Reportagem
com um velho militante anarquista

Editado em Porto Alegre
Em Agosto de 2000
1º Edição

PREFÁCIO

Esta pequena publicação é uma tradução da matéria de mesmo nome publicada em duas partes na revista uruguaia Rojo y Negro números 1 e 2, está última datando de setembro de 1990.

Juan Carlos Mechoso possui mais de quarenta anos de militância anarquista no Uruguai. Sua história se mescla com a história da Federación Anarquista Uruguaya (FAU), organização da qual foi fundador. Também foi fundador da organização de massas Resistencia Obrero Estudantil (ROE) e ainda da guerrilha urbana Organización Popular Revolucionaria 33 Orientales (OPR-33). Militou no movimento operário e de bairro. Esteve quatro anos na clandestinidade (1969 a 1973), doze anos no Peñal de Libertad. Foi libertado em 1985 na época da Anistia. Desde aí, e até hoje, seguiu militando.

FAU sempre teve a preocupação em atualizar o anarquismo às distintas conjunturas e anseios populares, por isso na América Latina foi uma das poucas organizações (se não a única) que manteve o anarquismo organizado e inserido socialmente neste período de tempo entre meados dos anos 50 até os nossos anos, passando por uma importante atuação na época das ditaduras latino-americanos.

Sua fundação se dá em 1956, a partir da convergência de militantes sindicais, de bairro, Juventudes Libertárias e exilados da Espanha. Em 1964 participa ativamente da constituição da Convención Nacional de los Trabajadores (CNT), central que agrupa os trabalhadores uruguaios (depois refundada com o nome de PIT-CNT). Também foi impulsionadora do Congreso del Pueblo. Em 1968 funda uma organização de massas, a Resistencia Obrero Estudantil (ROE). Em 1970 lança seu braço armado, a Organización Popular 33 Orientales (OPR-33), que realiza expropriações, seqüestro de representantes da classe dominante, entre outras ações. Prevendo o golpe militar com um ano de antecedência, quando ele se dá a ROE puxa uma greve geral com ocupação de fábricas por 15 dias.

Com a repressão, a FAU é posta na clandestinidade e seus militantes são exilados, presos, alguns destes valentes são assassinados nos porões da ditadura. Com boa parte dos militantes presos, outros exilados, só na época da Anistia a FAU se reorganiza, e é refundada no 1º de Maio de 1986, num ato público com 3 mil pessoas.

Depois de 40 anos, Juan Carlos Mechoso e outros tantos bravos militantes da FAU são um exemplo de que segue atual a esperança de construção de um processo revolucionário no Continente. Que a democracia que tanto exaltam hoje segue sendo a dominação de uma classe sobre a outra, que o sistema embora venha buscando meios mais sutis de repressão (mas não menos violentos) continua vigilante e intolerante a tudo que possa ameaçar sua estabilidade.

Quando hoje vemos a tantos militantes de esquerda mais velhos rebaixarem seus discursos, dizendo aos mais jovens coisas do tipo: "vocês pensam assim porque são jovens, quando chegarem na minha idade verão que não é bem assim..."; negando conceitos de luta de classes, de ruptura com o sistema capitalista; utilizando sua experiência como desculpa para a acomodação e peleguice do presente; Juan Carlos Mechoso nos dá um exemplo de firmeza ideológica e diz que sua convicção hoje está "como no primeiro dia".

Quando tantos que viveram na época da ditadura, às vezes apenas por ter passado uns tempos no exílio (muitas vezes voluntário), saem posando de heróis para TV e outros meios de comunicação, Juan Carlos Mechoso esbanja modéstia e sobre seus anos de prisão comenta apenas que sofreu o mesmo que "tantos milhares de militantes e povo". Sim, foram 12 anos de prisão, e alguns dias após sair da prisão Juan saía a procura dos seus companheiros para recomeçar tudo de novo. Não lhe interessava posar de vítima à história, lhe interessava seguir fazendo a história, como continua fazendo FAU, e o fará até terminar o trabalho de tantos de seus bravos companheiros que tombaram, os melhores filhos do povo cujo crime foi desejar uma sociedade livre, justa, fraterna. A isso nos jogamos...
Arriba los que luchan!!!

SUMÁRIO

Sua Militância
Anarquismo no Rio da Prata
A Revolução Cubana
A Revolução Nicaragüense
O Anarquismo Hoje
América Latina
Luta Armada e sua Articulação com outros Níveis
Os Acontecimentos no Leste Europeu
A Atual Etapa Histórica


SUA MILITÂNCIA

Toda uma vida dedicada as idéias libertárias?

Comecei a militar muito jovem, tinha quatorze anos. Em atividades libertárias no Cerro e La Teja (bairros operários de Montevidéu). Havia outros jovens de quinze e dezesseis anos.

Como te definirias preferentemente: anarquista ou socialista libertário?

No fundamental são expressões sinônimas. Mas prefiro anarquista.

Conforme com tua opção ideológica depois de tanto tempo?

Como no primeiro dia.

Passaste por uma longa prisão. Difícil, dura?

Como para tantos milhares de militantes e povo que teve de suportar a conhecida longa repressão.

Toda uma especial experiência. Lembranças da prisão?

Muitas. A maioria se relaciona com episódios humanos e políticos com os quais nos coube conviver.

ANARQUISMO NO RIO DA PRATA

Entre as tantas especificidades que o Rio da Prata mostra em relação à América Latina, um deles é a permanência do anarquismo dentro do movimento operário. Quais são as causas que explicariam este fenômeno?

Uma série de coisas nos parece de primordial importância. A preocupação que teve a FAU desde seu início de atualizar as idéias anarquistas com a finalidade de agir. Ação que se vinculara com os problemas concretos do meio. E a permanência de inserção no meio operário e popular.

Te parece particular isto do Uruguai?

Pensamos que sim, que por várias razões o caso do Uruguai é particular no Rio da Prata. O da Argentina é um pouco diferente. Foi grande a influência do anarquismo no movimento até aproximadamente a década de 30 em todo o Rio da Prata. E até esta altura há realmente muita semelhança nos processos operários e influência do anarquismo. Há características similares do movimento sindical, FORA (Federación Obrera Regional Argentina) na Argentina, FORU (Federación Obrera Regional Uruguaya) no Uruguai. Há um intenso intercâmbio entre estas duas federações, fundamentalmente entre sua militância e medidas solidárias. Inclusive há um constante "tráfego" de militantes de um país a outro. Muita da propaganda teórica e doutrinária editada é de uso comum para ambos países. Sem dúvida o desenvolvimento maior corresponde neste período à FORA argentina. Estas Federações que agrupam quase a totalidade do movimento operário são de orientação anarco-sindicalista. Cabe colocar que concebem o Sindicato como único instrumento válido para processar uma mudança revolucionária e para posteriormente organizar a vida social. Colocam que são os produtores, e a greve geral revolucionária, os encarregados da destruição da ordem capitalista e da posterior organização da sociedade futura.

Também é de esclarecer que no seio destes sindicatos atuam militantes anarquistas que não se inscrevem em uma concepção anarco-sindicalista. Me refiro aos especifistas. Isto é, os anarquistas que são partidários de organizar-se politicamente.
É assim que temos uma semelhança no desenvolvimento histórico do anarquismo vinculado ao movimento operário no Rio da Prata, e o próprio movimento operário tem características bastante semelhantes: uma imigração comum, proveniente da Itália, Espanha e França, parte importante dela portadora de experiências e lutas fortes em seus respectivos países. Imigrações provenientes de lugares onde o movimento operário havia travado profundos combates e sofrido duras perseguições. Tal o 48 e 71 da França, as lutas na Espanha e Itália da década de 70 e 80. Momento este último que conta com a presença de uma Internacional Operária que tanto impulso deu à classe operária. Diga-se de passagem, justamente esta imigração que está chegando, italiana e espanhola, de zonas que, no que se refere ao movimento operário, se inscrevem fundamentalmente no marco da influência bakuninista desta primeira Internacional. Posições questionadoras a fundo da ordem capitalista, partidárias da ação direta e insurreição violenta.

Nos últimos anos do século e princípio deste há uma relação muito intensa do anarquismo rio-pratense e muitos os problemas comuns. Pela grande influência da imigração, a forte presença de organismos internacionais, operários e políticos, a regular presença de "agitadores" no Rio da Prata, se vive com muita paixão os eventos internacionais. Se esperam acontecimentos operários "redentores". A Revolução Russa de 17 origina forte comoção. Também as respostas serão parecidas nos dois países. A Federação Operária se fraciona por conseqüência disso, USA (Unión Sindical Argentina) lá e USU (Unión Sindical Uruguaya) aqui.
Esta semelhança dos movimentos anarquistas no Rio da Prata é verdadeira até a década de 30. Nesta década, a princípio dela, o que aparece como mais comum é a relação entre os homens de ação (os expropriadores e vingadores operários) no Rio da Prata.
Muitas são as ações conjuntas e solidárias: Túnel de Punta Carretas, morte de Pardeiro, por exemplo.
No início da década de 30 a questão muda fundamentalmente. A ditadura de Uriburu disfere golpes demolidores ao anarquismo argentino. A FORA, duramente golpeada, sofre um processo de debilitamento que já havia começado. Aqui a FORU também está em processo de debilitamento, mas também mantêm ainda muitos sindicatos.

