam que vós predicáveis doutrinas perigosas, que a vossa seita (assim lhe chamavam) perturbava a ordem e a paz pública, que, violadores das leis e inimigos da humanidade, ameaçáveis o mundo.

E no meio de tanta desventura, sob esta agressão, que pedieis vós? A liberdade.

Reclamáveis o direito de não obedecer senão ao vosso Deus, de o servir e o adorar segundo a vossa consciência.

E quando, ainda que enganando-se na sua fé, outros vos reclamaram este segundo direito, ele foi respeitado por vós, como pedisteis um dia aos pagãos que o respeitassem.

Sim, respeitaram-no para não renegarem a memória dos vossos antecessores, em homenagem às cinzas dos vossos mártires. E se não vos recordais dos ensinamentos de Cristo, recordai-vos ao menos das catacumbas".

Eu gostaria que algum liberalote ou volteriano homem de governo dos nossos dias lesse de novo e meditasse neste livrinho do fervoroso sacerdote. Algo poderia aprender nele sobre isto que muito se predica e pouco se pratica: o culto da liberdade.
E agora voltemos à causa.

Quem são estes socialistas anarquistas? Vós já o sabeis, senhores Juízes. Ali naquela jaula estais vendo uma numerosa e escolhida representação deles.

São trabalhadores íntegros e alegres, estudiosos de coração e inteligentes, como Luís Galleani, artistas inovadores, com Plínio Nomellini, burgueses que, havendo renunciado aos privilégios e aos prejuízos da sua classe, não paternalmente acolhidos pela grande família do povo que espera os seus inevitáveis destinos.

São operários, como o bravo Faina e o pequeno Barobino, que têm coração e mente para sentir e pensar, e que julgam ter o direito de pensar em voz alta.

Todos eles, como todos os homens que observam desapaixonadamente as coisas do mundo, têm dirigido a si próprios as seguintes simples perguntas:

Por que é que a maioria dos homens, ainda que trabalhe produza, se vê constrangida a ser pobre e a manter com o seu suor uma minoria ociosa, cuja única ocupação consiste em consumir os produtos do trabalho alheio?

Por que é que a terra, que a natureza deu por herança comum a todos os homens, foi por alguns fracionada, fraudulenta e violentamente, e dividida em seu exclusivo benefício? Que se diria se o mesmo se tivesse feito com o ar e a água, elementos necessários à vida? Dir-se-ia que era um roubo sacrílego? Mas o ar e a água - um fluido e líquido rebeldes, anárquicos - foram subtraídos em grande parte ao monopólio dos privilegiados.

Mas acaso a terra não é também um elemento essencial à vida coletiva? Acaso não deveria ser, por natureza e destino próprio, herança comum do gênero humano?

E as máquinas, os instrumentos de trabalho, as casas, os meios de troca e de produção, a serem privilégio de alguns, acaso não o seriam melhor dos trabalhadores, que com o seu suor transformaram esses bens em instrumentos produtivos e fecundos - do que daqueles que nada fizeram, que jamais produziram?

Mas não, dizem os socialistas anarquistas; tampouco isto seria justo.

Tudo, desde os instrumentos de trabalho até aos bens de consumo, desde a terra à maquinaria, desde as minas até aos meios de troca e da produção, sendo tudo fruto da cooperação social, tudo deve ser proclamado patrimônio da sociedade inteira.
E é precisamente nesta afirmação que o ideal luminoso da fraternidade surge como um florescimento espontâneo desta harmonia de interesses entre o indivíduo e a sociedade, desta admirável comunhão dos direitos de cada homem com os direitos da espécie inteira.

Com um exemplo simples e claro, Lamennais, sempre no livrinho de que vos falava há pouco, sintetiza a necessidade jurídica e natural do comunismo. Ouçamo-lo outra vez:

"Se numa colmeia algumas abelhas gananciosas dissessem: todo o mel que está aqui é nosso, e dispusessem a seu bel-talante (????) dos frutos do trabalho das demais, que seria das outras abelhas?

A terra é como uma grande colmeia e se pessoa há a quem falte o necessário, isso significa que outras têm a mais. E então a justiça e a caridade desapareceram da terra".

Quem pode deixar de duvidar de que a justiça e a caridade se alberguem ainda sobre esta terra, minada pela iniquidade, quando tantos e tantos carecem do necessário?

Nas humanas abelhas, muitas estão condenadas a fabricar o mel, e outras, poucas, reservam-se o direito de... o devorar. E as laboriosas até perderam o ferrão.

É, pois, a socialização da colmeias e do mel, ou, deixando a linguagem figurada, a socialização de todas as riquezas, aquilo a que os socialistas anarquistas tendem.

E proclamam, como primeira necessidade, a abolição da propriedade privada, causa direta do privilégio econômico, e indireta do monopólio político de algumas classes sobre as demais da sociedade.

Os anarquistas estão na vanguarda do socialismo, mas não são, no fundo, senão a legião mais batalhadora do grande exército socialista. O magistrado do Ministério Público quis argumentar assim: "Aos socialistas, entendo-os e admiro-os. São razoáveis; procuram conquistar o poder público, e, por conseguinte, movem-se na órbita das nossas leis. Mas os anarquistas estão fora da lei; predicam a revolução como único meio para atingirem o seu ideal."

