Reportagem
com um velho militante anarquista
Editado
em Porto Alegre
Em Agosto de 2000
1º Edição
PREFÁCIO
Esta
pequena publicação é uma tradução
da matéria de mesmo nome publicada em duas partes na revista
uruguaia Rojo y Negro números 1 e 2, está última
datando de setembro de 1990.
Juan Carlos Mechoso possui mais de quarenta anos de militância
anarquista no Uruguai. Sua história se mescla com a história
da Federación Anarquista Uruguaya (FAU), organização
da qual foi fundador. Também foi fundador da organização
de massas Resistencia Obrero Estudantil (ROE) e ainda da guerrilha
urbana Organización Popular Revolucionaria 33 Orientales (OPR-33).
Militou no movimento operário e de bairro. Esteve quatro anos
na clandestinidade (1969 a 1973), doze anos no Peñal de Libertad.
Foi libertado em 1985 na época da Anistia. Desde aí,
e até hoje, seguiu militando.
FAU sempre teve a preocupação em atualizar o anarquismo
às distintas conjunturas e anseios populares, por isso na América
Latina foi uma das poucas organizações (se não
a única) que manteve o anarquismo organizado e inserido socialmente
neste período de tempo entre meados dos anos 50 até
os nossos anos, passando por uma importante atuação
na época das ditaduras latino-americanos.
Sua fundação se dá em 1956, a partir da convergência
de militantes sindicais, de bairro, Juventudes Libertárias
e exilados da Espanha. Em 1964 participa ativamente da constituição
da Convención Nacional de los Trabajadores (CNT), central que
agrupa os trabalhadores uruguaios (depois refundada com o nome de
PIT-CNT). Também foi impulsionadora do Congreso del Pueblo.
Em 1968 funda uma organização de massas, a Resistencia
Obrero Estudantil (ROE). Em 1970 lança seu braço armado,
a Organización Popular 33 Orientales (OPR-33), que realiza
expropriações, seqüestro de representantes da classe
dominante, entre outras ações. Prevendo o golpe militar
com um ano de antecedência, quando ele se dá a ROE puxa
uma greve geral com ocupação de fábricas por
15 dias.
Com a repressão, a FAU é posta na clandestinidade e
seus militantes são exilados, presos, alguns destes valentes
são assassinados nos porões da ditadura. Com boa parte
dos militantes presos, outros exilados, só na época
da Anistia a FAU se reorganiza, e é refundada no 1º de
Maio de 1986, num ato público com 3 mil pessoas.
Depois de 40 anos, Juan Carlos Mechoso e outros tantos bravos militantes
da FAU são um exemplo de que segue atual a esperança
de construção de um processo revolucionário no
Continente. Que a democracia que tanto exaltam hoje segue sendo a
dominação de uma classe sobre a outra, que o sistema
embora venha buscando meios mais sutis de repressão (mas não
menos violentos) continua vigilante e intolerante a tudo que possa
ameaçar sua estabilidade.
Quando hoje vemos a tantos militantes de esquerda mais velhos rebaixarem
seus discursos, dizendo aos mais jovens coisas do tipo: "vocês
pensam assim porque são jovens, quando chegarem na minha idade
verão que não é bem assim..."; negando conceitos
de luta de classes, de ruptura com o sistema capitalista; utilizando
sua experiência como desculpa para a acomodação
e peleguice do presente; Juan Carlos Mechoso nos dá um exemplo
de firmeza ideológica e diz que sua convicção
hoje está "como no primeiro dia".
Quando tantos que viveram na época da ditadura, às vezes
apenas por ter passado uns tempos no exílio (muitas vezes voluntário),
saem posando de heróis para TV e outros meios de comunicação,
Juan Carlos Mechoso esbanja modéstia e sobre seus anos de prisão
comenta apenas que sofreu o mesmo que "tantos milhares de militantes
e povo". Sim, foram 12 anos de prisão, e alguns dias após
sair da prisão Juan saía a procura dos seus companheiros
para recomeçar tudo de novo. Não lhe interessava posar
de vítima à história, lhe interessava seguir
fazendo a história, como continua fazendo FAU, e o fará
até terminar o trabalho de tantos de seus bravos companheiros
que tombaram, os melhores filhos do povo cujo crime foi desejar uma
sociedade livre, justa, fraterna. A isso nos jogamos...
Arriba los que luchan!!!
SUMÁRIO
Sua
Militância
Anarquismo no Rio da Prata
A Revolução Cubana
A Revolução Nicaragüense
O Anarquismo Hoje
América Latina
Luta Armada e sua Articulação com outros Níveis
Os Acontecimentos no Leste Europeu
A Atual Etapa Histórica
SUA MILITÂNCIA
Toda
uma vida dedicada as idéias libertárias?
Comecei a militar muito jovem, tinha quatorze anos. Em atividades
libertárias no Cerro e La Teja (bairros operários de
Montevidéu). Havia outros jovens de quinze e dezesseis anos.
Como
te definirias preferentemente: anarquista ou socialista libertário?
No fundamental são expressões sinônimas. Mas prefiro
anarquista.
Conforme
com tua opção ideológica depois de tanto tempo?
Como no primeiro dia.
Passaste
por uma longa prisão. Difícil, dura?
Como para tantos milhares de militantes e povo que teve de suportar
a conhecida longa repressão.
Toda
uma especial experiência. Lembranças da prisão?
Muitas. A maioria se relaciona com episódios humanos e políticos
com os quais nos coube conviver.
ANARQUISMO
NO RIO DA PRATA
Entre
as tantas especificidades que o Rio da Prata mostra em relação
à América Latina, um deles é a permanência
do anarquismo dentro do movimento operário. Quais são
as causas que explicariam este fenômeno?
Uma série de coisas nos parece de primordial importância.
A preocupação que teve a FAU desde seu início
de atualizar as idéias anarquistas com a finalidade de agir.
Ação que se vinculara com os problemas concretos do
meio. E a permanência de inserção no meio operário
e popular.
Te
parece particular isto do Uruguai?
Pensamos que sim, que por várias razões o caso do Uruguai
é particular no Rio da Prata. O da Argentina é um pouco
diferente. Foi grande a influência do anarquismo no movimento
até aproximadamente a década de 30 em todo o Rio da
Prata. E até esta altura há realmente muita semelhança
nos processos operários e influência do anarquismo. Há
características similares do movimento sindical, FORA (Federación
Obrera Regional Argentina) na Argentina, FORU (Federación Obrera
Regional Uruguaya) no Uruguai. Há um intenso intercâmbio
entre estas duas federações, fundamentalmente entre
sua militância e medidas solidárias. Inclusive há
um constante "tráfego" de militantes de um país
a outro. Muita da propaganda teórica e doutrinária editada
é de uso comum para ambos países. Sem dúvida
o desenvolvimento maior corresponde neste período à
FORA argentina. Estas Federações que agrupam quase a
totalidade do movimento operário são de orientação
anarco-sindicalista. Cabe colocar que concebem o Sindicato como único
instrumento válido para processar uma mudança revolucionária
e para posteriormente organizar a vida social. Colocam que são
os produtores, e a greve geral revolucionária, os encarregados
da destruição da ordem capitalista e da posterior organização
da sociedade futura.
Também é de esclarecer que no seio destes sindicatos
atuam militantes anarquistas que não se inscrevem em uma concepção
anarco-sindicalista. Me refiro aos especifistas. Isto é, os
anarquistas que são partidários de organizar-se politicamente.
É assim que temos uma semelhança no desenvolvimento
histórico do anarquismo vinculado ao movimento operário
no Rio da Prata, e o próprio movimento operário tem
características bastante semelhantes: uma imigração
comum, proveniente da Itália, Espanha e França, parte
importante dela portadora de experiências e lutas fortes em
seus respectivos países. Imigrações provenientes
de lugares onde o movimento operário havia travado profundos
combates e sofrido duras perseguições. Tal o 48 e 71
da França, as lutas na Espanha e Itália da década
de 70 e 80. Momento este último que conta com a presença
de uma Internacional Operária que tanto impulso deu à
classe operária. Diga-se de passagem, justamente esta imigração
que está chegando, italiana e espanhola, de zonas que, no que
se refere ao movimento operário, se inscrevem fundamentalmente
no marco da influência bakuninista desta primeira Internacional.
Posições questionadoras a fundo da ordem capitalista,
partidárias da ação direta e insurreição
violenta.
Nos últimos anos do século e princípio deste
há uma relação muito intensa do anarquismo rio-pratense
e muitos os problemas comuns. Pela grande influência da imigração,
a forte presença de organismos internacionais, operários
e políticos, a regular presença de "agitadores"
no Rio da Prata, se vive com muita paixão os eventos internacionais.
Se esperam acontecimentos operários "redentores".
A Revolução Russa de 17 origina forte comoção.
Também as respostas serão parecidas nos dois países.
A Federação Operária se fraciona por conseqüência
disso, USA (Unión Sindical Argentina) lá e USU (Unión
Sindical Uruguaya) aqui.