Depois da caída de Uriburu o anarquismo não chega a recuperar-se, não pode manter aquela inserção de outrora. A chegada do fenômeno peronista e sua adesão operária liquidam suas possibilidades de recuperar importante incidência no movimento operário.

A essa altura no Uruguai como se encontra a inserção anarquista no meio operário?

Fenômenos como o do peronismo aqui não houveram. O anarquismo mantêm presença no Movimento Operário. Na década de 40, por exemplo, está o Sindicato Swift de ação direta, Padeiros, Navais, Gás, centro de Proteção de Choferes, algum setor do Porto, e militância em sindicatos como Gráficos, Couro, etc. É no final desta década que se leva adiante por mais de três anos a campanha pela liberdade dos presos navais. Problema que derivou de um enfrentamento com pelegos armados. Na raiz do tiroteio, em La Teja, entre grevistas e pelegos, detêm dirigentes do Sindicato. Chegamos aos princípios dos anos 50 participando desta campanha.

Tivemos um conhecido crescimento industrial durante o período da guerra e anos seguintes, a aparição neste tempo de muitas oficinas e fábricas, também o aumento do volume de outras já existentes.

No início da década de 50 há outro reponte do anarquismo no Movimento Operário. Há interessante militância, e certo peso, em alguns sindicatos autônomos. Alguns deles recentes, General Eletric, BAO, fábricas de vidro, ANCAP, etc. Ao mesmo tempo se mantêm militância em frigoríficos, também em outros sindicatos pequenos. Além disso ainda havia força velhos sindicatos de ação direta como Navais, Gás, Choferes. Na greve geral do ano 52 a influência anarquista é notória. Um velho militante operário anarquista. Blas Facal, é figura ativa e reconhecida neste evento. No chamado Paralelo 38, enfrentamento no Cerro e La Teja com as forças repressivas, a militância anarquista esteve ativa junto a outras forças e a um povo que saía a rua para fazer-se respeitar.

Depois da Greve Geral de 52, o anarquismo sofre outra baixa no que se refere à militância. Muitos dos seus militantes são despedidos de seus trabalhos. Somente no Frigorífico Switft (ASEIF) há mais de uma dezena de despedidos. Diga-se de passagem, agora que está em pauta a tomada de supermercados pelo povo em países vizinhos, que neste momento (início de 50) parte da população do Cerro, durante um longo conflito, via medidas de ação direta, tomava as cadeias de armazéns (Manzanares e ODA) e se provia do que necessitava para subsistir.

Agreguemos rapidamente que naquele momento a partidarização política era muito menor, residia no campo ideológico afetivo. Apesar certa dispersão (ausência de Central Operária Comum), era mais forte o sentimento de que o nosso temos que tomá-lo todos, também certo estado espiritual de que se pode ser qualquer coisa menos milico e pelego. Idéias e sentimentos simples que empurraram tantas aguerridas lutas.

Metade da década de 50 o anarquismo procura ampliar sua diminuída inserção. Há um esforço por refazer-se no campo sindical. Ficam sindicatos onde a influência anarquista é ainda importante, em outros se têm começado ou se está ampliando a atividade militante.

Desde as Juventudes Libertárias trabalha-se por um sindicato forte em FUNSA. Também participa-se daquela iniciativa da FEU terceirista, a Mesa Operário-Estudantil. No ano de 58 os operários de FUNSA afirmam seu sindicato, em uma ocupação põem a fábrica para funcionar através de um controle operário.

Pouco antes a FAU havia sido fundada. Concretiza um processo que se inicia no ano 52, depois das Medidas de Seguridade. As Agrupações basicamente operárias de Cerro-La Teja, JL (Juventudes Libertárias) e Medicina são de fundamental gravitação nesta formação.

No referente a inserção de FAU, o grêmio de FUNSA se constitui em um pilar. No estudantil, o será pouco mais adiante o Magistério.

Há militância com distintos graus de gravitação em sindicatos como o mencionado FUNSA, Gráficos, Bancários, BAO, Padeiros e outros. A altura de 68 se coloca na FAU a necessidade de constituir uma instância que habilite, para o trabalho no meio operário e também estudantil uma tarefa comum mais ampla, com militância de similar preocupação combativa, com objetivo ao mesmo tempo de dinamizar outra orientação no seio da CNT, tida como urgente em relação aos interesses operários. Nasce a ROE. O nome de Resistência fundamentalmente alude à história combativa dos sindicatos de princípio do século. Aqui emborcará a FAU o grosso de sua militância durante um tempo. A ROE chega a protagonizar muitas e importantes lutas. Por exemplo, conflitos e ocupações em FUNSA, CICSA, Divino, Seral, TEM, etc.

Em relação a estes conflitos a OPR (de composição anarquista) realiza seqüestros de industriais ou figuras representativas das empresas.

A não interrupção do anarquismo no seio do Movimento Operário, sua continuidade, com os enormes altos e baixos assinalados, foram permitindo manter-se certa influência. Ademais há muitas lembranças das pessoas sobre a ação anarquista no meio operário, há memória coletiva acerca dele desde princípios do século a nossos dias. Referências históricas recordando: fundação de sindicatos, conquistas, variadas lutas e acontecimentos, refrescam isto quase permanentemente. Por outra parte, os primeiros sindicatos deixaram experiências culturais-sindicais que já perduraram muito, ou foram ponto de referência ou duram até os nossos dias.

Te acrescento uma coisa ainda para terminar a resposta. O anarquismo, referente a problemáticas do tipo operário não tem trabalhado só no sindical. Nos bairros operários como Cerro e La Teja há uma tarefa barrial social desde épocas remotas.

A REVOLUÇÃO CUBANA

Durante anos a FAU, dentro do Movimento Libertário Internacional, foi considerada como uma herege pelo apoio brindado a Revolução Cubana. Como se explica que uma organização libertária apoie a um regime marxista leninista?

Tem sido um esforço constante da FAU, e ainda mais em determinada altura, o de tratar de ver mais além dos rótulos doutrinários. Uma preocupação em enxergar, com a objetividade possível, as particulares características dos processos, a importância que estes podem chegar a ter em sua relação com as necessidades e aspirações populares. Tratar também de medir e estimar o efeito que estes acontecimentos podem chegar a ter como catalizadores e motivadores para outras mobilizações. O que eles podem significar para as lutas de nossos explorados e oprimidos povos da América Latina.

A chegada da Revolução Cubana foi um acontecimento de primeira ordem na política. Nesse momento, pelas características que esse movimento tem, por como realiza a mudança, como enfrenta às forças burguesas mantenedoras da ordem existente, como abre caminho a algo novo, põe em pauta temas estratégicos e metodológicos. Vale dizer, volta a colocar em pauta, a possibilidade de uma ação direta armada para a conquista de transformações profundas. É um movimento contra uma brutal ditadura que não se conforma só em derrocá-la, enfrenta ao mesmo tempo os planos do imperialismo norte-americano que aspirava só à substituição de um Batista desgastado.

Antes de mais nada, parecia à FAU necessário ter-se uma linha claramente antimperialista para nosso trabalho militante. Esta linha antimperialista devia ser um dos pontos principais para situar posturas e apoio a determinadas lutas, intransigente na reivindicação do direito dos povos a autodeterminação.

O direito à buscar formas de organização de acordo com aspirações e urgências de nossos povos. Estes princípios estiveram presentes em todo momento no apoio crítico brindado à Revolução Cubana.

Unido a isto estava nossa esperança e desejo que nossos povos começassem a tomar em suas mãos seus destinos, que finalmente tanta angústia, miséria e ultraje ficasse pelo caminho. Essa autodeterminação que esteve desde o começo em perigo para qualquer outro processo emancipador na América Latina. Sua defesa era nossa defesa. Se o imperialismo metesse a mão na revolução cubana, a este processo que se iniciava, igual sorte poderia correr processos futuros. Seria repetição do conhecido, atropelos, e invasões norte-americanas tão características de todo um tempo. Guatemala não estava longe. Fresca estava tanta impotência e amargura vividas por nossos povos. Víamos que coisas estava-se jogando neste momento. Por outra parte já se viam elementos positivos, no anímico se passava de uma época a outra. De uma época de desesperança e impotência, a uma de esperançada luta.