Deixo aos colegas socialistas (permitem-me que lhes chame colegas, por muito antipática que lhes seja a palavra), incumbidos da defesa, a demonstração de que os socialistas também querem a abolição da propriedade privada, necessidade fundamental de toda a transformação em sentido francamente socialista, e o protesto contra este implícito atestado de inocuidade que o Ministério Público prodigalizou ao seu partido.

Compreende-se perfeitamente que isto seja apenas uma astúcia de acusação; porque se os réus fossem simplesmente socialistas, então o raciocínio do Senhor Delegado seria muito diferente.

Porque, enfim, cientificamente falando, os anarquistas não são senão os socialistas mais radicais, e têm em vista, contemporaneamente, a abolição de toda a espécie de exploração do homem pelo homem, e a abolição de toda a autoridade do homem sobre o homem, com a abolição do Estado ou Governo, ou seja qual for o órgão centralizador que pretenda impor a vontade de uns poucos, ou de muitos, à autonomia e ao livre acordo.

É este um ideal irrealizável?... Vós, Senhores Juízes, sois incompetentes para o julgar. A verdade é que a história marcha irresistivelmente da tirania para a liberdade. Os dias, os anos, os séculos, são os passos, os períodos, as etapas desta imensa mas incessante viagem da humanidade.

Quão mesquinhas se afiguram estas academias jurídicas com o seu cortejo de dores humanas, face ao rolar infinito das coisas no imenso céu do tempo e do espaço! Porque se a fatalidade histórica arrasta a sociedade humana até aquela meta ideal, ansiada por estes caluniados apóstolos da plebe, nenhuma condenação, por feroz que seja, poderá impedir ou deter, nem por um segundo, a irresistível marcha. É uma lei de gravitação social, rígida e inviolável, como a lei da gravitação física.

Não impeçais, pois, o pensamento dos homens, filósofos ou operários que sejam, que prescutam a finalidade desta lei suprema da vida social, e permiti que o mais difícil problema (o da vida coletiva) encontre por fim o seu Newton.

E já que o Ministério Público, a propósito da anarquia, disse coisas tão extraordinárias, porque inexatas, já que incorreu em tantas inverossimilhanças, escutai por um momento o que sobre esta matéria disse um filósofo autêntico, Bovio, ao qual, em nome da ordem dos Advogados, da qual faço parte nominalmente, envio uma respeitosa saudação. No seu magistral livro A Doutrina dos Partidos na Europa, escreve:

"Já que a revolução, para cumprir a missão que o seu ciclo lhe destina, se apresenta como social, o partido revolucionário por excelência deve ser anárquico; deve apresentar-se não como adversário desta ou daquela forma de Estado, mas de todo o Estado, porque ali onde vê o Estado, vê privilégios e misérias, vê dominadores e súditos, classes diretoras e classes deserdadas, vê política e não justiça, vê códigos e não direitos, vê cultos dominantes e não religiões, exércitos e não defesas, escolas e não educação, vê o extremo luxo e a extrema carência; e como quer que seja o pontífice, o rei, o presidente, o diretório, o ditador, ele é sempre o Estado; divide em duas partes a comunidade, e enquanto mais divide (com este ou outro nome) mais domina.
Orgulhoso e altaneiro com os súditos, invejoso com os vizinhos, o Estado é, no interior, a agressão, e, no exterior, a guerra. Sob o pretexto de ser o agasalho da segurança pública, é, por necessidade, desapossador e violento; com o pretexto de custodiar a paz entre os cidadãos e as partes interessadas, é o provocador de guerras internas e externas. Chama bondade à obediência, ordem ao silêncio, expansão à destruição, civilização à dissimulação.

É, como a igreja, filho da ignorância comum e da debilidade dos demais. Aos homens adultos, manifesta-se como é: o maior inimigo do homem, desde o nascimento à morte.

...Anárquico é o pensamento e a história vai até a anarquia. O pensamento de cada indivíduo é autônomo, e todos os pensamentos dos homens formam um pensamento coletivo que move a História, esgotando a vitalidade do Estado e pondo em relevo cada vez mais a antinomia insuperável entre o poder central e a liberdade do homem.

Justifica o Estado como quereis, consagrai-o, confundindo-o com o Deus subtraído à Igreja, fazei-o imperialista, democrático, burguês, monárquico, republicano, e sempre tereis de sentir-vos a amamentar um tirano, contra o qual protestareis continuamente em nome do pensamento e da natureza".

O mais feroz anarquista não teria pronunciado contra o Estado, o Governo ou qualquer outro órgão centralizador, uma acusação tão terrível.

Os anarquistas militantes, que são essencialmente socialistas, entendem a anarquia como um fim político do socialismo; e filósofos e economistas insignes, entre os quais se pode citar Spencer, em Inglaterra, e o professor Loria, em Itália, são implicitamente razão aos anarquistas quando consideram o Estado e o Governo como superestruturas do regime econômico.

De fato, na antiguidade, sendo os patrícios os possuídores das riquezas, eram estes que formavam o governo, zeloso defensor dos seus interesses, com desprezo dos direitos das plebes. E as agitações provocadas pelas leis agrárias, com os Gracos, e as revoltas dos escravos, com Espartaco e Tito Vízio, foram o grande protesto daqueles tempos contra a exploração econômica e a subseqüente tirania política do patriciado.