Esta semelhança dos movimentos anarquistas no Rio da Prata
é verdadeira até a década de 30. Nesta década,
a princípio dela, o que aparece como mais comum é a
relação entre os homens de ação (os expropriadores
e vingadores operários) no Rio da Prata.
Muitas são as ações conjuntas e solidárias:
Túnel de Punta Carretas, morte de Pardeiro, por exemplo.
No início da década de 30 a questão muda fundamentalmente.
A ditadura de Uriburu disfere golpes demolidores ao anarquismo argentino.
A FORA, duramente golpeada, sofre um processo de debilitamento que
já havia começado. Aqui a FORU também está
em processo de debilitamento, mas também mantêm ainda
muitos sindicatos.
Depois da caída de Uriburu o anarquismo não chega a
recuperar-se, não pode manter aquela inserção
de outrora. A chegada do fenômeno peronista e sua adesão
operária liquidam suas possibilidades de recuperar importante
incidência no movimento operário.
A
essa altura no Uruguai como se encontra a inserção anarquista
no meio operário?
Fenômenos como o do peronismo aqui não houveram. O anarquismo
mantêm presença no Movimento Operário. Na década
de 40, por exemplo, está o Sindicato Swift de ação
direta, Padeiros, Navais, Gás, centro de Proteção
de Choferes, algum setor do Porto, e militância em sindicatos
como Gráficos, Couro, etc. É no final desta década
que se leva adiante por mais de três anos a campanha pela liberdade
dos presos navais. Problema que derivou de um enfrentamento com pelegos
armados. Na raiz do tiroteio, em La Teja, entre grevistas e pelegos,
detêm dirigentes do Sindicato. Chegamos aos princípios
dos anos 50 participando desta campanha.
Tivemos um conhecido crescimento industrial durante o período
da guerra e anos seguintes, a aparição neste tempo de
muitas oficinas e fábricas, também o aumento do volume
de outras já existentes.
No início da década de 50 há outro reponte do
anarquismo no Movimento Operário. Há interessante militância,
e certo peso, em alguns sindicatos autônomos. Alguns deles recentes,
General Eletric, BAO, fábricas de vidro, ANCAP, etc. Ao mesmo
tempo se mantêm militância em frigoríficos, também
em outros sindicatos pequenos. Além disso ainda havia força
velhos sindicatos de ação direta como Navais, Gás,
Choferes. Na greve geral do ano 52 a influência anarquista é
notória. Um velho militante operário anarquista. Blas
Facal, é figura ativa e reconhecida neste evento. No chamado
Paralelo 38, enfrentamento no Cerro e La Teja com as forças
repressivas, a militância anarquista esteve ativa junto a outras
forças e a um povo que saía a rua para fazer-se respeitar.
Depois da Greve Geral de 52, o anarquismo sofre outra baixa no que
se refere à militância. Muitos dos seus militantes são
despedidos de seus trabalhos. Somente no Frigorífico Switft
(ASEIF) há mais de uma dezena de despedidos. Diga-se de passagem,
agora que está em pauta a tomada de supermercados pelo povo
em países vizinhos, que neste momento (início de 50)
parte da população do Cerro, durante um longo conflito,
via medidas de ação direta, tomava as cadeias de armazéns
(Manzanares e ODA) e se provia do que necessitava para subsistir.
Agreguemos rapidamente que naquele momento a partidarização
política era muito menor, residia no campo ideológico
afetivo. Apesar certa dispersão (ausência de Central
Operária Comum), era mais forte o sentimento de que o nosso
temos que tomá-lo todos, também certo estado espiritual
de que se pode ser qualquer coisa menos milico e pelego. Idéias
e sentimentos simples que empurraram tantas aguerridas lutas.
Metade da década de 50 o anarquismo procura ampliar sua diminuída
inserção. Há um esforço por refazer-se
no campo sindical. Ficam sindicatos onde a influência anarquista
é ainda importante, em outros se têm começado
ou se está ampliando a atividade militante.
Desde as Juventudes Libertárias trabalha-se por um sindicato
forte em FUNSA. Também participa-se daquela iniciativa da FEU
terceirista, a Mesa Operário-Estudantil. No ano de 58 os operários
de FUNSA afirmam seu sindicato, em uma ocupação põem
a fábrica para funcionar através de um controle operário.
Pouco antes a FAU havia sido fundada. Concretiza um processo que se
inicia no ano 52, depois das Medidas de Seguridade. As Agrupações
basicamente operárias de Cerro-La Teja, JL (Juventudes Libertárias)
e Medicina são de fundamental gravitação nesta
formação.
No referente a inserção de FAU, o grêmio de FUNSA
se constitui em um pilar. No estudantil, o será pouco mais
adiante o Magistério.
Há militância com distintos graus de gravitação
em sindicatos como o mencionado FUNSA, Gráficos, Bancários,
BAO, Padeiros e outros. A altura de 68 se coloca na FAU a necessidade
de constituir uma instância que habilite, para o trabalho no
meio operário e também estudantil uma tarefa comum mais
ampla, com militância de similar preocupação combativa,
com objetivo ao mesmo tempo de dinamizar outra orientação
no seio da CNT, tida como urgente em relação aos interesses
operários. Nasce a ROE. O nome de Resistência fundamentalmente
alude à história combativa dos sindicatos de princípio
do século. Aqui emborcará a FAU o grosso de sua militância
durante um tempo. A ROE chega a protagonizar muitas e importantes
lutas. Por exemplo, conflitos e ocupações em FUNSA,
CICSA, Divino, Seral, TEM, etc.
Em relação a estes conflitos a OPR (de composição
anarquista) realiza seqüestros de industriais ou figuras representativas
das empresas.
A não interrupção do anarquismo no seio do Movimento
Operário, sua continuidade, com os enormes altos e baixos assinalados,
foram permitindo manter-se certa influência. Ademais há
muitas lembranças das pessoas sobre a ação anarquista
no meio operário, há memória coletiva acerca
dele desde princípios do século a nossos dias. Referências
históricas recordando: fundação de sindicatos,
conquistas, variadas lutas e acontecimentos, refrescam isto quase
permanentemente. Por outra parte, os primeiros sindicatos deixaram
experiências culturais-sindicais que já perduraram muito,
ou foram ponto de referência ou duram até os nossos dias.
Te acrescento uma coisa ainda para terminar a resposta. O anarquismo,
referente a problemáticas do tipo operário não
tem trabalhado só no sindical. Nos bairros operários
como Cerro e La Teja há uma tarefa barrial social desde épocas
remotas.
A
REVOLUÇÃO CUBANA
Durante
anos a FAU, dentro do Movimento Libertário Internacional, foi
considerada como uma herege pelo apoio brindado a Revolução
Cubana. Como se explica que uma organização libertária
apoie a um regime marxista leninista?
Tem sido um esforço constante da FAU, e ainda mais em determinada
altura, o de tratar de ver mais além dos rótulos doutrinários.
Uma preocupação em enxergar, com a objetividade possível,
as particulares características dos processos, a importância
que estes podem chegar a ter em sua relação com as necessidades
e aspirações populares. Tratar também de medir
e estimar o efeito que estes acontecimentos podem chegar a ter como
catalizadores e motivadores para outras mobilizações.
O que eles podem significar para as lutas de nossos explorados e oprimidos
povos da América Latina.
A chegada da Revolução Cubana foi um acontecimento de
primeira ordem na política. Nesse momento, pelas características
que esse movimento tem, por como realiza a mudança, como enfrenta
às forças burguesas mantenedoras da ordem existente,
como abre caminho a algo novo, põe em pauta temas estratégicos
e metodológicos. Vale dizer, volta a colocar em pauta, a possibilidade
de uma ação direta armada para a conquista de transformações
profundas. É um movimento contra uma brutal ditadura que não
se conforma só em derrocá-la, enfrenta ao mesmo tempo
os planos do imperialismo norte-americano que aspirava só à
substituição de um Batista desgastado.
Antes de mais nada, parecia à FAU necessário ter-se
uma linha claramente antimperialista para nosso trabalho militante.
Esta linha antimperialista devia ser um dos pontos principais para
situar posturas e apoio a determinadas lutas, intransigente na reivindicação
do direito dos povos a autodeterminação.
O direito à buscar formas de organização de acordo
com aspirações e urgências de nossos povos. Estes
princípios estiveram presentes em todo momento no apoio crítico
brindado à Revolução Cubana.
Unido a isto estava nossa esperança e desejo que nossos povos
começassem a tomar em suas mãos seus destinos, que finalmente
tanta angústia, miséria e ultraje ficasse pelo caminho.
Essa autodeterminação que esteve desde o começo
em perigo para qualquer outro processo emancipador na América
Latina. Sua defesa era nossa defesa. Se o imperialismo metesse a mão
na revolução cubana, a este processo que se iniciava,
igual sorte poderia correr processos futuros. Seria repetição
do conhecido, atropelos, e invasões norte-americanas tão
características de todo um tempo. Guatemala não estava
longe. Fresca estava tanta impotência e amargura vividas por
nossos povos. Víamos que coisas estava-se jogando neste momento.
Por outra parte já se viam elementos positivos, no anímico
se passava de uma época a outra. De uma época de desesperança
e impotência, a uma de esperançada luta.