A luta em Cuba era, aos olhos da América Latina, um enfrentamento exitoso contra aquele poderoso, contra quem desde a esquerda até a direita se dizia que não se podia.

Eram momentos de entreguismo vergonhoso e descarado dos governos destes países em organismos internacionais como a OEA, onde justificavam e votavam invasões norte-americanas. Ali concorriam delegações de países que em sua quase totalidade, resultavam na prática submissos testas-de-ferro da política do imperialismo. Com menos pudor e condicionamento que hoje.
Era um enfrentamento a toda esta estrutura de poder nacional e internacional realizada com suas próprias forças. Gerava uma chamada de esperança, rompia todo um clima espiritual, e muitas "teorias" de impotência. Muitas estratégias que relegavam as mudanças de importância a uma curiosa elucubração, a um distante e enigmático futuro.

Voltava a discussão um problema sobre o que fazia tempo não se falava, o das transformações revolucionárias, da modificação a fundo das estruturas, de um reordenamento sobre outras bases de toda a vida econômica-social-política de um país.

Quando começam as primeiras medidas, de reforma agrária e urbana, de enfrentamento aberto ao imperialismo e seus interesse na ilha, quando é notório o entusiasmo de um povo que se sente renascer e começa a viver com dignidade, a sonhar com belas possibilidades sociais e políticas, não duvidamos que tínhamos que seguir desse lado da trincheira. Neste marco, como se apresentava, o rótulo, era de importância secundária. Por outra parte devo aclarar-te que isto do rótulo não é algo de primeiro momento. A Revolução se definiu Marxista-Leninista um tempo depois. Nós estivemos desde o primeiro momento apoiando este processo e reclamando por seu respeito. Integramos os primeiros Comitês de Apoio em bairros e sindicatos. Os que esperavam o rótulo foram outros.

Nosso apoio não implicava, não implicou em nenhum momento, que deixávamos de marcar que havia aspectos que não compartilhávamos. Que nosso apoio era crítico e que contaria com nosso enérgico rechaço toda repressão, falta de participação popular, burocratização, ausência de independência. Dissemos em atos e declarações que tínhamos a esperança de início de um trânsito até novas formas de autêntico poder popular, para novas formas de convivência social, que não implicassem a coerção nem a burocracia nas relações sociais.

Que esperávamos desse processo a participação crescente do povo em sua própria coisa através de inéditas e autênticas instituições populares. Que este processo, como naquele tempo os próprios cubanos o diziam, fosse independente, não atado a nenhum bastão de mando, eles diziam "tão cubano quanto as palmeiras". Que entroncasse em nossas características latino-americanas, que tivesse adequadamente em conta nossas tradições culturais, nossas formas de ser social latino-americano. Que não fizesse cópias, translados automáticos de outros modelos.

Também reafirmamos naquele momento que o maior apoio que podia prestar-se a este processo era iniciar nosso próprio processo revolucionário. Trabalhando de acordo com nossas forças para conquistar as mudanças que nossa sociedade, que nossos povos latino-americanos imperiosamente necessitavam, e ansiavam. Era um momento revolto, de muitas lutas frontais, de libertação, anticolonialistas, revolucionárias. Um contexto histórico internacional e latino-americano de certa articulação muito específica. Em tal sentido há uma Cuba da década de 70 e uma bastante distinta neste momento. Por exemplo, o problema Ochoa, o chamado de narcotráfico, não transmite para esta geração uma imagem positiva de ação. Esta geração não percebe mensagem transformadora, nova, radical, entusiasmante desde o que ocorre em Cuba.

Outra Cuba hoje, comparando com a que vínhamos fazendo referência. Outros problemas, Perestroika, droga. Que opinião tens a respeito?

Recordo neste momento algo que se reiterou nos primeiros anos de apoio crítico ao processo cubano. Se dizia "nenhum favor se faz a um processo sendo complacente com ele, não marcando em cada momento seus defeitos, desvios ou abandono da causa popular".

Dizíamos isto antes porque nos interessa a criatividade e a participação da gente. Hoje, com muita água corrida por debaixo da ponte, nos parece que isto mantêm plena atualidade.

Poucos crêem no discurso oficial cubano sobre o problema de atualidade. Se tende a crer que embora possa haver algo de corrupção o problema é bastante mais complexo.

A denunciada corrupção, que vinha de muitos anos neste aspecto, se encontra em figuras conhecidas, em uma parte particularmente importante da direção político-militar cubana. É obvio perguntar-se como se pode desenvolver tudo isto em silêncio quando tem tal extensão: Ministérios, Forças Armadas, Partido. Outra coisa parece estar ocorrendo hoje em Cuba. Por muitas fatores um tipo de modelo foi ganhando terreno na organização da vida social-política cubana. Este modelo hoje ante uma mudança na conjuntura internacional começa a cair por terra. Sua readequação se apresenta mais que difícil.
Finalmente um povo que foi ficando cada vez mais a margem de uma participação de real incidência hoje assiste atônito ante os graves problemas que começam a aparecer.

Mantemos a esperança de que este povo encontre o caminho em que ele seja protagonista principal.

A REVOLUÇÃO NICARAGÜENSE

A posição que tiveram naquele momento sobre Cuba é a mesma que nos dias de hoje têm sobre o sandinismo nicaragüense?

Te poderia dizer que basicamente sim, mas seria necessário fazer algumas precisões. O contexto histórico, a situação internacional em que se inscreveu a Revolução Cubana são distintos em muitos aspectos ao que se inscreve a Revolução Nicaragüense.

Por outra parte, até onde sabemos, o processo de consolidação da etapa inicial tem contado com maiores escolhos. Cuba teve sua bahia dos Cochinos e bloqueio. Nicarágua tem tido todos estes anos o combate diário dos "contras". Cuba encontrou um momento receptivo dos povos latino-americanos, se estendeu a luta armada por vários países, através de todos os movimentos que se identificavam no substancial com o processo cubano, isto atraía a preocupação do imperialismo. Nicarágua chegou em um momento de avanço da reação de ditaduras na América Latina. Além disso a experiência de Cuba havia alertado ao imperialismo, este estava prevenido e disposto a que não se repetisse uma nova experiência de caráter popular-socialista. Nicarágua, diferente do momento histórico cubano, encontra a países europeus com maior incidência na área e com políticas, em função de seus interesses, que diferem das do imperialismo norte-americano.

Poderiam ser assinaladas mais algumas, mas queremos destacar estas.

O que nos importa principalmente, como antes, é reivindicar o direito deste sofrido e valente povo a dar-se a organização social que quiser. Repudiamos igualmente toda intenção de intervenção nos assuntos internos de Nicarágua por parte do imperialismo norte-americano. Nos identificamos com a ruptura daquela ordem social, que tanta opressão e brutal miséria trouxe aos nicaragüenses e com essa intenção de buscar saídas que constituam processos encaminhados a solução de necessidades populares.

Como Cuba, ontem, contra a sangrenta ditadura de Batista, Nicarágua hoje respondeu a assassina ditadura de Somoza iniciando um processo revolucionário. Em decidida atitude, combatentes e povo se jogaram a não viver outro ciclo de postergação, ultraje e miséria sob outra forma do mesmo sistema. É de se destacar e de se admirar a capacidade de resposta, a garra, a decisão com que este povo tem enfrentado os embates do imperialismo. As constantes sangrias que foram os contras financiados pelos EUA e ajuda extra pelos canais da presidência. Somemos a isto ameaças e intenções de invasão. Internamente uma economia complicada em alto grau, uma inflação de 2000%, setores políticos e econômicos de velha ordem jogando a todas, tratando de recuperar antigos privilégios. História conhecida e repetida todo este tempo.

Vemos ao povo de Nicarágua buscar uma e outra vez distintas formas táticas para evitar o isolamento, para não dar espaço a intenções de mais agressão. Por exemplo, a eleição com participação de forças regressivas que tem planejada.

É notória também a participação de uma entregada juventude que é forte pilar da continuidade do processo.

Apesar de todo o ocorrido, os milhares de mortos e essa situação econômica angustiante a dignidade e a esperança se mostram intocadas nesta Nicarágua que bravamente segue adiante com seu processo. Processo com traços de originalidade, imaginação, realismo e criatividade social. Com muitas expressões organizadas de autêntico caráter popular, com um povo constantemente mobilizado. Coisas que poderiam estar falando de aprofundar uma busca de autêntico poder popular.