Na Idade Média, quando os senhores feudais, em guerras aventureiras, se apoderaram, por meio da pilhagem, das terras, povoações e cidades, estenderam também o seu duplo senhorio, econômico e político, sobre os servos da gleba e o exército multicolor dos vassalos. Mas ainda aqui a base do privilégio político era o privilégio econômico; ali onde o clero possuía uma extensa superfície de terrenos e vastas comunidade religiosas, o seu poder, baseado nos interesses materiais, convertia-se em político e assumia a mais feroz das tiranias - a das almas e sobre as consciências.

O ano de 1789 surgiu, saudado como uma aurora, depois da noite escura da Idade Média. A burguesia levantou-se, reivindicadora, e entre torrentes de sangue proclamou os direitos do homem. Mas a declaração dos direitos ficou somente escrita no papel e nada mais. E a igualdade civil, tal como era realmente, não passava de mais uma mentira, ante a desigualdade econômica.
Os trabalhadores que haviam despertado ao som da Marselhesa e haviam ajudado a burguesia a derrubar a Bastilha e a rechaçar a Europa reacionária que murmurava junto das fronteiras francesas, deram-se conta mais tarde de que se havia efetuado uma simples mudança de autoridades, e nada mais.

E estes trabalhadores, obrigados a cansarem-se eternamente sobre as terras dos outros, sobre as máquinas dos outros, no fundo das minas dos outros, passaram da condição de servos à de assalariados. Os anos tiveram na mão a vida fisiológica destes escravos modernos: os assalariados.

Poderão estes ter uma vida intelectual, uma vida moral?

E como a liberdade fisiológica mantém a plebe das cidades e dos campos numa ainda mais triste miséria da inteligência e do coração, deste modo a riqueza capitalista assegurou à burguesia triunfante o monopólio do poder político.

Por isso os anarquistas, de acordo com as demais escolas socialistas na crítica do capital e da riqueza e na abolição da propriedade privada, tiram como conclusão que a supressão do privilégio econômico conduz à supressão do Estado e à livre associação dos soberanos individuais, congraçados nos interesses e harmônicos na comunidade do trabalho e do bem-estar.
Assim, os anarquistas, havendo aprendido na história e na experiência que o Estado e o Governo não foram nem são outra coisa senão os instrumentos da defesa do privilégio econômico de algumas classes, pensam que, quando desaparecer esse privilégio com o triunfo do socialismo, tampouco o Estado e o Governo terão razão de existir.

A esse alto problema, Senhores Juízes - já o sabeis -, se sacrifica todo aquele que tem inteligência e coração.

***

A Vida Moderna, um periódico literário de Milão com grande tiragem, acaba de publicar uma informação sobre o socialismo.
Este inquérito resultou num verdadeiro plebiscito de simpatia pelo grande ideal de renovação, por parte dos mais ilustres homens de ciência e artistas italianos.

Ora bem, de todas estas respostas mais ou menos heterodoxas, pemiti-me que leia a de um anarquista militante cujo único e exclusivo mérito consiste não esconder a mínima vibração do seu pensamento.

Leio uma parte desta resposta só porque condensa brevemente tudo quanto já expus de modo truncado e desunido.

"O socialismo, que na sua aplicação integral conduz ao comunismo científico, será um ordenamento econômico, na qual a harmonia do interesse de cada um com o interesse de todos resolverá o antagonismo sangrento entre os direitos do indivíduo e os da espécie. Mas no socialismo, que é a base econômica da sociedade futura, devem estar praticamente conciliados os dois grandes princípios da igualdade e da liberdade. Daí o atrevido e mal compreendido conceito de anarquia: a liberdade das liberdades. Esta será amanhã a coroação política necessária do socialismo, como sucede hoje com a corrente francamente libertária. A anarquia não é o socialismo autoritário, a humanidade que afoga o indivíduo. Não é como a desordem burguesa, o homem que esmaga a humanidade. Mas resume o ideal de um acordo espontâneo das vontades e das soberanias individuais, do desfrute do bem-estar criado pelo trabalho de todos, sem exploração: está aqui a idealidade econômica, sem coação; está aqui a idealidade política, do verdadeiro socialismo".

Aqui estão os homens que deveis julgar, senhores Juízes. Aqui estão as idéias que estes homens professam.

Os Equívocos da Pronúncia

Mas os fatos pelos quais vêm acusados, os fatos pelos quais vêm pronunciados como "associação de malfeitores" à luz do disposto no art. 248 do Código Penal - "contra a administração da justiça, ou de fé pública, ou a segurança pública, contra os bons costumes ou a ordem familiar, ou contra a pessoa ou a propriedade" -, os fatos, os fatos, oh! acusador público, quais, quantos, onde estão?

Quando, onde e como, Luís Galleani e os seus companheiros atentaram contra a chamada justiça, quando é que subtraíram documentos em favor de potentados (como outros fizeram impunemente), quando é que venderam ou compraram, ou coarctaram sentenças judiciais?

Quando atentaram contra a fé pública?