A luta em Cuba era, aos olhos da América Latina, um enfrentamento
exitoso contra aquele poderoso, contra quem desde a esquerda até
a direita se dizia que não se podia.
Eram momentos de entreguismo vergonhoso e descarado dos governos destes
países em organismos internacionais como a OEA, onde justificavam
e votavam invasões norte-americanas. Ali concorriam delegações
de países que em sua quase totalidade, resultavam na prática
submissos testas-de-ferro da política do imperialismo. Com
menos pudor e condicionamento que hoje.
Era um enfrentamento a toda esta estrutura de poder nacional e internacional
realizada com suas próprias forças. Gerava uma chamada
de esperança, rompia todo um clima espiritual, e muitas "teorias"
de impotência. Muitas estratégias que relegavam as mudanças
de importância a uma curiosa elucubração, a um
distante e enigmático futuro.
Voltava a discussão um problema sobre o que fazia tempo não
se falava, o das transformações revolucionárias,
da modificação a fundo das estruturas, de um reordenamento
sobre outras bases de toda a vida econômica-social-política
de um país.
Quando começam as primeiras medidas, de reforma agrária
e urbana, de enfrentamento aberto ao imperialismo e seus interesse
na ilha, quando é notório o entusiasmo de um povo que
se sente renascer e começa a viver com dignidade, a sonhar
com belas possibilidades sociais e políticas, não duvidamos
que tínhamos que seguir desse lado da trincheira. Neste marco,
como se apresentava, o rótulo, era de importância secundária.
Por outra parte devo aclarar-te que isto do rótulo não
é algo de primeiro momento. A Revolução se definiu
Marxista-Leninista um tempo depois. Nós estivemos desde o primeiro
momento apoiando este processo e reclamando por seu respeito. Integramos
os primeiros Comitês de Apoio em bairros e sindicatos. Os que
esperavam o rótulo foram outros.
Nosso apoio não implicava, não implicou em nenhum momento,
que deixávamos de marcar que havia aspectos que não
compartilhávamos. Que nosso apoio era crítico e que
contaria com nosso enérgico rechaço toda repressão,
falta de participação popular, burocratização,
ausência de independência. Dissemos em atos e declarações
que tínhamos a esperança de início de um trânsito
até novas formas de autêntico poder popular, para novas
formas de convivência social, que não implicassem a coerção
nem a burocracia nas relações sociais.
Que esperávamos desse processo a participação
crescente do povo em sua própria coisa através de inéditas
e autênticas instituições populares. Que este
processo, como naquele tempo os próprios cubanos o diziam,
fosse independente, não atado a nenhum bastão de mando,
eles diziam "tão cubano quanto as palmeiras". Que
entroncasse em nossas características latino-americanas, que
tivesse adequadamente em conta nossas tradições culturais,
nossas formas de ser social latino-americano. Que não fizesse
cópias, translados automáticos de outros modelos.
Também reafirmamos naquele momento que o maior apoio que podia
prestar-se a este processo era iniciar nosso próprio processo
revolucionário. Trabalhando de acordo com nossas forças
para conquistar as mudanças que nossa sociedade, que nossos
povos latino-americanos imperiosamente necessitavam, e ansiavam. Era
um momento revolto, de muitas lutas frontais, de libertação,
anticolonialistas, revolucionárias. Um contexto histórico
internacional e latino-americano de certa articulação
muito específica. Em tal sentido há uma Cuba da década
de 70 e uma bastante distinta neste momento. Por exemplo, o problema
Ochoa, o chamado de narcotráfico, não transmite para
esta geração uma imagem positiva de ação.
Esta geração não percebe mensagem transformadora,
nova, radical, entusiasmante desde o que ocorre em Cuba.
Outra
Cuba hoje, comparando com a que vínhamos fazendo referência.
Outros problemas, Perestroika, droga. Que opinião tens a respeito?
Recordo neste momento algo que se reiterou nos primeiros anos de apoio
crítico ao processo cubano. Se dizia "nenhum favor se
faz a um processo sendo complacente com ele, não marcando em
cada momento seus defeitos, desvios ou abandono da causa popular".
Dizíamos isto antes porque nos interessa a criatividade e a
participação da gente. Hoje, com muita água corrida
por debaixo da ponte, nos parece que isto mantêm plena atualidade.
Poucos crêem no discurso oficial cubano sobre o problema de
atualidade. Se tende a crer que embora possa haver algo de corrupção
o problema é bastante mais complexo.
A denunciada corrupção, que vinha de muitos anos neste
aspecto, se encontra em figuras conhecidas, em uma parte particularmente
importante da direção político-militar cubana.
É obvio perguntar-se como se pode desenvolver tudo isto em
silêncio quando tem tal extensão: Ministérios,
Forças Armadas, Partido. Outra coisa parece estar ocorrendo
hoje em Cuba. Por muitas fatores um tipo de modelo foi ganhando terreno
na organização da vida social-política cubana.
Este modelo hoje ante uma mudança na conjuntura internacional
começa a cair por terra. Sua readequação se apresenta
mais que difícil.
Finalmente um povo que foi ficando cada vez mais a margem de uma participação
de real incidência hoje assiste atônito ante os graves
problemas que começam a aparecer.
Mantemos a esperança de que este povo encontre o caminho em
que ele seja protagonista principal.
A
REVOLUÇÃO NICARAGÜENSE
A
posição que tiveram naquele momento sobre Cuba é
a mesma que nos dias de hoje têm sobre o sandinismo nicaragüense?
Te poderia dizer que basicamente sim, mas seria necessário
fazer algumas precisões. O contexto histórico, a situação
internacional em que se inscreveu a Revolução Cubana
são distintos em muitos aspectos ao que se inscreve a Revolução
Nicaragüense.
Por outra parte, até onde sabemos, o processo de consolidação
da etapa inicial tem contado com maiores escolhos. Cuba teve sua bahia
dos Cochinos e bloqueio. Nicarágua tem tido todos estes anos
o combate diário dos "contras". Cuba encontrou um
momento receptivo dos povos latino-americanos, se estendeu a luta
armada por vários países, através de todos os
movimentos que se identificavam no substancial com o processo cubano,
isto atraía a preocupação do imperialismo. Nicarágua
chegou em um momento de avanço da reação de ditaduras
na América Latina. Além disso a experiência de
Cuba havia alertado ao imperialismo, este estava prevenido e disposto
a que não se repetisse uma nova experiência de caráter
popular-socialista. Nicarágua, diferente do momento histórico
cubano, encontra a países europeus com maior incidência
na área e com políticas, em função de
seus interesses, que diferem das do imperialismo norte-americano.
Poderiam ser assinaladas mais algumas, mas queremos destacar estas.
O que nos importa principalmente, como antes, é reivindicar
o direito deste sofrido e valente povo a dar-se a organização
social que quiser. Repudiamos igualmente toda intenção
de intervenção nos assuntos internos de Nicarágua
por parte do imperialismo norte-americano. Nos identificamos com a
ruptura daquela ordem social, que tanta opressão e brutal miséria
trouxe aos nicaragüenses e com essa intenção de
buscar saídas que constituam processos encaminhados a solução
de necessidades populares.
Como Cuba, ontem, contra a sangrenta ditadura de Batista, Nicarágua
hoje respondeu a assassina ditadura de Somoza iniciando um processo
revolucionário. Em decidida atitude, combatentes e povo se
jogaram a não viver outro ciclo de postergação,
ultraje e miséria sob outra forma do mesmo sistema. É
de se destacar e de se admirar a capacidade de resposta, a garra,
a decisão com que este povo tem enfrentado os embates do imperialismo.
As constantes sangrias que foram os contras financiados pelos EUA
e ajuda extra pelos canais da presidência. Somemos a isto ameaças
e intenções de invasão. Internamente uma economia
complicada em alto grau, uma inflação de 2000%, setores
políticos e econômicos de velha ordem jogando a todas,
tratando de recuperar antigos privilégios. História
conhecida e repetida todo este tempo.
Vemos ao povo de Nicarágua buscar uma e outra vez distintas
formas táticas para evitar o isolamento, para não dar
espaço a intenções de mais agressão. Por
exemplo, a eleição com participação de
forças regressivas que tem planejada.
É notória também a participação
de uma entregada juventude que é forte pilar da continuidade
do processo.
Apesar de todo o ocorrido, os milhares de mortos e essa situação
econômica angustiante a dignidade e a esperança se mostram
intocadas nesta Nicarágua que bravamente segue adiante com
seu processo. Processo com traços de originalidade, imaginação,
realismo e criatividade social. Com muitas expressões organizadas
de autêntico caráter popular, com um povo constantemente
mobilizado. Coisas que poderiam estar falando de aprofundar uma busca
de autêntico poder popular.
Há manifestações teórico-doutrinárias
de grande interesse. Por exemplo recentemente líamos declarações
de Sergio Ramirez onde afirmava coisas como estas: "O que mantêm
e manterá dinâmica esta revolução é
a participação. Eu diria que uma revolução
termina como revolução no momento em que o povo entra
em um estado de passividade histórica e deixa a um grupo de
gente fazer a revolução"....há esquemas
que no entanto é necessário derrotar. Quer dizer, a
tendência que sempre existe de conceber o poder desde cima.