Há manifestações teórico-doutrinárias de grande interesse. Por exemplo recentemente líamos declarações de Sergio Ramirez onde afirmava coisas como estas: "O que mantêm e manterá dinâmica esta revolução é a participação. Eu diria que uma revolução termina como revolução no momento em que o povo entra em um estado de passividade histórica e deixa a um grupo de gente fazer a revolução"....há esquemas que no entanto é necessário derrotar. Quer dizer, a tendência que sempre existe de conceber o poder desde cima. Este não é assunto de uma revolução socialista, marxista ou cristianista, sim uma tendência do poder capitalista.

Nosso apoio é também a esperança que o processo nicaragüense encontre uma forma de poder popular, sem burocratização, com autêntica participação do povo. Um modelo de organização social, todo incompleto e transitório que se quiser, que respeite e assegure a liberdade da gente, uma convivência onde a coerção ceda espaço a solidariedade.

Por estas razões fundamentais estamos com este processo de libertação, como estamos também com o processo de luta e realizações que leva adiante o povo de El Salvador. Processo que sentimos perto, que rega com seu sangue generoso um solo que se quer com possibilidades de vida digna. Um movimento revolucionário que enfrente a todo um conjunto de criminosas forças reacionárias. Sabemos que todos estes processos de libertação, ou emancipação, não concordam, termo a termo, com pureza de concepções finalistas. Complexos como se apresentam e o obrigam, se prestam desde uma exigência teórica pura, a realizar-lhes várias críticas. Pode ser que tenham importantes diferenças com o modo de ver, a orientação, as práticas preferidas por nossa concepção. Preferimos, nesta etapa, seguir com interesse estes movimentos. Ver todas suas dificuldades e tudo o que em distintos aspectos ensinam. Reivindicar seu direito. Em tal marco é que realizaremos aquelas pontualizações ou críticas sobre o que acreditamos serem erros ou orientações que signifiquem novamente postergação do povo.

O ANARQUISMO HOJE

Enquanto em quase todos os lugares o socialismo libertário deixa de existir como movimento massivo, grandes manifestações populares tomam alguns de seus postulados (desarmamento, ecologismo, feminismo, etc.). Existe um fenômeno paradoxal?

Sim, este é um fenômeno interessante. Tem se notado uma espécie de ressurgimento, através de uma série de manifestações parciais, certa quantidade de postulados e suas práticas conseguintes que foram em um período histórico patrimônio da corrente socialista libertária: participação, autogestão, democracia direta, formas de organização não autoritárias, maior preocupação com o ser humano e sua expressão nas instâncias coletivas, acentuando-se a liberdade das pessoas nos marcos políticos e sociais comprometidos com diferentes que fazeres.

Todas coisas que constituem uma preocupação central da corrente libertária.

Isto ocorre fundamentalmente na Europa, ainda que em menor medida apareçam manifestações na América Latina.
Movimentos anti-militaristas, pelo desarmamento, contra as centrais atômicas, serviço militar obrigatório, igualdade da mulher, certas reivindicações ecologistas, autonomia, reclames de liberdades, etc.

Muitas destas coisas, no campo libertário foram colocadas sem continuidade ou total conseqüência. Não passando outras vezes de posturas teóricas que não tiveram sua correlação prática. Ainda assim, de forma incompleta são um avanço se compararmos com outras concepções que não se colocaram estes problemas ou os excluíram. Temos a crença que a corrente libertária tem um discurso fluido, abarcativo, com poucas zonas excluídas.

Também deve-se aclarar que alguns destes conceitos tal como aparecem expressados apresentam hoje despojados de seu conteúdo essencial. Por exemplo a participação e autogestão de concepções social-democratas pertencem a outro corpo conceitual e de preocupações. A libertária se vincula mais a atitudes de ação direta e de formas de organização pós-revolucionária. Não por finalidade de maior inserção no sistema. Pelo menos aquelas correntes anarquistas que tiveram inserção popular e desenvolvimento sócio-político. E assim aparece teorizada por Bakunin. Tem o anarquismo uma atitude básica radical, questionadora, não de inserção e integração a este ordenamento. Não lhe serve nenhuma de suas expressões esta sociedade, seus fundamentos.

Mas não é só nos movimentos assinalados que reaparece neste momento o anarquismo. Com bastante vigor refloresce também o terreno teórico. Muitas novas investigações sócio-políticas o tem presente. Também em níveis que poderíamos definir como de "teoria do conhecimento".

São muito tidas em conta suas proposições críticas sobre a sociedade capitalista, o perigo de modelos "socialistas" autoritários sobre os quais alertou; a problemática do poder; a importância decisiva de um conjunto de novos valores a opor a valores burgueses ou aparentados com estes; a liberdade; sua preocupação de não anular ao ser humano no coletivo; seu não conformismo; sua radicalidade; seu rechaço a centralizações anulantes de toda participação.

Há ainda investigações de grande importância, como as de Foucault, radicalidade crítica, problemática do poder, que constituem um fortalecimento dos postulados libertários.

Por outra parte é um momento histórico em que já faz cair por terra uma série de conceitos. Não só no terreno da discussão mas através da própria experiência histórica. Os modelos centralistas autoritários de não participação do povo ou os modelos de ficção de participação ("democracia") perdem eficácia. Modelos estes que já não suportam uma séria análise racional.
Mas ao mesmo tempo está o que colocava tua pergunta, que o socialismo libertário como movimento próprio tem deixado de existir e em outros sua expressão é pequena. Seu claro declínio se manifesta depois da derrota na revolução espanhola.
Claro está que este declínio não pode ser casualidade, sem sequer atribuído a algum castigo divino já que o anarquismo não se caracteriza como crente. Temos que assumir que muitas coisas falharam internamente.

Permite-me. Não há vários anarquismos?

Poderia-se dizer assim. Havia situado a resposta em um plano mais geral e agrupado coisas basicamente comuns dentro do anarquismo e diferenças gerais com concepções que também elas tem suas boas matizes. Dentro do anarquismo há vários enfoques.

No Rio da Prata tem tido expressão com certo peso: o anarco-sindicalismo, o especifismo, o individualismo. A FAU se inscreve no especifismo. Cabe dizer que é uma concepção de anarquismo organizado com finalidade de atuar politicamente. A base teórica-doutrinária é fundamentalmente sobre Bakunin e Malatesta. Daí emana postulados de priorização operária, de inserção nos problemas da população, de ruptura para a mudança, de preocupação que o particular se articule com o global. Nos interessa especialmente assumir a concepção de anarquismo que temos. Ainda mais quando, como ocorre muitas vezes, para muitos companheiros não estão claros os limites. Como no caso do marxismo, existem também aqui distintos enfoques que implicam distintas prioridades e práticas sociais e políticas. Com uma diferença importante em relação ao marxismo, que não existe um corpo doutrinário sistematizado, que sirva de referência e base doutrinária comum. Portanto sua plasticidade resulta maior e as diferenças entre distintas concepções, não poucas vezes, são embaraçadas e difíceis de estabelecer com precisão.

Existem situações em que se entreveram partes de concepções distintas. Por exemplo espontaneístas que querem algo de organização, mas a menor possível, e que ao mesmo tempo agem como se pertencessem a uma concepção organicista de anarquismo. O individualista disposto a integrar grupos de afinidade mas não a pertencer a grandes agrupações políticas ou populares. Aqueles que crêem que deve-se aplicar o princípio, termo a termo, qualquer seja a conjuntura. Para quem teoria e ação política é a mesma coisa essencialmente. Também tem havido e possivelmente ainda tenham concepções anarquistas que priorizam o ético, o estético ou o filosófico.

Para a maioria dos éticos e filosóficos o anarquismo ou é uma concepção de mundo ou uma atitude pessoal que tem que ver com condutas ou esperanças remetidas ao futuro. Por entender que o anarquismo não é viável politicamente sua ação político-social se remete ao mundo real-viável ainda que este pouco ou nada tenha a ver com sua ética e filosofia. Fazendo assim compatíveis mundos opostos. Além disso deve-se dizer que não acreditamos possuir nenhuma oficina patenteadora de anarquismo e para nós são estas assinaladas distintas concepções de libertário. Podemos sim estabelecer que pouco (as vezes quase nada) temos em comum com algumas destas manifestações. Com outras uma vez estabelecidas prioridades, inclusões ou exclusões de práticas em função do marco conceitual preferido, haveria de ver - de um lado e de outro - se sobre bases reais e claras é possível tarefas pontuais comuns. O conflitivo e desgastante é estruturar as distintas vertentes, que querem fazer cotidianamente coisas distintas, em uma mesma organização. O movimento anarquista, as distintas vertentes, podem chegar a ter um campo comum a partir de cada qual assume diferenças e coincidências existentes.

O anarquismo como concepção portadora de um projeto de mudança e de reconstrução social, como portador de novos valores para uma comunidade social, como esperança dos oprimidos e explorados tem tido uma longa crise.
Tem estado muito submerso no particular, atomizado, seu perfil diluído, algo conformista com sua solidão.
Questões fundamentais se confirmam historicamente mas sua pouca presença deverá afrontar todo um desafio. Muitas de seus problemas atuais não lhe permitem gravitação.