Acaso falsificaram moedas, ou suplicaram cheques bancários, ou roubaram o erário, ou corromperam deputados ou ministros, ou se deixaram corromper através de alguma cruz de comendador ou à custa do título de senador?

Onde, quando atentaram contra a segurança pública? Onde estão as bombas, os explosivos, as máquinas infernais por eles fabricadas?

O senhor representante do Ministério Público deve ter partido a cabeça ao imaginar uma bomba no inocentíssimo tubo apreendido a um dos réus. Desenvolveu esforços sobre-humanos para o carregar com palavras... explosivas. Mas o tubo continuou na mesma, inofensivo, eloqüente prova da inocência destes indivíduos; e aí ficou vazio, vazio como este processo, inchando unicamente com a fantasia mórbida duma polícia sem escrúpulos. De que outra forma puseram estes homens em perigo a segurança pública?

Acaso são comerciantes que falsificam o vinho, ou industriais gananciosos que, para pouparem, amanhã porão em perigo, nas minas ou nas fábricas, a vida de milhares de operários produtores? São porventura alguns Mouravieff - fim de século, que restabeleceu a ordem entre as plebes famintas descarregando metralha sobre os estômagos vazios?

Como e quando atentaram contra os bons costumes e a ordem das famílias? Não são estes, Senhores Juízes, os que se valem da miséria para comprarem o amor de jovens desesperadas, os que estupraram virgens, valendo-se do dinheiro ou da sua autoridade de patrões, não são estes os brilhantes "Don Juan" que pervertem as esposas pobres.

Sonharam, é verdade, com uma família que fosse o resultado espontâneo do amor, e não o produto artificioso de um negócio legal, muitíssimas fezes na base do interesse. Sobre a fisionomia tradicional da família de que fala o código, sonharam injetar a seiva jovem de um sentimento que não tem as hipocrisias do calculismo, nem os convencionalismos das leis: o amor livre. O amor que aceita o vínculo da única lei, que em si mesmo encerra o prêmio e a sanção: a lei da natureza. Estes indivíduos não querem destruir a família. Querem regenerá-la, purificá-la - nada mais.

Perguntai-o aos velhos, perguntai-o às suas esposas, perguntai-o a suas mães, àqueles pobres filhos do povo que tendes visto às portas deste edifício com os olhos vermelhos de lágrimas, interrogando em silêncio os vossos semblantes, oh! Senhores Juízes, lê-de neles a sorte dos seus entes queridos;/ perguntai-o a estes velhos e a estas mulheres.

É seguro que vos responderão que os trinta e cinco homens que a acusação pública qualifica de malfeitores, são filhos, maridos e pais amorosíssimos. Responder-vos-ão que a sua condenação equivale ao desmoronamento econômico e moral destas angustiadas famílias. E a petição cruel da acusação pública já deferiu um terrível golpe nos corações destas gentes que, chorosas, esperam; e a pena que para estes homens se pede, isto sim, é que é um verdadeiro atentado à paz, à tranqüilidade destas laboriosas famílias inocentes.

Onde, quando, por fim, atentaram contra as pessoas ou a propriedade? Elas querem o desaparecimento da burguesia, com classe privilegiada, mas não a morte dos burgueses.

Como anarquistas, consideram que quem nasce filho de milionário não tem mérito algum, nem sequer tem o direito a gozar dessas riquezas, porque não as produziu; do mesmo modo, não podem atribuir ao rico a culpa de ser rico.

É verdade que a riqueza excessiva de uns deriva da excessiva miséria de outros, já que é óbvio concluir que, se há quem tenha demasiado, haverá por conseguinte quem tenha pouco.

Mas não é para matar todos os burgueses que os socialistas anarquistas declaram a guerra à burguesia, senão para suprimir as causas da exploração e da miséria dos trabalhadores. É uma guerra ao sistema econômico e político, mas guerra de princípios e de argumentos.

E esta luta não nasceu das recomendações dos socialistas ou dos anarquistas, mas de uma fatalidade histórica. A sua origem está no antagonismo de classes. Será a eliminação das classes no seio da grande família de socialistas dos trabalhadores fraternais, solidários e livres, que a fará cessar. Esta luta, inevitável, será tanto mais áspera e feroz quanto mais desapiedada for a reação. A violência dos de cima determina inevitavelmente a violência dos de baixo. A liberdade verdadeira, grande, completa: eis aqui a mais eficaz medida preventiva contra o chamado delito político ou social não é, ao fim e ao cabo, para quem o observe bem, senão o protesto sangrento do pensamento maltratado. Falando de delito político quanto à anarquia, certamente que o nosso espírito, Senhores Juízes, recorre à retaliação terrível que é a vingança escolhida pelas almas exacerbadas contra a cínica sociedade dos potentados e dos homens do governo que confiam à política a cura das enfermidades sociais.

E perguntar-vos-eis: não se confessam anarquistas os dinamitistas parisienses? Não declaram querer transformar o mundo, destruindo-o com dinamite?

Ah, Senhores Juízes... Antes de julgardes estes homens, que entrevêem a era feliz da humanidade rejuvenescida, fora do sonho negro de uma grande purificação por meio de incêndios e de explosivos, é necessário descer primeiro ao inferno dos sofrimentos e das misérias, no qual as almas se converteram em cinzas.