Este não é assunto de uma revolução socialista,
marxista ou cristianista, sim uma tendência do poder capitalista.
Nosso apoio é também a esperança que o processo
nicaragüense encontre uma forma de poder popular, sem burocratização,
com autêntica participação do povo. Um modelo
de organização social, todo incompleto e transitório
que se quiser, que respeite e assegure a liberdade da gente, uma convivência
onde a coerção ceda espaço a solidariedade.
Por estas razões fundamentais estamos com este processo de
libertação, como estamos também com o processo
de luta e realizações que leva adiante o povo de El
Salvador. Processo que sentimos perto, que rega com seu sangue generoso
um solo que se quer com possibilidades de vida digna. Um movimento
revolucionário que enfrente a todo um conjunto de criminosas
forças reacionárias. Sabemos que todos estes processos
de libertação, ou emancipação, não
concordam, termo a termo, com pureza de concepções finalistas.
Complexos como se apresentam e o obrigam, se prestam desde uma exigência
teórica pura, a realizar-lhes várias críticas.
Pode ser que tenham importantes diferenças com o modo de ver,
a orientação, as práticas preferidas por nossa
concepção. Preferimos, nesta etapa, seguir com interesse
estes movimentos. Ver todas suas dificuldades e tudo o que em distintos
aspectos ensinam. Reivindicar seu direito. Em tal marco é que
realizaremos aquelas pontualizações ou críticas
sobre o que acreditamos serem erros ou orientações que
signifiquem novamente postergação do povo.
O
ANARQUISMO HOJE
Enquanto
em quase todos os lugares o socialismo libertário deixa de
existir como movimento massivo, grandes manifestações
populares tomam alguns de seus postulados (desarmamento, ecologismo,
feminismo, etc.). Existe um fenômeno paradoxal?
Sim, este é um fenômeno interessante. Tem se notado uma
espécie de ressurgimento, através de uma série
de manifestações parciais, certa quantidade de postulados
e suas práticas conseguintes que foram em um período
histórico patrimônio da corrente socialista libertária:
participação, autogestão, democracia direta,
formas de organização não autoritárias,
maior preocupação com o ser humano e sua expressão
nas instâncias coletivas, acentuando-se a liberdade das pessoas
nos marcos políticos e sociais comprometidos com diferentes
que fazeres.
Todas coisas que constituem uma preocupação central
da corrente libertária.
Isto ocorre fundamentalmente na Europa, ainda que em menor medida
apareçam manifestações na América Latina.
Movimentos anti-militaristas, pelo desarmamento, contra as centrais
atômicas, serviço militar obrigatório, igualdade
da mulher, certas reivindicações ecologistas, autonomia,
reclames de liberdades, etc.
Muitas destas coisas, no campo libertário foram colocadas sem
continuidade ou total conseqüência. Não passando
outras vezes de posturas teóricas que não tiveram sua
correlação prática. Ainda assim, de forma incompleta
são um avanço se compararmos com outras concepções
que não se colocaram estes problemas ou os excluíram.
Temos a crença que a corrente libertária tem um discurso
fluido, abarcativo, com poucas zonas excluídas.
Também deve-se aclarar que alguns destes conceitos tal como
aparecem expressados apresentam hoje despojados de seu conteúdo
essencial. Por exemplo a participação e autogestão
de concepções social-democratas pertencem a outro corpo
conceitual e de preocupações. A libertária se
vincula mais a atitudes de ação direta e de formas de
organização pós-revolucionária. Não
por finalidade de maior inserção no sistema. Pelo menos
aquelas correntes anarquistas que tiveram inserção popular
e desenvolvimento sócio-político. E assim aparece teorizada
por Bakunin. Tem o anarquismo uma atitude básica radical, questionadora,
não de inserção e integração a
este ordenamento. Não lhe serve nenhuma de suas expressões
esta sociedade, seus fundamentos.
Mas não é só nos movimentos assinalados que reaparece
neste momento o anarquismo. Com bastante vigor refloresce também
o terreno teórico. Muitas novas investigações
sócio-políticas o tem presente. Também em níveis
que poderíamos definir como de "teoria do conhecimento".
São muito tidas em conta suas proposições críticas
sobre a sociedade capitalista, o perigo de modelos "socialistas"
autoritários sobre os quais alertou; a problemática
do poder; a importância decisiva de um conjunto de novos valores
a opor a valores burgueses ou aparentados com estes; a liberdade;
sua preocupação de não anular ao ser humano no
coletivo; seu não conformismo; sua radicalidade; seu rechaço
a centralizações anulantes de toda participação.
Há ainda investigações de grande importância,
como as de Foucault, radicalidade crítica, problemática
do poder, que constituem um fortalecimento dos postulados libertários.
Por outra parte é um momento histórico em que já
faz cair por terra uma série de conceitos. Não só
no terreno da discussão mas através da própria
experiência histórica. Os modelos centralistas autoritários
de não participação do povo ou os modelos de
ficção de participação ("democracia")
perdem eficácia. Modelos estes que já não suportam
uma séria análise racional.
Mas ao mesmo tempo está o que colocava tua pergunta, que o
socialismo libertário como movimento próprio tem deixado
de existir e em outros sua expressão é pequena. Seu
claro declínio se manifesta depois da derrota na revolução
espanhola.
Claro está que este declínio não pode ser casualidade,
sem sequer atribuído a algum castigo divino já que o
anarquismo não se caracteriza como crente. Temos que assumir
que muitas coisas falharam internamente.
Permite-me.
Não há vários anarquismos?
Poderia-se dizer assim. Havia situado a resposta em um plano mais
geral e agrupado coisas basicamente comuns dentro do anarquismo e
diferenças gerais com concepções que também
elas tem suas boas matizes. Dentro do anarquismo há vários
enfoques.
No Rio da Prata tem tido expressão com certo peso: o anarco-sindicalismo,
o especifismo, o individualismo. A FAU se inscreve no especifismo.
Cabe dizer que é uma concepção de anarquismo
organizado com finalidade de atuar politicamente. A base teórica-doutrinária
é fundamentalmente sobre Bakunin e Malatesta. Daí emana
postulados de priorização operária, de inserção
nos problemas da população, de ruptura para a mudança,
de preocupação que o particular se articule com o global.
Nos interessa especialmente assumir a concepção de anarquismo
que temos. Ainda mais quando, como ocorre muitas vezes, para muitos
companheiros não estão claros os limites. Como no caso
do marxismo, existem também aqui distintos enfoques que implicam
distintas prioridades e práticas sociais e políticas.
Com uma diferença importante em relação ao marxismo,
que não existe um corpo doutrinário sistematizado, que
sirva de referência e base doutrinária comum. Portanto
sua plasticidade resulta maior e as diferenças entre distintas
concepções, não poucas vezes, são embaraçadas
e difíceis de estabelecer com precisão.
Existem situações em que se entreveram partes de concepções
distintas. Por exemplo espontaneístas que querem algo de organização,
mas a menor possível, e que ao mesmo tempo agem como se pertencessem
a uma concepção organicista de anarquismo. O individualista
disposto a integrar grupos de afinidade mas não a pertencer
a grandes agrupações políticas ou populares.
Aqueles que crêem que deve-se aplicar o princípio, termo
a termo, qualquer seja a conjuntura. Para quem teoria e ação
política é a mesma coisa essencialmente. Também
tem havido e possivelmente ainda tenham concepções anarquistas
que priorizam o ético, o estético ou o filosófico.
Para a maioria dos éticos e filosóficos o anarquismo
ou é uma concepção de mundo ou uma atitude pessoal
que tem que ver com condutas ou esperanças remetidas ao futuro.
Por entender que o anarquismo não é viável politicamente
sua ação político-social se remete ao mundo real-viável
ainda que este pouco ou nada tenha a ver com sua ética e filosofia.
Fazendo assim compatíveis mundos opostos. Além disso
deve-se dizer que não acreditamos possuir nenhuma oficina patenteadora
de anarquismo e para nós são estas assinaladas distintas
concepções de libertário. Podemos sim estabelecer
que pouco (as vezes quase nada) temos em comum com algumas destas
manifestações. Com outras uma vez estabelecidas prioridades,
inclusões ou exclusões de práticas em função
do marco conceitual preferido, haveria de ver - de um lado e de outro
- se sobre bases reais e claras é possível tarefas pontuais
comuns. O conflitivo e desgastante é estruturar as distintas
vertentes, que querem fazer cotidianamente coisas distintas, em uma
mesma organização. O movimento anarquista, as distintas
vertentes, podem chegar a ter um campo comum a partir de cada qual
assume diferenças e coincidências existentes.
O anarquismo como concepção portadora de um projeto
de mudança e de reconstrução social, como portador
de novos valores para uma comunidade social, como esperança
dos oprimidos e explorados tem tido uma longa crise.
Tem estado muito submerso no particular, atomizado, seu perfil diluído,
algo conformista com sua solidão.