A nível de América Latina. Como se resolve esta crise?

Não me animaria a dizer muito. Não estou em condições de dar receitas de nenhum tipo. De América Latina conhecemos, e não muito bem, coisas gerais. Para uma proposta com fundamento se requereria um conhecimento do específico fundamental destes países. Pois pensamos na recuperação do anarquismo inserido em seu meio, nutrindo-se dele, aprendendo e respondendo a situações concretas deste meio.

Sem dúvida o anarquismo terá que ir ao fundo na questão. Junto a sua capacidade crítica e suas boas previsões deverá aprender novamente sobre como atuar em conjunturas onde o ideal não é possível. Refrescar aquela audácia de fim e princípio de século na América Latina, ou da década de 30 na Espanha. De não fazer-lhe asco e sentir-se comprometido com os problemas do presente. Não fazer-se, cuidando "purismos", de coveiros de tão boas idéias, e sim ativo refrescador delas. Não basta negar , deve-se ir colocando outras coisas em seu lugar. Coisas que resultem coerentes com o que queremos e de possível realização em cada etapa.

Colocarmos o tema com valentia e honestidade nos parece que é um passo modesto mas importante. No caminho algumas peleias virão enquanto se encaram alguns destes problemas, já que estas reacomodações não se fazem sem sobressaltos, irritações e erros.

Para uma recuperação há muitas coisas de primeiríssima importância a nosso parecer. Ter verdadeira bronca as injustiças, ganas de fazer as coisas, de participar nos problemas que angustiam a população, modéstia para aceitar nossas limitações, assumir nosso estado atual, não fantasiar de que temos resolvido temas quando há apenas a boa intenção de começar a encará-lo.
A mesma esperança que temos nas mudanças sociais, na produção de uma vontade de mudança no povo, a temos para uma reatualização do anarquismo. A elas nos jogamos.

AMÉRICA LATINA

Dos aspectos gerais sobre América Latina a que fazias referência, que mudanças te parecem ser mais notáveis? Se abre outra época?

Darei algumas opiniões que a meu entender se relacionam com problemas que notoriamente estão em pauta. Claro está que juízos que um considera mais importantes, não são tanto para outros. A prova está que hoje na América Latina e, para não ir mais longe no Uruguai, se fazem considerações sobre a situação presente e suas possibilidades futuras que pouca relação guardam com a realidade. Se interpõe na leitura desde interesses econômicos até interesses político-ideológicos. Os que estão dentro de uma estratégia política no marco do sistema acomodam os fenômenos de tal maneira que ao mesmo tempo que produzem outra "realidade" não entram em contradição alguma com seu discurso de propostas e ação.

Desta forma, por aqui e por lá, aparecem "soluções", já de tipo social-democrata (em suas diversas versões), já neoliberais, ou liberais algo populistas; teriam propostas válidas para a crise do continente ou de seu respectivo país, dizem.
Mas o que rapidamente temos como resultado destes projetos políticos é uma dinâmica que conduz a maior inserção na dependência, aumento da miséria da população e dura repressão quando tais discursos deixam de convencer ao povo. Tal o ocorrido em Venezuela contra o democrata-cristão Andrés Perez, o peronista Menem na Argentina, Collor de Mello no Brasil e Lacalle e o Partido Nacional em nosso país.

Vigora hoje no Continente uma política neoliberal, atada a necessidades e estratégia das transnacionais e fundamentalmente do imperialismo norte-americano. Os projetos políticos e econômicos são traçados fora destes países latino-americanos. Santa Fé II, Banco Mundial, FMI.

Por outro lado, grande parte da esquerda sucumbe a este marco, suas críticas são tíbias, parciais. Não aparecem nem sequer um projeto reformista diferenciado apresentando uma real batalha. A oposição se circunscreve, educadamente, a nada mais que ao plano declarativo. Talvez escapem a isto algumas mobilizações realizadas em diferentes lugares referentes aos Direitos Humanos. E quase por aí teríamos que deixar de contar.

Tem piorado a situação da América Latina nestes anos?

A olhos vistos, se tomamos como referência um par de décadas atrás. Está tudo bastante pior que 20 anos atrás. Quando dizemos isto não simplificamos, não forçamos situação alguma. Aí estão uma série de dados da realidade que não vê quem não quer. Esses dados dizem: mais fome, mais desemprego, mais marginalidade, mais mortalidade infantil, mais dependência.
O conjunto de ditaduras que na década de 70 vieram em auxílio deste ordenamento infame deixaram uma seqüela: brutal aumento da dívida externa, as economias mais entregadas à transnacionais, os povos mais na miséria, os pressupostos mais distorcidos que nunca, a submissão institucionalizada.

Ditaduras que trataram de matar ou anular toda a quantidade possível de corpos humanos portadores de idéias de transformação ou de resistência.

É conhecida de todos a astronômica dívida externa gerada nesse período, ocupação por parte de capitais estrangeiros de setores primordiais da economia, o trabalho sem piedade dos banqueiros internacionais.

As ditaduras aceleraram o que já havia perfilado a "democracia" e hoje estas continuam, fundamentalmente, essa instalação feita pelas ditaduras. Mais privatizações, mais transnacionais, aprofundamento da dependência, tecnificação dos elementos repressivos para responder a reclames populares.

Essa articulação não oferecia possibilidades de mudança favorável?

Mudança ou políticas favoráveis, ou de melhoras de alguma importância para as classes exploradas, para os de baixo, não se vislumbram. É possível que já não seja viável nem sequer uma política reformista que só tocara alguns interesses para desalojar a situação explosiva que tem alguns países no social. Por exemplo, o poder aquisitivo tem descendido e a seguridade social tem diminuído. Ao mesmo tempo os credores banqueiros seguem enchendo seu bolso, as transnacionais superexplorando e despedindo gente.

Claro que ao discurso neoliberal não se move uma palha. Apresenta toda esta situação como passageira, herança maldita em que, se ressalta constantemente, só se trata de aumentar o esforço e apertar o cinto. Em seguida viria o crescimento e todos começaríamos a melhorar indefinidamente nossa situação econômico-social. A ameaça acompanha tal discurso: se não há colaboração se baixa o cacete; se a resistência é grande, insinuam, podem voltar as bestas. Aliás as mesmas bestas que tutelam e participam do governo e as que os "democratas" votam com as duas mãos grandes pressupostos e proteções para o trabalho sujo realizado.

Mas ao mesmo tempo há outro discurso que se apresenta como trazendo as propostas que se precisa, as soluções ansiadas. "Moderno", linguagem que está em moda. Social-democracias da época com seus olhos muito postos na Europa, do Oeste e do Leste. Quiseram melhorar algo da situação de miséria da população no marco do sistema. Não tocariam as transnacionais, não deixariam de pagar a dívida e de imediato a seus interesses, não enfrentariam a política do imperialismo para a área, para a imprescindível "modernização" se resigna ao desemprego. Para saber como pode instrumentalizar seu discurso alguma mudança, sem tocar as estruturas fundamentais que a impedem e que trouxeram estes problemas deve-se ser mais ou menos Mandrake. Porque o assunto parece não pertencer a esfera de saber racional.

Planos sociais-democratas que tampouco tem funcionado em países com outras condições muito diferentes das nossas. Que os Miterrand e Felipe Gonzalez, muitas vezes tomados como pontos de referência, não tem constituído outra coisa que uma reforma burguesa, levando adiante políticas que poderiam ter sido feitas perfeitamente por conservadores burgueses.
A situação das populações na América Latina, de nosso país, é dramática, desesperadora. Cada vez lhe sobra menos para comprar ilusões.

As meias reformas são um caminho que se fecha?

Tudo parece indicar sua inviabialidade para a América Latina. Precisa-se de mudanças de fundo e para isso é necessário enfrentar interesses econômicos e políticos de grande peso. Carlos Andrés Pérez fala um dia em "progressista", diz que compreende a miséria da população e fará algo. Em poucos dias massacra ao povo que se lança as ruas devido a brutal onda de aumentos. Fujimori manifesta em sua campanha que deve-se buscar que o golpe não vá sempre para os de baixo, apenas assume: onda de aumentos, mais miséria para a população, repressão e morte contra os protestos. Aceitas determinadas regras do jogo, determinado campo para o acionar, o que pode fazer-se, partindo da base das boas intenções iniciais é pouco ou nada. Esse tecido de poder concreto que tem o sistema da América Latina expele corpos estranhos tais como mudanças de importância a favor do povo.

Necessário então eleger formas de luta adequadas?