Antes, é necessário compreender por que lento processo psicológico estes espíritos, estes corações chegam ao extremo, transbordando ódios.

Nem a propaganda destes sedutores, a cujas fileiras me orgulho de pertencer, já que foi sempre obra de espíritos inquietos e rebeldes o renovo da civilização, nem os violentos artigos do jornal, influíram de modo algum nas motivações impulsivas desses cavaleiros da morte e do ideal.

Simples e vãs palavras não podem semear tanto ódio, tanta rebeldia. É a demonstração diária e perene das inquietações sociais que arrasta estes voluntários do patíbulo a efetuar o protesto tremendo e ruidoso. Só a vertigem de um profundo espasmo moral é capaz de levantar dos abismos do oceano humano, esgotado por tempestades tão negras, estes átomos ignorados, até à sensualidade espantosa que faz tremer o mundo adormecido, no meio das suas orgias, dos seus direitos e dos oprimidos, e sacudir os sonhos voluptuosos com retumbantes fragores. Certamente que as gerações vindouras, resgatadas pelo amor e pelo civismo, se espantarão com estas trágicas raivas de um século agonizante. Mas então a estranheza será legítima, porque a razão e o espírito de fraternidade e, de solidariedade terão dominado quanto há ainda de agressivo e de atavismo bestial no organismo da casta humana.

Mas acaso as instituições atuais têm o direito de se queixar do que sucede por obra dos dinamitistas e dos apunhaladores, quando é certo que elas se refugiam no militarismo, que é, como escreve Leon Tolstoi, a escola da violência?

Têm o direito de se surpreender estes governantes do povo, que fazem consisetir toda a lógicado governo na boca das espingardas e na ponta das baionetas, e que crêem poder legalizar a violência dos poderes constituídos com o enorme pretexto da razão de Estado?

E digo-vos, Senhores Juízes, anarquista fervoroso como sou e me orgulho de ser, sabido como é que o anarquismo militante procede em Itália de dois nomes gloriosos: Mario Pagano e Carlo Pisacane -, digo-vos, repito, que aborreço o sangue e a violência, e que a vida de um semelhante é sagrada para mim, como é sagrada (e dou testemunho disso diante do banco doloroso onde estão estes 35 honrados homens) para todos os anarquistas, que são corações nobres que choram a dor alheia muito mais que a própria dor.

Mas quando depois de tanta acumulação de misérias e de injustiças sobre os débeis, os pobres e os indefesos, vemos algumas dessas almas torturadas levantarem-se, terríveis com a tempestade, contra os satisfeitos e os poderosos da terra, não seremos nós, seguramente, que nos unamos ao que nos jultam e condenam, porque, materialistas em filosofia, e deterministas em sociologia, cremos que seria ridículo instaurar um processo ao rebentamento do entusiasmo, qualquer que seja o terror e a ruína que daí possa ter resultado.

Digo isto para sustentar que é loucura querer inferir dos atos individuais e impulsivos de algumas pessoas uma qualquer responsabilidade moral para todos aqueles que professam as mesmas idéias políticas e sociais. Ferozmente absurdo seria pronunciar sobre estes réus um juízo que se deixasse influenciar de alguma maneira pelo medo de explosões, sucedidas em outros lugares, e contra cujos autores a sociedade já se vingou, aliás de um modo bastante impiedoso.

Não é contra a pessoa nem contra a propriedade que atentam os anarquistas, que acima de tudo pretendem formar uma sociedade na qual o roubo e o homicídio sejam impossíveis. A expropriação que eles querem será feita pelo povo, em benefício de todos, ou, como se diria em direito administrativo, por razões de utilidade pública. Fulano rouba um relógio a sicrano, em proveito próprio? Isto é o roubo.

Os camponeses duma região põem em comum os campos por eles cultivados e por outros explorados, e declaram-nos propriedade social, convidando os antigos donos a trabalhar neles, em conjunto, ou a largarem-nos, substituindo, numa palavra, a propriedade de todos à propriedade de uns poucos? Está aqui a expropriação legítima, por motivo de utilidade pública; isto é o que nós, socialistas anarquistas, chamamos reivindicação das riquezas à sociedade inteira.

Imaginai que a esta socialização da terra se segue desde logo, por obra de outros trabalhadores, a socialização das máquinas, das minas, e de todas as fontes de riqueza e de produção, e tereis uma nova economia pública, que substituirá o interesse privado, destruindo o antagonismo das classes. Tereis, numa palavra, o socialismo. Coroai-o com a liberdade verdadeira, íntegra, e tereis a anarquia.

Que relação pode ter este luminoso ideal como o art. 248 do código Penal Italiano? Dizia bem Baradino, não obstante os sustos do Senhor Delegado do Ministério Público. Fazer a apologia do roubo, seria fazer a apologia da sociedade burguesa. De fato, pode-se compreender que numa sociedade na qual, como a vida demonstra, os honrados benefícios do capital se tiram daquela parte do trabalho que não se paga ao operário, e por conseguinte resultam em verdadeiros os próprios roubos legais, dizia eu, tanto a desgraçada fatalidade social que arrasta Carlo Moretti, o protagonista dos Desonestos, de Rovetta, a roubar o dinheiro da caixa, como a imperiosa necessidade fisiológica que obriga Valjean, em Os Miseráveis, de Victor Hugo, a arrebatar, com violência, um pão, dos muitos que havia, para aplacar a fome dos seus, que morriam de inanição.