Questões fundamentais se confirmam historicamente mas sua pouca
presença deverá afrontar todo um desafio. Muitas de
seus problemas atuais não lhe permitem gravitação.
A
nível de América Latina. Como se resolve esta crise?
Não me animaria a dizer muito. Não estou em condições
de dar receitas de nenhum tipo. De América Latina conhecemos,
e não muito bem, coisas gerais. Para uma proposta com fundamento
se requereria um conhecimento do específico fundamental destes
países. Pois pensamos na recuperação do anarquismo
inserido em seu meio, nutrindo-se dele, aprendendo e respondendo a
situações concretas deste meio.
Sem dúvida o anarquismo terá que ir ao fundo na questão.
Junto a sua capacidade crítica e suas boas previsões
deverá aprender novamente sobre como atuar em conjunturas onde
o ideal não é possível. Refrescar aquela audácia
de fim e princípio de século na América Latina,
ou da década de 30 na Espanha. De não fazer-lhe asco
e sentir-se comprometido com os problemas do presente. Não
fazer-se, cuidando "purismos", de coveiros de tão
boas idéias, e sim ativo refrescador delas. Não basta
negar , deve-se ir colocando outras coisas em seu lugar. Coisas que
resultem coerentes com o que queremos e de possível realização
em cada etapa.
Colocarmos o tema com valentia e honestidade nos parece que é
um passo modesto mas importante. No caminho algumas peleias virão
enquanto se encaram alguns destes problemas, já que estas reacomodações
não se fazem sem sobressaltos, irritações e erros.
Para uma recuperação há muitas coisas de primeiríssima
importância a nosso parecer. Ter verdadeira bronca as injustiças,
ganas de fazer as coisas, de participar nos problemas que angustiam
a população, modéstia para aceitar nossas limitações,
assumir nosso estado atual, não fantasiar de que temos resolvido
temas quando há apenas a boa intenção de começar
a encará-lo.
A mesma esperança que temos nas mudanças sociais, na
produção de uma vontade de mudança no povo, a
temos para uma reatualização do anarquismo. A elas nos
jogamos.
AMÉRICA LATINA
Dos
aspectos gerais sobre América Latina a que fazias referência,
que mudanças te parecem ser mais notáveis? Se abre outra
época?
Darei algumas opiniões que a meu entender se relacionam com
problemas que notoriamente estão em pauta. Claro está
que juízos que um considera mais importantes, não são
tanto para outros. A prova está que hoje na América
Latina e, para não ir mais longe no Uruguai, se fazem considerações
sobre a situação presente e suas possibilidades futuras
que pouca relação guardam com a realidade. Se interpõe
na leitura desde interesses econômicos até interesses
político-ideológicos. Os que estão dentro de
uma estratégia política no marco do sistema acomodam
os fenômenos de tal maneira que ao mesmo tempo que produzem
outra "realidade" não entram em contradição
alguma com seu discurso de propostas e ação.
Desta forma, por aqui e por lá, aparecem "soluções",
já de tipo social-democrata (em suas diversas versões),
já neoliberais, ou liberais algo populistas; teriam propostas
válidas para a crise do continente ou de seu respectivo país,
dizem.
Mas o que rapidamente temos como resultado destes projetos políticos
é uma dinâmica que conduz a maior inserção
na dependência, aumento da miséria da população
e dura repressão quando tais discursos deixam de convencer
ao povo. Tal o ocorrido em Venezuela contra o democrata-cristão
Andrés Perez, o peronista Menem na Argentina, Collor de Mello
no Brasil e Lacalle e o Partido Nacional em nosso país.
Vigora hoje no Continente uma política neoliberal, atada a
necessidades e estratégia das transnacionais e fundamentalmente
do imperialismo norte-americano. Os projetos políticos e econômicos
são traçados fora destes países latino-americanos.
Santa Fé II, Banco Mundial, FMI.
Por outro lado, grande parte da esquerda sucumbe a este marco, suas
críticas são tíbias, parciais. Não aparecem
nem sequer um projeto reformista diferenciado apresentando uma real
batalha. A oposição se circunscreve, educadamente, a
nada mais que ao plano declarativo. Talvez escapem a isto algumas
mobilizações realizadas em diferentes lugares referentes
aos Direitos Humanos. E quase por aí teríamos que deixar
de contar.
Tem
piorado a situação da América Latina nestes anos?
A olhos vistos, se tomamos como referência um par de décadas
atrás. Está tudo bastante pior que 20 anos atrás.
Quando dizemos isto não simplificamos, não forçamos
situação alguma. Aí estão uma série
de dados da realidade que não vê quem não quer.
Esses dados dizem: mais fome, mais desemprego, mais marginalidade,
mais mortalidade infantil, mais dependência.
O conjunto de ditaduras que na década de 70 vieram em auxílio
deste ordenamento infame deixaram uma seqüela: brutal aumento
da dívida externa, as economias mais entregadas à transnacionais,
os povos mais na miséria, os pressupostos mais distorcidos
que nunca, a submissão institucionalizada.
Ditaduras que trataram de matar ou anular toda a quantidade possível
de corpos humanos portadores de idéias de transformação
ou de resistência.
É conhecida de todos a astronômica dívida externa
gerada nesse período, ocupação por parte de capitais
estrangeiros de setores primordiais da economia, o trabalho sem piedade
dos banqueiros internacionais.
As ditaduras aceleraram o que já havia perfilado a "democracia"
e hoje estas continuam, fundamentalmente, essa instalação
feita pelas ditaduras. Mais privatizações, mais transnacionais,
aprofundamento da dependência, tecnificação dos
elementos repressivos para responder a reclames populares.
Essa
articulação não oferecia possibilidades de mudança
favorável?
Mudança ou políticas favoráveis, ou de melhoras
de alguma importância para as classes exploradas, para os de
baixo, não se vislumbram. É possível que já
não seja viável nem sequer uma política reformista
que só tocara alguns interesses para desalojar a situação
explosiva que tem alguns países no social. Por exemplo, o poder
aquisitivo tem descendido e a seguridade social tem diminuído.
Ao mesmo tempo os credores banqueiros seguem enchendo seu bolso, as
transnacionais superexplorando e despedindo gente.
Claro que ao discurso neoliberal não se move uma palha. Apresenta
toda esta situação como passageira, herança maldita
em que, se ressalta constantemente, só se trata de aumentar
o esforço e apertar o cinto. Em seguida viria o crescimento
e todos começaríamos a melhorar indefinidamente nossa
situação econômico-social. A ameaça acompanha
tal discurso: se não há colaboração se
baixa o cacete; se a resistência é grande, insinuam,
podem voltar as bestas. Aliás as mesmas bestas que tutelam
e participam do governo e as que os "democratas" votam com
as duas mãos grandes pressupostos e proteções
para o trabalho sujo realizado.
Mas ao mesmo tempo há outro discurso que se apresenta como
trazendo as propostas que se precisa, as soluções ansiadas.
"Moderno", linguagem que está em moda. Social-democracias
da época com seus olhos muito postos na Europa, do Oeste e
do Leste. Quiseram melhorar algo da situação de miséria
da população no marco do sistema. Não tocariam
as transnacionais, não deixariam de pagar a dívida e
de imediato a seus interesses, não enfrentariam a política
do imperialismo para a área, para a imprescindível "modernização"
se resigna ao desemprego. Para saber como pode instrumentalizar seu
discurso alguma mudança, sem tocar as estruturas fundamentais
que a impedem e que trouxeram estes problemas deve-se ser mais ou
menos Mandrake. Porque o assunto parece não pertencer a esfera
de saber racional.
Planos sociais-democratas que tampouco tem funcionado em países
com outras condições muito diferentes das nossas. Que
os Miterrand e Felipe Gonzalez, muitas vezes tomados como pontos de
referência, não tem constituído outra coisa que
uma reforma burguesa, levando adiante políticas que poderiam
ter sido feitas perfeitamente por conservadores burgueses.
A situação das populações na América
Latina, de nosso país, é dramática, desesperadora.
Cada vez lhe sobra menos para comprar ilusões.
As
meias reformas são um caminho que se fecha?
Tudo parece indicar sua inviabialidade para a América Latina.
Precisa-se de mudanças de fundo e para isso é necessário
enfrentar interesses econômicos e políticos de grande
peso. Carlos Andrés Pérez fala um dia em "progressista",
diz que compreende a miséria da população e fará
algo. Em poucos dias massacra ao povo que se lança as ruas
devido a brutal onda de aumentos. Fujimori manifesta em sua campanha
que deve-se buscar que o golpe não vá sempre para os
de baixo, apenas assume: onda de aumentos, mais miséria para
a população, repressão e morte contra os protestos.
Aceitas determinadas regras do jogo, determinado campo para o acionar,
o que pode fazer-se, partindo da base das boas intenções
iniciais é pouco ou nada. Esse tecido de poder concreto que
tem o sistema da América Latina expele corpos estranhos tais
como mudanças de importância a favor do povo.
Necessário
então eleger formas de luta adequadas?
