A Organização Específica

Jaime Cuberos

A organização específica dos anarquistas é uma instância própria, como está implícita na designação, com peculiaridades que definem princípios básicos, cuja prática depende de sua existência.

O projeto revolucionário preconizando o socialismo libertário exige uma organização onde se definam estratégias para todas as instâncias e alternativas afins, ao mesmo tempo que suas práticas sejam um exercício antecipado do projeto. Assim, liberdade, responsabilidade, ética, federalismo, solidariedade, autogestão etc. não devem ser apenas conceitos de um discurso teórico, mas o que defina a prática e o comportamento dos anarquistas na organização. Assim como os indivíduos são a unidade celular da organização, os grupos e coletivos são seus núcleos básicos.

Os grupos de afinidade são constituídos por militantes cujo o relacionamento fundado em interesses peculiares é tanto mais intenso na medida em que é alimentado por idéias e práticas revolucionárias. Cada grupo tem um número limitado de participantes que garante maior grau de intimidade entre seus membros. São autônomos, onde seus integrantes podem reestruturar-se tanto individual quanto socialmente. Funcionam como catalizadores do movimento proporcionando iniciativa e conscientização. A união ou separação de cada grupo é determinado pelas circunstâncias e interesses próprios, e não por qualquer decisão centralizada. As adesões ou saídas são feitas espontânea e livremente, sem pressão de qualquer natureza. Durante os períodos de repressão os grupos de afinidade são muito resistentes. Devido ao alto grau de coesão que existe entre os participantes se torna difícil penetrar no grupo, e mesmo sob as condições mais difíceis os grupos de afinidade conseguem manter contatos. Nada impede que os grupos trabalhem juntos em qualquer nível que se fizer necessário. Podem unir-se com grupos locais, regionais ou nacionais, de forma permanente ou eventual para a formulação de planos comuns. Cada grupo procura reunir os recursos necessários para funcionar com o máximo de autonomia.

A união de interesses com objetivos comuns, sem quebra da autonomia é a característica básica do federalismo. Assim as uniões locais se organizam em regionais e estas em nacionais até a confederação internacional. Tudo o que diz respeito exclusivamente a cada instância é resolvido, desde o indivíduo até a federação, em foro próprio, de forma livre e autônoma. Só quando o interesse abrange objetivos comuns, seja de grupo a grupo, seja até de um país para outro, então surge o acordo e o COMPROMISSO e aqui convem dizer alguma coisa a respeito da liberdade e da responsabilidade.

O que é liberdade? Tema de grandes controvérsias através da história. Há livre-arbitrio ou determinismo? Praticamos nossos atos por escolha ou não?

Somos apenas dirigidos pelos nossos impulsos interiores aos quais não controlamos? Acontece que o homem é um animal racional: verdade que todos aceitam. Ser racional é ser capaz de escolher, capaz de preferir, de pesar, de comparar esta ou aquela solução, de captar as possibilidades das possibilidades. O homem pode prever as conseqüências de seus atos. Pode imaginar que se proceder assim, poderá suceder isto ou aquilo. Tal ato poderá levar a tais ou quais conseqüências. E porque pode julgar, comparar, pode medir, pode escolher. Se o homem fosse apenas um autômato não teria noção de futuro. Ao ter noção do futuro demonstra independência, capacidade de escolher no suceder que sobrevem. É por isso que o homem é um ser autônomo e conhece a liberdade. Quando temos um impulso para um ato determinado e refletimos sobre as conseqüências, ao pensarmos se nos revela uma série do possibilidades que vamos analisando racionalmente. Reprimimos o impulso, vencemos o desejo e resolvemos não fazer o que desejavamos. Negar esse fato prático que verificamos em nossas vida seria negar praticamente todo o poder da educação. Nossos maiores obstáculos contra os quais temos que lutar são justamente a pregação e a crença de que só podemos resolver os magnos problemas econômicos e sociais a custa da liberdade. Mas a liberdade é muito mais. E é através da conquista da própria liberdade que podemos garantir a solução que buscamos para esses problemas. O caminho da liberdade é o da prática da própria liberdade. É com a prática da liberdade que formamos homens livres.