Mas perante tais fatos, mesmo perpetrados por móbiles privados, não há necessidade de ser socialista ou anarquista para encontrar para eles uma justificação.

Basta simplesmente ser um homem de bom senso e de bom coração para concluir, precisamente de acordo com uma personagem da bela e verdadeira comédia de Rovetta, "que para ter o direito de julgar e condenar um homem, é necessário haver passado, sem culpa, pelas mesmas circunstâncias, em virtude das quais o outro cedeu e caiu".

E até a ciência do Direito Penal ensina que " a necessidade não conhece a lei", e Francesco Carrara, como corolário jurídico do direito à vida, concluiu que "roubo cometido por necessidade não é delito, já que fatalmente no conflito entre o supremo e inviolável direito à existência e o menor e transitório direito de propriedade privada, não há dúvida alguma de que a superioridade e o triunfo devem estar do lado do direito à vida, que é soberano entre os direitos humanos".

Este é, nem mais nem menos, o argumento do anarquista ao julgar os ataques privados à propriedade privada. E é, como todos podem ver, o argumento do bom senso e do bom coração, que associa a alta fantasia do poeta francês à conclusão jurídica do criminalista italiano.

De tudo quanto, apressadamente e de boa fé, acabo de vos expor, Senhores Juízes, podereis formar um critério sintético, exato e objetivo das teorias socialistas anárquicas; e concluireis 9confio nisso) que elas não constituem senão um ideal de igualdade e de liberdade, porventura, ousado(se quereis), mas muito contrário a um ilícito criminal e menos ainda com relação ao art. 248 do código Penal.

O Ideal Revolucionário

Mas estes indivíduos, acrescenta a acusação pública, não são anarquistas teóricos, como Henrique Ibsen ou Elisée Réclus; professam idéias anarquistas revolucionárias, e poderão passar facilmente do direito à ação.

A revolução...! É esta a palavra que vos faz tanto medo? E não haveis aprendido na história que todo o autêntico progresso humano está marcado por um traço sangrento, e que tanto no campo político como no científico foram sempre minorias inconformistas que empunharam a bandeira da verdade, em torno da qual caíram, combatendo, ou trinfaram, arrastando atrás delas maiorias inconscientes?

Não vos recordais que aos grandes faciosos do renascimento italiano se chama hoje percursores, mártires; que os revolucionários pela pátria se converteram atualmente em figuras monumentais?

Não pensais, pof fim, que as mesmas leis em nome das quais pedis - oh, acusador público? - a condena~]ap dos meus amigos, que a mesma forma sacramental com a qual vós - oh, senhores Juízes! - começareis a vossa sentença, nasceram do sangue de uma grande revolução? Espártaco, Guilherme Tell, Danton, Kossuth, Garibaldi: aqui está a revolução; Cristo, Confúcio, Lutero, Giordano Bruno, Galileu, Darwin: aqui está ainda a revolução.

Eis ainda aqui o presente, que se revela ao passado e prepara o futuro. Dilacerai a História, se quereis destroçar a gloriosa legenda da revolução. Arrebatai das mãos das crianças que vão à escola os livros que, falando de Bruto que apunhalou por amor à liberdade, e de Rieniz, propangadista por amor ao povo, ensinam que a revolução é o dever sagrado contra a tirania. E proibí as peregrinações do vosso forte povo marítimo, que coroa de homenagem à estátua de Balila, o pequeno ????? cujo nome é querido a todos os oprimidos, porque da sua mão partiu a primeira pedra contra os prepotentes opressores.

"Ser revolucionário, senhores Juízes, não quer dizer "ser violento".

Quantas vezes, na história, a violência não esteve da parte das leis e dos seus defensores, e a ordem, ao contrário, da parte da insurreição e dos seus militantes! Ser revolucionário pela grande ideia da justiça social, quer dizer pôr a força consciente ao serviço dos direitos dos trabalhadores; é conspirar com o pensamento e com a ação para restabelecer a ordem verdadeira no mundo, com a pacificação dos ânimos na harmonia dos interesses e das liberdades individuais. Neste sentido, são revolucionários os meus amigos, acusados nos presentes autos. Estes dizem ao povo: "tu és a maioria; tu és o direito e força. Basta que tu queiras, e o dia da redenção será realidade para ti". E aos trabalhadores: "vós sois os mais importantes, os criadores do bem-estar dos demais. Basta que o quereis, e o bem-estar estará garantido para vós e as demais criaturas humanas".

Imaginai, senhores Juízes, que este raciocínio se converte, como inevitavelmente se convertirá na consciência matriz do proletariado e a revolução terse-à feito.

Nem toda a força do exército e da polícia será suficiente para deter este entusiasmo humano, e esta fé e esta juventude.
Há algo mais forte que o medo e o capricho dos governantes e das classes dominadores: é a irrevitável vitória do proletariado.