Só a luta política adequada poderá trazer melhoras
relevantes a favor do povo. Mas estas melhoras relevantes passam hoje
e aqui por claros enfrentamentos com as forças do privilégio
e da dominação. Parece que cada vez mais se quer contrabandear
como moderno, como atual e fresco, não tratar os problemas
de fundo, não enfrentar a estrutura de dominação,
não andar dizendo como é a estrutura do sistema. Mais
antigo ainda não falar de revolução, democracia
burguesa, classes e imperialismo. Tolice de um desarme conceitual
e ideológico que nos quer aplicar esta "modernidade".
Claro que podemos convir, absurdo seria não fazê-lo,
que estamos em uma etapa histórica específica, que há
uma série de novos problemas, que há experiências
que tem saldado "teorias", que parte de muitos discursos
requerem atualização. Mas que saibamos, o homem pensa,
come e tem sonhos. Também respiram ainda isto não seja
muito antigo. O homem de baixo em nosso continente segue explorado
e oprimido.
A situação não melhora, sua libertação
não chega. A luta é velha mas ontem e hoje é
a única com que contam os povos para abrir um caminho próprio,
para não resignar-se a viver na carência de tudo. As
classes privilegiadas e o poder que com elas se articula também
é velho. Mas perguntemos a nossos povos e nos dirão
o bestialmente atual que são.
Não se tratam de discursos novos e velhos, se trata de como
são as coisas. Não há que inventar possibilidades
de transformação onde não há. Recordemos
que décadas atrás grande parte da esquerda dizia que
não havia soluções, nem sequer para importantes
reformas nacionais, neste marco capitalista. Que os interesses em
jogo e a articulação concreta aqui do sistema não
cedia lugar para mudanças que atendessem as necessidades populares.
Que a dependência não deixava lugar nem a um desenvolvimento
burguês autônomo. Tanto esta dependência como a
situação geral tem piorado. situações
críticas que tem enfrentado nestas décadas povo como
o nicaragüense e de El Salvador, tratando de abrir um caminho
real de transformações.
A "modernidade" poderá querer, mas a realidade econômico-política
da população rechaçará todo "fim
das lutas".
São como ontem, tempos de peleia para a América Latina.
A participação combativa do povo não é
coisa do passado. Aí estão populações
tomando as ruas em Venezuela, Brasil, Argentina ou Florida de Uruguai
peleando sua subsistência.
Terão que recolher experiências, ter em conta derrotas,
criar formas de luta, mas não há dois caminhos para
que o povo consiga transformar sua miséria, estas penosas condições
a que é obrigado a viver.
Será na luta que identificará amigos, discursos válidos,
que crescerá sua força, que encontrara seu caminho.
LUTA
ARMADA E SUA ARTICULAÇÃO COM OUTROS NÍVEIS
A
FAU também sofreu críticas por sua posição
e práticas em relação a luta armada. Algumas
vezes se viu próxima com o foco. Como vê este problema?
Não é um tema simples. É errada a crítica
que aproxima a posição de FAU com o foco.
Precisaremos a questão. Para faze-lo é necessário
que façamos algumas considerações pertinentes
e marcaremos as diferenças a respeito do que se chamou "foco"
desde uma atitude de profundo respeito. O que nos mereceu e merece
todos os movimentos, sejam marxistas ou nacionalistas, que sob esta
concepção pretenderam o início de um processo
revolucionário para América Latina. Movimentos que estiveram
na linha de frente nesta busca. Pela gente destes movimentos que deram
sua liberdade e sua vida pelas mudanças que ansiavam, pelas
idéias em que acreditavam.
Feita este esclarecimento, para começar a situar o problema,
passamos a afirmar que FAU nunca teve afinidades com a concepção
"foco", nem ainda com suas expressões mais flexíveis
e criativas. Não coincidiu com a avaliação político-conjuntural
que se realizara para América Latina, nem tampouco para Uruguai.
Igualmente não coincidiu com orientações ideológicas
e organizativas da concepção aludida, nem sua estratégia
de curto prazo. Sempre esteve concebida a luta para FAU em termos
de longo prazo e em articulação complexa.
Se estimava que a orientação a imprimir nos processos
de ruptura, respondendo a violência opressora com a violência
libertadora e revolucionária, deveriam ser diversos ao enfoque
tipo "foco". Colocando que a luta armada devia estar cuidadosamente
articulada com os diferentes níveis de luta: econômicos,
sócio-políticos, ideológicos. Que seria em função
destes, do ritmo destes, que deveria aprofundar-se o caráter
da luta de cada momento. Dito de outro modo, que não deveria
ser a luta armada que ditasse o conjunto do trabalho militante, subordinando-o
à sua isolada dinâmica.
O
exemplo de Cuba reforçava muito a concepção de
luta armada reitora e a curto prazo para o desenlace, não?
Realmente. Mas FAU estimava que depois de Cuba a coisa necessariamente
seria diferente. Ao império não o tomariam de surpresa
novas revoluções. A ação cubana havia
demonstrado a viabilidade da luta armada e como, em determinadas condições,
que não eram as que alguns pediam, podia esta iniciar-se e
desenvolver-se. Também demonstrou que em certas condições
específicas se podia obter uma vitória em um prazo relativamente
curto. Nossa organização pensava que a realidade da
América Latina era diversa e que devia ser uma análise
adequada que diria em que condições se encontrava cada
país. Que tipo de possibilidades revolucionárias oferecia.
Defendiam
o crescimento conjunto e complementar dos níveis?
Se. Se estimava imprescindível ter em conta o conjunto dos
níveis operantes: políticos, sociais (movimento operário-popular)
e ideológicos. Neste último o ideário ou imaginário
popular se tinha particularmente presente: que nível de consciência
de mudança existia; que estava na cabeça do povo; que
eficácia teriam realmente determinadas ações
políticas e armadas para produzir rupturas ideológicas;
que este era uma frente de trabalho que devia ser atendida em sua
particularidade.
Também
um movimento popular, de massas, vinculado a luta armada?
Estava colocado desde o início que um processo revolucionário
aqui não se desenvolve sem um movimento popular de "massas"
corresponde. Que este nível era de primordial importância
em vários aspectos, Entre outras que era a ele a quem correspondeu
dizer quando se podia passar a um estado superior de luta. Vale dizer
que se este movimento popular não crescia , em qualidade e
quantidade, não habilitava aprofundamento da luta armada. Claro
está que o nível popular não era visto como algo
isolado, e sim como algo em relação, onde o político
e ação direta armada produziam determinados efeitos.
Além disso se lhe tratava como possuidora de uma dinâmica
própria. Também aqui era aspecto de muita importância
a forma que devia revestir no organizativo um movimento popular integrado
a um processo de ruptura. É de se ressaltar que tal movimento
popular não se concebia nos termos tradicionais do nível
econômico da luta de classes, ainda que compreendendo tal luta.
Se pensava em outra relação com o político e
ideológico.
Sustentando-se que a prática radical na luta econômica
não é somente, ou principalmente, a obtenção
de reivindicações econômicas em si mesmas. Que
a radicalidade na luta econômica tinha por função
contribuir a elevar o nível destas lutas. Contribuir a elevar
a luta econômica, na maior medida possível, ao nível
da luta política. Elevar a consciência gremial. Obter
neste marco a dose necessária de consciência política
para poder destruir o poder político burguês.
Trabalho
sistemático para a mudança ideológica da população?
Sim. Assim se colocava. Por exemplo, não trazia resultados
positivos que o realizado no plano armado fosse propagandeado como
negativo no plano de "massas". Que o aparato ideológico
oficial e do reformismo distorcessem, e reafirmasse noções
ideológicas contrárias à mudança. Ou simplesmente
que a gente não encontrasse o sentido da ação
por um princípio de leitura condicionada. Que há atitudes,
tradições, comportamentos, crenças, sentimentos,
que não se modificam por caminhos desejados e voluntários
decretados.
Exigem visão adequada. Aclaremos que se estimava que a ação
direta armada podia aportar elementos de significado para rupturas
ideológicas, que podia permitir reformulação
de problemas, motivação, transformação
positiva da maneira de ver, no imaginário popular. Vale dizer,
que ela podia chegar a ter seu impacto, logicamente, variava de uma
formação social a outra.
Em
termos concretos, em que consistia o conjunto de trabalho?
Se pensava em uma simultaneidade de distintos planos de trabalho:
o sindical, popular, político público (legal ou não),
armado (guerrilha urbana em primeira etapa) e a propaganda em sentido
amplo (ideológico). Além do mais um trabalho especificamente
teórico.
Como
se encarava sua instrumentalização?
O primeiro que se colocava era o conhecimento necessário do
meio a trabalhar. Características concretas desta sociedade.
Evitar todo tipo de translados automáticos, nesse momento bastante
em voga.
Se tratava de tratar temas como : credibilidade das pessoas para este
sistema, idéias de mudança, situação econômica
da população, expectativas de solução
imediata, reivindicações sentidas; condições
em que se encontrava o movimento operário-popular, confiança
em suas forças, capacidade de luta; proposta real dos partidos
de esquerda, busca de novos caminhos ou reivindicação
de formas tradicionais de ação. Estas são algumas
das preocupações centrais, muitas vinham de bastante
tempo atrás.