Só a luta política adequada poderá trazer melhoras relevantes a favor do povo. Mas estas melhoras relevantes passam hoje e aqui por claros enfrentamentos com as forças do privilégio e da dominação. Parece que cada vez mais se quer contrabandear como moderno, como atual e fresco, não tratar os problemas de fundo, não enfrentar a estrutura de dominação, não andar dizendo como é a estrutura do sistema. Mais antigo ainda não falar de revolução, democracia burguesa, classes e imperialismo. Tolice de um desarme conceitual e ideológico que nos quer aplicar esta "modernidade".

Claro que podemos convir, absurdo seria não fazê-lo, que estamos em uma etapa histórica específica, que há uma série de novos problemas, que há experiências que tem saldado "teorias", que parte de muitos discursos requerem atualização. Mas que saibamos, o homem pensa, come e tem sonhos. Também respiram ainda isto não seja muito antigo. O homem de baixo em nosso continente segue explorado e oprimido.

A situação não melhora, sua libertação não chega. A luta é velha mas ontem e hoje é a única com que contam os povos para abrir um caminho próprio, para não resignar-se a viver na carência de tudo. As classes privilegiadas e o poder que com elas se articula também é velho. Mas perguntemos a nossos povos e nos dirão o bestialmente atual que são.
Não se tratam de discursos novos e velhos, se trata de como são as coisas. Não há que inventar possibilidades de transformação onde não há. Recordemos que décadas atrás grande parte da esquerda dizia que não havia soluções, nem sequer para importantes reformas nacionais, neste marco capitalista. Que os interesses em jogo e a articulação concreta aqui do sistema não cedia lugar para mudanças que atendessem as necessidades populares. Que a dependência não deixava lugar nem a um desenvolvimento burguês autônomo. Tanto esta dependência como a situação geral tem piorado. situações críticas que tem enfrentado nestas décadas povo como o nicaragüense e de El Salvador, tratando de abrir um caminho real de transformações.
A "modernidade" poderá querer, mas a realidade econômico-política da população rechaçará todo "fim das lutas".
São como ontem, tempos de peleia para a América Latina. A participação combativa do povo não é coisa do passado. Aí estão populações tomando as ruas em Venezuela, Brasil, Argentina ou Florida de Uruguai peleando sua subsistência.
Terão que recolher experiências, ter em conta derrotas, criar formas de luta, mas não há dois caminhos para que o povo consiga transformar sua miséria, estas penosas condições a que é obrigado a viver.

Será na luta que identificará amigos, discursos válidos, que crescerá sua força, que encontrara seu caminho.

LUTA ARMADA E SUA ARTICULAÇÃO COM OUTROS NÍVEIS

A FAU também sofreu críticas por sua posição e práticas em relação a luta armada. Algumas vezes se viu próxima com o foco. Como vê este problema?

Não é um tema simples. É errada a crítica que aproxima a posição de FAU com o foco.

Precisaremos a questão. Para faze-lo é necessário que façamos algumas considerações pertinentes e marcaremos as diferenças a respeito do que se chamou "foco" desde uma atitude de profundo respeito. O que nos mereceu e merece todos os movimentos, sejam marxistas ou nacionalistas, que sob esta concepção pretenderam o início de um processo revolucionário para América Latina. Movimentos que estiveram na linha de frente nesta busca. Pela gente destes movimentos que deram sua liberdade e sua vida pelas mudanças que ansiavam, pelas idéias em que acreditavam.

Feita este esclarecimento, para começar a situar o problema, passamos a afirmar que FAU nunca teve afinidades com a concepção "foco", nem ainda com suas expressões mais flexíveis e criativas. Não coincidiu com a avaliação político-conjuntural que se realizara para América Latina, nem tampouco para Uruguai. Igualmente não coincidiu com orientações ideológicas e organizativas da concepção aludida, nem sua estratégia de curto prazo. Sempre esteve concebida a luta para FAU em termos de longo prazo e em articulação complexa.

Se estimava que a orientação a imprimir nos processos de ruptura, respondendo a violência opressora com a violência libertadora e revolucionária, deveriam ser diversos ao enfoque tipo "foco". Colocando que a luta armada devia estar cuidadosamente articulada com os diferentes níveis de luta: econômicos, sócio-políticos, ideológicos. Que seria em função destes, do ritmo destes, que deveria aprofundar-se o caráter da luta de cada momento. Dito de outro modo, que não deveria ser a luta armada que ditasse o conjunto do trabalho militante, subordinando-o à sua isolada dinâmica.

O exemplo de Cuba reforçava muito a concepção de luta armada reitora e a curto prazo para o desenlace, não?

Realmente. Mas FAU estimava que depois de Cuba a coisa necessariamente seria diferente. Ao império não o tomariam de surpresa novas revoluções. A ação cubana havia demonstrado a viabilidade da luta armada e como, em determinadas condições, que não eram as que alguns pediam, podia esta iniciar-se e desenvolver-se. Também demonstrou que em certas condições específicas se podia obter uma vitória em um prazo relativamente curto. Nossa organização pensava que a realidade da América Latina era diversa e que devia ser uma análise adequada que diria em que condições se encontrava cada país. Que tipo de possibilidades revolucionárias oferecia.

Defendiam o crescimento conjunto e complementar dos níveis?

Se. Se estimava imprescindível ter em conta o conjunto dos níveis operantes: políticos, sociais (movimento operário-popular) e ideológicos. Neste último o ideário ou imaginário popular se tinha particularmente presente: que nível de consciência de mudança existia; que estava na cabeça do povo; que eficácia teriam realmente determinadas ações políticas e armadas para produzir rupturas ideológicas; que este era uma frente de trabalho que devia ser atendida em sua particularidade.

Também um movimento popular, de massas, vinculado a luta armada?

Estava colocado desde o início que um processo revolucionário aqui não se desenvolve sem um movimento popular de "massas" corresponde. Que este nível era de primordial importância em vários aspectos, Entre outras que era a ele a quem correspondeu dizer quando se podia passar a um estado superior de luta. Vale dizer que se este movimento popular não crescia , em qualidade e quantidade, não habilitava aprofundamento da luta armada. Claro está que o nível popular não era visto como algo isolado, e sim como algo em relação, onde o político e ação direta armada produziam determinados efeitos. Além disso se lhe tratava como possuidora de uma dinâmica própria. Também aqui era aspecto de muita importância a forma que devia revestir no organizativo um movimento popular integrado a um processo de ruptura. É de se ressaltar que tal movimento popular não se concebia nos termos tradicionais do nível econômico da luta de classes, ainda que compreendendo tal luta. Se pensava em outra relação com o político e ideológico.

Sustentando-se que a prática radical na luta econômica não é somente, ou principalmente, a obtenção de reivindicações econômicas em si mesmas. Que a radicalidade na luta econômica tinha por função contribuir a elevar o nível destas lutas. Contribuir a elevar a luta econômica, na maior medida possível, ao nível da luta política. Elevar a consciência gremial. Obter neste marco a dose necessária de consciência política para poder destruir o poder político burguês.

Trabalho sistemático para a mudança ideológica da população?

Sim. Assim se colocava. Por exemplo, não trazia resultados positivos que o realizado no plano armado fosse propagandeado como negativo no plano de "massas". Que o aparato ideológico oficial e do reformismo distorcessem, e reafirmasse noções ideológicas contrárias à mudança. Ou simplesmente que a gente não encontrasse o sentido da ação por um princípio de leitura condicionada. Que há atitudes, tradições, comportamentos, crenças, sentimentos, que não se modificam por caminhos desejados e voluntários decretados.

Exigem visão adequada. Aclaremos que se estimava que a ação direta armada podia aportar elementos de significado para rupturas ideológicas, que podia permitir reformulação de problemas, motivação, transformação positiva da maneira de ver, no imaginário popular. Vale dizer, que ela podia chegar a ter seu impacto, logicamente, variava de uma formação social a outra.

Em termos concretos, em que consistia o conjunto de trabalho?

Se pensava em uma simultaneidade de distintos planos de trabalho: o sindical, popular, político público (legal ou não), armado (guerrilha urbana em primeira etapa) e a propaganda em sentido amplo (ideológico). Além do mais um trabalho especificamente teórico.

Como se encarava sua instrumentalização?

O primeiro que se colocava era o conhecimento necessário do meio a trabalhar. Características concretas desta sociedade. Evitar todo tipo de translados automáticos, nesse momento bastante em voga.

Se tratava de tratar temas como : credibilidade das pessoas para este sistema, idéias de mudança, situação econômica da população, expectativas de solução imediata, reivindicações sentidas; condições em que se encontrava o movimento operário-popular, confiança em suas forças, capacidade de luta; proposta real dos partidos de esquerda, busca de novos caminhos ou reivindicação de formas tradicionais de ação. Estas são algumas das preocupações centrais, muitas vinham de bastante tempo atrás.