PALAVRAS FINAIS

Avaliai, pois, senhores Juízes, que seriedade podem ter estes processos, construídos sobre a delação de confidentes subornados, ante a serena fatalidade da história.

Não quero, não posso, não devo entrar nas vísceras débeis, muito débeis na verdade, deste processo. Os valentes colegas, aos quais foi distribuída essa análise, dissecarão as íntimas obscuridades processuais, aberrativo fruto da fantasia poética do senhor Sironi.

Mas apressando-me à conclusão desta já larga defesa, devo manifestar-vos, ainda que não seja novo nem ingénuo nestas coisas, a impressão de desgosto que me causou todo o sistema acusatório do senhor Sironi.

Numa grande ária melodramática de salvador da sociedade, este egrégio comendador falou-vos da organização anárquica de Génova e de Sampiedarena, assegurou-vos a existência de círculos e de grupos de propaganda e de ação. E, a perguntas do Juiz-Presidente, e nossas, a respeito de quem o houvesse informado de ambas as coisas, o senhor chefe da polícia respondia invariavelmente: "por meio de confidentes cujos nomes não posso revelar".

Ah! É assim o sistema de acusação anónima que se quer inaugurar em Itália nos processos políticos? Se a voz da acusação permanecesse na sombra e encontrasse o menor eco nas vossas consciências, Senhores Juízes, seria mil vezes melhor que a ignorásseis e pouparieis palavras.

Far-vos-ia estoirar de riso se vos contasse uma destas perversas brincadeiras de que às vezes são alvo estes desgraçados da nossa sociedade que o povo indentifica com o mais breve e depreciativo dos vocábulos - bujos - e convencer-vos-ia de seguida da sua imbecilidade intelectual e moral. Permiti-me que vos dê só uma amostra.

No Círculo de Estudos Sociais de Milão, há cerca de dois anos, apareceram duas sinistras figuras que despertaram, a mim e a outros, suspeitas de que eram espiões. Preparámos então uma comédia. Um amigo, empregado no comércio, e sem filiação política, tinha uma estranha semelhança com o advogado Saveiro Merlino.

Pedimos-lhe que desempenhasse o papel dete último como se houvesse vindo a Milão incognitamente, já que o verdadeiro Merlino sevia insistemente perseguido pela polícia.

Os dois suspeitos, ouvindo falar de Merlino em Milão, propuseram-se convidá-lo a comer na sua casa.

O suposto Merlino aceitou com entusiasmo aquele convite, pago pelos fundos secretos da polícia. Mas a um sinal combinado dos espias, quando atravessava a galera, foi detido o nosso amigo por uma nuvem de polícias, que acreditaram seriamente, em vista da denúncia formal ter capturado com as suas garras o verdadeiro Merlino.

Bastou que a imprensa chalaceasse com este espisódio para que logo o pusessem em liberdade.
Este fato pode ser um termómetro, senhores Juízes, para graduarem devidamente as delações dos confidentes respeitáveis do senhor Sironi.

E se isto não bastasse, permiti-vos que vos leia, muito mais eloquente que a minha pobre palavra, uma página das liçoes de direito criminal do meu respeitável mestre, o professor Francesco Carrara, a propósito da fé que os magistrados conscientes podem prestar aos confidentes anónimos.

Nesta parte, o defensor lê, no meio da maior atenção, algumas contundentes páginas do professor Carrara contra a acusação secreta e contra a espionagem política, com a exortação aos juízes de gritarem o "procul esto, profanis", a estes métodos dignos da antiga inquisição. Logo retoma a sua defesa.

Depois destas páginas de nobre e justo desprezo do mais ilustre campeão da escola penal clássica, contra estes sistemas acusatórios, dignos de outros tempos, que mais poderia eu acrescentar, para demolir o edifício de acusação, o qual se desmorona e cai pelo seu próprio peso?

A Luís Galleani toca-lhe, é verdade, uma grande culpa. Encontra-se registada, pela ordem, no lugar respectivo da Câmara do Conselho. Oh!, amigo Galleani! Tu havias falado uma vez, enquanto o combojo cruzava velozmente a estação de Sampierdarena, com o terrível agitador milanês Pietro Gori - sabes? - com aquele cujos passos a polícia espia incessantemente, como a ti.
Perdoa-me, meu amigo. Quem teria podido imaginar que aqueles fraternais abraços deveriam um dia, em teu prejuízo, pesar na balança da Justiça? Quem poderá pensar que depois de tanto sangue derramado pela causa da liberdade, depois de tantos rios de tinta e tantas torrentes de retórica consagradas a celebrar os fatos de uma nova Itália, uma costeleta devorada em conjunto no restaurante de uma estação, entre a chegada e a partida do comboio, poderia constituir o elemento de uma conspiração de dinamitistas, e que um aperto de mãos dado sem mistério a um amigo que passa, poderia, indiciar a prova de uma associação de malfeitores? Para além destes tremendos contactos com um amigo de passagem, em plena estação de combóios, que outros fatos concretos poderieis impurar a Galleani? E se são estes íntimos contatos com o espantoso agitador milanês que sobretudo pesam e agravam a posição de Galleani, porque é que o odiabo alvo da polícia foi absolvido, e pode agora, a coberto da inviolabilidade da toga, vingar-se com este discurso da honra que lhe negaram, não o deixando enfileirar ao lado destes temerários malfeitores?
Senhores Juízes.