Sobre a base da avaliação feita sobre a realidade se
atuava nos diferentes meios.
A
prioridade era o trabalho no meio operário e popular?
Depende do que se entende por prioridade. Como tínhamos dito
antes, neste campo de trabalho, seu desenvolvimento era considerado
de fundamental importância. Ao mesmo tempo se estimava que só
uma prática armada conseqüente tornaria possível
a mudança revolucionária. Queria dizer: nem "massismo",
nem "militarismo", querendo indicar com isto que estes planos
deveriam andar integrados. Dentro de um processo assim concebido o
desenvolvimento na população adquiria caráter
prioritário.
Mas a prioridade propriamente dita, tomando ao conjunto dos níveis,
estava para o político. Para a atividade em si e o desenvolvimento
da organização político-revolucionária.
Que
funções cumpria o político neste caso?
Era considerado como a instância globalizadora e reguladora.
Como a única capaz de evitar hipertrofias setoriais. Como a
única idônea para orientar um processo de profunda transformação.
Estava claro que a concepção do político diferia
com formulações de tipo clássico. Daquelas que
consideram muito separados os níveis entre si na teoria, o
que entendem por práticas políticas aquelas que mais
ou menos esgotam seu acionar no marco do horizonte do sistema (eleições,
Parlamento, etc), para as que seu trabalho fundamental baseia-se na
produção de projetos e atividades tendentes à
reforma.
A concepção política era coerente com a idéia
de real transformação do sistema. Pretendia atuar em
relação com as "leis" de manutenção
e reprodução do sistema. De um sistema que claramente
não tem vocação de suicida.
O acionar político, no marco de tal concepção,
era custódio de um desenvolvimento harmônico do conjunto
da ação. De que as frentes fossem se desenvolvendo com
a adequada dinâmica e correspondente ótica política
em relação ao objetivo: queda do sistema capitalismo
e início de uma nova forma social rumo ao socialismo.
A esta instância política correspondia avaliações
para estabelecer o espaço de ação, para complementar
atividades, para corrigir orientação geral, para marcar
ação em distintos momentos políticos-sociais.
Também pode-se dizer: se o militar é um pé e
o popular outro, a cabeça destes pés em marcha é
o político. Ilustração que deixa clara a relação
do conjunto.
Obviamente se deduz que se entendia que a estruturação
da organização política - revolucionária
era a meta fundamental na etapa de processamento das condições
para a transformação revolucionária. Ou seja,
que se processa a ação armada (e outras) através
de um centro político e não se processa o centro político
através da ação armada.
A
concepção, digamos no militar, naquela época
da FAU foi a guerrilha urbana?
Não exatamente em termos finalistas. A guerrilha urbana estava
concebida como etapa prévia e preparatória da insurreição
popular. Mas como se entende que qualquer forma de ação
insurrecional pressupõe, necessariamente, uma prática
sistemática e organizada de um acionar armado com suficiente
capacidade operativa que permita orientar, canalizar, levar adiante
um processo insurrecional, é que se definiu por uma guerrilha
urbana em toda a etapa prévia. Se disse na ocasião:
"A função da guerrilha urbana seria contribuir
a processar as condições políticas que habilitassem
um desenlace insurrecional."
Que
tipo de revolução: nacional, antimperialista, de classe?
Importantes guerras de independência se fizeram com luta armada.
O nosso problema é diferente, não temos uma força
direta de ocupação. Daí que FAU entendeu que
tampouco se tratava de uma revolução nacional. Que não
se podia junto com a burguesia fazer um causa comum.
Na verdade não poderia conceber-se uma idéia de nação,
de pátria, fora de todo conteúdo de classe. A nação
que se fala é a nação onde uma classe dominante
(ou várias se prefere-se) chamada burguesa é dona e
senhora de toda forma de poder.
Se a guerra não é colonial, como no Uruguai, e sim social,
haverá tantos patriotismos como classes opostas.
Nestes países a guerrilha não poderia ter nunca o apoio
da nação por mais que se defina ser nacionalista, se
dizia. Terá que enfrentar-se com uma burguesia dependente.
O inimigo é de dentro e não de fora. Frente a cada avanço
popular lançará a burguesia todo seu poderio levantando
a bandeira do nacional. A revolução só terá
o apoio daquelas classes que estão interessadas no socialismo.
Se dirá então que é só na "revolução
contra a burguesia nacional dependente... que se desenvolverá
a verdadeira luta pela causa nacional do povo."
Te
parece que mantêm plana vigência esta concepção
para a transformação revolucionária?
É outro tema. "Temão", diria. Seria de minha
parte um atrevimento, uma impertinência, dizer que sim ou que
não. Em geral poderíamos dizer que são muitas
as experiências e lutas levadas na América Latina, com
objetivos revolucionários, nestas três últimas
décadas. Que isto deve lançar material para colocar-se
novos problemas, reformulações, combinações.
O que sim poderia dizer é que neste assunto FAU se encontra
entre os sérios que tem realizado, que sem dúvida contribui
e que sua militância levou adiante uma etapa disto com honestidade
e entrega.
Te agregaria que acredito que para os povos de América latina
não há outra saída do que a transformação
revolucionária.
OS
ACONTECIMENTOS NO LESTE EUROPEU
A
Perestroika segue seu curso. Como julga isto?
Sim, as mudanças tem-se sucedido, e seguem sucedendo nos países
do Leste, com grande rapidez. Tomemos não mais que os exemplos
de Alemanha, Polônia, Hungria, os países bálticos,
Romênia e a própria URSS: A burocracia russa, linha Gorbachov,
tem seguido adiante com seus planos de liberalização
no econômico e político.
Estes processos deixaram a descoberto o pouco respaldo com que contava
esta burocracia na maioria dos países. Poderia dizer-se que
explorou um descontentamento há muito tempo contido. As ânsias
que possuía a gente de livrar-se deste autoritarismo insano,
de poder ter algo de liberdade. Também tem ficado a descoberto,
tem aflorado, nacionalistas retrógrados. Por outra parte, a
concepção de liberdade que parece estar no ideário
popular toma fundamentalmente como ponto de referência ao Ocidente,
o liberalismo burguês.
Os dados que nos dão estes processos são que o sistema
havia tornado-se inviável, grande atraso técnico, baixa
produtividade, alta corrupção, ineficiência, opressão
insustentável, descontentamento popular crescente. Todas coisas
hoje muito conhecidas e aceitas, e até divulgadas pela própria
burocracia gorbachoviana.
Recordo agora uma frase que se disse no ato do 10º Aniversário
de FAU: "A gloriosa revolução operária e
camponesa de 1917 foi progressivamente amarrada na camisa de força
da burocracia do partido, chefes militares e tecnocratas... a história
não está terminada dentro da União Soviética".
Já está claro que o modelo por uns chamado "socialismo
autoritário", por outros "capitalismo de Estado"
se veio abaixo, caiu. Seu golpe retumbou e retumba a nível
mundial. Tal situação produz efeitos em muitos campos.
A nível da estratégia mundial do imperialismo norte-americano,
do reacomodamento europeu, de problemas do Terceiro Mundo, Tudo isto
já seria um tema em si mesmo.
No
campo doutrinário-ideológico, como repercutiria?
Muitos discursos marxistas-leninistas e marxistas ortodoxos ficaram
notoriamente "agarrados ao pincel enquanto voava a escada".
Está claro que em primeiro lugar estavam os que aderiam total
e sem reflexão ao "socialismo real". Para estes a
confusão e deslocamento no doutrinário-ideológico
é tremenda. Implicava a eles aceitar tudo o que tinham negado:
que isso não era socialismo, que havia corrupção
e classes privilegiadas, que derivavam para formas capitalistas do
tipo clássico, que haviam realizado bestiais repressões
e assassinatos, etc.
Em muitos lugares os PC iniciam processo de extinção,
em outros de acelerada mudança conceitual e de posturas políticas.
Revolução, revolução proletária,
anticapitalismo, vanguarda de classe, imperialismo, classismo, são
conceitos, entre outros, que passam a ser apagados ou reformulados,
porque significam outra coisa. Alguns, como o forte PC italiano, está
para desaparecer e constituir-se em "outra coisa". Para
outros movimentos marxistas - excluindo social-democracias - que tinham
um apoio menor à URSS, mas que no fundo de referência
e como uma presença socialista imperfeita mas socialista enfim,
o golpe também tem sido forte. A maioria se encaminha, ou começa
a encaminhar-se, para concepções social-democratas destas
atualmente em voga.
Outro efeito no político é que fica questionada uma
doutrina que foi impulso de grandes movimentos populares que ansiavam
a superação deste infame sistema capitalista. Movimentos
e lutas onde entregou-se tanto sangue e sacrifício do povo
e militantes neste anseio de uma ordem social diferente. Por essas
idéias morreram e lutaram muitos no Terceiro Mundo.
Por outra parte, tudo parece indicar que será muito difícil,
em pouco tempo mais, poder estabelecer diferenças entre os
discursos PC e social-democratas na América Latina. Aqueles
conceitos, praticados ou não, que os separava, já deixam
de existir.