Sobre a base da avaliação feita sobre a realidade se atuava nos diferentes meios.

A prioridade era o trabalho no meio operário e popular?

Depende do que se entende por prioridade. Como tínhamos dito antes, neste campo de trabalho, seu desenvolvimento era considerado de fundamental importância. Ao mesmo tempo se estimava que só uma prática armada conseqüente tornaria possível a mudança revolucionária. Queria dizer: nem "massismo", nem "militarismo", querendo indicar com isto que estes planos deveriam andar integrados. Dentro de um processo assim concebido o desenvolvimento na população adquiria caráter prioritário.
Mas a prioridade propriamente dita, tomando ao conjunto dos níveis, estava para o político. Para a atividade em si e o desenvolvimento da organização político-revolucionária.

Que funções cumpria o político neste caso?

Era considerado como a instância globalizadora e reguladora. Como a única capaz de evitar hipertrofias setoriais. Como a única idônea para orientar um processo de profunda transformação.

Estava claro que a concepção do político diferia com formulações de tipo clássico. Daquelas que consideram muito separados os níveis entre si na teoria, o que entendem por práticas políticas aquelas que mais ou menos esgotam seu acionar no marco do horizonte do sistema (eleições, Parlamento, etc), para as que seu trabalho fundamental baseia-se na produção de projetos e atividades tendentes à reforma.

A concepção política era coerente com a idéia de real transformação do sistema. Pretendia atuar em relação com as "leis" de manutenção e reprodução do sistema. De um sistema que claramente não tem vocação de suicida.

O acionar político, no marco de tal concepção, era custódio de um desenvolvimento harmônico do conjunto da ação. De que as frentes fossem se desenvolvendo com a adequada dinâmica e correspondente ótica política em relação ao objetivo: queda do sistema capitalismo e início de uma nova forma social rumo ao socialismo.

A esta instância política correspondia avaliações para estabelecer o espaço de ação, para complementar atividades, para corrigir orientação geral, para marcar ação em distintos momentos políticos-sociais. Também pode-se dizer: se o militar é um pé e o popular outro, a cabeça destes pés em marcha é o político. Ilustração que deixa clara a relação do conjunto.

Obviamente se deduz que se entendia que a estruturação da organização política - revolucionária era a meta fundamental na etapa de processamento das condições para a transformação revolucionária. Ou seja, que se processa a ação armada (e outras) através de um centro político e não se processa o centro político através da ação armada.

A concepção, digamos no militar, naquela época da FAU foi a guerrilha urbana?

Não exatamente em termos finalistas. A guerrilha urbana estava concebida como etapa prévia e preparatória da insurreição popular. Mas como se entende que qualquer forma de ação insurrecional pressupõe, necessariamente, uma prática sistemática e organizada de um acionar armado com suficiente capacidade operativa que permita orientar, canalizar, levar adiante um processo insurrecional, é que se definiu por uma guerrilha urbana em toda a etapa prévia. Se disse na ocasião: "A função da guerrilha urbana seria contribuir a processar as condições políticas que habilitassem um desenlace insurrecional."

Que tipo de revolução: nacional, antimperialista, de classe?

Importantes guerras de independência se fizeram com luta armada. O nosso problema é diferente, não temos uma força direta de ocupação. Daí que FAU entendeu que tampouco se tratava de uma revolução nacional. Que não se podia junto com a burguesia fazer um causa comum.

Na verdade não poderia conceber-se uma idéia de nação, de pátria, fora de todo conteúdo de classe. A nação que se fala é a nação onde uma classe dominante (ou várias se prefere-se) chamada burguesa é dona e senhora de toda forma de poder.
Se a guerra não é colonial, como no Uruguai, e sim social, haverá tantos patriotismos como classes opostas.

Nestes países a guerrilha não poderia ter nunca o apoio da nação por mais que se defina ser nacionalista, se dizia. Terá que enfrentar-se com uma burguesia dependente. O inimigo é de dentro e não de fora. Frente a cada avanço popular lançará a burguesia todo seu poderio levantando a bandeira do nacional. A revolução só terá o apoio daquelas classes que estão interessadas no socialismo. Se dirá então que é só na "revolução contra a burguesia nacional dependente... que se desenvolverá a verdadeira luta pela causa nacional do povo."

Te parece que mantêm plana vigência esta concepção para a transformação revolucionária?

É outro tema. "Temão", diria. Seria de minha parte um atrevimento, uma impertinência, dizer que sim ou que não. Em geral poderíamos dizer que são muitas as experiências e lutas levadas na América Latina, com objetivos revolucionários, nestas três últimas décadas. Que isto deve lançar material para colocar-se novos problemas, reformulações, combinações. O que sim poderia dizer é que neste assunto FAU se encontra entre os sérios que tem realizado, que sem dúvida contribui e que sua militância levou adiante uma etapa disto com honestidade e entrega.

Te agregaria que acredito que para os povos de América latina não há outra saída do que a transformação revolucionária.

OS ACONTECIMENTOS NO LESTE EUROPEU

A Perestroika segue seu curso. Como julga isto?

Sim, as mudanças tem-se sucedido, e seguem sucedendo nos países do Leste, com grande rapidez. Tomemos não mais que os exemplos de Alemanha, Polônia, Hungria, os países bálticos, Romênia e a própria URSS: A burocracia russa, linha Gorbachov, tem seguido adiante com seus planos de liberalização no econômico e político.

Estes processos deixaram a descoberto o pouco respaldo com que contava esta burocracia na maioria dos países. Poderia dizer-se que explorou um descontentamento há muito tempo contido. As ânsias que possuía a gente de livrar-se deste autoritarismo insano, de poder ter algo de liberdade. Também tem ficado a descoberto, tem aflorado, nacionalistas retrógrados. Por outra parte, a concepção de liberdade que parece estar no ideário popular toma fundamentalmente como ponto de referência ao Ocidente, o liberalismo burguês.

Os dados que nos dão estes processos são que o sistema havia tornado-se inviável, grande atraso técnico, baixa produtividade, alta corrupção, ineficiência, opressão insustentável, descontentamento popular crescente. Todas coisas hoje muito conhecidas e aceitas, e até divulgadas pela própria burocracia gorbachoviana.

Recordo agora uma frase que se disse no ato do 10º Aniversário de FAU: "A gloriosa revolução operária e camponesa de 1917 foi progressivamente amarrada na camisa de força da burocracia do partido, chefes militares e tecnocratas... a história não está terminada dentro da União Soviética".

Já está claro que o modelo por uns chamado "socialismo autoritário", por outros "capitalismo de Estado" se veio abaixo, caiu. Seu golpe retumbou e retumba a nível mundial. Tal situação produz efeitos em muitos campos. A nível da estratégia mundial do imperialismo norte-americano, do reacomodamento europeu, de problemas do Terceiro Mundo, Tudo isto já seria um tema em si mesmo.

No campo doutrinário-ideológico, como repercutiria?

Muitos discursos marxistas-leninistas e marxistas ortodoxos ficaram notoriamente "agarrados ao pincel enquanto voava a escada". Está claro que em primeiro lugar estavam os que aderiam total e sem reflexão ao "socialismo real". Para estes a confusão e deslocamento no doutrinário-ideológico é tremenda. Implicava a eles aceitar tudo o que tinham negado: que isso não era socialismo, que havia corrupção e classes privilegiadas, que derivavam para formas capitalistas do tipo clássico, que haviam realizado bestiais repressões e assassinatos, etc.

Em muitos lugares os PC iniciam processo de extinção, em outros de acelerada mudança conceitual e de posturas políticas. Revolução, revolução proletária, anticapitalismo, vanguarda de classe, imperialismo, classismo, são conceitos, entre outros, que passam a ser apagados ou reformulados, porque significam outra coisa. Alguns, como o forte PC italiano, está para desaparecer e constituir-se em "outra coisa". Para outros movimentos marxistas - excluindo social-democracias - que tinham um apoio menor à URSS, mas que no fundo de referência e como uma presença socialista imperfeita mas socialista enfim, o golpe também tem sido forte. A maioria se encaminha, ou começa a encaminhar-se, para concepções social-democratas destas atualmente em voga.
Outro efeito no político é que fica questionada uma doutrina que foi impulso de grandes movimentos populares que ansiavam a superação deste infame sistema capitalista. Movimentos e lutas onde entregou-se tanto sangue e sacrifício do povo e militantes neste anseio de uma ordem social diferente. Por essas idéias morreram e lutaram muitos no Terceiro Mundo.

Por outra parte, tudo parece indicar que será muito difícil, em pouco tempo mais, poder estabelecer diferenças entre os discursos PC e social-democratas na América Latina. Aqueles conceitos, praticados ou não, que os separava, já deixam de existir.