O meu dever de amigo dos réus, solidário com as ideias por ele professadas, o meu piedoso ofício de defensor destes homens e destes princípios, acabo de o cumprir, não certamente com habilidade, mas sim com fé sincera.

À vossa bela e gloriosa Génova chegava eu esta manhã da minha Milão, forte e laboriosa, com a memória cheia de impressões indeléveis que me recordavam aquele "Mestre das Belas Artes".

Se é verdade que a arte reflete o espírito do tempo, ali naquela palestra do génio italiano, palpita hoje, senhores Juízes, uma acentuada nota de rebeldia, contra a qual todos os Sironi e insetos deste mundo nada podem. É a onda das misérias humanas que se transbordam num grito de dor e de protesto dos pincéis e cinzéis dos artistas.

Desde o último Espárataco, do escultor Ripamoni, às Reflexões de um faminto, de Lorgoni, todo o problema da nossa época se agita admiravelmente, e grita, e ameaça, naquelas figuras e naquelas telas.

Porque razão é que o senhor Sironi não trama um processo contra a arte moderna, como instigadora do ódio de classe e da apologia de crimes? Porque não denuncia todos aqueles artistas, fina flor do génio italiano jovem, como constituindo uma associação de malfeitores?

Mas tu, Plínio Nomellini, paga-las por todos. A ti, pintor nato do azul e da luz, a palavra anarquia não te meteu medo.

Seguiste com olhos apaixonados as fúlgidas constelações do firmamento e compreendeste que um código inédito, mas inviolável, o regula: a lei da natureza. Contemplaste o florescimento anárquico dos prados e neles leste também a mesma lei natural, que nenhum legislador humano pode encerrar num livro, a não ser que a adultere. E na espontânea harmonia das cores, das formas e das forças da vida, advinhaste uma espontânea harmonia de direitos e de interesses na humanidade libertada.

Amante da verdade, nua e bela, acariciaste-a nas tuas telas. E o senhor Sironi vê nelas um símbolo: ele odeia os símbolos. Também os imperadores que torturaram os primeiros cristãos odiavam a cruz. Os subordinados do comendador mais tarde, nas tuas telas, viram claramente planos... de fortificações.

Hoje a brutal realidade tirou-se a liberdade, roubou-te o mundo ideal dos teus sonhos luminosos, e atirou-te para o banco do sacrifício, entre Galleani, aprumado e leal, e Barabino, em cujas veias de marinheiro irreverente corre certamente o sangue fervente o genovês Balila.

Era necessário que a arte, precursora do tempo, tivesse aqui a sua representação, entre o engenho e o trabalho.

Mas todos vós - oh! 35 acusados! -, levantai as vossas cabeças ante os vossos juízes, sem medo nem temores. O povo, este juíz soberano este povo audaz e tenaz desta nobilíssima cidade, já vos absolveu a todos.

Dizem-no e repetem-no os estremecimentos de afecto e de simpatia que vos acompanharam diariamente até às portas do cárcere.

E agora, senhores Juízes, julgai-os já, vós próprios.

Decidi se é delito reclamar para os deserdados a sua parte de felicidade, se é criminosa a sua missão de liberdade, de paz, em prol da cansada raça humana.

Vós não querereis, não ousareis condenar estes serenos combatentes de uma ideia, por culpas que não lhe cabem.

Nos fins deste século, nascido de uma revolução a qual escreveu com sangue e promulgou com o fogo dos seus cânones a declaração dos direitos do homem; nesta Génova, respeitável pela memória de dois grandes revolucionários: Cristóbal Cólon, sonhando diante do vosso encantador golfo com um mundo novo para o oferecer à velha Europa, e José Mazzini, desejando uma Itália - modelo de verdades e de justiça entre as gentes; dois grandes solitários, dois grandes perseguidos e escarnecidos pelo dois grandes perseguidos e escarnecidos pelo vulgo composto por almas tantas e néscias; nesta Génova, repito, e ante este povo fiel às suas tradições de liberdade, uma condenação do pensamento, como seria aceitar no todo ou em parte as conclusões do delegado do Ministério Público, significaria um ultrage a estas solenes recordações.

E, vós, senhores Juízes, absolvereis,. Tenho fé nisso.

Porque se acreditais poder deter o caminho das ideias da redenção social com os anos de reclusão e de vigilância; se vos declarásseis competentes para julgar as imprescritíveis manifestações do pensamento humano que trabalha pela paz e a felicidade dos homens; se vos determinásseis a marcar as fontes serenas daqueles íntegros trabalhadores com o estigma de uma suposta infâmia, o que afinal não seria para eles senão o baptismo do sacrifício, oh! então, ainda que eu esteja longe quando proferirdes a vossa sentença, lembrai-vos, oh! Juízes!, destas minhas últimas e honradas palavras: Por cima da vossa sentença, está a sentença da História; por cima dos vossos tribunais, está o tribunal incorruptível do porvir. (Ruidosos e prolongados aplausos - em vão reprimidos pelo Presidente. A calorosa demonstração renova-se na rua, pela multidão entusiasmada, ao grito de "Vivam os amados malfeitores!")