Falta
muito ainda por ver?
Sem dúvida. Pelo exemplo na URSS é de particular importância
observar como derivará a luta popular. A ilusão liberal-burguesa
é possível que logo caia por terra. Milhões saberão
de insegurança econômica, de desocupação,
de aumento da miséria. Verão que a repressão
mais democrática agora será igualmente implacável
ante seus reclames. Tão semelhantes no Leste como no Oeste.
Alemanha será o primeiro a sabê-lo. Mas muitos destes
povos já se organizam em seus sindicatos e começam a
protagonizar lutas. Algumas destas organizações operárias,
muito pequenas por agora, reivindicam o socialismo e rechaçam
toda forma capitalista. Querem liberdade socialista. Nos parece que
estes povos sofridos, com capacidade de lutam tem muito ainda para
dizer.
No que tange ao Terceiro Mundo, a nossa América Latina, terá
que ver como serão reformuladas idéias impulsoras de
processos de libertação. Da minha parte creio que é
difícil que movimentos que surjam procurando a transformação
do sistema capitalista, não incluam em seu projeto socialista
a liberdade.
Para nossa concepção socialista e libertária,
com rica história nas costas, se abre um campo importante de
possibilidades. Mas queremos ressaltar que só pelo fato que
uma força se debilite não se reforça necessariamente
a outra, que poderia ser alternativa. Não basta que algumas
idéias fundamentais venham a favor de nossa concepção.
Apenas fazendo, estando presente nas lutas, formulando propostas concretas,
em contato permanente com o povo e suas necessidades. Integrados nesse
tecido de sentimentos, realizações, peleias, êxitos
e fracassos populares, é que poderão ter presença
nossas idéias de socialismo e liberdade.
A
ATUAL ETAPA HISTÓRICA
Como
vês em geral esta etapa histórica, são muitas
as mudanças? Há como uma espécie de nova cultura
em aspectos sociais e militantes?
Sim, inegavelmente há um conjunto de mudanças. Muito
se teoriza sobre elas. Mas nessas considerações intelectuais,
tem-se a impressão que há coisas mescladas e exageradas.
Certamente há aspectos culturais que devem guardar correspondência
com este momento histórico.
Também é possível que tenham mais a ver com modas
passageiras, que toda época possui.
Por exemplo, se fala de mudanças ou situações
que tem atualidade na Europa, que podem muitas delas corresponderem-se
com processos muito específicos, como se fossem necessariamente
universais. Para muito intelectual europeísta o que acontece
na Europa - também nos EUA - tem que estar acontecendo no mundo
e logo, aqui no Uruguai.
De repente estas prioridades, essas expressões culturais não
existem ou são de menor quantia na América Latina, África
e Ásia.
Assim parece ocorrer com temas diversas. Por aí aparece como
uma cultura dos finalistas. Fim da história, fim do socialismo,
fim da utopia, fim das lutas revolucionárias, fim do sentimento
coletivo, fim da abnegação social, fim da família,
fim das formas organizativas políticas. Poderíamos acrescentar
uma quantidade mais de fins que se lêem lá e aqui. Uma
mesma cultura que dá elementos comuns a um campo que vai de
altamente conservadores a esquerdistas e progressistas. Algo assim
como um novo paradigma em que estão colocados discursos muito
distintos.
Um pouco
disso se nota. É todo um tema de estudo.
Deixemos claro. Não estudei nada disto, tampouco de outras
coisas. Creio que estudar com rigor já é outra coisa.
Assim que as considerações devem ser tomadas como as
de um leitor e observador que dá suas impressões. Ninguém
pode negar que estão se produzindo mudanças de importância.
Que é imprescindível situar estas mudanças se
pretende-se operar politicamente, culturalmente, etc. Não nos
referimos a isso. Nos referimos ao que consciente ou inconscientemente
se contrabandeia junto à análise e avaliação,
de processos reais de mudança. Há zonas inteiras agregadas,
que passam por como se faz a cabeça do intelectual correspondente.
Zonas que a única realidade que tem é que pertencem
a um processo de pensamento, o do autor, que não discutimos
que também é uma realidade. Sem dúvida que muitos
destas "análises e diagnósticos" vêem
disparados. Algumas vezes correspondem-se com interesses econômicos
políticos (fim da história por exemplo), mas outros
não são tão assim. Há os que só
tem relação com problemas existenciais. O ruim é
que se inscrevem nessa cultura que possui boa dose de exceção.
Te dou um exemplo. Ultimamente tenho lido não menos de quatro
trabalhos que se referem ao que poderíamos denominar o fim
da luta revolucionária e do militante comprometido. Acabou-se
o sentimento contra a injustiça que leva a abnegações.
Deixemos Europa de lado e algum lugar de muita influência européia.
Isto não é assim para o Terceiro Mundo. Poderiam enumerar-se
quantidade de lutas, de resistência dos povos que desmentem
esta tese. As temos, sem ir mais longe, aqui em nossa América
Latina. Demos por regalada Europa onde haveria que demonstrar que
a coisa é tanta assim. Com o assunto das mudanças se
está exagerando um pouco e outros indo de carona.
Algumas
das mudanças gerais que estimas mais relevantes?
São muitas. Enumeraremos os que nos parecem de maior influência.
Estes são: a queda do modelo chamado socialismo real, a arrancada
agressiva do sistema capitalista, triunfos de social-democracias na
Europa, guerras localizadas; na América Latina processos revolucionários
como o de Nicarágua e El Salvador; brutais e assassinas ditaduras
extendidas pelo tempo em nosso Continente; aumento de gravitação
dos países árabes; a irrupção da problemática
juvenil e outros grupo sociais marginalizados; ruptura ideológica
em relação a muitos valores "consagrados";
reafirmação da pessoa; revalorização da
liberdade. Estes são alguns. Os outros ficaram para trás,
possivelmente. Mas uma combinação apenas destes fenômenos
resulta a constituição de muita coisa nova. Resta por
ver, igualmente, como se expressa em cada particularidade, seja continental,
seja de país.
Justamente, o que nos parece muito incorreto são estas generalizações
arbitrárias e translados automáticos que se fazem a
maioria das vezes. Se decreta uma "modernidade" tipo, curiosamente
constituída, depois se distorce o discurso para fazê-la
existir em todos lados. É possível que muitos intelectuais
tenham já acomodada a visão e só possam ver assim
agora.
De todas as maneiras, se corre o perigo que as coisas passageiras,
conjunturais, ganhem a patente de permanente. Também que a
fenômenos cujos processos não estão terminados
lhes decrete coisa acabada e lhes ponha nome definitivo. "Não
se farão mais esforços em prol de uma esperança
distante", por exemplo.
Se fundamenta a coisa, pelo menos dentro de determinadas ondas, como
que os valores do ser humano só são aqueles que têm
que ver com determinados desfrutes, sobre os quais nada temos, nada
teriam que ver, a esperança, a solidariedade, a sensibilidade
ante a injustiça, as ganas de não ver mais miséria
e arbitrariedade, o sentimento coletivo de crer que temos algo que
ver com esta sociedade em que vivemos. Se gente e povos sacrificam
algum prazer por um destes será porque estimam que isso é
um prazer maior. E irá fazê-lo quando ver que todos estes
valores não vem causando bem as pessoas aqui e agora.
È certo que há posições, práticas,
discursos que já não se convocam ou convocam pouco.
Que há uma baixa no nível combativo de muitos de nossos
povos latino-americanos, um avanço de certo individualismo
negativo. Temas preocupantes que merecem talvez outro ponto de partida,
com rigor, para rastreá-lo e dar-lhe um "jeito".
Mas isto não parece encontrar-se em certos discursos cujas
categorias de análises quase que estão gritando desde
o começo que "não se pode". A luta dos povos
tem mudado muitos valores, superando conjunturas desfavoráveis,
produzido coisas novas. Então temos aí a atitude dos
povos do Leste mantendo formas de resistência durante tantas
décadas de ditadura brutal. Os povos sob o sistema capitalista
também resistindo, dando seu sangue em suas lutas sem abandonar
sonhos de uma vida justa e digna. Nossa América Latina de longa
luta, de tantas derrotas, de tenacidade esperançada. Quantas
lutas poderíamos hoje enumerar na América Latina, desde
El Salvador, passando pela Venezuela.
É possível que tenha-se que inscrever a luta no marco
de novas pautas culturais, novas estratégias políticas.
Que a velha e sempre idéia de libertação requeira
seus ajustes. Como, por outra parte, os tem exigido cada novo período
histórico e conjunturas especiais. Mas não vamos para
o conformismo pela via da "modernidade". Não nos
agarremos ao galope sem pensar.
A concepção anarquista tem tido historicamente confiança
no ser humano, no povo. Não sem fundados motivos. Mas além
disso, e fundamentalmente, hoje há toda uma experiência
e história sobre possibilidades de que se pode conviver socialmente
melhor. Não parece indicar que estamos ante o fim das aspirações
de uma vida mais livre, participativa, humana e solidária do
homem, dos povos explorados e oprimidos.
Com essa mesma confiança da história libertária
para as transformações é que encararemos este
presente tão particular.