Falta muito ainda por ver?

Sem dúvida. Pelo exemplo na URSS é de particular importância observar como derivará a luta popular. A ilusão liberal-burguesa é possível que logo caia por terra. Milhões saberão de insegurança econômica, de desocupação, de aumento da miséria. Verão que a repressão mais democrática agora será igualmente implacável ante seus reclames. Tão semelhantes no Leste como no Oeste. Alemanha será o primeiro a sabê-lo. Mas muitos destes povos já se organizam em seus sindicatos e começam a protagonizar lutas. Algumas destas organizações operárias, muito pequenas por agora, reivindicam o socialismo e rechaçam toda forma capitalista. Querem liberdade socialista. Nos parece que estes povos sofridos, com capacidade de lutam tem muito ainda para dizer.

No que tange ao Terceiro Mundo, a nossa América Latina, terá que ver como serão reformuladas idéias impulsoras de processos de libertação. Da minha parte creio que é difícil que movimentos que surjam procurando a transformação do sistema capitalista, não incluam em seu projeto socialista a liberdade.

Para nossa concepção socialista e libertária, com rica história nas costas, se abre um campo importante de possibilidades. Mas queremos ressaltar que só pelo fato que uma força se debilite não se reforça necessariamente a outra, que poderia ser alternativa. Não basta que algumas idéias fundamentais venham a favor de nossa concepção. Apenas fazendo, estando presente nas lutas, formulando propostas concretas, em contato permanente com o povo e suas necessidades. Integrados nesse tecido de sentimentos, realizações, peleias, êxitos e fracassos populares, é que poderão ter presença nossas idéias de socialismo e liberdade.

A ATUAL ETAPA HISTÓRICA

Como vês em geral esta etapa histórica, são muitas as mudanças? Há como uma espécie de nova cultura em aspectos sociais e militantes?

Sim, inegavelmente há um conjunto de mudanças. Muito se teoriza sobre elas. Mas nessas considerações intelectuais, tem-se a impressão que há coisas mescladas e exageradas. Certamente há aspectos culturais que devem guardar correspondência com este momento histórico.

Também é possível que tenham mais a ver com modas passageiras, que toda época possui.

Por exemplo, se fala de mudanças ou situações que tem atualidade na Europa, que podem muitas delas corresponderem-se com processos muito específicos, como se fossem necessariamente universais. Para muito intelectual europeísta o que acontece na Europa - também nos EUA - tem que estar acontecendo no mundo e logo, aqui no Uruguai.

De repente estas prioridades, essas expressões culturais não existem ou são de menor quantia na América Latina, África e Ásia.
Assim parece ocorrer com temas diversas. Por aí aparece como uma cultura dos finalistas. Fim da história, fim do socialismo, fim da utopia, fim das lutas revolucionárias, fim do sentimento coletivo, fim da abnegação social, fim da família, fim das formas organizativas políticas. Poderíamos acrescentar uma quantidade mais de fins que se lêem lá e aqui. Uma mesma cultura que dá elementos comuns a um campo que vai de altamente conservadores a esquerdistas e progressistas. Algo assim como um novo paradigma em que estão colocados discursos muito distintos.

Um pouco disso se nota. É todo um tema de estudo.

Deixemos claro. Não estudei nada disto, tampouco de outras coisas. Creio que estudar com rigor já é outra coisa. Assim que as considerações devem ser tomadas como as de um leitor e observador que dá suas impressões. Ninguém pode negar que estão se produzindo mudanças de importância. Que é imprescindível situar estas mudanças se pretende-se operar politicamente, culturalmente, etc. Não nos referimos a isso. Nos referimos ao que consciente ou inconscientemente se contrabandeia junto à análise e avaliação, de processos reais de mudança. Há zonas inteiras agregadas, que passam por como se faz a cabeça do intelectual correspondente. Zonas que a única realidade que tem é que pertencem a um processo de pensamento, o do autor, que não discutimos que também é uma realidade. Sem dúvida que muitos destas "análises e diagnósticos" vêem disparados. Algumas vezes correspondem-se com interesses econômicos políticos (fim da história por exemplo), mas outros não são tão assim. Há os que só tem relação com problemas existenciais. O ruim é que se inscrevem nessa cultura que possui boa dose de exceção.
Te dou um exemplo. Ultimamente tenho lido não menos de quatro trabalhos que se referem ao que poderíamos denominar o fim da luta revolucionária e do militante comprometido. Acabou-se o sentimento contra a injustiça que leva a abnegações. Deixemos Europa de lado e algum lugar de muita influência européia. Isto não é assim para o Terceiro Mundo. Poderiam enumerar-se quantidade de lutas, de resistência dos povos que desmentem esta tese. As temos, sem ir mais longe, aqui em nossa América Latina. Demos por regalada Europa onde haveria que demonstrar que a coisa é tanta assim. Com o assunto das mudanças se está exagerando um pouco e outros indo de carona.

Algumas das mudanças gerais que estimas mais relevantes?

São muitas. Enumeraremos os que nos parecem de maior influência. Estes são: a queda do modelo chamado socialismo real, a arrancada agressiva do sistema capitalista, triunfos de social-democracias na Europa, guerras localizadas; na América Latina processos revolucionários como o de Nicarágua e El Salvador; brutais e assassinas ditaduras extendidas pelo tempo em nosso Continente; aumento de gravitação dos países árabes; a irrupção da problemática juvenil e outros grupo sociais marginalizados; ruptura ideológica em relação a muitos valores "consagrados"; reafirmação da pessoa; revalorização da liberdade. Estes são alguns. Os outros ficaram para trás, possivelmente. Mas uma combinação apenas destes fenômenos resulta a constituição de muita coisa nova. Resta por ver, igualmente, como se expressa em cada particularidade, seja continental, seja de país.
Justamente, o que nos parece muito incorreto são estas generalizações arbitrárias e translados automáticos que se fazem a maioria das vezes. Se decreta uma "modernidade" tipo, curiosamente constituída, depois se distorce o discurso para fazê-la existir em todos lados. É possível que muitos intelectuais tenham já acomodada a visão e só possam ver assim agora.

De todas as maneiras, se corre o perigo que as coisas passageiras, conjunturais, ganhem a patente de permanente. Também que a fenômenos cujos processos não estão terminados lhes decrete coisa acabada e lhes ponha nome definitivo. "Não se farão mais esforços em prol de uma esperança distante", por exemplo.

Se fundamenta a coisa, pelo menos dentro de determinadas ondas, como que os valores do ser humano só são aqueles que têm que ver com determinados desfrutes, sobre os quais nada temos, nada teriam que ver, a esperança, a solidariedade, a sensibilidade ante a injustiça, as ganas de não ver mais miséria e arbitrariedade, o sentimento coletivo de crer que temos algo que ver com esta sociedade em que vivemos. Se gente e povos sacrificam algum prazer por um destes será porque estimam que isso é um prazer maior. E irá fazê-lo quando ver que todos estes valores não vem causando bem as pessoas aqui e agora.

È certo que há posições, práticas, discursos que já não se convocam ou convocam pouco. Que há uma baixa no nível combativo de muitos de nossos povos latino-americanos, um avanço de certo individualismo negativo. Temas preocupantes que merecem talvez outro ponto de partida, com rigor, para rastreá-lo e dar-lhe um "jeito".

Mas isto não parece encontrar-se em certos discursos cujas categorias de análises quase que estão gritando desde o começo que "não se pode". A luta dos povos tem mudado muitos valores, superando conjunturas desfavoráveis, produzido coisas novas. Então temos aí a atitude dos povos do Leste mantendo formas de resistência durante tantas décadas de ditadura brutal. Os povos sob o sistema capitalista também resistindo, dando seu sangue em suas lutas sem abandonar sonhos de uma vida justa e digna. Nossa América Latina de longa luta, de tantas derrotas, de tenacidade esperançada. Quantas lutas poderíamos hoje enumerar na América Latina, desde El Salvador, passando pela Venezuela.

É possível que tenha-se que inscrever a luta no marco de novas pautas culturais, novas estratégias políticas. Que a velha e sempre idéia de libertação requeira seus ajustes. Como, por outra parte, os tem exigido cada novo período histórico e conjunturas especiais. Mas não vamos para o conformismo pela via da "modernidade". Não nos agarremos ao galope sem pensar.

A concepção anarquista tem tido historicamente confiança no ser humano, no povo. Não sem fundados motivos. Mas além disso, e fundamentalmente, hoje há toda uma experiência e história sobre possibilidades de que se pode conviver socialmente melhor. Não parece indicar que estamos ante o fim das aspirações de uma vida mais livre, participativa, humana e solidária do homem, dos povos explorados e oprimidos.

Com essa mesma confiança da história libertária para as transformações é que encararemos este presente tão particular.